Predestinação V
A Igreja Católica, seguindo Santo Agostinho (A Graça e O Livre Arbítrio, 1,1; Sermão 169, 11,13), Santo Tomás e tantos outros teólogos aceita a predestinação dos eleitos ao paraíso, mas também afirma a liberdade da vontade humana, distinguindo-se dessa forma do Calvinismo. Predestinação ao inferno, no catolicismo, sempre envolverá o livre arbítrio do homem e os pecados previstos, sendo ele mesmo responsável pela sua própria condenação, e não Deus (rejeição da dupla predestinação).Deus é soberano, em nossa visão, tanto quanto para o protestantismo (em particular o calvinismo), e como será amplamente demonstrado a seguir. Tudo o que se discute é a complexidade da contradição entre a graça e o livre arbítrio, que é uma das mais difíceis e misteriosas questões tanto para a teologia cristã quanto para a filosofia teísta. É claro, a concessão do livre arbítrio também está presente nas igrejas luteranas, anglicanas, metodistas, a maioria dos carismáticos, teologia batista não-denominacional, etc.A Igreja Católica afirma a predestinação como dogma de fide (o maior nível de certeza teológica), e ao mesmo tempo afirma o livre arbítrio e a possibilidade da queda pelo abandono da fé. O material a seguir foi retirado do livro do teólogo alemão Ludwing Ott Fundamentos do Dogma Católico (Rockford, IL: TAN Books, 1974 {orig. 1952}, pp.242-45) e serve para que os protestantes busquem conhecer o que os católicos crêem sobre esta sempre misteriosa, controversa, complexa, grandiosa e abstrata questão teológica:1. DEUS, PELA SUA ETERNA DETERMINAÇÃO, TEM PREDETERMINADO CERTOS HOMENS À BEM-AVENTURANÇA ETERNA (De fide)[De fide = "de fé" – dogma absolutamente aceito por todos os católicos]Esta doutrina está proposta pelo ordinário e geral ensinamento da Igreja como verdade revelada. As definições doutrinárias do Concílio de Trento pressupõem... A realidade da predestinação está claramente atestada em Rm 8,29 e seguintes: ... cf. Mt 25,34; Jo 10,27 e seguintes; At 13,48; Ef 1,4 e seguintes... A predestinação faz parte do plano divino da Eterna Providência.2. BASES DA PREDESTINAÇÃOa) O ProblemaA dificuldade principal reside na questão se a decisão eterna da Deus da predestinação tem sido tomada com ou sem os méritos do homem (antes ou depois do praevisa merita)Somente a predestinação incompleta é independente de qualquer mérito (ante praevida merita), porque a primeira graça não pode ser merecida, e a graça conseqüente, bem como os méritos adquiridos com esta graça e suas recompensas, dependem como os elos de uma corrente, da primeira graça...b) Tentativa de SoluçãoOs tomistas, os agostinianos, a maioria dos escotistas e também molinistas (Suarez, São Belarmino) ensinam uma predestinação absoluta (ad gloriam tantaum), portanto uma ante praevisa merita. De acordo com eles, Deus livremente determina por toda a eternidade, independente dos méritos da graça do homem, a chamar certos homens à bem-aventurança e conseqüentemente concede a eles graça que os guiará infalivelmente à correta execução do Decreto Divino (ordo intentionis). Deus primeiramente concede aos predestinados graças efetivas e felicidade eterna como uma retribuição pelos méritos que fluem de suas livres cooperações com a graça (ordo executionis). O ordo intentionis e o ordo executionis estão em relação inversão um com o outro (glória – graça; graça – glória).A maioria dos molinistas, e também São Francisco de Sales (+1622) ensinam uma predestinação condicionada (ad gloriam tantum), que é, postand popter praevisa merita. De acordo com eles, Deus, por sua scientia media, vê antecipadamente qual homem irá reagir livremente às várias disposições da graça. À luz desse conhecimento Ele escolhe, como Lhe agrada, uma fixa e definida disposição da graça. Agora, por Sua scientia visionis, Ele conhece por antecipação e infalivelmente qual o uso que cada homem fará com a graça concedida a ele. Então Ele elege à bem-aventurança eterna aqueles que por virtude de seus méritos previstos cooperam perseverantemente com a graça, enquanto Ele determina à punição eterna do inferno aqueles que, por causa de seus méritos previstos, negam essa cooperação. A ordo intentionis e a ordo executionis coincidem (graça – glória; glória – graça).As duas tentativas de explicação são permitidas eclesiasticamente. As provas das Escrituras não decidem por qual das duas. Os tomistas citam acima de todas as passagens a carta aos Romanos, na qual o fator divino da salvação é fortemente demonstrado em primeiro plano (Rm 8,29; 9,11-13; 9,20ss)... Os molinistas invocam as passagens que atestam a universalidade da vontade Divina da salvação, especialmente 1 Tm 2,4, assim como as sentenças pronunciadas pelo julgamento do mundo (Mt 25,34-36), em que as obras de misericórdia são dadas como base para a aceitação no Reino de Deus. Mas que estas também são bases para a "preparação" ao Reino, isto é, para uma decisão eterna da predestinação, não pode ser definitivamente provada por eles.Enquanto a tradição pré-agostiniana fica a favor da explicação molinista, Santo Agostinho, pelo menos em suas últimas cartas, é mais a favor da explicação tomista. Esta enfatiza a causalidade universal de Deus enquanto a outra visão enfatiza a universalidade da salvação divina, a liberdade do homem e sua cooperação na salvação. As dificuldades que permanecem dos dois lados provam que a Predestinação, mesmo com uma razão iluminada pela fé, ainda é um mistério insondável (Rm 11,33ss).3. PROPRIEDADES DA PREDESTINAÇÃOa) ImutabilidadeA decisão da Predestinação, como um ato de vontade de conhecimento divino, é uma essência divina imutável em sua essência. O número daqueles que estão registrados no livro da vida (Fl 4,3; Ap 17,8; cf. Lc 10,20) está formalmente e materialmente fixado, isto é, Deus sabe e determina com certeza infalível antecipadamente como e quais os homens que serão salvos.b) IncertezaO Concílio de Trento declarou-se contra o calvinismo, que a certeza do conhecimento da predestinação de alguém somente pode ser obtida por revelação especial... a Sagrada Escritura ordena o homem a trabalhar por sua salvação com temor e tremor (Fl 2,12). O que acha que está no alto cuide que não caia (1 Cor 10,12). Apesar da incerteza, existem alguns sinais da predestinação que indicam uma grande possibilidade da predestinação de alguém, que podem ser a prática perseverante das virtudes recomendadas nas oito beatitudes, recepção freqüente da Sagrada Comunhão, amor ao próximo, amor a Cristo e à Igreja...(Para provas contra a certeza absoluta da salvação coloco algumas passagens: 1 Cor 9:27, 10:12, Gal 5:1,4, Fl 3:11-14, 1 Tm 4:1, 5:15, Hb 3:12-14, 6:4-6, 2 Pd 2:15,20-21. Estas são as mais contundentes, mas existem outras: 1 Sm 11:6, 18:11-12, Ez 18:24, 33:12-13,18, Gal 4:9, Col 1:23, Hb 6:11-12, 10:23,26,29,36,39, 12:15, Ap 2:4-5.).(Muitos protestantes declaram ter uma absoluta "certeza", mas quando tudo é dito e feito, tanto bíblica quanto epistemologicamente, eles simplesmente não conseguem mais chegar a esta certeza, e não estarão mais "certos" do que um católico ou um ortodoxo. Tais declarações são simplesmente improváveis. Em outras palavras, a "segurança" protestante envolve o seguinte argumento em um círculo vicioso: para possuir uma segurança da salvação você deve acreditar que está salvo. Isto tem sido chamado de "fé de confiança" e é totalmente subjetiva, da mesma forma que a "chama no seio" dos mórmons. Martinho Lutero mesmo ilustra a incoerência desta inovação:Devemos dia após dia nos empenhar para uma maior certeza... Todos devem, portanto se acostumarem firmemente com a idéia de que está em estado de graça... Se encontrar dúvida, então deixe exercitar a fé; deve derrubar suas dúvidas e adquirir certeza... O problema da justificação é difícil e delicada, não deveras por ela mesma, pois por ela mesma há grande certeza, mas em relação a nós; isto eu tenho freqüentemente experimentado (In Hartmann Grisar, Luther, London: 1917, v.4, pp.437-443)4. CONCEITO E REALIDADE DA REPROVAÇÃOPor Reprovação se entende a resolução eterna de Deus em excluir certas criaturas racionais do gozo eterno. Enquanto Deus, por Sua graça, positivamente coopera nos méritos sobrenaturais, que levam à beatificação, Ele meramente permite os pecados, que levam à condenação eterna.Em relação ao assunto da decisão da reprovação, deve-se fazer uma distinção entre a reprovação positiva e a negativa, de acordo com a decisão divina de reprovação como uma condenação objetiva ao inferno ou punição, ou exclusão da visão beatífica. Em relação à razão da reprovação a distinção é entre condicional ou incondicional, à medida que a decisão divina de reprovação é dependente ou independente da previsão dos futuros deméritos.DEUS, POR DECISÃO DE SUA VONTADE, PREDESTINA CERTOS HOMENS, EM CONTA DE SEUS PECADOS PREVISTOS, À REJEIÇÃO ETERNA (De Fide).A realidade da reprovação não está formalmente definida, mas é um ensinamento geral da Igreja.5. A REPROVAÇÃO POSITIVAA doutrina herética do predestinacionismo em suas várias formas (Lucidus no século 5, Gottschalk no século 9, Wycliff, Huss e especialmente João Calvino) ensina uma predeterminação positiva para o pecado, e uma incondicional predestinação à punição eterna, isto é, sem a consideração dos futuros deméritos. Isto foi rejeitado como falsa doutrina nos Sínodos particulares de Orange, Quiercy e Valência e pelo Concílio de Trento. Reprovação Positiva Incondicional leva a uma negação da universalidade do divino desejo de salvação, e da redenção, e contradiz a justiça e santidade de Deus assim como a liberdade do homem.De acordo com o ensinamento da Igreja, existe uma Reprovação Positiva Condicional, isto é, ocorre levando em consideração os futuros deméritos (post et propter praevisa demerita). A natureza condicional da reprovação positiva foi demandada pela generalidade da decisão divina de Salvação. Isto exclui o desejo antecipado de Deus em condenar o homem (cf. 1 Tm 2,4; Ez 33,11; 1 Pd 3,9).6. A REPROVAÇÃO NEGATIVASobre a questão da reprovação, a visão tomista favorece não uma absoluta, mas somente uma reprovação negativa. Isto é concebido pela maioria dos tomistas como uma não-eleição à felicidade eterna (non-electio), juntamente com a decisão divina em permitir que algumas criaturas racionais caiam no pecado, e por isso pelas suas próprias culpas percam a salvação eterna. Em contraste com a Reprovação Positiva absoluta da predestinação, os tomistas insistem na universalidade da vontade divina da salvação e redenção, na alocação das graças suficientes para o reprovado e na liberdade do livre-arbítrio do homem. Na prática, a reprovação negativa incondicional de alguns tomistas envolve o mesmo resultado da reprovação incondicional positiva dos predestinacionistas hereges, pois fora o céu e o inferno não há outro estado final.Da mesma forma que a decisão da predestinação, a decisão da reprovação é imutável, mas, sem uma revelação especial, sua incidência é desconhecida do homem.Autor: Ludwing OttFonte: Livro (original alemão) Fundamentals of Catholic Dogma
Soberania Divina
A SOBERANIA DE DEUS EM RELAÇÃO AO LIVRE-ARBÍTRIO
Uma pergunta pode surgir neste momento. Parece que se Deus é Deus, Ele deve ser supremo, absolutamente soberano em Seu universo. Tudo está se realizando sob Seu controle, e de acordo com Seu plano. Se este for o caso, como o homem poderia ter qualquer medida de ação independente?
Homem: Controlado ou Livre?
Em muitas das fontes que foram citadas, houve declarações sobre o homem tendo livre-arbítrio. Mas onde, em um universo rigidamente controlado, há qualquer espaço para uma ação livre ou independente da parte de uma criatura finita? Se tudo, em sua totalidade e em seus mínimos detalhes, está no firme controle de um Ser Supremo, e Ele conduz os negócios dos homens, o homem não estaria, em todos os seus atos, meramente cumprindo um curso prefixado? Seu suposto livre-arbítrio seria apenas uma ilusão, algo que ele pensa que possui, mas que na realidade não tem nenhuma base no acontecimento final?
Alguns pensadores perspicazes têm concluído sobre este assunto que ambos os conceitos são verdadeiros: que é uma concepção majestosa de Deus vê-lo em Sua supremacia voluntariamente conferindo ao homem uma certa esfera limitada de liberdade. Obviamente ela somente estaria dentro do círculo da própria existência restrita do homem que esta é concedida, além da qual Deus continua no controle absoluto. Pela natureza do caso, as ações do homem seriam limitadas de várias maneiras e somente exercitadas dentro da esfera concedida a ele por seu Criador. Permitir ao homem tal medida de auto-determinação é algo que somente um grande e onipotente Deus faria. Quanto maior e mais supremo Ele é (unido à grandeza de Sua graça), mais Ele desejosamente concederia ao homem tal liberdade restrita de ação. Qualquer coisa menor que isso resultaria num universo meramente mecânico, um mundo de rígido determinismo. Além disso, tal existência mecânica não deixaria nenhum espaço para a responsabilidade humana real, ou base para um julgamento final, nem para uma resposta espontânea a seu Criador. Um pouco de reflexão levantaria a pergunta, por que sob tais condições de prefixação Deus debateria com os homens ou pleitearia com eles, por que rogar aos homens para que se arrependam e abandonem o pecado, por que expressar tristeza pela recusa do homem de atender seu Criador?
Deve ser mantido em mente que, se permitir ao homem uma medida de liberdade fosse imposto sobre Deus de fora, ou se fosse forçado sobre Ele por alguma necessidade desconhecida, alguma objeção poderia ser feita. Mas como é Ele próprio que inicia – voluntariamente – por puro amor e para elevados e sublimes fins que Sua onipotência absoluta assegura, é somente para o louvor de Sua glória que é dessa forma.
Auto-Limitações Voluntárias de Deus
A alguns pode parecer surpreendente sugerir que até mesmo dentro de alguma pequena área Deus Se limitaria ou privaria de um completo controle de alguns detalhes mínimos, mas notem como isto tem sido pensado.
O Dr. William E. Biederwolf se graduou pela Princeton University e pelo Princeton Theological Seminary, onde, já pra se formar, ganhou o Greek prize. Ele foi um grande pregador e escritor, e por vários anos foi diretor do Winona Lake School of Theology. Ele disse: “Suponham que aceitemos a explicação que afirma que o pré-conhecimento e a preordenação de Deus não são necessariamente todo-abrangentes. Vocês se recuam diante de uma atitude de pensamento como essa em relação ao Ser Supremo. Isto parece - não é verdade? - refletir desonra sobre Sua perfeição? Todavia, não vamos ser precipitados demais em nosso julgamento. Muitos zelosos e célebres estudiosos defendem a posição e vigorosamente mantêm que, não somente não desonra Deus, mas é a única forma de pensamento que não priva-o dos atributos essenciais de Sua divindade.”
Então o Dr. Biederwolf aplica o princípio às relações ativas entre o homem e Deus, dizendo, se Deus “pode, em resposta à petição de Seu filho fiel, alterar o que, sem tal petição, teria sido de outra forma, nos encontramos querendo saber se tal concepção não está, em comparação com a da absoluta predestinação, igualmente honrando a Deus e não é um tanto estimulante ao homem. A muitos ela parece bem mais.”[1] (How Can God Answer Prayer? terceira edição, pp. 113-114, 120-121)
Citando Nathan E. Wood novamente: “Deus é condicionado pelo fato que há almas humanas. Não é detrativo à Sua infinita soberania dizer que Ele é condicionado em Suas relações com os homens, pela vontade do homem. É uma condição que Ele escolheu colocar sobre Si mesmo quando criou os homens como seres morais livres. Ele certamente é um juiz indicado quanto a se ou não tal condição avilta Sua soberania.... Deus age onipotentemente mas sempre dentro de limites que preservam a liberdade moral e a responsabilidade do homem.” (The Person and Work of Jesus Christ, pp. 130-131, 157)
E. Y. Mullins, que escreveu tanto sobre apologética quanto teologia, disse: “Deus controla a natureza de acordo com leis. Mas o homem está em um nível superior. Deus Se limitou em Seus métodos com seres livres.... Deus é limitado pela liberdade humana. Novamente, Deus é limitado em Seus métodos pelo pecado humano.... Deus deve reduzir Sua própria ação ao mínimo a fim de que não imponha Sua vontade. Concluímos, então, que Deus é limitado pela liberdade e pelo pecado humano para o método da eleição, e que ao executar Seu propósito, Ele deve, por causa destas limitações, trabalhar gradualmente e por meio de agentes humanos.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 268, 348, 349)
O Dr. Henry C. Thiessen declarou: “Deus... pode prever como os homens agirão sem eficientemente decretar como eles agirão. Deus não é limitado na execução de Seus planos, exceto quando se limitou pelas escolhas do homem.... Deus estabeleceu certos limites gerais dentro dos quais Seu universo deve operar. Dentro desses limites Ele deu ao homem liberdade para agir.” (Lectures in Systematic Theology, pp. 346, 396)
H. E. Guillebaud escreveu como segue: “Quando Deus criou o homem com livre-arbítrio, a pergunta se levanta, até que ponto Ele submeteu à limitação de Seu próprio imenso poder, de modo que o livre-arbítrio que Ele conferiu devesse ser permitido um real exercício.... Há passagens que parecem modificar a incondicionalidade da soberania divina, implicando que o abuso humano do livre-arbítrio pode anular Seus graciosos propósitos. Como exemplo, tome a declaração de nosso Senhor sobre o Templo (Mc 11.17). O propósito gracioso para o Templo, declarado em Sua própria Palavra inspirada, é contrastado com a atual condição que o Templo tinha sido levado pela ganância humana. Ou tome um exemplo do Velho Testamento. Um homem de Deus disse a Eli, ‘diz o Senhor Deus de Israel: Na verdade eu tinha dito que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente. Mas agora o Senhor diz: Longe de mim tal coisa, porque honrarei aos que me honram, mas os que me desprezam serão desprezados’ (1Sm 2.30).... Não pode ser que, junto com o plano final de Deus que deve sempre prevalecer (porque Ele é soberano e também traça Seus planos no conhecimento do futuro), há também um propósito provisional, que Deus alegremente teria cumprido para Suas criaturas, que na linguagem humana podemos dizer que Ele anseia cumprir, mas que eles são permitidos obstruir? Isto explicaria todas aquelas passagens onde Deus expressa Seus anseio que Suas criaturas agiriam de tal modo que tornaria possível a Ele abençoá-los como Ele deseja.... A Bíblia descreve Deus como atrás de toda história humana, mas de modo que a soberania divina não exclui o livre-arbítrio ou a soberania humana, mas, antes, que Ele permite a incondicionalidade de sua vontade soberana ser modificada pela liberdade da escolha humana.” (Some Moral Difficulties of the Bible, Inter-Varsity Fellowship, 1941, pp. 60, 65-66, 75)
Da caneta do Dr. Kenneth J. Foreman, professor de teologia doutrinária no Louisville Presbyterian Theological Seminary, vem uma ilustração impressionante e então uma declaração de posição: “Vamos imaginar dois cavaleiros. Um monta sobre um cavalo, todo movimento do qual ele controla absolutamente. O cavalo não se move um milímetro em qualquer parte, a menos que o cavaleiro decida que ele assim moverá, e cuida para que o movimento seja feito. Aqui vemos controle absoluto. Um outro homem monta sobre um outro cavalo. Este cavalo faz vários movimentos que o cavaleiro não comanda, não inicia, não pode nem mesmo prever em detalhes. Mas o cavaleiro está no controle. O primeiro cavalo é um cavalinho de pau; o segundo é um cavalo de espetáculo de andar vigoroso. Mas qual é o melhor cavaleiro? Little Willie, operando seu cavalo mecânico na farmácia da esquina, ou o cavaleiro campeão no espetáculo? Na verdade, qual daria mais honra a Deus: Ele montar este universo como um cavalinho de pau, ou como uma criatura real, viva, de inteligência e espírito?... Nós cristãos não deixaremos de crer na soberania de Deus. Nós presbiterianos não precisaremos nos desculpar por manter essa grande verdade central em nossa doutrina de Deus. Mas não temos que supor que Deus não pode ser soberano sem despojar de Suas criaturas toda sua liberdade.” (K. J. Foreman, God’s Will And Ours, p. 30)
Em What Baptists Believe, o Dr. H. H. Hobbs escreveu: “Deus... pode fazer conforme deseja, estando esta vontade de acordo com Sua natureza, que envolve atributos como Sua verdade, santidade, retidão, e amor. Neste sentido Deus colocou certos limites em Si mesmo. Ele desejou não violar o livre-arbítrio do homem (Gn 3). Ele não age de forma contrária à Sua natureza (Gn 18.25).... Deus é soberano visto que pode fazer aquilo que deseja e que está de acordo com Sua natureza. Ele não é somente onipotente; Ele é amor. Além disso, o homem, criado à imagem de Deus, possui livre-arbítrio.” (pp. 16, 106)
O erudito Dr. C. Wordsworth tocou neste assunto desta forma: “A manifestação da soberania de Deus ao mundo é o fim que Ele tem em vista. O fim é sempre certo; pois é um fim fixado por Deus. Os meios são deixados livres ao homem. Os homens podem escolher o bem e o mal; eles podem obedecer a Deus e se rebelarem contra Ele. Isto é assim pela própria permissão de Deus; pois Ele deu a eles o livre-arbítrio. Se eles O obedecem, conforme Deus deseja e comanda e convida-os a fazer por muitas graciosas promessas de recompensa, então Sua glória é promovida diretamente por suas ações.... Se eles O obedecem ou rebelam-se contra Ele, o fim, que é Sua glória, sempre é atingido. Seu plano não pode ser frustrado pelo pecado deles.” (The New Testament in the Original Greek, With Notes and Introductions, “Romanos,” pp. 195-196)
O Dr. A. T. Robertson, muito simplesmente, comentou sobre 1Tm 2.4: “O qual deseja que todos os homens sejam salvos”: “Deseja, o desejo e vontade de Deus à medida que puder influenciar os homens.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 567)
Um outro escritor batista e erudito reconhecido, o Dr. E. C. Dargan, disse: “Deus é grande demais para ser colocado em oposição ao homem, como se fossem iguais; Ele inclui a escolha do homem em Sua escolha, a obra do homem em Sua obra. O homem pode estar muito confortavelmente livre dentro do dominador propósito e operação de Deus.” (The Doctrines of our Faith, edição revisada, p. 129)
Anteriormente, na mesma obra, ele disse: “A liberdade humana é negada por fatalistas e materialistas; mas certamente, enquanto reconhecemos as limitações da liberdade humana, estamos, todavia, conscientes do poder de escolher como quisermos dentro de limites, e conscientes, também, da responsabilidade da escolha.” (p. 78)
George W. Truett, no qual é provavelmente seu mais notável volume de sermões, disse: “Essa é uma surpreendente expressão usada em um dos salmos, onde o salmista disse, sobre o Israel de Deus: ‘Limitaram o Santo de Israel.’ Eles ‘limitaram Deus.’ A humanidade pode limitar Deus e realmente limita. Sem refletir, isso parece impossível. O Deus infinito, preenchendo toda imensidade, sem início de dias ou fim de anos, onipotente, onisciente, onipresente, eterno – sem refletir, parece impossível que Ele pudesse ser limitado, e todavia Ele pode ser, e é, limitado. O homem limita Deus, do contrário o homem seria uma mera máquina, sem mais volição do que uma árvore ou uma pedra. O homem pode dizer ‘Não’ a Deus, ou o homem pode dizer ‘Sim’ a Deus. O homem pode buscar a face de Deus... ou o homem pode ser rebelde.... Somos informados aqui nos Evangelhos que em uma certa comunidade Jesus não podia fazer muitos milagres por causa da incredulidade das pessoas. A incredulidade foi um obstáculo para Ele. A incredulidade O impediu, até mesmo Cristo Jesus, o Senhor.” (A Quest For Souls, pp. 33, 35)
O homem, por essa razão, é visto possuir uma vontade que é real, e seu uso pode ser de conseqüência significativa, pois a soberania de Deus permite ao homem resolver certas questões para seu próprio bem ou mal. Mas enquanto reconhecendo esta posição do livre-arbítrio e responsabilidade no homem, sabemos, obviamente, que Deus mantém as rédeas do universo em Seu firme controle. Também repousamos certos de que, com Deus no controle, o mal nunca irá triunfar; que o próprio Satanás pode ir até certo ponto; que as forças da iniqüidade serão finalmente e completamente eliminadas e julgadas. Da mesma forma, cremos que Deus tem um plano para cada vida que se sujeita; que, conforme permitimos que Ele assim faça, Deus irá executar Sua vontade perfeita para cada um de nós, e não precisamos caminhar na luz de nossos próprios olhos.
Ilustrações Sugeridas
Às vezes uma ilustração serve para esclarecer as coisas, e neste ponto algumas que têm sido sugeridas podem ser úteis.
O Dr. W. H. Griffith Thomas apresentou a seguinte, que mostra tanto o lugar da livre escolha quando seus limites: “Como tem sido bem apontado, o homem tem plena liberdade para escolher entre tomar ou não tomar veneno, mas se ele tomar, o resultado não pode ser fixado por sua própria vontade; o poder de Deus nas leis da natureza estabelece a questão.” (Epistle to the Romans, Vol. II, p. 155)
O Dr. A. H. Strong em sua Systematic Theology apresentou uma ilustração que é sugestiva: “O homem que carrega um vaso de peixe-vermelho não impede que o peixe se movimente livremente dentro do vaso.” (p. 363) O homem, o ser superior neste caso, mantém por ora o vaso de peixe-vermelho em um estado que pode ser movido. Ele pode determinar, desimpedidamente, se ele irá colocar o vaso sobre a mesa, sobre o parapeito da janela, ou sobre o piano; perto da luz ou à sombra; etc. Se ele for benevolente, podemos supor que ele agirá assim para garantir as melhores condições para o peixe-vermelho. E sua vontade é dominante. Os próprios peixes, todavia, dentro dos limites bem definidos de seu vaso, têm uma medida de livre escolha. Eles podem nadar para um ou outro lado, ou podem ficar parados e descansar no fundo do vaso ou flutuar perto do topo da água. Enquanto houver comida, eles podem comer um pouco ou muito ou nada. A criatura superior, o homem, não força a comida para dentro de suas gargantas, nem determina a quantidade exata que cada peixe irá comer. Se a ilustração for mudada para animais de estimação de uma espécie maior, o homem pode urgentemente apelar pela cooperação deles para seu próprio bem e pode desejar um grau de companheirismo com eles, mas ainda, enquanto superior, ele não controla todos os seus movimentos. Todavia, sua aparentemente liberdade é restringida pela própria esfera de sua existência. Sobre tudo isto podem pensar como o homem pode ter uma medida de livre escolha mas não, por meio dela, anular a soberania de Deus.
Uma outra ilustração, dos escritos de A. W. Tozer, foi apresentada pelo Professor Robert Lightner. “A. W. Tozer dá uma ilustração da relação entre a soberania divina e a liberdade humana: ‘Um enorme navio deixa Nova York em direção a Liverpool. Seu destino foi determinado pelas próprias autoridades. Nada pode mudá-lo.... A bordo do navio está um grande número de passageiros. Eles não estão acorrentados; nem suas atividades foram determinadas para eles por decreto. Eles são completamente livres para mover por todos os lados conforme desejarem. Eles comem, dormem, jogam, passeiam pelo convés, lêem, conversam, juntos como bem entendem; mas todo o momento o grande navio está levando-os fixamente em frente, para um porto predeterminado. Tanto a liberdade quanto a soberania são apresentadas aqui, e elas não se contradizem. Assim é, creio, com a liberdade do homem e a soberania de Deus. O poderoso navio do plano soberano de Deus mantém seu curso fixo sobre o mar da história. Deus movimenta calma e desimpedidamente rumo ao cumprimento daqueles propósitos eternos que Ele propôs em Cristo Jesus antes que o mundo foi fundado.’” (Regular Baptist Press Quarterly, Doctrine of God, Adult Student, pp. 29-30)
Más Representações
Antes de compilar o texto acima, nossa atenção foi atraida por um livrinho sobre a soberania de Deus publicado em Kentucky. Ele propõe dar declarações sobre este tema por alguns dos grandes batistas do passado. Na capa estão retratados a maioria dos líderes batistas de quem as citações são extraídas. A esse respeito ocorrem, entretanto, grosseiras más representações de alguns destes homens. Por exemplo, John A. Broadus é retratado, e então, dentro do livro, três linhas e meia são citadas de seu comentário sobre Mateus. É surpreendente descobrir que estas linhas são exatamente da mesma passagem que citamos anteriormente, mas somente a parte que parece apoiar a rígida eleição é dada. Broadus tem declarações qualificantes, tanto antes como depois das palavras citadas. A declaração completa, que mostra que ele defendia ambos os lados da questão, como sustentamos, é como segue: “Esta seleção dos verdadeiramente salvos pode ser olhada de dois lados. Do lado divino, vemos que as Escrituras ensinam uma eleição eterna de homens para a vida eterna, simplesmente segundo o beneplácito de sua vontade. Do lado humano, vemos que essas pessoas que obtêm as bençãos da salvação por Cristo aceitam o convite do evangelho e obedecem os mandamentos do evangelho. É duvidoso se nossas mentes podem combinar ambos os lados em uma única percepção, mas não devemos, por essa razão, negar que qualquer um deles não seja verdadeiro.” (Commentary on Matthew, p. 450) Que diferença as duas últimas sentenças fazem!
Novamente, J. M. Pendleton é citado de seu livro Christian Doctrine. É verdade que ele acreditava na eleição, mas notem no que ele também acreditava, que é convenientemente omitido na publicação de Kentucky: “Nos propósitos de Deus ‘a violência não é oferecida à vontade da criatura.’ Não há nenhuma verdade mais claramente revelada na Bíblia do que a que Deus é soberano e o homem é livre....” Então, após propor o rei da Babilônia como ilustração, ele disse: “Mas o exercício da soberania divina não conflita com a agência humana. Estava, sem dúvida, entre os propósitos de Deus fazer do homem um agente livre. O que é um agente livre? Respondo nas palavras de Andrew Fuller: ‘Um agente livre é um ser inteligente, que tem liberdade para agir de acordo com sua escolha, sem compulsão ou impedimento.’ A questão não é quanto ao que induz à ação; o ponto é que a ação é livre. Os homens têm agido livremente em todas as épocas do mundo. Os propósitos de Deus, se eficientes ou permissivos, não têm impedido tais ações. Homens bons têm agido livremente e homens maus têm agido com a mesma liberdade.” (Christian Doctrines, pp. 103-104)
Pendleton citou de Andrew Fuller, um outro que esta publicação do sul retrata e cita como se fosse um proeminente homem, rígido defensor da soberania. Todavia, a história batista registra que ele foi, na verdade, um dos mais fortes líderes contra o rígido Calvinismo de seu dia. Uma outra publicação do sul, escrita por um erudito batista do sul, disse de Fuller: “Ele foi o inimigo resoluto do hiper-Calvinismo. Ele disse de uma maneira vigorosa, ‘tivesse continuado como estava, em poucos anos os batistas teriam se tornado um perfeito monte de estrume.’ Sua obra intitulada The Gospel Worthy of All Acceptation, foi um livro de fazer época.” (John T. Christian, A History of the Baptists, Vol. I, p. 351)
Um que tomou a posição na direção oposta de Andrew Fuller foi John Gill. O historiador que acabei de citar disse de Gill: “Ele não convidava pecadores para o Salvador, enquanto pregava a condenação, e afirmava que ele não devia interferir na graça eletiva de Deus.” Este escritor então referiu ao “efeito destruidor de tal sistema de teologia.” (pp. 347-348) O pequeno livro do sul cita corretamente de Gill.
Um outro historiador batista relata que o grande pregador batista, Robert Hall, disse do comentário de Gill, “um continente de lama, senhor.” (H. C. Vedder, A Short History of the Baptists, p. 240) Até C. H. Spurgeon, enquanto reconhecendo seu valor, disse de Gill: “O retrato dele... empinando seu nariz para cima da maneira mais expressiva, como se ele não pudesse suportar até mesmo o cheiro de livre-arbítrio. Com tal estado de espírito ele escreveu seu comentário. Ele caça o Arminianismo durante todo o tempo... ele se lança sobre um texto que não é adequado ao seu credo, e golpeia e bate terrivelmente para colocar a Palavra de Deus de uma forma mais sistemática.” (Commenting and Commentaries, edição Kregel, p. 9)
Novamente, enquanto tentando ser grato com Gill (Spurgeon se tornou o pastor da velha igreja de Gill), Spurgeon disse, “O sistema de teologia com que muitos identificam seu nome tem esfriado muitas igrejas até suas próprias almas, pois as tem levado a omitir os livres convites do evangelho, e negar que seja dever dos pecadores crer em Jesus.” (Spurgeon’s Autobiography, Vol. I, p. 310)
Um outro testemunho nesta tendência está no livro do Dr. J. B. Jeter intitulado Baptist Principles Reset (terceira edição). Em seu capítulo introdutório, após demonstrar alguns pontos doutrinários vastamente reconhecidos como mantido pelos batistas, ele disse: “Pode ser apropriado acrescentar que os batistas geralmente defendem o que pode ser denominado, para o bem da distinção, ‘Calvinismo moderado.’ Eles estão longe de reconhecer Calvino como autoridade nas questões de religião; mas o sistema de doutrina que carrega seu nome, como tem sido modificado pelo estudo das Escrituras, é agora geralmente aceito pelos batistas. Cinqüenta anos atrás [escrito em 1902], a maioria deles aderiram ao rígido Calvinismo, como mantido pelo Dr. John Gill, de Londres. Desde essa época, suas concepções têm sido consideravelmente mudadas, através dos escritos de Andrew Fuller e outros.” (pp. 12-13)
Uma pergunta pode surgir neste momento. Parece que se Deus é Deus, Ele deve ser supremo, absolutamente soberano em Seu universo. Tudo está se realizando sob Seu controle, e de acordo com Seu plano. Se este for o caso, como o homem poderia ter qualquer medida de ação independente?
Homem: Controlado ou Livre?
Em muitas das fontes que foram citadas, houve declarações sobre o homem tendo livre-arbítrio. Mas onde, em um universo rigidamente controlado, há qualquer espaço para uma ação livre ou independente da parte de uma criatura finita? Se tudo, em sua totalidade e em seus mínimos detalhes, está no firme controle de um Ser Supremo, e Ele conduz os negócios dos homens, o homem não estaria, em todos os seus atos, meramente cumprindo um curso prefixado? Seu suposto livre-arbítrio seria apenas uma ilusão, algo que ele pensa que possui, mas que na realidade não tem nenhuma base no acontecimento final?
Alguns pensadores perspicazes têm concluído sobre este assunto que ambos os conceitos são verdadeiros: que é uma concepção majestosa de Deus vê-lo em Sua supremacia voluntariamente conferindo ao homem uma certa esfera limitada de liberdade. Obviamente ela somente estaria dentro do círculo da própria existência restrita do homem que esta é concedida, além da qual Deus continua no controle absoluto. Pela natureza do caso, as ações do homem seriam limitadas de várias maneiras e somente exercitadas dentro da esfera concedida a ele por seu Criador. Permitir ao homem tal medida de auto-determinação é algo que somente um grande e onipotente Deus faria. Quanto maior e mais supremo Ele é (unido à grandeza de Sua graça), mais Ele desejosamente concederia ao homem tal liberdade restrita de ação. Qualquer coisa menor que isso resultaria num universo meramente mecânico, um mundo de rígido determinismo. Além disso, tal existência mecânica não deixaria nenhum espaço para a responsabilidade humana real, ou base para um julgamento final, nem para uma resposta espontânea a seu Criador. Um pouco de reflexão levantaria a pergunta, por que sob tais condições de prefixação Deus debateria com os homens ou pleitearia com eles, por que rogar aos homens para que se arrependam e abandonem o pecado, por que expressar tristeza pela recusa do homem de atender seu Criador?
Deve ser mantido em mente que, se permitir ao homem uma medida de liberdade fosse imposto sobre Deus de fora, ou se fosse forçado sobre Ele por alguma necessidade desconhecida, alguma objeção poderia ser feita. Mas como é Ele próprio que inicia – voluntariamente – por puro amor e para elevados e sublimes fins que Sua onipotência absoluta assegura, é somente para o louvor de Sua glória que é dessa forma.
Auto-Limitações Voluntárias de Deus
A alguns pode parecer surpreendente sugerir que até mesmo dentro de alguma pequena área Deus Se limitaria ou privaria de um completo controle de alguns detalhes mínimos, mas notem como isto tem sido pensado.
O Dr. William E. Biederwolf se graduou pela Princeton University e pelo Princeton Theological Seminary, onde, já pra se formar, ganhou o Greek prize. Ele foi um grande pregador e escritor, e por vários anos foi diretor do Winona Lake School of Theology. Ele disse: “Suponham que aceitemos a explicação que afirma que o pré-conhecimento e a preordenação de Deus não são necessariamente todo-abrangentes. Vocês se recuam diante de uma atitude de pensamento como essa em relação ao Ser Supremo. Isto parece - não é verdade? - refletir desonra sobre Sua perfeição? Todavia, não vamos ser precipitados demais em nosso julgamento. Muitos zelosos e célebres estudiosos defendem a posição e vigorosamente mantêm que, não somente não desonra Deus, mas é a única forma de pensamento que não priva-o dos atributos essenciais de Sua divindade.”
Então o Dr. Biederwolf aplica o princípio às relações ativas entre o homem e Deus, dizendo, se Deus “pode, em resposta à petição de Seu filho fiel, alterar o que, sem tal petição, teria sido de outra forma, nos encontramos querendo saber se tal concepção não está, em comparação com a da absoluta predestinação, igualmente honrando a Deus e não é um tanto estimulante ao homem. A muitos ela parece bem mais.”[1] (How Can God Answer Prayer? terceira edição, pp. 113-114, 120-121)
Citando Nathan E. Wood novamente: “Deus é condicionado pelo fato que há almas humanas. Não é detrativo à Sua infinita soberania dizer que Ele é condicionado em Suas relações com os homens, pela vontade do homem. É uma condição que Ele escolheu colocar sobre Si mesmo quando criou os homens como seres morais livres. Ele certamente é um juiz indicado quanto a se ou não tal condição avilta Sua soberania.... Deus age onipotentemente mas sempre dentro de limites que preservam a liberdade moral e a responsabilidade do homem.” (The Person and Work of Jesus Christ, pp. 130-131, 157)
E. Y. Mullins, que escreveu tanto sobre apologética quanto teologia, disse: “Deus controla a natureza de acordo com leis. Mas o homem está em um nível superior. Deus Se limitou em Seus métodos com seres livres.... Deus é limitado pela liberdade humana. Novamente, Deus é limitado em Seus métodos pelo pecado humano.... Deus deve reduzir Sua própria ação ao mínimo a fim de que não imponha Sua vontade. Concluímos, então, que Deus é limitado pela liberdade e pelo pecado humano para o método da eleição, e que ao executar Seu propósito, Ele deve, por causa destas limitações, trabalhar gradualmente e por meio de agentes humanos.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 268, 348, 349)
O Dr. Henry C. Thiessen declarou: “Deus... pode prever como os homens agirão sem eficientemente decretar como eles agirão. Deus não é limitado na execução de Seus planos, exceto quando se limitou pelas escolhas do homem.... Deus estabeleceu certos limites gerais dentro dos quais Seu universo deve operar. Dentro desses limites Ele deu ao homem liberdade para agir.” (Lectures in Systematic Theology, pp. 346, 396)
H. E. Guillebaud escreveu como segue: “Quando Deus criou o homem com livre-arbítrio, a pergunta se levanta, até que ponto Ele submeteu à limitação de Seu próprio imenso poder, de modo que o livre-arbítrio que Ele conferiu devesse ser permitido um real exercício.... Há passagens que parecem modificar a incondicionalidade da soberania divina, implicando que o abuso humano do livre-arbítrio pode anular Seus graciosos propósitos. Como exemplo, tome a declaração de nosso Senhor sobre o Templo (Mc 11.17). O propósito gracioso para o Templo, declarado em Sua própria Palavra inspirada, é contrastado com a atual condição que o Templo tinha sido levado pela ganância humana. Ou tome um exemplo do Velho Testamento. Um homem de Deus disse a Eli, ‘diz o Senhor Deus de Israel: Na verdade eu tinha dito que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente. Mas agora o Senhor diz: Longe de mim tal coisa, porque honrarei aos que me honram, mas os que me desprezam serão desprezados’ (1Sm 2.30).... Não pode ser que, junto com o plano final de Deus que deve sempre prevalecer (porque Ele é soberano e também traça Seus planos no conhecimento do futuro), há também um propósito provisional, que Deus alegremente teria cumprido para Suas criaturas, que na linguagem humana podemos dizer que Ele anseia cumprir, mas que eles são permitidos obstruir? Isto explicaria todas aquelas passagens onde Deus expressa Seus anseio que Suas criaturas agiriam de tal modo que tornaria possível a Ele abençoá-los como Ele deseja.... A Bíblia descreve Deus como atrás de toda história humana, mas de modo que a soberania divina não exclui o livre-arbítrio ou a soberania humana, mas, antes, que Ele permite a incondicionalidade de sua vontade soberana ser modificada pela liberdade da escolha humana.” (Some Moral Difficulties of the Bible, Inter-Varsity Fellowship, 1941, pp. 60, 65-66, 75)
Da caneta do Dr. Kenneth J. Foreman, professor de teologia doutrinária no Louisville Presbyterian Theological Seminary, vem uma ilustração impressionante e então uma declaração de posição: “Vamos imaginar dois cavaleiros. Um monta sobre um cavalo, todo movimento do qual ele controla absolutamente. O cavalo não se move um milímetro em qualquer parte, a menos que o cavaleiro decida que ele assim moverá, e cuida para que o movimento seja feito. Aqui vemos controle absoluto. Um outro homem monta sobre um outro cavalo. Este cavalo faz vários movimentos que o cavaleiro não comanda, não inicia, não pode nem mesmo prever em detalhes. Mas o cavaleiro está no controle. O primeiro cavalo é um cavalinho de pau; o segundo é um cavalo de espetáculo de andar vigoroso. Mas qual é o melhor cavaleiro? Little Willie, operando seu cavalo mecânico na farmácia da esquina, ou o cavaleiro campeão no espetáculo? Na verdade, qual daria mais honra a Deus: Ele montar este universo como um cavalinho de pau, ou como uma criatura real, viva, de inteligência e espírito?... Nós cristãos não deixaremos de crer na soberania de Deus. Nós presbiterianos não precisaremos nos desculpar por manter essa grande verdade central em nossa doutrina de Deus. Mas não temos que supor que Deus não pode ser soberano sem despojar de Suas criaturas toda sua liberdade.” (K. J. Foreman, God’s Will And Ours, p. 30)
Em What Baptists Believe, o Dr. H. H. Hobbs escreveu: “Deus... pode fazer conforme deseja, estando esta vontade de acordo com Sua natureza, que envolve atributos como Sua verdade, santidade, retidão, e amor. Neste sentido Deus colocou certos limites em Si mesmo. Ele desejou não violar o livre-arbítrio do homem (Gn 3). Ele não age de forma contrária à Sua natureza (Gn 18.25).... Deus é soberano visto que pode fazer aquilo que deseja e que está de acordo com Sua natureza. Ele não é somente onipotente; Ele é amor. Além disso, o homem, criado à imagem de Deus, possui livre-arbítrio.” (pp. 16, 106)
O erudito Dr. C. Wordsworth tocou neste assunto desta forma: “A manifestação da soberania de Deus ao mundo é o fim que Ele tem em vista. O fim é sempre certo; pois é um fim fixado por Deus. Os meios são deixados livres ao homem. Os homens podem escolher o bem e o mal; eles podem obedecer a Deus e se rebelarem contra Ele. Isto é assim pela própria permissão de Deus; pois Ele deu a eles o livre-arbítrio. Se eles O obedecem, conforme Deus deseja e comanda e convida-os a fazer por muitas graciosas promessas de recompensa, então Sua glória é promovida diretamente por suas ações.... Se eles O obedecem ou rebelam-se contra Ele, o fim, que é Sua glória, sempre é atingido. Seu plano não pode ser frustrado pelo pecado deles.” (The New Testament in the Original Greek, With Notes and Introductions, “Romanos,” pp. 195-196)
O Dr. A. T. Robertson, muito simplesmente, comentou sobre 1Tm 2.4: “O qual deseja que todos os homens sejam salvos”: “Deseja, o desejo e vontade de Deus à medida que puder influenciar os homens.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 567)
Um outro escritor batista e erudito reconhecido, o Dr. E. C. Dargan, disse: “Deus é grande demais para ser colocado em oposição ao homem, como se fossem iguais; Ele inclui a escolha do homem em Sua escolha, a obra do homem em Sua obra. O homem pode estar muito confortavelmente livre dentro do dominador propósito e operação de Deus.” (The Doctrines of our Faith, edição revisada, p. 129)
Anteriormente, na mesma obra, ele disse: “A liberdade humana é negada por fatalistas e materialistas; mas certamente, enquanto reconhecemos as limitações da liberdade humana, estamos, todavia, conscientes do poder de escolher como quisermos dentro de limites, e conscientes, também, da responsabilidade da escolha.” (p. 78)
George W. Truett, no qual é provavelmente seu mais notável volume de sermões, disse: “Essa é uma surpreendente expressão usada em um dos salmos, onde o salmista disse, sobre o Israel de Deus: ‘Limitaram o Santo de Israel.’ Eles ‘limitaram Deus.’ A humanidade pode limitar Deus e realmente limita. Sem refletir, isso parece impossível. O Deus infinito, preenchendo toda imensidade, sem início de dias ou fim de anos, onipotente, onisciente, onipresente, eterno – sem refletir, parece impossível que Ele pudesse ser limitado, e todavia Ele pode ser, e é, limitado. O homem limita Deus, do contrário o homem seria uma mera máquina, sem mais volição do que uma árvore ou uma pedra. O homem pode dizer ‘Não’ a Deus, ou o homem pode dizer ‘Sim’ a Deus. O homem pode buscar a face de Deus... ou o homem pode ser rebelde.... Somos informados aqui nos Evangelhos que em uma certa comunidade Jesus não podia fazer muitos milagres por causa da incredulidade das pessoas. A incredulidade foi um obstáculo para Ele. A incredulidade O impediu, até mesmo Cristo Jesus, o Senhor.” (A Quest For Souls, pp. 33, 35)
O homem, por essa razão, é visto possuir uma vontade que é real, e seu uso pode ser de conseqüência significativa, pois a soberania de Deus permite ao homem resolver certas questões para seu próprio bem ou mal. Mas enquanto reconhecendo esta posição do livre-arbítrio e responsabilidade no homem, sabemos, obviamente, que Deus mantém as rédeas do universo em Seu firme controle. Também repousamos certos de que, com Deus no controle, o mal nunca irá triunfar; que o próprio Satanás pode ir até certo ponto; que as forças da iniqüidade serão finalmente e completamente eliminadas e julgadas. Da mesma forma, cremos que Deus tem um plano para cada vida que se sujeita; que, conforme permitimos que Ele assim faça, Deus irá executar Sua vontade perfeita para cada um de nós, e não precisamos caminhar na luz de nossos próprios olhos.
Ilustrações Sugeridas
Às vezes uma ilustração serve para esclarecer as coisas, e neste ponto algumas que têm sido sugeridas podem ser úteis.
O Dr. W. H. Griffith Thomas apresentou a seguinte, que mostra tanto o lugar da livre escolha quando seus limites: “Como tem sido bem apontado, o homem tem plena liberdade para escolher entre tomar ou não tomar veneno, mas se ele tomar, o resultado não pode ser fixado por sua própria vontade; o poder de Deus nas leis da natureza estabelece a questão.” (Epistle to the Romans, Vol. II, p. 155)
O Dr. A. H. Strong em sua Systematic Theology apresentou uma ilustração que é sugestiva: “O homem que carrega um vaso de peixe-vermelho não impede que o peixe se movimente livremente dentro do vaso.” (p. 363) O homem, o ser superior neste caso, mantém por ora o vaso de peixe-vermelho em um estado que pode ser movido. Ele pode determinar, desimpedidamente, se ele irá colocar o vaso sobre a mesa, sobre o parapeito da janela, ou sobre o piano; perto da luz ou à sombra; etc. Se ele for benevolente, podemos supor que ele agirá assim para garantir as melhores condições para o peixe-vermelho. E sua vontade é dominante. Os próprios peixes, todavia, dentro dos limites bem definidos de seu vaso, têm uma medida de livre escolha. Eles podem nadar para um ou outro lado, ou podem ficar parados e descansar no fundo do vaso ou flutuar perto do topo da água. Enquanto houver comida, eles podem comer um pouco ou muito ou nada. A criatura superior, o homem, não força a comida para dentro de suas gargantas, nem determina a quantidade exata que cada peixe irá comer. Se a ilustração for mudada para animais de estimação de uma espécie maior, o homem pode urgentemente apelar pela cooperação deles para seu próprio bem e pode desejar um grau de companheirismo com eles, mas ainda, enquanto superior, ele não controla todos os seus movimentos. Todavia, sua aparentemente liberdade é restringida pela própria esfera de sua existência. Sobre tudo isto podem pensar como o homem pode ter uma medida de livre escolha mas não, por meio dela, anular a soberania de Deus.
Uma outra ilustração, dos escritos de A. W. Tozer, foi apresentada pelo Professor Robert Lightner. “A. W. Tozer dá uma ilustração da relação entre a soberania divina e a liberdade humana: ‘Um enorme navio deixa Nova York em direção a Liverpool. Seu destino foi determinado pelas próprias autoridades. Nada pode mudá-lo.... A bordo do navio está um grande número de passageiros. Eles não estão acorrentados; nem suas atividades foram determinadas para eles por decreto. Eles são completamente livres para mover por todos os lados conforme desejarem. Eles comem, dormem, jogam, passeiam pelo convés, lêem, conversam, juntos como bem entendem; mas todo o momento o grande navio está levando-os fixamente em frente, para um porto predeterminado. Tanto a liberdade quanto a soberania são apresentadas aqui, e elas não se contradizem. Assim é, creio, com a liberdade do homem e a soberania de Deus. O poderoso navio do plano soberano de Deus mantém seu curso fixo sobre o mar da história. Deus movimenta calma e desimpedidamente rumo ao cumprimento daqueles propósitos eternos que Ele propôs em Cristo Jesus antes que o mundo foi fundado.’” (Regular Baptist Press Quarterly, Doctrine of God, Adult Student, pp. 29-30)
Más Representações
Antes de compilar o texto acima, nossa atenção foi atraida por um livrinho sobre a soberania de Deus publicado em Kentucky. Ele propõe dar declarações sobre este tema por alguns dos grandes batistas do passado. Na capa estão retratados a maioria dos líderes batistas de quem as citações são extraídas. A esse respeito ocorrem, entretanto, grosseiras más representações de alguns destes homens. Por exemplo, John A. Broadus é retratado, e então, dentro do livro, três linhas e meia são citadas de seu comentário sobre Mateus. É surpreendente descobrir que estas linhas são exatamente da mesma passagem que citamos anteriormente, mas somente a parte que parece apoiar a rígida eleição é dada. Broadus tem declarações qualificantes, tanto antes como depois das palavras citadas. A declaração completa, que mostra que ele defendia ambos os lados da questão, como sustentamos, é como segue: “Esta seleção dos verdadeiramente salvos pode ser olhada de dois lados. Do lado divino, vemos que as Escrituras ensinam uma eleição eterna de homens para a vida eterna, simplesmente segundo o beneplácito de sua vontade. Do lado humano, vemos que essas pessoas que obtêm as bençãos da salvação por Cristo aceitam o convite do evangelho e obedecem os mandamentos do evangelho. É duvidoso se nossas mentes podem combinar ambos os lados em uma única percepção, mas não devemos, por essa razão, negar que qualquer um deles não seja verdadeiro.” (Commentary on Matthew, p. 450) Que diferença as duas últimas sentenças fazem!
Novamente, J. M. Pendleton é citado de seu livro Christian Doctrine. É verdade que ele acreditava na eleição, mas notem no que ele também acreditava, que é convenientemente omitido na publicação de Kentucky: “Nos propósitos de Deus ‘a violência não é oferecida à vontade da criatura.’ Não há nenhuma verdade mais claramente revelada na Bíblia do que a que Deus é soberano e o homem é livre....” Então, após propor o rei da Babilônia como ilustração, ele disse: “Mas o exercício da soberania divina não conflita com a agência humana. Estava, sem dúvida, entre os propósitos de Deus fazer do homem um agente livre. O que é um agente livre? Respondo nas palavras de Andrew Fuller: ‘Um agente livre é um ser inteligente, que tem liberdade para agir de acordo com sua escolha, sem compulsão ou impedimento.’ A questão não é quanto ao que induz à ação; o ponto é que a ação é livre. Os homens têm agido livremente em todas as épocas do mundo. Os propósitos de Deus, se eficientes ou permissivos, não têm impedido tais ações. Homens bons têm agido livremente e homens maus têm agido com a mesma liberdade.” (Christian Doctrines, pp. 103-104)
Pendleton citou de Andrew Fuller, um outro que esta publicação do sul retrata e cita como se fosse um proeminente homem, rígido defensor da soberania. Todavia, a história batista registra que ele foi, na verdade, um dos mais fortes líderes contra o rígido Calvinismo de seu dia. Uma outra publicação do sul, escrita por um erudito batista do sul, disse de Fuller: “Ele foi o inimigo resoluto do hiper-Calvinismo. Ele disse de uma maneira vigorosa, ‘tivesse continuado como estava, em poucos anos os batistas teriam se tornado um perfeito monte de estrume.’ Sua obra intitulada The Gospel Worthy of All Acceptation, foi um livro de fazer época.” (John T. Christian, A History of the Baptists, Vol. I, p. 351)
Um que tomou a posição na direção oposta de Andrew Fuller foi John Gill. O historiador que acabei de citar disse de Gill: “Ele não convidava pecadores para o Salvador, enquanto pregava a condenação, e afirmava que ele não devia interferir na graça eletiva de Deus.” Este escritor então referiu ao “efeito destruidor de tal sistema de teologia.” (pp. 347-348) O pequeno livro do sul cita corretamente de Gill.
Um outro historiador batista relata que o grande pregador batista, Robert Hall, disse do comentário de Gill, “um continente de lama, senhor.” (H. C. Vedder, A Short History of the Baptists, p. 240) Até C. H. Spurgeon, enquanto reconhecendo seu valor, disse de Gill: “O retrato dele... empinando seu nariz para cima da maneira mais expressiva, como se ele não pudesse suportar até mesmo o cheiro de livre-arbítrio. Com tal estado de espírito ele escreveu seu comentário. Ele caça o Arminianismo durante todo o tempo... ele se lança sobre um texto que não é adequado ao seu credo, e golpeia e bate terrivelmente para colocar a Palavra de Deus de uma forma mais sistemática.” (Commenting and Commentaries, edição Kregel, p. 9)
Novamente, enquanto tentando ser grato com Gill (Spurgeon se tornou o pastor da velha igreja de Gill), Spurgeon disse, “O sistema de teologia com que muitos identificam seu nome tem esfriado muitas igrejas até suas próprias almas, pois as tem levado a omitir os livres convites do evangelho, e negar que seja dever dos pecadores crer em Jesus.” (Spurgeon’s Autobiography, Vol. I, p. 310)
Um outro testemunho nesta tendência está no livro do Dr. J. B. Jeter intitulado Baptist Principles Reset (terceira edição). Em seu capítulo introdutório, após demonstrar alguns pontos doutrinários vastamente reconhecidos como mantido pelos batistas, ele disse: “Pode ser apropriado acrescentar que os batistas geralmente defendem o que pode ser denominado, para o bem da distinção, ‘Calvinismo moderado.’ Eles estão longe de reconhecer Calvino como autoridade nas questões de religião; mas o sistema de doutrina que carrega seu nome, como tem sido modificado pelo estudo das Escrituras, é agora geralmente aceito pelos batistas. Cinqüenta anos atrás [escrito em 1902], a maioria deles aderiram ao rígido Calvinismo, como mantido pelo Dr. John Gill, de Londres. Desde essa época, suas concepções têm sido consideravelmente mudadas, através dos escritos de Andrew Fuller e outros.” (pp. 12-13)
Limites do Livre-Arbítrio
O LADO HUMANO: SEU LUGAR E LIMITES
Até agora vimos que vasto reconhecimento é dado à vontade do homem. Entretanto, em referência a ela e o seu livre exercício, imagina-se que várias coisas foram entendidas, e que elas devem ser mantidas sempre em mente.
A Vontade: Real, Mas Restrita
Em primeiro lugar, é aceito que a vontade do homem é restrita em seu exercício, que ela opera dentro de limites muito definidos, que é restringida pelo plano e propósito controlador geral de Deus, que a soberania divina é suprema na mais larga extensão de todas as coisas. (Ilustrações serão dadas mais tarde.)
Em segundo lugar, não significa que o homem, pelo exercício da vontade, pode de si mesmo fazer aquilo que satisfaça as justas exigências de um Deus santo, ou que por qualquer coisa que ele faça ele possa chegar-se diante de Deus. O homem em seu estado caído não pode de maneira alguma agradar a Deus nem fazer qualquer coisa para salvar sua própria alma. À parte da graça de Deus, o homem estaria completamente e eternamente perdido.
Em terceiro lugar, o emprego desse livre-arbítrio que o homem faz uso não é nada meritório, não é nada que possa gloriar-se ou gabar-se, não é nada para seu crédito pessoal.
Em quarto lugar, Deus, não há dúvida, tem tomado o primeiro passo na salvação do homem provendo o Salvador, como planejado na eternidade passada. Em Sua graça Ele, além disso, provê a disponibilidade dessa salvação aos homens por meios como a pregação do evangelho e pelo convencimento do Espírito Santo.
Com estas considerações em mente pode ser notado que também parece claro que, para ser salvo, o homem deve fazer algo no sentido de exercer fé, crer no evangelho, ativamente receber o Salvador, e ele será considerado responsável se não fizer isso; todavia, como dito, seu exercício dessa fé não é nada meritório.
A razão por que é enfatizado que a fé não tem nenhum mérito, é para que, logo que for argumentado que o homem deve buscar exercer fé, nenhuma objeção possa com justiça ser levantada. Isto é, não pode ser alegado que a salvação através disso deixa de ser completamente da graça ou que seja por conquista humana, pois a fé que o homem exerce é inteiramente não meritória, nada que dá a ele a mais leve base para qualquer alegação sobre Deus. Fé, como será visto, é o mero canal, não o fundamento da salvação do homem. O fundamento ou base da salvação do pecado, obviamente, é a provisão divina na obra acabada de Cristo; os meios ou instrumento de tornar efetiva esta benção celestial é uma pessoa que nada merece se lançando sobre a misericórdia de Deus e a aceitando toda para si. Isto ela deve fazer, e ela unicamente pode fazer.
Fé: Necessária, Mas Não Meritória
Que o homem deve receber a salvação pela fé e que, se ele assim fizer, não seria uma questão de realização humana ou de mérito de sua parte, é evidente nestas citações sobre a necessidade de exercer fé, a liberdade dela, e a natureza não meritória dessa fé.
O Dr. Griffith Thomas disse: “Não há crédito ou mérito no ato de crer, pois confiança em outra pessoa é absolutamente incompatível com auto-retidão e dependência de suas próprias forças.... A fé é um princípio essencial da vida humana, sem a qual não pode haver salvação.... Não há absolutamente nenhuma virtude ou mérito na fé. A confiança é a resposta do homem à verdade de Deus. A fé é a condição, não a base da salvação.” (Epistle to the Romans, Vol. 1, pp. 154, 165)
Similarmente, o Dr. E. Y. Mullins escreveu: “Não somos salvos pelas obras, mas pela graça por meio da fé como a condição. A fé, então, de acordo com o Novo Testamento, nunca é considerada como uma obra meritória.... Fé salvadora é tanto um princípio ativo quanto passivo. Sob um ponto de vista, a fé é simplesmente abrir a mão para receber. É simplesmente a rendição da vontade.... A fé da parte do homem não é uma obra de mérito que possui o poder de compra, mas a condição da salvação. Somente pela fé, à parte de ações meritórias, o homem poderia ser salvo.” (The Christian Religion in its Doctrinal Expression, pp. 373, 375-376)
O Dr. Leander S. Keyser, quem H. A. Ironside caracterizou como “um grande teólogo,”[1] disse sobre isso: “A fé é o canal, na Escritura, através da qual a justificação chega ao homem pela própria razão que ela excluirá todo mérito humano, e faz a salvação do homem uma pura obra da graça de Deus.... Da própria natureza da fé, ela não pode ter nenhum mérito. Fé é simplesmente o ato da alma pela qual ela aceita o dom da salvação de Deus. Não pode certamente haver nenhum mérito em um pobre pecador, indigno, culpado, aceitando a graça que Deus gratuitamente oferece a ele. O fato é que, a necessidade de simplesmente aceitar a dádiva, sem a capacidade de fazer qualquer coisa para fazê-la merecer, acentua e aumenta o seu desmerecimento.” (Election and Conversion, pp. 26-27)
Bishop H. C. G. Moule se expressou sobre isto com as seguintes palavras: “Notemos que a Fé, visto ser a confiança, é obviamente algo tão diferente quanto possível do mérito. Ninguém na vida comum pensa em uma confiança bem firme como meritória. É certo, mas não justo.... O homem que, se descobrindo, na maneira antiga.... ser um culpado pecador, cuja ‘boca está calada’ diante de Deus, confia em Cristo para perdão e paz, certamente não fez nada por merecer qualquer coisa por consentir em sua própria salvação. Ele não merece nada pelo ato de aceitar tudo.” (The Fundamentals, Vol. II, p. 116)
Vários escritores batistas dão declarações breves porém explícitas seguindo esta linha de raciocínio. O Dr. O. C. S. Wallace escreveu: “A salvação vem para a alma que vem para salvação. O Salvador complacente e o pecador penitente se encontram.... O homem não pode salvar a si próprio.... mas ele pode segurar pela fé no braço que é estendido para salvá-lo.... Pois esta salvação é de graça e o homem salvo não pode se gloriar.... Ele não pagou nenhuma parte do preço de sua redenção; por essa razão ele não pode se gloriar de suas capacidades.” (What Baptists Believe, pp. 98-99)
Em um outro livro, W. R. White disse: “Cada um deve se arrepender e crer; cada um deve agir com seu próprio poder soberano de escolha. O indivíduo não somente deve agir por si mesmo; ele é o único que pode. Deus o fez capaz. Não é uma capacidade inerente de mérito, mas é um direito divinamente concedido baseado na misericórdia de Deus.” (Baptist Distinctives, pp. 24-25)
Esta mesma verdade foi reconhecida por C. H. Spurgeon, que disse, “Um conhecimento da verdade nos ensina que a fé é o simples ato de confiar, que não é uma ação da qual o homem pode se gabar; não é uma ação da natureza de uma obra, de forma a ser um fruto da lei.” (Treasury of the New Testament, Vol. III, p. 784)
O Dr. A. T. Pierson colocou desta forma: “Quando o pecado voluntário é cometido por um filho de Adão, a fé voluntária deve entrar na salvação. Enquanto qualquer ser humano peca por si próprio, ele deve crer por si próprio.... A vanglória é excluída. Tenho somente que crer; esta é minha única obra, a obra da fé, que é meu elo de ligação com o Justificador – aceitar Jesus como Salvador, vestir-se de Cristo, aceitar o manto branco de Sua perfeita justiça, que é ‘a todo e sobre todo aquele.... que crê.’” (The Believer’s Life, pp. 20, 33)
O Dr. H. Clay Trumbull, fundador e por muitos anos editor do Sunday School Times, explicitamente disse: “Dificilmente qualquer simples ordem é mais freqüentemente expressada pelo Salvador dos homens, àqueles que desejam Sua ajuda, do que o comando de ‘tenham fé em Deus.’ É em sua fé que Jesus insiste. É de sua fé que Sua ajuda depende. É por meio da fé que eles são salvos. Então clara e positivamente esta verdade é expressa na Bíblia que aqueles que são guiados pelos preceitos desse Livro sempre estão prontos a dar proeminência ao dever da fé como sua base da esperança.” (How to Deal with Doubts and Doubters, p. 51)
O Dr. Albertus Pieters foi um estudioso e escritor da Igreja Reformada na América, um grupo decididamente calvinista, todavia até ele deu um declaração muito forte nesta área: “Não devemos pensar que, visto que somos salvos pela fé, por isso a fé é algo meritório. A fé é como o ato de um mendigo ao esticar sua mão para receber uma dádiva. Ele não merece qualquer coisa por isso, nem um centavo; é meramente a aceitação de uma esmola imerecida e de graça.... Então não há nenhum poder na fé para salvar; o poder está em Cristo e em Sua obra expiatória, mas não podemos recebê-la sem o toque da fé.... Sabemos também que somos seres livres e responsáveis, rejeitando Cristo, se O rejeitarmos, pois não temos nenhum amor pela santidade; e aceitando-O, se O aceitarmos, de nosso próprio livre-arbítrio, sem ser de qualquer forma forçado a aceitar.” (Facts and Mysteries of the Christian Faith, terceira edição, pp. 167, 185)
Mais um da Igreja Reformada na América foi o Dr. David James Burrell, cujas obras publicadas foram largamente aceitas. Ele disse: “Não cabe a mim reconciliar a soberania divina com a liberdade da vontade humana.... Eu estou convencido de que há um Deus onisciente; e eu estou igualmente certo de que tenho uma vontade soberana. O fato importante é este: se for salvo, será pelo exercício da fé pessoal; todavia eu me juntarei ao grupo inumerável dos redimidos atribuindo toda a glória a Deus.” (Old Time Religion, pp. 336-337)
Em conexão com o assunto, o Dr. H. C. Thiessen citou o Dr. Hodge, de posição teológica similar aos dois que acabamos de citar: “Uma resposta positiva à graça preveniente [antecedente] não é ‘mérito.’ Até Hodge disse: ‘Não há nenhum mérito no pedido ou na aceitação, que é a base do presente. Permanece um favor gratuito; mas é, no entanto, suspendido no caso do pedido.’” (Lectures in Systematic Theology, p. 157)
“Depravação Total” e “Incapacidade”
Um problema, entretanto, pode se apresentar aqui. Não é a total depravação do homem reconhecida como um preceito estabelecido de sã doutrina bíblica? E se for, como poderia o homem que é totalmente depravado – absolutamente afundado em pecado e moralmente falido – cumprir qualquer responsabilidade na questão de sua própria salvação?
O homem, sem dúvida, é totalmente depravado. Perante Deus ele é completamente corrupto, absolutamente vil e desprezível, cheio de pecado e arruinado.
Mas como muitas vezes foi apontado, a depravação total no homem não significa sua total incapacidade.
O Dr. James Orr, o famoso presbiteriano escocês, disse sobre isto: “A doutrina em questão é, de fato, mal compreendida quando o adjetivo ‘total’ é acreditado implicar que todo ser humano é tão mau quanto poderia ser, ou que não há virtudes naturais, e até características belas e amáveis em pessoas que ainda não são regeneradas.... ‘Total’ aqui não significa que toda parte do homem é tão corrupta quanto poderia ser, mas que nenhuma parte escapou da depravação ou corrupção (totus, no sentido de ‘em toda parte’). O pecado está na natureza, e sua influência que corrompe, deprava, e polui, penetra nela toda.” (Side-Lights on Christian Doctrine, p. 97)
O Dr. Griffith Thomas similarmente escreveu: “‘Depravação total’ não significa a absoluta perda de todo vestígio do bem, mas que o mal afetou toda parte da natureza e que nada permaneceu intocado.... O livre-arbítrio significa a liberdade da alma para escolher, capacitando-o a determinar a ação consciente.... O homem caído tem a faculdade da vontade, como também tem outras faculdades....” (The Principles of Theology, pp. 165, 180)
Chegando nos teólogos batistas, temos vários comentários detalhados. O Dr. E. Y. Mullins disse: “A frase ‘depravação total’ tem sido empregada em teologia para descrever o estado pecaminoso dos homens. Mas é preciso uma definição cuidadosa para que não sejamos enganados. Em poucas palavras, ela significa que todas as partes de nossa natureza foram afetadas pelo pecado. Não significa que os homens são tão maus quanto poderiam ser, nem que todos os homens são igualmente maus. Não significa que a natureza humana é destituída de todo impulso bom no sentido moral. Significa, antes, que a natureza humana, como tal, e em todas as suas partes em seu estado irregenerado, está sob o domínio do pecado.... Às vezes se declara que o homem possui capacidade ‘natural’, mas não ‘moral’ nas coisas religiosas. Por capacidade natural quero dizer que ele possui todas as faculdades e poderes humanos, incluindo a vontade e o poder de escolha contrária. Ele é auto-determinado e não compelido em suas ações. Ele é responsável e livre. Ele é culpado quando ele age de forma errada.... Por outro lado, é afirmado que ao homem falta ‘capacidade moral’ pois ele não pode mudar sua própria natureza.... Como temos definido estas frases, ambas são verdadeiras.... Se se diz que um homem tem ‘capacidade natural’ nas coisas religiosas, ele provavelmente irá negligenciar a dependência da graça de Deus. Se se diz que a ele falta ‘capacidade moral,’ ele está em perigo de perder seu senso de responsabilidade.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 294-295)
A. H. Strong mostrou o que a depravação não é, então o que ela é, e depois disse: “Todavia há um certo restante de liberdade deixado ao homem. O pecador pode (a) evitar o pecado contra o Espírito Santo; (b) escolher o menor antes que o maior; (c) recusar totalmente render-se a certas tentações; (d) fazer bons atos exteriormente, embora com motivos imperfeitos; (e) buscar a Deus por interesse próprio.... O pecador pode fazer uma coisa muito importante, a saber, dar atenção à verdade divina.” (Systematic Theology, p. 640)
Em concordância com os últimos pensamentos, o Dr. H. C. Thiessen declarou: “Cremos que a graça comum de Deus também restaura ao pecador a capacidade para fazer uma resposta favorável a Deus. Em outras palavras, mantemos que Deus, em Sua graça, torna possível a salvação de todos os homens... Paulo diz: ‘Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2.11). Isto resulta na liberdade da vontade na questão da salvação. Que a vontade foi liberta é implicado de vários exortações para virar-se para Deus (Pv 1.23; Is 31.6; Ez 14.6; 18.32; Jl 2.13-14; Mt 18.3; At 3.19), para se arrepender (1Re 8.47; Mt 3.2; Mc 1.15; Lc 13.3, 5; At 2.38/ 17.30), e crer (2Cr 20.20; Is 43.10; Jo 6.29; 14.1; At 16.31; Fp 1.29; 1Jo 3.23).” (Lectures in Systematic Theology, pp. 155-156)
A Fé é o Dom de Deus?
Um outro ponto relacionado pode naturalmente surgir aqui. Enquanto a necessidade da fé é reconhecida, ainda não é a própria fé o dom de Deus?
É verdadeiro em um sentido que a fé é o dom de Deus, mas é o dom de Deus a todos que a querem, a todos que estão desejosos de usá-la. Visto que, como é de comum acordo, a oferta sincera de salvação é feita a todos, e visto que “quem quiser” pode receber o evangelho, é evidente que a fé salvadora está dentro do alcance de todos. Tal fé é dada por Deus àqueles que desejam ser salvos. Não é dada a todos, pois todos não se beneficiarão dela, não se renderão ao mover do Espírito Santo, e não deixarão o poder regenerador de Deus trabalhar dentro deles.
Sobre a gratuidade do dom da fé, o Dr. R. A. Torrey disse: “A fé é dom de Deus. Como todos os dons de Deus ela está à disposição de todos que a querem, pois não há acepção de pessoas com Ele. Veremos diretamente que é dada através de um certo instrumento que está dentro do alcance de todos, e sob certas condições que qualquer um de nós pode cumprir.” (What the Bible Teaches, p. 379)
O Dr. William Evans disse: “Deus deseja causar fé em todas as Suas criaturas, e assim fará caso elas não resistam ao Seu Espírito Santo. Somos responsáveis, por essa razão, não tanto pela falta de fé, mas por resistir ao Espírito que criará fé em nossos corações se O permitirmos a assim fazer.” (The Great Doctrines of the Bible, p. 149)
De modo similar, o Dr. Harry Ironside disse: “A fé é o dom de Deus.... Todos os homens podem ter fé se desejarem; mas ah, muitos recusam ouvir a Palavra de Deus, de modo que eles são deixados em sua incredulidade. O Espírito Santo apresenta a Palavra, mas alguém pode resistir à Sua graciosa influência. Por outro lado, alguém pode ouvir a Palavra e crer nela. Isto é a fé. É dom de Deus, é verdade, pois é dada através de Sua Palavra.” (Full Assurance, pp. 98-99)
O Dr. C. I. Scofield fez uma colocação um tanto diferente: “Há três coisas, graça, fé, salvação, e estas são todas dons de Deus. Mas aqui está o fato significante, caros amigos, aqui começa sua responsabilidade: deste maravilhoso trio – graça, fé, salvação – você já recebeu o dom da fé. Agora você está dizendo: ‘Se eu tenho fé, se Deus já me deu fé, por que eu não sou salvo?’ Porque você não a usou corretamente – isto é tudo.... Caros amigos, não criem dificuldades com as coisas onde não há dificuldades. A fé é um dom e você a tem.” (In Many Pulpits With C. I. Scofield, pp. 90-91)
Declarações de C. H. Spurgeon apontam na mesma direção: “Até onde possamos dizer, a fé foi escolhida como o canal da graça pois há uma adaptação natural na fé para ser usada como receptor. Suponha que eu estou prestes a dar a um pobre homem algumas esmolas: eu as coloco em suas mãos – por que?... A mão parece ter sido feita com o propósito de receber. Então, em nossa estrutura mental, a fé é criada com o propósito de ser um receptor: é a mão do homem, e há uma adaptação para receber a graça através dela... Tanto o perdão quanto o arrependimento fluem da mesma fonte, e são dados pelo mesmo Salvador.... Jesus tem prontos os dois, e Ele está preparado para concedê-los agora, e para concedê-los mais livremente sobre todos os que irão aceitá-los de Suas mãos.” (All of Grace, pp. 58, 99)
Muito propriamente, então, o Dr. H. C. Thiessen disse, “Pareceria estranho se Deus chamasse todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (At 17.30; 2Pe 3.9) e crerem (Mc 1.14-15) quando somente alguns podem receber o dom do arrependimento e da fé.” (Lectures in Systematic Theology, p. 349)
Devido a estas e outras declarações que parecem colocar uma medida de responsabilidade pela fé no homem, qual é o significado de Ef 2.8, que fala, “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”?
Estudantes da Bíblia, os mais recentes e os mais velhos, atribuem o “isto não vem de vós” a todo o processo de ser salvo, não à fé.
Dessa forma, F. F. Bruce da Inglaterra, disse: “O fato que o pronome demonstrativo ‘isto’ é neutro no grego (tauto), enquanto ‘fé’ é um substantivo feminino (pistis), combina com outras considerações para sugerir que é o conceito todo de salvação pela graça por meio da fé que é descrito como o dom de Deus. Isto incidentalmente foi a interpretação de Calvino.” (The Epistle to the Ephesians, pp. 51-52)
Similarmente, A. T. Robertson disse: “A ‘graça’ é a parte de Deus, a ‘fé’ é a nossa. E isto (kai tauto), é neutro, não o feminino tautē. Portanto, não se refere a pistis (feminino) ou a charis (feminino), mas ao ato de ser salvo pela graça condicionado à fé de nossa parte. Paulo mostra que a salvação não tem sua fonte no homem, mas vem de Deus.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 525)
M. R. Vincent sucintamente disse, “E isto. Não a fé, mas a salvação.” (Word Studies in the New Testament, Vol. III, p. 376)
W. E. Vine escreveu sobre o uso da palavra ‘dom’ aqui: “da salvação pela graça, como o dom de Deus, Ef 2.8.” (Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. II, p. 146)
J. A. Smith, no American Baptist Commentary sobre “Efésios,” escreveu: “A palavra grega para ‘isto’ é neutro, de forma que a referência não pode ser à ‘fé,’ visto que nesse caso ela seria feminina. O que se quer dizer é o fato declarado na oração precedente.” (p. 38)
Outros estudantes da Palavra tomam uma posição semelhante. W. G. Blaikie, no Pulpit Commentary, sobre “Efésios,” disse: “Da parte de Deus, a salvação é pela graça; da parte do homem, é por meio da fé.... A estrutura gramatical e a analogia da passagem favorecem a primeira opinião, ‘Vossa salvação não vem de vós mesmos.’... O uso confirma a opinião que não é meramente a fé, mas toda a obra e pessoa de Cristo que a fé recebe, que se pretende dizer aqui como o ‘dom de Deus.’” (p. 63)
Assim também, Dean Alford disse: “‘Pela graça’ expressa a condição instrumental objetiva de vossa salvação – ‘por meio da fé’ a condição medial subjetiva: tem sido efetuada pela graça e apropriada pela fé; e isto (‘vossa salvação,’ o fato de que vós sois salvos, como Ellicott) não vem de vós mesmos... o dom, a saber, de sua salvação.” (Parênteses do autor. New Testament for English Readers, Vol. II, Part I, p. 376)
O mais popular expositor, Alexander Mclaren, fez essa colocação: “Marque as últimas palavras de meu texto – ‘isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Elas muitas vezes têm sido mal compreendidas, como se elas se referissem à fé que é mencionada logo antes. Mas esta é uma clara idéia equivocada do significado que o apóstolo quis dar, e entra em contradição com todo o contexto. Não é a fé que é o dom de Deus, mas a salvação pela graça. Isto é claro quando se lê o próximo verso.... O que é que ‘não vem das obras’? A fé? Certamente não.... As duas frases necessariamente se referem à mesma coisa, e se a última deve se referir à salvação pela graça, então deve também a primeira.” (Expositions of Holy Scripture, “Efésios,” pp. 104-105)
O Sr. Robert Anderson faz uma declaração ainda mais vigorosa: “‘O dom de Deus’ aqui é a salvação pela graça por meio da fé. Não a própria fé. ‘Isto não é possível,’ como Alford observa, ‘pelas frases manifestamente paralelas “não vem de vós mesmos,” e “não vem das obras,” a última da qual seria irrelevante se for relativo à fé.’ É ainda mais definitivamente improvável, ele poderia ter acrescentado, pela natureza da passagem. Nos é concedido crer em Cristo, no mesmo sentido em que é concedido a alguns ‘também padecer por ele’ (Fp 1.29). Mas a declaração de Efésios é doutrinária, e nesse sentido a afirmação de que a fé é um dom, ou de fato que ela é uma realidade distinta em todos, é um equívoco claro. A questão é algumas vezes representada como se Deus desse fé ao pecador primeiro, e então, sobre o pecador levar a Ele a fé, continuasse e desse a ele a salvação! Assim como se um dono de padaria, recusando a fornecer a alguns requerentes de mãos vazias, primeiro distribuísse a cada um o preço de um pão, e então, em troca do dinheiro de sua própria gaveta, servisse o pão! Para responder completamente tal excentricidade como esta seria reescrever o capítulo seguinte. Basta, por essa razão, apontar que ler o texto como se a fé fosse o dom, é destruir não somente o significado do verso 9, mas a força de toda a passagem.” (The Gospel and Its Ministry, décima terceira edição revisada, p. 54, nota de rodapé)
A questão toda pode finalmente ser acentuada nas palavras de ninguém menos do que Washington Gladden, que disse, “O que diz o texto? ‘Pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Mas um novato em grego sabe que o pronome traduzido ‘isto’ não pode se referir à fé, e deve se referir à salvação pela graça. Leia o próximo verso. ‘Não vem das obras, para que ninguém se glorie.’ O que não vem das obras, a fé, ou a salvação? Dizer que a fé não vem das obras é tolice; argumentar que a salvação não vem das obras é fazer exatamente o que Paulo está fazendo. A graça de Deus, o perdão e compaixão e ajuda de Deus, é o dom gratuito de Deus; não é nada que temos conquistado ou merecido; é uma dádiva.... O ato de aceitar a salvação é certamente um ato do homem, e este ato é a fé. O livre ato de Deus na doação da salvação é a graça; o livre ato do homem na aceitação é a fé.” (A Homiletic Encyclopedia, R. A. Bertram, editor, p. 342)
Até agora vimos que vasto reconhecimento é dado à vontade do homem. Entretanto, em referência a ela e o seu livre exercício, imagina-se que várias coisas foram entendidas, e que elas devem ser mantidas sempre em mente.
A Vontade: Real, Mas Restrita
Em primeiro lugar, é aceito que a vontade do homem é restrita em seu exercício, que ela opera dentro de limites muito definidos, que é restringida pelo plano e propósito controlador geral de Deus, que a soberania divina é suprema na mais larga extensão de todas as coisas. (Ilustrações serão dadas mais tarde.)
Em segundo lugar, não significa que o homem, pelo exercício da vontade, pode de si mesmo fazer aquilo que satisfaça as justas exigências de um Deus santo, ou que por qualquer coisa que ele faça ele possa chegar-se diante de Deus. O homem em seu estado caído não pode de maneira alguma agradar a Deus nem fazer qualquer coisa para salvar sua própria alma. À parte da graça de Deus, o homem estaria completamente e eternamente perdido.
Em terceiro lugar, o emprego desse livre-arbítrio que o homem faz uso não é nada meritório, não é nada que possa gloriar-se ou gabar-se, não é nada para seu crédito pessoal.
Em quarto lugar, Deus, não há dúvida, tem tomado o primeiro passo na salvação do homem provendo o Salvador, como planejado na eternidade passada. Em Sua graça Ele, além disso, provê a disponibilidade dessa salvação aos homens por meios como a pregação do evangelho e pelo convencimento do Espírito Santo.
Com estas considerações em mente pode ser notado que também parece claro que, para ser salvo, o homem deve fazer algo no sentido de exercer fé, crer no evangelho, ativamente receber o Salvador, e ele será considerado responsável se não fizer isso; todavia, como dito, seu exercício dessa fé não é nada meritório.
A razão por que é enfatizado que a fé não tem nenhum mérito, é para que, logo que for argumentado que o homem deve buscar exercer fé, nenhuma objeção possa com justiça ser levantada. Isto é, não pode ser alegado que a salvação através disso deixa de ser completamente da graça ou que seja por conquista humana, pois a fé que o homem exerce é inteiramente não meritória, nada que dá a ele a mais leve base para qualquer alegação sobre Deus. Fé, como será visto, é o mero canal, não o fundamento da salvação do homem. O fundamento ou base da salvação do pecado, obviamente, é a provisão divina na obra acabada de Cristo; os meios ou instrumento de tornar efetiva esta benção celestial é uma pessoa que nada merece se lançando sobre a misericórdia de Deus e a aceitando toda para si. Isto ela deve fazer, e ela unicamente pode fazer.
Fé: Necessária, Mas Não Meritória
Que o homem deve receber a salvação pela fé e que, se ele assim fizer, não seria uma questão de realização humana ou de mérito de sua parte, é evidente nestas citações sobre a necessidade de exercer fé, a liberdade dela, e a natureza não meritória dessa fé.
O Dr. Griffith Thomas disse: “Não há crédito ou mérito no ato de crer, pois confiança em outra pessoa é absolutamente incompatível com auto-retidão e dependência de suas próprias forças.... A fé é um princípio essencial da vida humana, sem a qual não pode haver salvação.... Não há absolutamente nenhuma virtude ou mérito na fé. A confiança é a resposta do homem à verdade de Deus. A fé é a condição, não a base da salvação.” (Epistle to the Romans, Vol. 1, pp. 154, 165)
Similarmente, o Dr. E. Y. Mullins escreveu: “Não somos salvos pelas obras, mas pela graça por meio da fé como a condição. A fé, então, de acordo com o Novo Testamento, nunca é considerada como uma obra meritória.... Fé salvadora é tanto um princípio ativo quanto passivo. Sob um ponto de vista, a fé é simplesmente abrir a mão para receber. É simplesmente a rendição da vontade.... A fé da parte do homem não é uma obra de mérito que possui o poder de compra, mas a condição da salvação. Somente pela fé, à parte de ações meritórias, o homem poderia ser salvo.” (The Christian Religion in its Doctrinal Expression, pp. 373, 375-376)
O Dr. Leander S. Keyser, quem H. A. Ironside caracterizou como “um grande teólogo,”[1] disse sobre isso: “A fé é o canal, na Escritura, através da qual a justificação chega ao homem pela própria razão que ela excluirá todo mérito humano, e faz a salvação do homem uma pura obra da graça de Deus.... Da própria natureza da fé, ela não pode ter nenhum mérito. Fé é simplesmente o ato da alma pela qual ela aceita o dom da salvação de Deus. Não pode certamente haver nenhum mérito em um pobre pecador, indigno, culpado, aceitando a graça que Deus gratuitamente oferece a ele. O fato é que, a necessidade de simplesmente aceitar a dádiva, sem a capacidade de fazer qualquer coisa para fazê-la merecer, acentua e aumenta o seu desmerecimento.” (Election and Conversion, pp. 26-27)
Bishop H. C. G. Moule se expressou sobre isto com as seguintes palavras: “Notemos que a Fé, visto ser a confiança, é obviamente algo tão diferente quanto possível do mérito. Ninguém na vida comum pensa em uma confiança bem firme como meritória. É certo, mas não justo.... O homem que, se descobrindo, na maneira antiga.... ser um culpado pecador, cuja ‘boca está calada’ diante de Deus, confia em Cristo para perdão e paz, certamente não fez nada por merecer qualquer coisa por consentir em sua própria salvação. Ele não merece nada pelo ato de aceitar tudo.” (The Fundamentals, Vol. II, p. 116)
Vários escritores batistas dão declarações breves porém explícitas seguindo esta linha de raciocínio. O Dr. O. C. S. Wallace escreveu: “A salvação vem para a alma que vem para salvação. O Salvador complacente e o pecador penitente se encontram.... O homem não pode salvar a si próprio.... mas ele pode segurar pela fé no braço que é estendido para salvá-lo.... Pois esta salvação é de graça e o homem salvo não pode se gloriar.... Ele não pagou nenhuma parte do preço de sua redenção; por essa razão ele não pode se gloriar de suas capacidades.” (What Baptists Believe, pp. 98-99)
Em um outro livro, W. R. White disse: “Cada um deve se arrepender e crer; cada um deve agir com seu próprio poder soberano de escolha. O indivíduo não somente deve agir por si mesmo; ele é o único que pode. Deus o fez capaz. Não é uma capacidade inerente de mérito, mas é um direito divinamente concedido baseado na misericórdia de Deus.” (Baptist Distinctives, pp. 24-25)
Esta mesma verdade foi reconhecida por C. H. Spurgeon, que disse, “Um conhecimento da verdade nos ensina que a fé é o simples ato de confiar, que não é uma ação da qual o homem pode se gabar; não é uma ação da natureza de uma obra, de forma a ser um fruto da lei.” (Treasury of the New Testament, Vol. III, p. 784)
O Dr. A. T. Pierson colocou desta forma: “Quando o pecado voluntário é cometido por um filho de Adão, a fé voluntária deve entrar na salvação. Enquanto qualquer ser humano peca por si próprio, ele deve crer por si próprio.... A vanglória é excluída. Tenho somente que crer; esta é minha única obra, a obra da fé, que é meu elo de ligação com o Justificador – aceitar Jesus como Salvador, vestir-se de Cristo, aceitar o manto branco de Sua perfeita justiça, que é ‘a todo e sobre todo aquele.... que crê.’” (The Believer’s Life, pp. 20, 33)
O Dr. H. Clay Trumbull, fundador e por muitos anos editor do Sunday School Times, explicitamente disse: “Dificilmente qualquer simples ordem é mais freqüentemente expressada pelo Salvador dos homens, àqueles que desejam Sua ajuda, do que o comando de ‘tenham fé em Deus.’ É em sua fé que Jesus insiste. É de sua fé que Sua ajuda depende. É por meio da fé que eles são salvos. Então clara e positivamente esta verdade é expressa na Bíblia que aqueles que são guiados pelos preceitos desse Livro sempre estão prontos a dar proeminência ao dever da fé como sua base da esperança.” (How to Deal with Doubts and Doubters, p. 51)
O Dr. Albertus Pieters foi um estudioso e escritor da Igreja Reformada na América, um grupo decididamente calvinista, todavia até ele deu um declaração muito forte nesta área: “Não devemos pensar que, visto que somos salvos pela fé, por isso a fé é algo meritório. A fé é como o ato de um mendigo ao esticar sua mão para receber uma dádiva. Ele não merece qualquer coisa por isso, nem um centavo; é meramente a aceitação de uma esmola imerecida e de graça.... Então não há nenhum poder na fé para salvar; o poder está em Cristo e em Sua obra expiatória, mas não podemos recebê-la sem o toque da fé.... Sabemos também que somos seres livres e responsáveis, rejeitando Cristo, se O rejeitarmos, pois não temos nenhum amor pela santidade; e aceitando-O, se O aceitarmos, de nosso próprio livre-arbítrio, sem ser de qualquer forma forçado a aceitar.” (Facts and Mysteries of the Christian Faith, terceira edição, pp. 167, 185)
Mais um da Igreja Reformada na América foi o Dr. David James Burrell, cujas obras publicadas foram largamente aceitas. Ele disse: “Não cabe a mim reconciliar a soberania divina com a liberdade da vontade humana.... Eu estou convencido de que há um Deus onisciente; e eu estou igualmente certo de que tenho uma vontade soberana. O fato importante é este: se for salvo, será pelo exercício da fé pessoal; todavia eu me juntarei ao grupo inumerável dos redimidos atribuindo toda a glória a Deus.” (Old Time Religion, pp. 336-337)
Em conexão com o assunto, o Dr. H. C. Thiessen citou o Dr. Hodge, de posição teológica similar aos dois que acabamos de citar: “Uma resposta positiva à graça preveniente [antecedente] não é ‘mérito.’ Até Hodge disse: ‘Não há nenhum mérito no pedido ou na aceitação, que é a base do presente. Permanece um favor gratuito; mas é, no entanto, suspendido no caso do pedido.’” (Lectures in Systematic Theology, p. 157)
“Depravação Total” e “Incapacidade”
Um problema, entretanto, pode se apresentar aqui. Não é a total depravação do homem reconhecida como um preceito estabelecido de sã doutrina bíblica? E se for, como poderia o homem que é totalmente depravado – absolutamente afundado em pecado e moralmente falido – cumprir qualquer responsabilidade na questão de sua própria salvação?
O homem, sem dúvida, é totalmente depravado. Perante Deus ele é completamente corrupto, absolutamente vil e desprezível, cheio de pecado e arruinado.
Mas como muitas vezes foi apontado, a depravação total no homem não significa sua total incapacidade.
O Dr. James Orr, o famoso presbiteriano escocês, disse sobre isto: “A doutrina em questão é, de fato, mal compreendida quando o adjetivo ‘total’ é acreditado implicar que todo ser humano é tão mau quanto poderia ser, ou que não há virtudes naturais, e até características belas e amáveis em pessoas que ainda não são regeneradas.... ‘Total’ aqui não significa que toda parte do homem é tão corrupta quanto poderia ser, mas que nenhuma parte escapou da depravação ou corrupção (totus, no sentido de ‘em toda parte’). O pecado está na natureza, e sua influência que corrompe, deprava, e polui, penetra nela toda.” (Side-Lights on Christian Doctrine, p. 97)
O Dr. Griffith Thomas similarmente escreveu: “‘Depravação total’ não significa a absoluta perda de todo vestígio do bem, mas que o mal afetou toda parte da natureza e que nada permaneceu intocado.... O livre-arbítrio significa a liberdade da alma para escolher, capacitando-o a determinar a ação consciente.... O homem caído tem a faculdade da vontade, como também tem outras faculdades....” (The Principles of Theology, pp. 165, 180)
Chegando nos teólogos batistas, temos vários comentários detalhados. O Dr. E. Y. Mullins disse: “A frase ‘depravação total’ tem sido empregada em teologia para descrever o estado pecaminoso dos homens. Mas é preciso uma definição cuidadosa para que não sejamos enganados. Em poucas palavras, ela significa que todas as partes de nossa natureza foram afetadas pelo pecado. Não significa que os homens são tão maus quanto poderiam ser, nem que todos os homens são igualmente maus. Não significa que a natureza humana é destituída de todo impulso bom no sentido moral. Significa, antes, que a natureza humana, como tal, e em todas as suas partes em seu estado irregenerado, está sob o domínio do pecado.... Às vezes se declara que o homem possui capacidade ‘natural’, mas não ‘moral’ nas coisas religiosas. Por capacidade natural quero dizer que ele possui todas as faculdades e poderes humanos, incluindo a vontade e o poder de escolha contrária. Ele é auto-determinado e não compelido em suas ações. Ele é responsável e livre. Ele é culpado quando ele age de forma errada.... Por outro lado, é afirmado que ao homem falta ‘capacidade moral’ pois ele não pode mudar sua própria natureza.... Como temos definido estas frases, ambas são verdadeiras.... Se se diz que um homem tem ‘capacidade natural’ nas coisas religiosas, ele provavelmente irá negligenciar a dependência da graça de Deus. Se se diz que a ele falta ‘capacidade moral,’ ele está em perigo de perder seu senso de responsabilidade.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 294-295)
A. H. Strong mostrou o que a depravação não é, então o que ela é, e depois disse: “Todavia há um certo restante de liberdade deixado ao homem. O pecador pode (a) evitar o pecado contra o Espírito Santo; (b) escolher o menor antes que o maior; (c) recusar totalmente render-se a certas tentações; (d) fazer bons atos exteriormente, embora com motivos imperfeitos; (e) buscar a Deus por interesse próprio.... O pecador pode fazer uma coisa muito importante, a saber, dar atenção à verdade divina.” (Systematic Theology, p. 640)
Em concordância com os últimos pensamentos, o Dr. H. C. Thiessen declarou: “Cremos que a graça comum de Deus também restaura ao pecador a capacidade para fazer uma resposta favorável a Deus. Em outras palavras, mantemos que Deus, em Sua graça, torna possível a salvação de todos os homens... Paulo diz: ‘Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2.11). Isto resulta na liberdade da vontade na questão da salvação. Que a vontade foi liberta é implicado de vários exortações para virar-se para Deus (Pv 1.23; Is 31.6; Ez 14.6; 18.32; Jl 2.13-14; Mt 18.3; At 3.19), para se arrepender (1Re 8.47; Mt 3.2; Mc 1.15; Lc 13.3, 5; At 2.38/ 17.30), e crer (2Cr 20.20; Is 43.10; Jo 6.29; 14.1; At 16.31; Fp 1.29; 1Jo 3.23).” (Lectures in Systematic Theology, pp. 155-156)
A Fé é o Dom de Deus?
Um outro ponto relacionado pode naturalmente surgir aqui. Enquanto a necessidade da fé é reconhecida, ainda não é a própria fé o dom de Deus?
É verdadeiro em um sentido que a fé é o dom de Deus, mas é o dom de Deus a todos que a querem, a todos que estão desejosos de usá-la. Visto que, como é de comum acordo, a oferta sincera de salvação é feita a todos, e visto que “quem quiser” pode receber o evangelho, é evidente que a fé salvadora está dentro do alcance de todos. Tal fé é dada por Deus àqueles que desejam ser salvos. Não é dada a todos, pois todos não se beneficiarão dela, não se renderão ao mover do Espírito Santo, e não deixarão o poder regenerador de Deus trabalhar dentro deles.
Sobre a gratuidade do dom da fé, o Dr. R. A. Torrey disse: “A fé é dom de Deus. Como todos os dons de Deus ela está à disposição de todos que a querem, pois não há acepção de pessoas com Ele. Veremos diretamente que é dada através de um certo instrumento que está dentro do alcance de todos, e sob certas condições que qualquer um de nós pode cumprir.” (What the Bible Teaches, p. 379)
O Dr. William Evans disse: “Deus deseja causar fé em todas as Suas criaturas, e assim fará caso elas não resistam ao Seu Espírito Santo. Somos responsáveis, por essa razão, não tanto pela falta de fé, mas por resistir ao Espírito que criará fé em nossos corações se O permitirmos a assim fazer.” (The Great Doctrines of the Bible, p. 149)
De modo similar, o Dr. Harry Ironside disse: “A fé é o dom de Deus.... Todos os homens podem ter fé se desejarem; mas ah, muitos recusam ouvir a Palavra de Deus, de modo que eles são deixados em sua incredulidade. O Espírito Santo apresenta a Palavra, mas alguém pode resistir à Sua graciosa influência. Por outro lado, alguém pode ouvir a Palavra e crer nela. Isto é a fé. É dom de Deus, é verdade, pois é dada através de Sua Palavra.” (Full Assurance, pp. 98-99)
O Dr. C. I. Scofield fez uma colocação um tanto diferente: “Há três coisas, graça, fé, salvação, e estas são todas dons de Deus. Mas aqui está o fato significante, caros amigos, aqui começa sua responsabilidade: deste maravilhoso trio – graça, fé, salvação – você já recebeu o dom da fé. Agora você está dizendo: ‘Se eu tenho fé, se Deus já me deu fé, por que eu não sou salvo?’ Porque você não a usou corretamente – isto é tudo.... Caros amigos, não criem dificuldades com as coisas onde não há dificuldades. A fé é um dom e você a tem.” (In Many Pulpits With C. I. Scofield, pp. 90-91)
Declarações de C. H. Spurgeon apontam na mesma direção: “Até onde possamos dizer, a fé foi escolhida como o canal da graça pois há uma adaptação natural na fé para ser usada como receptor. Suponha que eu estou prestes a dar a um pobre homem algumas esmolas: eu as coloco em suas mãos – por que?... A mão parece ter sido feita com o propósito de receber. Então, em nossa estrutura mental, a fé é criada com o propósito de ser um receptor: é a mão do homem, e há uma adaptação para receber a graça através dela... Tanto o perdão quanto o arrependimento fluem da mesma fonte, e são dados pelo mesmo Salvador.... Jesus tem prontos os dois, e Ele está preparado para concedê-los agora, e para concedê-los mais livremente sobre todos os que irão aceitá-los de Suas mãos.” (All of Grace, pp. 58, 99)
Muito propriamente, então, o Dr. H. C. Thiessen disse, “Pareceria estranho se Deus chamasse todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (At 17.30; 2Pe 3.9) e crerem (Mc 1.14-15) quando somente alguns podem receber o dom do arrependimento e da fé.” (Lectures in Systematic Theology, p. 349)
Devido a estas e outras declarações que parecem colocar uma medida de responsabilidade pela fé no homem, qual é o significado de Ef 2.8, que fala, “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”?
Estudantes da Bíblia, os mais recentes e os mais velhos, atribuem o “isto não vem de vós” a todo o processo de ser salvo, não à fé.
Dessa forma, F. F. Bruce da Inglaterra, disse: “O fato que o pronome demonstrativo ‘isto’ é neutro no grego (tauto), enquanto ‘fé’ é um substantivo feminino (pistis), combina com outras considerações para sugerir que é o conceito todo de salvação pela graça por meio da fé que é descrito como o dom de Deus. Isto incidentalmente foi a interpretação de Calvino.” (The Epistle to the Ephesians, pp. 51-52)
Similarmente, A. T. Robertson disse: “A ‘graça’ é a parte de Deus, a ‘fé’ é a nossa. E isto (kai tauto), é neutro, não o feminino tautē. Portanto, não se refere a pistis (feminino) ou a charis (feminino), mas ao ato de ser salvo pela graça condicionado à fé de nossa parte. Paulo mostra que a salvação não tem sua fonte no homem, mas vem de Deus.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 525)
M. R. Vincent sucintamente disse, “E isto. Não a fé, mas a salvação.” (Word Studies in the New Testament, Vol. III, p. 376)
W. E. Vine escreveu sobre o uso da palavra ‘dom’ aqui: “da salvação pela graça, como o dom de Deus, Ef 2.8.” (Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. II, p. 146)
J. A. Smith, no American Baptist Commentary sobre “Efésios,” escreveu: “A palavra grega para ‘isto’ é neutro, de forma que a referência não pode ser à ‘fé,’ visto que nesse caso ela seria feminina. O que se quer dizer é o fato declarado na oração precedente.” (p. 38)
Outros estudantes da Palavra tomam uma posição semelhante. W. G. Blaikie, no Pulpit Commentary, sobre “Efésios,” disse: “Da parte de Deus, a salvação é pela graça; da parte do homem, é por meio da fé.... A estrutura gramatical e a analogia da passagem favorecem a primeira opinião, ‘Vossa salvação não vem de vós mesmos.’... O uso confirma a opinião que não é meramente a fé, mas toda a obra e pessoa de Cristo que a fé recebe, que se pretende dizer aqui como o ‘dom de Deus.’” (p. 63)
Assim também, Dean Alford disse: “‘Pela graça’ expressa a condição instrumental objetiva de vossa salvação – ‘por meio da fé’ a condição medial subjetiva: tem sido efetuada pela graça e apropriada pela fé; e isto (‘vossa salvação,’ o fato de que vós sois salvos, como Ellicott) não vem de vós mesmos... o dom, a saber, de sua salvação.” (Parênteses do autor. New Testament for English Readers, Vol. II, Part I, p. 376)
O mais popular expositor, Alexander Mclaren, fez essa colocação: “Marque as últimas palavras de meu texto – ‘isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Elas muitas vezes têm sido mal compreendidas, como se elas se referissem à fé que é mencionada logo antes. Mas esta é uma clara idéia equivocada do significado que o apóstolo quis dar, e entra em contradição com todo o contexto. Não é a fé que é o dom de Deus, mas a salvação pela graça. Isto é claro quando se lê o próximo verso.... O que é que ‘não vem das obras’? A fé? Certamente não.... As duas frases necessariamente se referem à mesma coisa, e se a última deve se referir à salvação pela graça, então deve também a primeira.” (Expositions of Holy Scripture, “Efésios,” pp. 104-105)
O Sr. Robert Anderson faz uma declaração ainda mais vigorosa: “‘O dom de Deus’ aqui é a salvação pela graça por meio da fé. Não a própria fé. ‘Isto não é possível,’ como Alford observa, ‘pelas frases manifestamente paralelas “não vem de vós mesmos,” e “não vem das obras,” a última da qual seria irrelevante se for relativo à fé.’ É ainda mais definitivamente improvável, ele poderia ter acrescentado, pela natureza da passagem. Nos é concedido crer em Cristo, no mesmo sentido em que é concedido a alguns ‘também padecer por ele’ (Fp 1.29). Mas a declaração de Efésios é doutrinária, e nesse sentido a afirmação de que a fé é um dom, ou de fato que ela é uma realidade distinta em todos, é um equívoco claro. A questão é algumas vezes representada como se Deus desse fé ao pecador primeiro, e então, sobre o pecador levar a Ele a fé, continuasse e desse a ele a salvação! Assim como se um dono de padaria, recusando a fornecer a alguns requerentes de mãos vazias, primeiro distribuísse a cada um o preço de um pão, e então, em troca do dinheiro de sua própria gaveta, servisse o pão! Para responder completamente tal excentricidade como esta seria reescrever o capítulo seguinte. Basta, por essa razão, apontar que ler o texto como se a fé fosse o dom, é destruir não somente o significado do verso 9, mas a força de toda a passagem.” (The Gospel and Its Ministry, décima terceira edição revisada, p. 54, nota de rodapé)
A questão toda pode finalmente ser acentuada nas palavras de ninguém menos do que Washington Gladden, que disse, “O que diz o texto? ‘Pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Mas um novato em grego sabe que o pronome traduzido ‘isto’ não pode se referir à fé, e deve se referir à salvação pela graça. Leia o próximo verso. ‘Não vem das obras, para que ninguém se glorie.’ O que não vem das obras, a fé, ou a salvação? Dizer que a fé não vem das obras é tolice; argumentar que a salvação não vem das obras é fazer exatamente o que Paulo está fazendo. A graça de Deus, o perdão e compaixão e ajuda de Deus, é o dom gratuito de Deus; não é nada que temos conquistado ou merecido; é uma dádiva.... O ato de aceitar a salvação é certamente um ato do homem, e este ato é a fé. O livre ato de Deus na doação da salvação é a graça; o livre ato do homem na aceitação é a fé.” (A Homiletic Encyclopedia, R. A. Bertram, editor, p. 342)
Predestinação IV
A QUE A PREDESTINAÇÃO E A ELEIÇÃO SE REFEREM
A esta altura a pergunta deve naturalmente surgir: como então a predestinação e eleição devem ser entendidas? Não temos que ir longe para dar uma resposta. A resposta é tão simples que é surpreendente que tantos têm fracassado nessa tarefa. Predestinação e eleição não fazem referência a certas pessoas do mundo sendo salvas ou perdidas, mas elas se relacionam com aqueles que já são filhos de Deus a respeito de certos privilégios ou posições antecipados; elas apontam para o que Deus trabalhará naqueles que se tornaram seu. Isto é visto nas obras de vários excelentes homens de Deus.
A maioria daqueles que tratam o assunto geral tomam a predestinação e eleição no mesmo sentido, mas visto que poucos fazem uma distinção técnica, nós lidaremos primeiro com a predestinação e depois com a eleição, também mostrando o que alguns dizem a respeito de toda a questão de um modo geral.
Predestinação
Quanto à predestinação, o Dr. H. A. Ironside mostrou o uso limitado desse termo na Bíblia: “Volte-se para sua Bíblia e leia você mesmo nos somente dois capítulos em que esta palavra ‘predestinar’ ou ‘predestinado’ é encontrada. A primeira é Rm 8.29-30. O outro capítulo é Ef 1.5, 11. Você notará que não há nenhuma referência nestes quatro versos a céu ou inferno, mas à semelhança com Cristo finalmente. Nenhuma passagem na Escritura diz que Deus predestinou um homem para ser salvo e outro para se perder. Os homens se salvam ou se perdem eternamente por causa de sua atitude em relação ao Senhor Jesus Cristo. Predestinação significa que algum dia todos os redimidos se tornarão como o Senhor Jesus! Isto não é precioso? Não tentem criar um bicho papão do que foi pretendido dar alegria e conforto àqueles que confiam no Salvador. Confie nele, e saberá que Deus predestinou você para ser completamente conforme a imagem de Seu Filho.” (Full Assurance, pp. 93-94)
Em uma outra obra, de natureza expositiva, o Dr. Ironside disse: “Foi o Pai que nos predestinou para a adoção de filhos. Em nenhum lugar na Escritura as pessoas são predestinadas para ir para o inferno, e em nenhum lugar as pessoas são simplesmente predestinadas para ir para o céu. Confira e veja. Somos escolhidos em Cristo para compartilhar de Sua glória por toda eternidade, mas a predestinação é sempre para algum lugar especial de benção. Volte-se para Rm 8.29. Predestinados para quê? Predestinados ‘para serem conformes à imagem de seu Filho.’ Veja, predestinação não e Deus da eternidade dizendo ‘Este homem vai para o céu e este homem para o inferno.’ Não, mas a predestinação me ensina que quando eu creio em Cristo, quando eu confio nele como meu Salvador, posso saber na autoridade de Deus que foi estabelecido para sempre que algum dia eu me tornarei exatamente como meu Salvador.” (In The Heavenlies, Expository Addresses on Ephesians, pp. 34-35)
O conhecimento sadio vê o elemento futuro nisto. Por exemplo, a grande autoridade da Bíblia e batista proeminente, o Dr. A. T. Robertson, escreveu sobre Rm 8.29, “... expressar a mudança gradual em nós até que adquirimos a semelhança de Cristo o Filho de Deus de modo que nós mesmos teremos finalmente a semelhança de filhos de Deus. Destino glorioso.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 377)
Um outro que se referiu ao texto original foi o respeitado pastor e escritor batista, o Dr. I. M. Haldeman: “Há grandes fatos sobre nós como crentes que nos relacionam com a dispensação da plenitude dos tempos.... Ele nos predestinou para o lugar de filhos nessa dispensação, como está escrito (Ef 1).... A expressão, ‘a adoção de filhos,’ no grego é uiothesia.... A palavra composta, por essa razão, significa ‘colocar no lugar de um filho.’ Assim, como crentes, fomos predestinados nessa dispensação vindoura ao lugar de filhos.” (The Book of the Heavenlies, pp. 4-5)
Novamente, sobre este aspecto geral das coisas, o Dr. W. L. Pettingill escreveu: “Quem quiser pode vir. Ele somente deve vir e Deus fará todo o resto. Deus... se responsabilizará por ele, que conseqüentemente verá que todas as coisas cooperam para o seu bem. Este é o Seu eterno propósito que Ele propôs antes do mundo existir.... A palavra ‘porque,’ no [Romanos] verso 29, tem a força de ‘pois,’ e introduz a razão para nossa segurança que todas as coisas estão cooperando para o nosso bem.... O tempo passado continua por toda a passagem, embora a glorificação seja ainda futura, pois Deus é capaz de contar coisas como acontecidas mesmo quando elas ainda não aconteceram. Nossa glorificação é de acordo com Seu propósito, e nada irá frustrar Seu propósito. Tendo de antemão conhecido e predestinado e chamado e justificado, também seremos glorificados.” (Bible Questions Answered, terceira edição, p. 374)
Até C. I. Scofield disse brevemente (sobre Rm 8.28-30), “Então segue uma outra revelação da verdade para apoiar os santos que sofrem; estamos em um processo onde o final é certo. Este final é a absoluta conformidade com Cristo.” (Scofield Bible Correspondence Course, Vol. II, p. 275)
O Dr. W. B. Riley explicou a questão desta forma: “O termo ‘predestinação’ é somente mais uma expressão da compaixão eterna, do plano eterno, do propósito eterno, do projeto eterno – a redenção. A posição do crente, entretanto, é pelo exercício da vontade do homem. Ele ‘nos predestinou para a adoção de filhos por Cristo Jesus para Si mesmo segundo o beneplácito de sua vontade;’ mas Ele nunca privará daquilo que Ele comprou sem nosso consentimento pessoal. O dia que alguém deseja ser adotado, neste dia ele se torna filho de Deus.... Nossa adoção é feita no momento que consentimos com ela; mas a alegria disso tudo, para o louvor e glória de Sua graça – vem a nós em medida sempre crescente.” (The Bible of the Expositor and the Evangelist, N. T. Vol. 12, pp. 13-15)
Sobre isto o Dr. Herbert Lockyer disse: “Predestinação é o exercício da soberania divina no cumprimento do propósito último de Deus.... O que deve ser mantido em mente é o fato que a predestinação não é Deus predeterminando desde os tempos passados quem será e quem não será salvo. A Escritura não ensina esta concepção. O que ela ensina é que esta doutrina da predestinação diz respeito ao futuro dos crentes. Predestinação é a determinação divina da gloriosa consumação de todo aquele que pela fé e rendição se torna de Deus.” (All the Doctrines of the Bible, p. 153)
C. H. Spurgeon, aparentemente percebendo o ponto aqui, disse: “Marque então, com cuidado, que NOSSA CONFORMIDADE COM CRISTO É O SAGRADO OBJETO DA PREDESTINAÇÃO.... O Senhor em graça sem limites resolveu que um grupo que ninguém pode enumerar, chamado aqui ‘muitos irmãos,’ será restaurado à Sua imagem, na forma particular em que Seu Filho Eterno a revela.... Agora, por essa razão, a única coisa para que o Senhor está nos trabalhando pelo Seu Espírito, tanto pela providência como pela graça, é a semelhança do Senhor dos céus.” Maiúsculas dele. Treasury of the New Testament, Vol. II, p. 72)
Um batista mais recente, que estudou sob alguns notáveis líderes batistas e que por alguns anos ensinou em uma das maiores escolas de treinamento batista do país, é Mark G. Cambron. Ele afirmou: “A Escritura ensina que Deus predestinou aqueles que crêem (e que crerão) a ser conformes a imagem de Seu Filho. Em outras palavras, é o plano de Deus, determinado de antemão, que todo crente será feito como o Senhor Jesus Cristo.... Deus determinou que aqueles que são salvos sejam como Seu Filho.” (The New Testament – A Book-by-Book Survey, pp. 200-201)
Um testemunho similarmente claro e positivo vem de um querido pastor que aqueles que conheceram consideravam como uma pessoa devota e um pregador vigoroso da Palavra, o pastor Edward Drew, do Madison Avenue Baptist Church de Peterson, Nova Jersey, cujas mensagens de domingo eram transmitidas pelo rádio, e muitas eram escritas e impressas: “As pessoas têm acreditado que no passado longínquo Deus preordenou que certas pessoas seriam perdidas e que certas outras seriam salvas. Eu gostaria de tirar isso da mente de vocês esta manhã. Apenas me deixe começar dizendo que isso não está na Bíblia.... A predestinação de Deus não é salvação. A predestinação de Deus é que aqueles que recebem o Senhor serão como o Senhor Jesus Cristo. Isto é predestinação, e nada mais é. Deus, desde o início, por Seu pré-conhecimento, predestinou que todo crente seria feito como Cristo, e nada mais na Bíblia é predestinação. Essa predestinação é que Deus ordenou que alguém fosse salvo e outro perdido eternamente no inferno não está dentro das capas deste Livro.... Deus ordenou desde a fundação do mundo que se você confiar em Seu Filho, Ele fará você como Seu Filho. Isto é o que temos aqui.... Aqueles que Deus predestinou para ser como Cristo, Ele chamou – não antes de os salvarem, mas quando Ele os salvou, Ele os chamou para ser como Ele.... Não é que no passado Deus chamou você e não chamou alguma outra pessoa. A predestinação de Deus está sendo realizada agora. Na eternidade passada Ele determinou que você seria como Jesus, e agora que você é salvo Ele chama você, que, enquanto estiver aqui, deve anunciar o Senhor Jesus Cristo.” (Mensagem proferida na manhã de domingo, 1 de março de 1942, sobre Rm 8.29-32)
Eleição e o Que Ela Envolve
Vindo para o termo eleição, aqui também tem havido conclusões precipitadas. Alguns teólogos podem se sentir estimulados, baseando seu raciocínio na filosofia, a encaixá-la em um sistema rígido que tenta explicar tudo do início ao fim. Mas não segue que tais proposições sejam as únicas explicações. Pode ser vista na concepção de muitos bem conhecidos escritores que a eleição amplamente envolve: (a) a comunidade ou corpo como um todo (indivíduos compondo o corpo); (b) tem a ver com serviço ou testemunho para o mundo como parte do plano de Deus; e (c) faz menos referência ao passado e mais ao futuro daqueles que são chamados de Deus. Além disso, a palavra eleitos é tomada por alguns como sendo mais um título e pode se referir aos indivíduos conforme relacionados com a posição, privilégios, ou ofício. Os seguintes excertos exibem vários aspectos do assunto.
O Dr. H. C. G. Moule disse da eleição: “É sempre (com uma exceção, Rm 9.11; veja abaixo) relacionada com uma comunidade, e por isso tem estreita afinidade com os ensinos do Velho Testamento sobre a posição privilegiada de Israel como a raça eleita, escolhida. Os objetos da eleição no Novo Testamento são, de fato, o Israel de Deus, a nova raça, regenerada, chamada para privilégios e serviços especiais.... Assume-se aí (2Pe 1.10) que o cristão, batizado e um adorador, pode, todavia, precisar fazer ‘firme’ sua ‘vocação e eleição’ como um fato para sua consciência. Isto implica condições na ‘eleição’ que de longe transcende os testes de rito sagrado e sociedade externa.” (International Standard Bible Encyclopedia, p. 925)
Em What Baptists Believe, H. H. Hobbs demonstra o assunto como segue: “A palavra ‘eleição’ não aparece no Velho Testamento e é encontrado em somente seis versos do Novo Testamento. A palavra ‘eleitos’ aparece quatro vezes no Velho Testamento e dezesseis vezes no Novo Testamento. A palavra traduzida como ‘eleitos’ é muitas vezes a mesma ‘escolhidos.’... A eleição não é mecânica. Ela envolve um Deus que é amor e um homem que é moralmente responsável. Nunca aparece na Bíblia como uma violação da vontade humana.... Quando reduzida a seus elementos mais simples, a eleição é dupla. Primeiro, Deus elegeu um plano de salvação que Ele cumpriu em Cristo. O homem pode rejeitar este plano ou aceitá-lo.... Segundo, Deus elegeu um povo para fazer conhecido Seu plano de salvação escolhido.... Assim a eleição é para a salvação e para o evangelismo. Em ambos, o livre-arbítrio do homem determina o resultado final. Pelo livre-arbítrio os homens podem escolher ser salvos mas escolher ser cristãos infrutíferos. Deus proíba! Os homens podem escolher tanto ser salvos como também escolher ser cristãos frutíferos.” (pp. 106-107)
O Dr. Frederic W. Farr foi pastor da Calvary Baptist Church em Los Angeles e foi também primeiro professor de teologia no Los Angeles Baptist Theological Seminary. Ele disse: “O propósito de Deus na redenção é abrangente e de longo alcance... As várias eleições de Deus, como a dos judeus ou até da Igreja, não são apenas para seus benefícios, mas como meio para um fim. Esta concepção elimina as objeções capciosas contra a eleição. O propósito de Deus... busca e assegura o maior bem possível coletivamente.” (A Manual of Christian Doctrine, p. 103)
O Dr. W. H. Griffith Thomas coloca desta forma: “O resultado e propósito desta seleção é visto no serviço que Deus pretende que o homem ou nação eleita presta.... São Paulo não está preocupado tanto com indivíduos como quanto com as nações e massas de pessoas. Ele fala da escolha de Deus de Israel, não para a vida eterna como tal, mas para o privilégio e dever de receber Sua graça a fim de trabalhar por e com Ele para o estabelecimento de Seu reino.... Os homens escolhidos de Deus são os homens de Sua ‘escolha,’ e por todas as Escrituras Seus homens escolhidos... suportaram serviços sacrificantes corajosos, difíceis, em favor dos outros.” (Epistle to the Romans, Vol. II, p. 229)
O Dr. H. H. Rowley é um estudioso, professor e autor britânico batista largamente reconhecido. Sua experiência é batista. Poucos anos atrás ele pronunciou uma série de palestras no Spurgeon’s College, Londres. Ele se referiu à sua grande dívida com Charles Haddon Spurgeon. Seus discursos foram publicados como The Biblical Doctrine of Election. O carro-chefe do livro é mostrar que a eleição tem a ver com o serviço de Deus e testemunho ao mundo, se de Israel ou da Igreja, e as responsabilidades legadas àqueles que entram na esfera envolvida.
Tendo lidado extensivamente com a eleição de Israel, o Dr. Rowley virou sua atenção para a Igreja, dizendo: “No ensino do Novo Testamento a Igreja é a eleita, e a Igreja consiste daqueles que têm se rendido ao poder de Cristo, e à Sua obediência.... A igreja é eleita porque é a companhia dos eleitos.... Todos que pertenciam à comunidade da Igreja Cristã eram considerados como eleitos.” (pp. 168-170)
E muito extensiva é sua demonstração de que a eleição é para serviço: “Quem Deus escolhe, Ele escolhe para serviço. Há variedade de serviços, mas tudo é serviço, e todo serviço é para Deus.... A divina eleição diz respeito exclusivamente ao serviço divino... A eleição é para serviço. Não se deve ignorar o fato de que ela carrega consigo mesma privilégios. Pois no serviço de Deus está o maior privilégio e honra para o homem.... Para aqueles que desejosa e conscientemente aceitam a tarefa para a qual são chamados, os recursos de Deus estão abertos para o cumprimento de suas missões, e aqui novamente é um alto privilégio. Todavia nunca é primeiramente para o privilégio mas para o serviço que os eleitos são escolhidos.... Sua eleição é para serviço, e é somente válida à medida que, e contanto que, eles cumpram esse propósito.... A queixa contra a doutrina bíblica da eleição, que é injusta, é aqui, mais que em qualquer outro lugar, mostrada ser totalmente descabida. Pois o que geralmente querem dizer através da queixa é que é injusto que os eleitos sejam favorecidos. Tenho insistido em todas estas palestras que enquanto há favor e honra em ser escolhido por Deus, Sua eleição sempre tem seu lado inverso no serviço que ela envolve. Mas aqui pareceria que, se há injustiça, é dirigida contra o eleito e não em seu favor. Sua é uma herança de sofrimento.... Sempre a eleição e a resposta no serviço e a lealdade andam juntas, e a recusa final do serviço é igualmente a renúncia da eleição.... Aqueles que deixam de responder evidenciam que a eleição na verdade não transforma o homem em uma marionete e elimina a sua vontade.” (pp. 42, 45, 11, 117-118, 120)
Robert Tuck, um outro sábio escritor britânico, no segundo de seus largos volumes de Dificuldades Bíblicas, tem algumas palavras sobre “A Eleição Divina”: “O que podemos claramente ver no tratamento divino com as raças, nações, famílias, e indivíduos, é uma seleção divina de alguns para formas especiais de serviço em relação aos, e para o benefício dos, outros.... Os dons, ou as disposições, da nação ou indivíduo, capacitam-nos, no plano divino, para esse particular cargo de serviço.... Deste ponto de vista torna-se claro que a eleição de Deus diz respeito a disposição e dom, e conseqüentemente posição e serviço. Mas a eleição divina nunca deveria ser apresentada como assumindo que ela se relaciona com individualidade ou destino.” (A Handbook of Biblical Dificulties, segunda série, p. 472)
Similarmente, o Dr. James Orr disse: “Há a ‘eleição’ divina; mas o amor eletivo, qualquer um pode ver, nunca é a eleição de um pela exclusão de outros, mas a eleição com vistas às maiores bençãos futuras dos outros.” (Sidelights On Christian Doctrine, p. 34)
Novamente, o fim da eleição em serviço é exibida por F. B. Meyer: “A nação hebraica foi maravilhosamente privilegiada.... Mas estes privilégios foram concedidos, não para a própria nação, mas para a benção da humanidade. Este é o significado da eleição. Há raças eleitas, nações eleitas, almas eleitas, para que eles possam ser capazes de comunicar o que eles receberam, e participar quaisquer vantagens que tenham sido confiados.” (Through The Bible Day by Day, Vol. VI, p. 88)
Igualmente penetrantes são as palavras de Sanday e Headlam em sua brilhante obra sobre Romanos, em um apêndice denominado “A Divina Eleição”: “Repetidamente o pensamento retorna, que Israel foi escolhido não meramente em seu próprio benefício mas como um instrumento na mão de Deus, e não meramente para exibir a força divina, mas também para o benefício das outras nações.” (International Critical Commentary, “Romans,” p. 249)
O Dr. M. G. Cambron declarou: “As palavras ‘escolhidos’ e ‘eleição’ têm a ver com o propósito de Deus no serviço. Israel foi aquela nação que Deus usou para pregar o Reino de Deus ao mundo.... A Igreja é aquela nação através da qual Deus está agora pregando o Reino de Deus.... O único requisito para se tornar os chamados de Deus é fé.” (The New Testament, A Book-by-Book Survey, p. 201, 203)
M. R. Vincent, presbiteriano e uma autoridade em línguas bíblicas, declarou uma vez: “Eklogē eleição, esta, e as palavras semelhantes, escolher, e escolhido ou eleito, são usadas para a seleção de Deus de homens ou mediações para missões especiais ou realizações; mas nem aqui nem em qualquer lugar no Novo Testamento há qualquer fundamento para a doutrina revoltante de que Deus predestinou um número definido da humanidade para a vida eterna, e o resto para a destruição eterna. Eleição – o ato da vontade santa de Deus de selecionar Seus próprios métodos, instrumentos e tempos para executar Seus propósitos – é um fato da história e de observação diária.” (Word Studies in the New Testament, Vol. IV, p. 16; Vol. III, p. 137)
Outro testemunho pode apropriadamente tomar seu lugar aqui. Sir Robert Anderson, bem conhecido entre os Plymouth Brethren, foi na verdade associado dos presbiterianos ingleses. Ele foi conhecido geralmente por assumir a posição calvinista. Suas obras passaram por muitas edições. Da décima terceira edição, revisada, de uma de suas obras está esta citação: “A expressão bíblica ‘eleitos de Deus’... como ‘primícia,’ é um título de dignidade e privilégio, aplicável exclusivamente aos cristãos. O pensamento proeminente na eleição, especialmente nesta dispensação da Igreja (como a própria palavra ecclesia sugere), é posição e privilégio, não livramento da perdição.... A doutrina teológica baseada sobre isto é muito freqüentemente pressionada além dos limites do ensino positivo das Sagradas Escrituras.... Não é que Ele tem graça para os eleitos e julgamento para os demais.... Não é que há misericórdia para uma classe favorecida, mas que há misericórdia, e nada mais, para todos sem distinção.... Se o perdão é pregado a todos, é porque todos podem compartilhá-lo.” (The Gospel and Its Ministry, pp. 76, 85-86)
O Dr. H. A. Ironside tinha isto a dizer: “D. L. Moody costumava colocar de uma forma bem simples: ‘Os eleitos são os “quem quiser;” os não eleitos são os “quem não quiser.”’ Isto é exatamente o que a Escritura ensina. O convite é para todos. Aqueles que o aceitam são os eleitos. Lembrem-se, nunca somos informados de que Cristo morreu pelos eleitos.” (Full Assurance, p. 92)
Novamente, o Dr. Ironside disse, “‘Quem quer que’ significa quem quer que. Somente um teólogo tendencioso, com interesses pessoais, poderia alguma vez pensar que significasse somente os eleitos.” (What’s The Answer, p. 35)
Em sua obra sobre teologia, o Dr. E. Y. Mullins disse: “A eleição de Deus coage a vontade do homem, ou a deixa livre? A resposta é enfaticamente que a vontade do homem não é coagida, mas deixada livre. Em seu ato livre de aceitar Cristo e Sua salvação o homem é auto-determinado. Ele não teria feito a escolha se deixado a si mesmo sem a ajuda da graça de Deus. Mas quando ele escolhe, é seu próprio ato livre.... A graça não torna efetiva até que os homens respondam livremente a ela.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 344-345)
Um outro escritor batista, C. I. Daniel, colocou desta forma: “A doutrina da eleição incondicional de fato torna Deus alguém que faz acepção de pessoas. De fato é... uma doutrina totalmente estranha às Sagradas Escrituras. Pega um dos mais doces e mais graciosos ensinos do Senhor e o transforma no mais cruel e tirânico, fazendo o próprio Deus responsável diretamente pela condenação de todo pecador perdido.” (The Bible’s Seeming Contradictions, p. 45)
O pastor Edward Drew revela o lado prático assim: “O sujeito da eleição, como está no Novo Testamento, não é o que muitos pensam que é. A eleição no Novo Testamento não é que Deus outrora, nas eras passadas, determinou salvar um homem e levá-lo ao céu, e enviar um outro ao inferno. Isso não está na Bíblia.... Deus disse [verdadeiramente], ‘Meus eleitos são aqueles que acreditam no que eu digo.’ Eles são os eleitos.... Como você pode ser um dos eleitos? Deus determinou, bem distante no passado, que Ele teria um povo seleto que seria composto daqueles que cressem em Sua Palavra. E quem quiser pode vir e crer, e ser um do grupo seleto e eleito de Deus. Você pode fazer firme a sua vocação e eleição; e se você creu em Deus, e sabe que está salvo, você sabe que é um dos eleitos. Amados, isso é a eleição que temos no Novo Testamento.” (Estudos sobre 1 e 2 Tessalonicenses, mensagem, 12 de setembro de 1943)
Sobre o aspecto avançado, ou o objetivo a ser visto na eleição, as seguintes declarações tocam ainda mais nesse princípio. O Dr. F. B. Meyer disse: “Note para que você é eleito. Somos eleitos para obediência. Não meramente que devemos escapar da pena devida ao pecado.... Eleitos para estarmos mais próximos de Cristo, pois assemelhando a Ele mais intimamente no ministério, e devoção, e amor.... Somos escolhidos para obedecer; para servir; para aprender; para sofrer; para morrer diariamente – para que outros possam ser abençoados e ser salvos.... Há uma propósito divino que nos promete conduzir adiante para a beleza do caráter moral e uma obediência que é modelada segundo o padrão da de Cristo.” (Tried by Fire, pp. 12-13)
Um tanto similarmente o Dr. Nathan E. Wood disse: “Os homens, tanto maus quanto bons, são selecionados, não para salvaçao nem reprovação, mas para suas funções rumo à preparação daquele universo final, que deve ser finalmente realizado.... A seleção pode ser racial, nacional, ou de uma linhagem, sem incluir todo indivíduo e sem implicar que foi uma escolha para a vida eterna.... A seleção para a realização de um propósito divino não é, então, necessariamente uma eleição para a vida eterna.... Não é difícil descobrir qual é o propósito último de Deus na eleição.... Seu propósito passa por todas as coisas criadas para uma final ordem social, em que a justiça terá o reinado natural, exclusivo, e indisputado. A eleição de Deus assegura isto.” (The Person and Work of Jesus Christ, pp. 122-123, 127)
Em uma obra de H. C. G. Moule diferente da anteriormente citada, o autor disse sobre este aspecto do assunto, “Os eleitos são a Igreja... Brilhante é seu prospecto em Seu plano; não é nada menos que a ‘eterna glória’ de Sua presença acima; Ele os amará, Ele os manterá, até o fim.” (The Second Epistle to Timothy, Devotional Commentary, p. 84)
Uma obra não menos erudita do que o International Critical Commentary, disse: “Aqui o que está principalmente em vista não é o fato da ‘seleção,’ mas o fim para o qual a escolha foi feita.... A condição da fé está implicitamente contida. Todo homem que pela fé aceita a chamada é eklektos.” (T. K. Abbott, sobre Ef 1.4, p. 6)
No pequeno livro de E. Y. Mullins anteriormente citado, o autor encerrou sua curta parte sobre a eleição com estas palavras: “Toda incerteza desaparece na completa crença, garantida pelas Escrituras, que Deus guia, controla, e eficazmente deseja o glorioso resultado.” (Baptist Beliefs, p. 29)
Esta parte pode adequadamente ser encerrada citando algumas pessoas que mostram o que a predestinação e a eleição basicamente envolve.
H. H. Hobbs disse: “A predestinação... simplesmente significa que Deus predeterminou que aqueles que responderem afirmativamente ao Seu chamado ou eleição serão justificados, ou declarados justos, e além disso serão glorificados. Tudo isto está ‘de acordo com Seu propósito.’... A vontade soberana de Deus elege aqueles que devem ser Seu ‘sacerdócio real’ e ‘nação santa’ para a salvação de todos os homens. O livre-arbítrio do homem aceita ou rejeita esta relação.... Deus elegeu salvação para todos que, pela liberdade da vontade, recorrerão a Ele ou que satisfizerem as condições do plano eleito de salvação. Em suma, Deus proveu em Sua eleição tudo que é necessário para a salvação do homem.” (Fundamentals of our Faith, pp. 94, 98-99)
Sobre este tema geral, Oliver B. Greene disse: “Se Deus tem tudo pronto – eleito e escolhido – predestinado e fixo – por que Jesus pedia aos discípulos para orarem para que mais trabalhadores fossem enviados aos campos brancos para a colheita? Se alguns são eleitos ao céu enquanto outros não são – Se alguns são predestinados e outros não são – Se alguns são escolhidos para salvação e outros não são – Por que o Senhor Jesus disse, ‘Assim também não é da vontade de vosso Pai que está nos céus, que venha a perecer um só destes pequeninos’ (Mt 18.14)?... A Igreja como um corpo foi escolhida no começo pelo Deus Todo-Poderoso. A Igreja como um corpo foi escolhida para ser a Noiva de Cristo. Como um corpo foi escolhida, eleita, e predestinada para ser uma Igreja santa sem mácula ou ruga. Paulo não está sugerindo que alguns são escolhidos para ser salvos e outros são eleitos para ir para o inferno.” (Predestination, pp. 19, 28)
O recentemente falecido Dr. William G. Coltman, pastor de uma grande igreja batista na área de Detroit, contou a história de um homem que, na hora em que um pregador fez o apelo, replicou, “Bem, se eu sou um dos eleitos eu serei salvo de qualquer maneira, e se não, não há nada que eu possa fazer sobre isto.” Depois do que o pregador disse, “Deus ‘manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam’ [At 17.30]. Os comandos de Deus têm força legal, e se você ouvir atentamente irá se salvar. Mas você não ouse dizer nesse dia, ‘Eu não podia, porque eu não era um dos eleitos,’ porque isso não seria verdade. A razão de você recusar vir seria encontrado em seu amor pelo pecado, não em sua não eleição.” (Cathedral of Christian Truth, p. 238)
A esta altura a pergunta deve naturalmente surgir: como então a predestinação e eleição devem ser entendidas? Não temos que ir longe para dar uma resposta. A resposta é tão simples que é surpreendente que tantos têm fracassado nessa tarefa. Predestinação e eleição não fazem referência a certas pessoas do mundo sendo salvas ou perdidas, mas elas se relacionam com aqueles que já são filhos de Deus a respeito de certos privilégios ou posições antecipados; elas apontam para o que Deus trabalhará naqueles que se tornaram seu. Isto é visto nas obras de vários excelentes homens de Deus.
A maioria daqueles que tratam o assunto geral tomam a predestinação e eleição no mesmo sentido, mas visto que poucos fazem uma distinção técnica, nós lidaremos primeiro com a predestinação e depois com a eleição, também mostrando o que alguns dizem a respeito de toda a questão de um modo geral.
Predestinação
Quanto à predestinação, o Dr. H. A. Ironside mostrou o uso limitado desse termo na Bíblia: “Volte-se para sua Bíblia e leia você mesmo nos somente dois capítulos em que esta palavra ‘predestinar’ ou ‘predestinado’ é encontrada. A primeira é Rm 8.29-30. O outro capítulo é Ef 1.5, 11. Você notará que não há nenhuma referência nestes quatro versos a céu ou inferno, mas à semelhança com Cristo finalmente. Nenhuma passagem na Escritura diz que Deus predestinou um homem para ser salvo e outro para se perder. Os homens se salvam ou se perdem eternamente por causa de sua atitude em relação ao Senhor Jesus Cristo. Predestinação significa que algum dia todos os redimidos se tornarão como o Senhor Jesus! Isto não é precioso? Não tentem criar um bicho papão do que foi pretendido dar alegria e conforto àqueles que confiam no Salvador. Confie nele, e saberá que Deus predestinou você para ser completamente conforme a imagem de Seu Filho.” (Full Assurance, pp. 93-94)
Em uma outra obra, de natureza expositiva, o Dr. Ironside disse: “Foi o Pai que nos predestinou para a adoção de filhos. Em nenhum lugar na Escritura as pessoas são predestinadas para ir para o inferno, e em nenhum lugar as pessoas são simplesmente predestinadas para ir para o céu. Confira e veja. Somos escolhidos em Cristo para compartilhar de Sua glória por toda eternidade, mas a predestinação é sempre para algum lugar especial de benção. Volte-se para Rm 8.29. Predestinados para quê? Predestinados ‘para serem conformes à imagem de seu Filho.’ Veja, predestinação não e Deus da eternidade dizendo ‘Este homem vai para o céu e este homem para o inferno.’ Não, mas a predestinação me ensina que quando eu creio em Cristo, quando eu confio nele como meu Salvador, posso saber na autoridade de Deus que foi estabelecido para sempre que algum dia eu me tornarei exatamente como meu Salvador.” (In The Heavenlies, Expository Addresses on Ephesians, pp. 34-35)
O conhecimento sadio vê o elemento futuro nisto. Por exemplo, a grande autoridade da Bíblia e batista proeminente, o Dr. A. T. Robertson, escreveu sobre Rm 8.29, “... expressar a mudança gradual em nós até que adquirimos a semelhança de Cristo o Filho de Deus de modo que nós mesmos teremos finalmente a semelhança de filhos de Deus. Destino glorioso.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 377)
Um outro que se referiu ao texto original foi o respeitado pastor e escritor batista, o Dr. I. M. Haldeman: “Há grandes fatos sobre nós como crentes que nos relacionam com a dispensação da plenitude dos tempos.... Ele nos predestinou para o lugar de filhos nessa dispensação, como está escrito (Ef 1).... A expressão, ‘a adoção de filhos,’ no grego é uiothesia.... A palavra composta, por essa razão, significa ‘colocar no lugar de um filho.’ Assim, como crentes, fomos predestinados nessa dispensação vindoura ao lugar de filhos.” (The Book of the Heavenlies, pp. 4-5)
Novamente, sobre este aspecto geral das coisas, o Dr. W. L. Pettingill escreveu: “Quem quiser pode vir. Ele somente deve vir e Deus fará todo o resto. Deus... se responsabilizará por ele, que conseqüentemente verá que todas as coisas cooperam para o seu bem. Este é o Seu eterno propósito que Ele propôs antes do mundo existir.... A palavra ‘porque,’ no [Romanos] verso 29, tem a força de ‘pois,’ e introduz a razão para nossa segurança que todas as coisas estão cooperando para o nosso bem.... O tempo passado continua por toda a passagem, embora a glorificação seja ainda futura, pois Deus é capaz de contar coisas como acontecidas mesmo quando elas ainda não aconteceram. Nossa glorificação é de acordo com Seu propósito, e nada irá frustrar Seu propósito. Tendo de antemão conhecido e predestinado e chamado e justificado, também seremos glorificados.” (Bible Questions Answered, terceira edição, p. 374)
Até C. I. Scofield disse brevemente (sobre Rm 8.28-30), “Então segue uma outra revelação da verdade para apoiar os santos que sofrem; estamos em um processo onde o final é certo. Este final é a absoluta conformidade com Cristo.” (Scofield Bible Correspondence Course, Vol. II, p. 275)
O Dr. W. B. Riley explicou a questão desta forma: “O termo ‘predestinação’ é somente mais uma expressão da compaixão eterna, do plano eterno, do propósito eterno, do projeto eterno – a redenção. A posição do crente, entretanto, é pelo exercício da vontade do homem. Ele ‘nos predestinou para a adoção de filhos por Cristo Jesus para Si mesmo segundo o beneplácito de sua vontade;’ mas Ele nunca privará daquilo que Ele comprou sem nosso consentimento pessoal. O dia que alguém deseja ser adotado, neste dia ele se torna filho de Deus.... Nossa adoção é feita no momento que consentimos com ela; mas a alegria disso tudo, para o louvor e glória de Sua graça – vem a nós em medida sempre crescente.” (The Bible of the Expositor and the Evangelist, N. T. Vol. 12, pp. 13-15)
Sobre isto o Dr. Herbert Lockyer disse: “Predestinação é o exercício da soberania divina no cumprimento do propósito último de Deus.... O que deve ser mantido em mente é o fato que a predestinação não é Deus predeterminando desde os tempos passados quem será e quem não será salvo. A Escritura não ensina esta concepção. O que ela ensina é que esta doutrina da predestinação diz respeito ao futuro dos crentes. Predestinação é a determinação divina da gloriosa consumação de todo aquele que pela fé e rendição se torna de Deus.” (All the Doctrines of the Bible, p. 153)
C. H. Spurgeon, aparentemente percebendo o ponto aqui, disse: “Marque então, com cuidado, que NOSSA CONFORMIDADE COM CRISTO É O SAGRADO OBJETO DA PREDESTINAÇÃO.... O Senhor em graça sem limites resolveu que um grupo que ninguém pode enumerar, chamado aqui ‘muitos irmãos,’ será restaurado à Sua imagem, na forma particular em que Seu Filho Eterno a revela.... Agora, por essa razão, a única coisa para que o Senhor está nos trabalhando pelo Seu Espírito, tanto pela providência como pela graça, é a semelhança do Senhor dos céus.” Maiúsculas dele. Treasury of the New Testament, Vol. II, p. 72)
Um batista mais recente, que estudou sob alguns notáveis líderes batistas e que por alguns anos ensinou em uma das maiores escolas de treinamento batista do país, é Mark G. Cambron. Ele afirmou: “A Escritura ensina que Deus predestinou aqueles que crêem (e que crerão) a ser conformes a imagem de Seu Filho. Em outras palavras, é o plano de Deus, determinado de antemão, que todo crente será feito como o Senhor Jesus Cristo.... Deus determinou que aqueles que são salvos sejam como Seu Filho.” (The New Testament – A Book-by-Book Survey, pp. 200-201)
Um testemunho similarmente claro e positivo vem de um querido pastor que aqueles que conheceram consideravam como uma pessoa devota e um pregador vigoroso da Palavra, o pastor Edward Drew, do Madison Avenue Baptist Church de Peterson, Nova Jersey, cujas mensagens de domingo eram transmitidas pelo rádio, e muitas eram escritas e impressas: “As pessoas têm acreditado que no passado longínquo Deus preordenou que certas pessoas seriam perdidas e que certas outras seriam salvas. Eu gostaria de tirar isso da mente de vocês esta manhã. Apenas me deixe começar dizendo que isso não está na Bíblia.... A predestinação de Deus não é salvação. A predestinação de Deus é que aqueles que recebem o Senhor serão como o Senhor Jesus Cristo. Isto é predestinação, e nada mais é. Deus, desde o início, por Seu pré-conhecimento, predestinou que todo crente seria feito como Cristo, e nada mais na Bíblia é predestinação. Essa predestinação é que Deus ordenou que alguém fosse salvo e outro perdido eternamente no inferno não está dentro das capas deste Livro.... Deus ordenou desde a fundação do mundo que se você confiar em Seu Filho, Ele fará você como Seu Filho. Isto é o que temos aqui.... Aqueles que Deus predestinou para ser como Cristo, Ele chamou – não antes de os salvarem, mas quando Ele os salvou, Ele os chamou para ser como Ele.... Não é que no passado Deus chamou você e não chamou alguma outra pessoa. A predestinação de Deus está sendo realizada agora. Na eternidade passada Ele determinou que você seria como Jesus, e agora que você é salvo Ele chama você, que, enquanto estiver aqui, deve anunciar o Senhor Jesus Cristo.” (Mensagem proferida na manhã de domingo, 1 de março de 1942, sobre Rm 8.29-32)
Eleição e o Que Ela Envolve
Vindo para o termo eleição, aqui também tem havido conclusões precipitadas. Alguns teólogos podem se sentir estimulados, baseando seu raciocínio na filosofia, a encaixá-la em um sistema rígido que tenta explicar tudo do início ao fim. Mas não segue que tais proposições sejam as únicas explicações. Pode ser vista na concepção de muitos bem conhecidos escritores que a eleição amplamente envolve: (a) a comunidade ou corpo como um todo (indivíduos compondo o corpo); (b) tem a ver com serviço ou testemunho para o mundo como parte do plano de Deus; e (c) faz menos referência ao passado e mais ao futuro daqueles que são chamados de Deus. Além disso, a palavra eleitos é tomada por alguns como sendo mais um título e pode se referir aos indivíduos conforme relacionados com a posição, privilégios, ou ofício. Os seguintes excertos exibem vários aspectos do assunto.
O Dr. H. C. G. Moule disse da eleição: “É sempre (com uma exceção, Rm 9.11; veja abaixo) relacionada com uma comunidade, e por isso tem estreita afinidade com os ensinos do Velho Testamento sobre a posição privilegiada de Israel como a raça eleita, escolhida. Os objetos da eleição no Novo Testamento são, de fato, o Israel de Deus, a nova raça, regenerada, chamada para privilégios e serviços especiais.... Assume-se aí (2Pe 1.10) que o cristão, batizado e um adorador, pode, todavia, precisar fazer ‘firme’ sua ‘vocação e eleição’ como um fato para sua consciência. Isto implica condições na ‘eleição’ que de longe transcende os testes de rito sagrado e sociedade externa.” (International Standard Bible Encyclopedia, p. 925)
Em What Baptists Believe, H. H. Hobbs demonstra o assunto como segue: “A palavra ‘eleição’ não aparece no Velho Testamento e é encontrado em somente seis versos do Novo Testamento. A palavra ‘eleitos’ aparece quatro vezes no Velho Testamento e dezesseis vezes no Novo Testamento. A palavra traduzida como ‘eleitos’ é muitas vezes a mesma ‘escolhidos.’... A eleição não é mecânica. Ela envolve um Deus que é amor e um homem que é moralmente responsável. Nunca aparece na Bíblia como uma violação da vontade humana.... Quando reduzida a seus elementos mais simples, a eleição é dupla. Primeiro, Deus elegeu um plano de salvação que Ele cumpriu em Cristo. O homem pode rejeitar este plano ou aceitá-lo.... Segundo, Deus elegeu um povo para fazer conhecido Seu plano de salvação escolhido.... Assim a eleição é para a salvação e para o evangelismo. Em ambos, o livre-arbítrio do homem determina o resultado final. Pelo livre-arbítrio os homens podem escolher ser salvos mas escolher ser cristãos infrutíferos. Deus proíba! Os homens podem escolher tanto ser salvos como também escolher ser cristãos frutíferos.” (pp. 106-107)
O Dr. Frederic W. Farr foi pastor da Calvary Baptist Church em Los Angeles e foi também primeiro professor de teologia no Los Angeles Baptist Theological Seminary. Ele disse: “O propósito de Deus na redenção é abrangente e de longo alcance... As várias eleições de Deus, como a dos judeus ou até da Igreja, não são apenas para seus benefícios, mas como meio para um fim. Esta concepção elimina as objeções capciosas contra a eleição. O propósito de Deus... busca e assegura o maior bem possível coletivamente.” (A Manual of Christian Doctrine, p. 103)
O Dr. W. H. Griffith Thomas coloca desta forma: “O resultado e propósito desta seleção é visto no serviço que Deus pretende que o homem ou nação eleita presta.... São Paulo não está preocupado tanto com indivíduos como quanto com as nações e massas de pessoas. Ele fala da escolha de Deus de Israel, não para a vida eterna como tal, mas para o privilégio e dever de receber Sua graça a fim de trabalhar por e com Ele para o estabelecimento de Seu reino.... Os homens escolhidos de Deus são os homens de Sua ‘escolha,’ e por todas as Escrituras Seus homens escolhidos... suportaram serviços sacrificantes corajosos, difíceis, em favor dos outros.” (Epistle to the Romans, Vol. II, p. 229)
O Dr. H. H. Rowley é um estudioso, professor e autor britânico batista largamente reconhecido. Sua experiência é batista. Poucos anos atrás ele pronunciou uma série de palestras no Spurgeon’s College, Londres. Ele se referiu à sua grande dívida com Charles Haddon Spurgeon. Seus discursos foram publicados como The Biblical Doctrine of Election. O carro-chefe do livro é mostrar que a eleição tem a ver com o serviço de Deus e testemunho ao mundo, se de Israel ou da Igreja, e as responsabilidades legadas àqueles que entram na esfera envolvida.
Tendo lidado extensivamente com a eleição de Israel, o Dr. Rowley virou sua atenção para a Igreja, dizendo: “No ensino do Novo Testamento a Igreja é a eleita, e a Igreja consiste daqueles que têm se rendido ao poder de Cristo, e à Sua obediência.... A igreja é eleita porque é a companhia dos eleitos.... Todos que pertenciam à comunidade da Igreja Cristã eram considerados como eleitos.” (pp. 168-170)
E muito extensiva é sua demonstração de que a eleição é para serviço: “Quem Deus escolhe, Ele escolhe para serviço. Há variedade de serviços, mas tudo é serviço, e todo serviço é para Deus.... A divina eleição diz respeito exclusivamente ao serviço divino... A eleição é para serviço. Não se deve ignorar o fato de que ela carrega consigo mesma privilégios. Pois no serviço de Deus está o maior privilégio e honra para o homem.... Para aqueles que desejosa e conscientemente aceitam a tarefa para a qual são chamados, os recursos de Deus estão abertos para o cumprimento de suas missões, e aqui novamente é um alto privilégio. Todavia nunca é primeiramente para o privilégio mas para o serviço que os eleitos são escolhidos.... Sua eleição é para serviço, e é somente válida à medida que, e contanto que, eles cumpram esse propósito.... A queixa contra a doutrina bíblica da eleição, que é injusta, é aqui, mais que em qualquer outro lugar, mostrada ser totalmente descabida. Pois o que geralmente querem dizer através da queixa é que é injusto que os eleitos sejam favorecidos. Tenho insistido em todas estas palestras que enquanto há favor e honra em ser escolhido por Deus, Sua eleição sempre tem seu lado inverso no serviço que ela envolve. Mas aqui pareceria que, se há injustiça, é dirigida contra o eleito e não em seu favor. Sua é uma herança de sofrimento.... Sempre a eleição e a resposta no serviço e a lealdade andam juntas, e a recusa final do serviço é igualmente a renúncia da eleição.... Aqueles que deixam de responder evidenciam que a eleição na verdade não transforma o homem em uma marionete e elimina a sua vontade.” (pp. 42, 45, 11, 117-118, 120)
Robert Tuck, um outro sábio escritor britânico, no segundo de seus largos volumes de Dificuldades Bíblicas, tem algumas palavras sobre “A Eleição Divina”: “O que podemos claramente ver no tratamento divino com as raças, nações, famílias, e indivíduos, é uma seleção divina de alguns para formas especiais de serviço em relação aos, e para o benefício dos, outros.... Os dons, ou as disposições, da nação ou indivíduo, capacitam-nos, no plano divino, para esse particular cargo de serviço.... Deste ponto de vista torna-se claro que a eleição de Deus diz respeito a disposição e dom, e conseqüentemente posição e serviço. Mas a eleição divina nunca deveria ser apresentada como assumindo que ela se relaciona com individualidade ou destino.” (A Handbook of Biblical Dificulties, segunda série, p. 472)
Similarmente, o Dr. James Orr disse: “Há a ‘eleição’ divina; mas o amor eletivo, qualquer um pode ver, nunca é a eleição de um pela exclusão de outros, mas a eleição com vistas às maiores bençãos futuras dos outros.” (Sidelights On Christian Doctrine, p. 34)
Novamente, o fim da eleição em serviço é exibida por F. B. Meyer: “A nação hebraica foi maravilhosamente privilegiada.... Mas estes privilégios foram concedidos, não para a própria nação, mas para a benção da humanidade. Este é o significado da eleição. Há raças eleitas, nações eleitas, almas eleitas, para que eles possam ser capazes de comunicar o que eles receberam, e participar quaisquer vantagens que tenham sido confiados.” (Through The Bible Day by Day, Vol. VI, p. 88)
Igualmente penetrantes são as palavras de Sanday e Headlam em sua brilhante obra sobre Romanos, em um apêndice denominado “A Divina Eleição”: “Repetidamente o pensamento retorna, que Israel foi escolhido não meramente em seu próprio benefício mas como um instrumento na mão de Deus, e não meramente para exibir a força divina, mas também para o benefício das outras nações.” (International Critical Commentary, “Romans,” p. 249)
O Dr. M. G. Cambron declarou: “As palavras ‘escolhidos’ e ‘eleição’ têm a ver com o propósito de Deus no serviço. Israel foi aquela nação que Deus usou para pregar o Reino de Deus ao mundo.... A Igreja é aquela nação através da qual Deus está agora pregando o Reino de Deus.... O único requisito para se tornar os chamados de Deus é fé.” (The New Testament, A Book-by-Book Survey, p. 201, 203)
M. R. Vincent, presbiteriano e uma autoridade em línguas bíblicas, declarou uma vez: “Eklogē eleição, esta, e as palavras semelhantes, escolher, e escolhido ou eleito, são usadas para a seleção de Deus de homens ou mediações para missões especiais ou realizações; mas nem aqui nem em qualquer lugar no Novo Testamento há qualquer fundamento para a doutrina revoltante de que Deus predestinou um número definido da humanidade para a vida eterna, e o resto para a destruição eterna. Eleição – o ato da vontade santa de Deus de selecionar Seus próprios métodos, instrumentos e tempos para executar Seus propósitos – é um fato da história e de observação diária.” (Word Studies in the New Testament, Vol. IV, p. 16; Vol. III, p. 137)
Outro testemunho pode apropriadamente tomar seu lugar aqui. Sir Robert Anderson, bem conhecido entre os Plymouth Brethren, foi na verdade associado dos presbiterianos ingleses. Ele foi conhecido geralmente por assumir a posição calvinista. Suas obras passaram por muitas edições. Da décima terceira edição, revisada, de uma de suas obras está esta citação: “A expressão bíblica ‘eleitos de Deus’... como ‘primícia,’ é um título de dignidade e privilégio, aplicável exclusivamente aos cristãos. O pensamento proeminente na eleição, especialmente nesta dispensação da Igreja (como a própria palavra ecclesia sugere), é posição e privilégio, não livramento da perdição.... A doutrina teológica baseada sobre isto é muito freqüentemente pressionada além dos limites do ensino positivo das Sagradas Escrituras.... Não é que Ele tem graça para os eleitos e julgamento para os demais.... Não é que há misericórdia para uma classe favorecida, mas que há misericórdia, e nada mais, para todos sem distinção.... Se o perdão é pregado a todos, é porque todos podem compartilhá-lo.” (The Gospel and Its Ministry, pp. 76, 85-86)
O Dr. H. A. Ironside tinha isto a dizer: “D. L. Moody costumava colocar de uma forma bem simples: ‘Os eleitos são os “quem quiser;” os não eleitos são os “quem não quiser.”’ Isto é exatamente o que a Escritura ensina. O convite é para todos. Aqueles que o aceitam são os eleitos. Lembrem-se, nunca somos informados de que Cristo morreu pelos eleitos.” (Full Assurance, p. 92)
Novamente, o Dr. Ironside disse, “‘Quem quer que’ significa quem quer que. Somente um teólogo tendencioso, com interesses pessoais, poderia alguma vez pensar que significasse somente os eleitos.” (What’s The Answer, p. 35)
Em sua obra sobre teologia, o Dr. E. Y. Mullins disse: “A eleição de Deus coage a vontade do homem, ou a deixa livre? A resposta é enfaticamente que a vontade do homem não é coagida, mas deixada livre. Em seu ato livre de aceitar Cristo e Sua salvação o homem é auto-determinado. Ele não teria feito a escolha se deixado a si mesmo sem a ajuda da graça de Deus. Mas quando ele escolhe, é seu próprio ato livre.... A graça não torna efetiva até que os homens respondam livremente a ela.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 344-345)
Um outro escritor batista, C. I. Daniel, colocou desta forma: “A doutrina da eleição incondicional de fato torna Deus alguém que faz acepção de pessoas. De fato é... uma doutrina totalmente estranha às Sagradas Escrituras. Pega um dos mais doces e mais graciosos ensinos do Senhor e o transforma no mais cruel e tirânico, fazendo o próprio Deus responsável diretamente pela condenação de todo pecador perdido.” (The Bible’s Seeming Contradictions, p. 45)
O pastor Edward Drew revela o lado prático assim: “O sujeito da eleição, como está no Novo Testamento, não é o que muitos pensam que é. A eleição no Novo Testamento não é que Deus outrora, nas eras passadas, determinou salvar um homem e levá-lo ao céu, e enviar um outro ao inferno. Isso não está na Bíblia.... Deus disse [verdadeiramente], ‘Meus eleitos são aqueles que acreditam no que eu digo.’ Eles são os eleitos.... Como você pode ser um dos eleitos? Deus determinou, bem distante no passado, que Ele teria um povo seleto que seria composto daqueles que cressem em Sua Palavra. E quem quiser pode vir e crer, e ser um do grupo seleto e eleito de Deus. Você pode fazer firme a sua vocação e eleição; e se você creu em Deus, e sabe que está salvo, você sabe que é um dos eleitos. Amados, isso é a eleição que temos no Novo Testamento.” (Estudos sobre 1 e 2 Tessalonicenses, mensagem, 12 de setembro de 1943)
Sobre o aspecto avançado, ou o objetivo a ser visto na eleição, as seguintes declarações tocam ainda mais nesse princípio. O Dr. F. B. Meyer disse: “Note para que você é eleito. Somos eleitos para obediência. Não meramente que devemos escapar da pena devida ao pecado.... Eleitos para estarmos mais próximos de Cristo, pois assemelhando a Ele mais intimamente no ministério, e devoção, e amor.... Somos escolhidos para obedecer; para servir; para aprender; para sofrer; para morrer diariamente – para que outros possam ser abençoados e ser salvos.... Há uma propósito divino que nos promete conduzir adiante para a beleza do caráter moral e uma obediência que é modelada segundo o padrão da de Cristo.” (Tried by Fire, pp. 12-13)
Um tanto similarmente o Dr. Nathan E. Wood disse: “Os homens, tanto maus quanto bons, são selecionados, não para salvaçao nem reprovação, mas para suas funções rumo à preparação daquele universo final, que deve ser finalmente realizado.... A seleção pode ser racial, nacional, ou de uma linhagem, sem incluir todo indivíduo e sem implicar que foi uma escolha para a vida eterna.... A seleção para a realização de um propósito divino não é, então, necessariamente uma eleição para a vida eterna.... Não é difícil descobrir qual é o propósito último de Deus na eleição.... Seu propósito passa por todas as coisas criadas para uma final ordem social, em que a justiça terá o reinado natural, exclusivo, e indisputado. A eleição de Deus assegura isto.” (The Person and Work of Jesus Christ, pp. 122-123, 127)
Em uma obra de H. C. G. Moule diferente da anteriormente citada, o autor disse sobre este aspecto do assunto, “Os eleitos são a Igreja... Brilhante é seu prospecto em Seu plano; não é nada menos que a ‘eterna glória’ de Sua presença acima; Ele os amará, Ele os manterá, até o fim.” (The Second Epistle to Timothy, Devotional Commentary, p. 84)
Uma obra não menos erudita do que o International Critical Commentary, disse: “Aqui o que está principalmente em vista não é o fato da ‘seleção,’ mas o fim para o qual a escolha foi feita.... A condição da fé está implicitamente contida. Todo homem que pela fé aceita a chamada é eklektos.” (T. K. Abbott, sobre Ef 1.4, p. 6)
No pequeno livro de E. Y. Mullins anteriormente citado, o autor encerrou sua curta parte sobre a eleição com estas palavras: “Toda incerteza desaparece na completa crença, garantida pelas Escrituras, que Deus guia, controla, e eficazmente deseja o glorioso resultado.” (Baptist Beliefs, p. 29)
Esta parte pode adequadamente ser encerrada citando algumas pessoas que mostram o que a predestinação e a eleição basicamente envolve.
H. H. Hobbs disse: “A predestinação... simplesmente significa que Deus predeterminou que aqueles que responderem afirmativamente ao Seu chamado ou eleição serão justificados, ou declarados justos, e além disso serão glorificados. Tudo isto está ‘de acordo com Seu propósito.’... A vontade soberana de Deus elege aqueles que devem ser Seu ‘sacerdócio real’ e ‘nação santa’ para a salvação de todos os homens. O livre-arbítrio do homem aceita ou rejeita esta relação.... Deus elegeu salvação para todos que, pela liberdade da vontade, recorrerão a Ele ou que satisfizerem as condições do plano eleito de salvação. Em suma, Deus proveu em Sua eleição tudo que é necessário para a salvação do homem.” (Fundamentals of our Faith, pp. 94, 98-99)
Sobre este tema geral, Oliver B. Greene disse: “Se Deus tem tudo pronto – eleito e escolhido – predestinado e fixo – por que Jesus pedia aos discípulos para orarem para que mais trabalhadores fossem enviados aos campos brancos para a colheita? Se alguns são eleitos ao céu enquanto outros não são – Se alguns são predestinados e outros não são – Se alguns são escolhidos para salvação e outros não são – Por que o Senhor Jesus disse, ‘Assim também não é da vontade de vosso Pai que está nos céus, que venha a perecer um só destes pequeninos’ (Mt 18.14)?... A Igreja como um corpo foi escolhida no começo pelo Deus Todo-Poderoso. A Igreja como um corpo foi escolhida para ser a Noiva de Cristo. Como um corpo foi escolhida, eleita, e predestinada para ser uma Igreja santa sem mácula ou ruga. Paulo não está sugerindo que alguns são escolhidos para ser salvos e outros são eleitos para ir para o inferno.” (Predestination, pp. 19, 28)
O recentemente falecido Dr. William G. Coltman, pastor de uma grande igreja batista na área de Detroit, contou a história de um homem que, na hora em que um pregador fez o apelo, replicou, “Bem, se eu sou um dos eleitos eu serei salvo de qualquer maneira, e se não, não há nada que eu possa fazer sobre isto.” Depois do que o pregador disse, “Deus ‘manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam’ [At 17.30]. Os comandos de Deus têm força legal, e se você ouvir atentamente irá se salvar. Mas você não ouse dizer nesse dia, ‘Eu não podia, porque eu não era um dos eleitos,’ porque isso não seria verdade. A razão de você recusar vir seria encontrado em seu amor pelo pecado, não em sua não eleição.” (Cathedral of Christian Truth, p. 238)
Divindade do Espírito Santo
A Dinvidade do Espírito Santo
Gn 1.12; At 5.3,4; Rm 8.9-17; 1 Co 6.19,20; Éf 2.19-22
Na liturgia da Igreja, freqüentemente ouvimos as palavras: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, amém". Esta expressão é uma fórmula trinitariana que atribui divindade a todas as três pessoas da Trindade.
Semelhante, cantamos:Glória seja dada ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no principio, é hoje e para todos sempre, eternamente. Amém, Amém.
Este cântico atribui glória eterna às três pessoas da Trindade. O Espírito Santo recebe glória junto com o Pai e o Filho.
Enquanto a divindade de Cristo foi debatida durante séculos e o debate continua ainda hoje, a divindade do Espírito Santo geralmente é aceita na Igreja. A razão pela qual a divindade do Espírito Santo nunca tenha sido alvo da controvérsia, talvez seja porque nunca assumiu a forma humana.
A Bíblia claramente representa o Espírito Santo como possuindo atributos divinos e exercendo autoridade divina. Desde o século IV, praticamente todos os que concordam que ele é uma pessoa também concordam que o Espírito é divino.
No Antigo Testamento, o que se diz de Deus freqüentemente também se diz do Espírito de Deus. As expressões "Deus disse" e o "Espírito disse" são repetidamente intercambiadas. Estes padrão continua no Novo Testamento; talvez em nenhum outro texto isso fique tão claro como em Atos 5.3,4, onde Pedro diz: "Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo?... Não mentiste aos homens, mas a Deus". Resumindo, mentir ao Espírito Santo é o mesmo que ao próprio Deus.
As Escrituras também se referem aos atributos divinos do Espírito Santo. Paulo escreve sobre a onisciência do Espírito em 1 Coríntios 2.10,11: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus”. O salmista atesta sobre a onipresença do Espírito no Salmo 139.7,8: "Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também;" . O Espírito também operou na criação, movendo-se sobre a face das águas (Gn 1.1,2).
Como uma declaração conclusiva sobre a divindade do Espírito Santo, temos a bênção de Paulo no final da sua segunda carta aos Coríntios: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós." (2 Co 13.13).
Sumário1. A liturgia da igreja atribui divindade ao Espírito Santo.
2. O Antigo Testamento reconhece atributos e autoridades divinos do Espírito Santo.
3. O Novo Testamento reconhece atributos divinos do Espírito Santo.
Autor: R. C. SproulFonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br
Gn 1.12; At 5.3,4; Rm 8.9-17; 1 Co 6.19,20; Éf 2.19-22
Na liturgia da Igreja, freqüentemente ouvimos as palavras: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, amém". Esta expressão é uma fórmula trinitariana que atribui divindade a todas as três pessoas da Trindade.
Semelhante, cantamos:Glória seja dada ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no principio, é hoje e para todos sempre, eternamente. Amém, Amém.
Este cântico atribui glória eterna às três pessoas da Trindade. O Espírito Santo recebe glória junto com o Pai e o Filho.
Enquanto a divindade de Cristo foi debatida durante séculos e o debate continua ainda hoje, a divindade do Espírito Santo geralmente é aceita na Igreja. A razão pela qual a divindade do Espírito Santo nunca tenha sido alvo da controvérsia, talvez seja porque nunca assumiu a forma humana.
A Bíblia claramente representa o Espírito Santo como possuindo atributos divinos e exercendo autoridade divina. Desde o século IV, praticamente todos os que concordam que ele é uma pessoa também concordam que o Espírito é divino.
No Antigo Testamento, o que se diz de Deus freqüentemente também se diz do Espírito de Deus. As expressões "Deus disse" e o "Espírito disse" são repetidamente intercambiadas. Estes padrão continua no Novo Testamento; talvez em nenhum outro texto isso fique tão claro como em Atos 5.3,4, onde Pedro diz: "Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo?... Não mentiste aos homens, mas a Deus". Resumindo, mentir ao Espírito Santo é o mesmo que ao próprio Deus.
As Escrituras também se referem aos atributos divinos do Espírito Santo. Paulo escreve sobre a onisciência do Espírito em 1 Coríntios 2.10,11: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus”. O salmista atesta sobre a onipresença do Espírito no Salmo 139.7,8: "Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também;" . O Espírito também operou na criação, movendo-se sobre a face das águas (Gn 1.1,2).
Como uma declaração conclusiva sobre a divindade do Espírito Santo, temos a bênção de Paulo no final da sua segunda carta aos Coríntios: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós." (2 Co 13.13).
Sumário1. A liturgia da igreja atribui divindade ao Espírito Santo.
2. O Antigo Testamento reconhece atributos e autoridades divinos do Espírito Santo.
3. O Novo Testamento reconhece atributos divinos do Espírito Santo.
Autor: R. C. SproulFonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br
Inferno
InfernoOS MAUS SERÃO DESTINADOS AO INFORTÚNIO PERPÉTUO
A morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.Apocalopse 20.14,15
O secularismo sentimental da moderna cultura ocidental, com seu exaltado otimismo a respeito da natureza humana, sua idéia encolhida de Deus e seu ceticismo quanto a se a moralidade pessoal realmente importa — em outras palavras, seu declínio de consciência — torna difícil para os cristãos considerar seriamente a realidade do inferno. A revelação do inferno na Escritura pressupões uma profundidade de discernimento da santidade divina e da pecaminosidade humana e demoníaca que a maioria de nós não tem. Contudo, a doutrina do inferno aparece no Novo Testamento como algo cristão essencial, sendo nós chamados a compreende-la como Jesus e seus apóstolos a compreenderam. O Novo Testamento visualiza o inferno (geena, como Jesus o chama, o lugar de incineração, Mt 5.22; 18.9) como a morada final dos destinados ao castigo eterno no Juízo Final (Mt 25.41-46; Ap 20.11-15). Pensa-se nele como um lugar de fogo e escuridão (Jd 7.13), de choro e ranger de dentes (Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30), de destruição (2 Ts 1.7-9; 2 Pe 3.7; 1 Ts 5.3), e de tormento (Ap 20.10; Lc 16.23) — em outras palavras, de total angústia e infortúnio. Se, como parece, estes termos são simbólicos e não literais (fogo e escuridão seriam mutuamente excludentes em termos literais), podemos estar seguros de que a realidade, que está além da nossa imaginação, excede em terror o símbolo. O ensino do Novo Testamento acerca do inferno apavora-nos e faz-nos mudos de horror, assegurando-nos que, como o céu será melhor do que podemos sonhar, assim o inferno será pior do que podemos conceber. Tais são as perspectivas da eternidade, que precisam ser encaradas realísticamente agora. O conceito de inferno é o de uma relação negativa com Deus, uma experiência não tanto de sua ausência quanto de sua presença em ira e desagrado. A experiência da ira de Deus como um fogo consumidor (Hb 12.29), sua justa condenação por desafia-lo e agarrar-nos aos pecados que Ele detesta, e a privação de tudo aquilo que é valioso, agradável e conveniente será a figura da experiência do inferno (Rm 2.6,8,9,12). O conceito é formado pela negação sistemática de cada elemento na experiência da bondade de Deus, como os crentes a conhecem por meio da graça e como todo a humanidade conhece por intermédio de misericordiosas providências (At 14.16,17; Sl 104.10-30; Rm 2.4). A realidade, como acima foi dito, será mais terrível do que o conceito; ninguém pode imaginar quão ruim será o inferno. A Escritura vê o inferno como incessante (Jd 13; Ap 20.10). As especulações sobre uma “segunda oportunidade” após a morte, ou aniquilamento pessoal dos ímpios em algum estágio, não tem o endosso bíblico. A Escritura vê o inferno como auto-escolha; os que estiverem no inferno perceberão que sentenciaram a si mesmos ao castigo, amando as trevas e não a luz, preferindo não ter seu Criador como seu Senhor, escolhendo o pecado auto-indulgente do que a retidão autonegada, e (se conheceram o evangelho) rejeitando a Jesus em vez de ir a Ele (Jo 3.18-21; Rm 1.18,24,26,28,32; 2.8; 2 Ts 2.9-11). A revelação geral confronta toda humanidade com esta questão, e, deste ponto de cista, o inferno parece um gesto de respeito de Deus pela escolha humana. Todos recebem o que realmente escolheram, seja para estar com Deus para sempre, adorando-o, ou sem Deus pra sempre, adorando a si mesmos. Os que estiverem no inferno saberão não somente que merecem por seus feitos, mas também que em seus corações o quiseram.
O propósito do ensino bíblico sobre o inferno é levar-nos a apreciar, acolher com gratidão e preferir racionalmente a graça de Cristo, que mos livra dele (Mt 5.29,30; 13.48-50). É realmente uma compaixão pela humanidade o fato de Deus ser tão explícito na Bíblia acerca do inferno. Não podemos dizer que não fomos alertados.
Autor: J. I. PackerFonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista.
A morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.Apocalopse 20.14,15
O secularismo sentimental da moderna cultura ocidental, com seu exaltado otimismo a respeito da natureza humana, sua idéia encolhida de Deus e seu ceticismo quanto a se a moralidade pessoal realmente importa — em outras palavras, seu declínio de consciência — torna difícil para os cristãos considerar seriamente a realidade do inferno. A revelação do inferno na Escritura pressupões uma profundidade de discernimento da santidade divina e da pecaminosidade humana e demoníaca que a maioria de nós não tem. Contudo, a doutrina do inferno aparece no Novo Testamento como algo cristão essencial, sendo nós chamados a compreende-la como Jesus e seus apóstolos a compreenderam. O Novo Testamento visualiza o inferno (geena, como Jesus o chama, o lugar de incineração, Mt 5.22; 18.9) como a morada final dos destinados ao castigo eterno no Juízo Final (Mt 25.41-46; Ap 20.11-15). Pensa-se nele como um lugar de fogo e escuridão (Jd 7.13), de choro e ranger de dentes (Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30), de destruição (2 Ts 1.7-9; 2 Pe 3.7; 1 Ts 5.3), e de tormento (Ap 20.10; Lc 16.23) — em outras palavras, de total angústia e infortúnio. Se, como parece, estes termos são simbólicos e não literais (fogo e escuridão seriam mutuamente excludentes em termos literais), podemos estar seguros de que a realidade, que está além da nossa imaginação, excede em terror o símbolo. O ensino do Novo Testamento acerca do inferno apavora-nos e faz-nos mudos de horror, assegurando-nos que, como o céu será melhor do que podemos sonhar, assim o inferno será pior do que podemos conceber. Tais são as perspectivas da eternidade, que precisam ser encaradas realísticamente agora. O conceito de inferno é o de uma relação negativa com Deus, uma experiência não tanto de sua ausência quanto de sua presença em ira e desagrado. A experiência da ira de Deus como um fogo consumidor (Hb 12.29), sua justa condenação por desafia-lo e agarrar-nos aos pecados que Ele detesta, e a privação de tudo aquilo que é valioso, agradável e conveniente será a figura da experiência do inferno (Rm 2.6,8,9,12). O conceito é formado pela negação sistemática de cada elemento na experiência da bondade de Deus, como os crentes a conhecem por meio da graça e como todo a humanidade conhece por intermédio de misericordiosas providências (At 14.16,17; Sl 104.10-30; Rm 2.4). A realidade, como acima foi dito, será mais terrível do que o conceito; ninguém pode imaginar quão ruim será o inferno. A Escritura vê o inferno como incessante (Jd 13; Ap 20.10). As especulações sobre uma “segunda oportunidade” após a morte, ou aniquilamento pessoal dos ímpios em algum estágio, não tem o endosso bíblico. A Escritura vê o inferno como auto-escolha; os que estiverem no inferno perceberão que sentenciaram a si mesmos ao castigo, amando as trevas e não a luz, preferindo não ter seu Criador como seu Senhor, escolhendo o pecado auto-indulgente do que a retidão autonegada, e (se conheceram o evangelho) rejeitando a Jesus em vez de ir a Ele (Jo 3.18-21; Rm 1.18,24,26,28,32; 2.8; 2 Ts 2.9-11). A revelação geral confronta toda humanidade com esta questão, e, deste ponto de cista, o inferno parece um gesto de respeito de Deus pela escolha humana. Todos recebem o que realmente escolheram, seja para estar com Deus para sempre, adorando-o, ou sem Deus pra sempre, adorando a si mesmos. Os que estiverem no inferno saberão não somente que merecem por seus feitos, mas também que em seus corações o quiseram.
O propósito do ensino bíblico sobre o inferno é levar-nos a apreciar, acolher com gratidão e preferir racionalmente a graça de Cristo, que mos livra dele (Mt 5.29,30; 13.48-50). É realmente uma compaixão pela humanidade o fato de Deus ser tão explícito na Bíblia acerca do inferno. Não podemos dizer que não fomos alertados.
Autor: J. I. PackerFonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista.
Predestinação II
A Doutrina Católica admite a predestinaçãoRevista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, osb.Nº 5, Ano 1958, Página 184.3) “Afinal a doutrina católica admite ou não a predestinação? Em que se distinguiria do fato ou do destino a predestinação?”Abordamos aqui uma das questões mais elevadas da fé cristã. Para penetrá-la, o estudioso tem que se resolver a não se deixar levar pelo sentimentalismo nem pelo antropocentrismo. Mas estritamente pelos dados da Revelação, que é sobrenatural (não, porém, anti-natural) e teocêntrica.A questão da predestinação se prenda à do mal, de que trata “Pergunte e Responderemos” nº 5/1957 qu. 1. Tenha-se em vista o que aí se diz: 1) a possibilidade de errar é inerente ao conceito mesmo da criatura; 2) esta possibilidade se realizou no mundo quando o primeiro homem cometeu livremente o erro ou o mal moral, o pecado; 3) os males físicos (misérias e morte) são conseqüências do pecado; 4) a culpa dessas desordens recai em última análise sobre o livro arbítrio do homem, não sobre Deus; 5) Este se apiedou da criatura, tomando a sua sorte na Encarnação e na morte de cruz, a fim de dar valor salvífico ao sofrimento.Entremos agora no tema da predestinação. I. Conceito e existência da predestinaçãoPor predestinação entende-se em Teologia o desígnio, concebido por Deus, de levar a criatura racional (o homem) ao fim sobrenatural, que é a vida eterna. Note-se logo que este desígnio tem por exclusivo objeto a bem-aventurança celeste; não há predestinação para o mal ou o inferno.A Sagrada Escritura atesta amplamente a existência de tal desígnio no Criador. De um lado, ela ensina que a Boa Notícia da salvação deve ser anunciada a todos os povos (cf. Mt 28,19) e que Deus quer “sejam salvos todos os homens e cheguem ao conhecimento da verdade” (cf. 1 Tim 2,4). De outro lado, ela também diz que há homens que se perdem (cf. Jô 17,12) e que o Senhor exerce uma providência especial para salvar os que não se perdem:“Sabemos que, com aqueles que O amam, Deus colabora em tudo para o bem dos mesmos, daqueles que Ele chamou segundo o seu desígnio. Pois, aqueles que de ante-mão Ele conheceu, Ele também os predestinou a reproduzir a imagem de seu Filho... E, aqueles que Ele predestinou, Ele também os chamou (à fé); os que Ele chamou, Ele também os justificou (mediante o batismo); os que Ele justificou, Ele também os glorificou” (Rom 8,28-30).Cf. Ef 1,3-6; Rom 9,14; 11,33; Mt 20,23; 22,14; 24,22-24; Jô 6,39; 10,28.Na base destes textos, não resta dúvida entre os teólogos, desde o início do Cristianismo, sobre o fato da predestinação. Vejamos agora um ponto mais árduo, que éII. O modo como Deus predestinaEstá claro que o homem, como ser essencialmente relativo, depende do Criador não somente quanto ao seu existir, mas também quanto ao agir; já que ele nada é por si mesmo, também nada pode por si. É Deus, pois, quem lhe outorga o dom de praticar atos bons e, mediante os seus atos bons, chegar ao último fim, à bem-aventurança eterna. Esta conclusão se torna particularmente imperiosa se se tem em vista o caso do cristão: este é chamado a um fim sobrenatural (a visão de Deus face a face), objetivo que, ultrapassando todas as exigências da natureza, só por graça de Deus sobrenatural pode ser alcançado.Estas proposições, claras em si mesmas, suscitam sério problema desde que se indague: como conciliar a primazia da ação de Deus no homem com a liberdade de arbítrio da criatura? Não se torna vã esta última debaixo daquela? Ou, vice-versa, não deve aquela retroceder para que seja esta salvaguardada?A fim de resolver a questão, dois sistemas são propostos pelos teólogos:1) o sistema molinista: segundo L. Molina S. J. (+ 1600), Deus oferece a sua graça a todo homem; este, posto diante da oferta, livremente escolhe aceitá-la ou não; caso a aceite, a graça se torna eficiente, e induz o homem a praticar o bem.Estendendo a sua doutrina à questão da predestinação, Molina ensinava que Deus, desde toda a eternidade, na sua “ciência média”, prevê como cada um dos homens se comportaria com relação à graça nas mais variadas circunstâncias da vida. Diante desta visão, o Criador decreta colocar tal indivíduo em tais e tais circunstâncias em que Ele sabe que a criatura aceitará a graça, e assim irá merecendo a salvação eterna. Desta forma. Deus predestina para a glória, mas - note-se bem - praevisis meritis, depois de haver previsto os méritos da criatura.2) o sistema tomista (que tem por pioneiro Domingos Banes O.P. (+ 1604): partindo do princípio de que nada, absolutamente nada, pode haver na criatura que não lhe venha de Deus, ensina que a graça é eficaz por si mesma, anteriormente a qualquer determinação ou atitude do homem; não é este quem determina aquela, mas é a graça que predetermina a este, não moralmente apenas (por meio de exortações), mas fisicamente (por sua moção intrínseca, soberana). Contudo a graça por si eficaz não extingue a liberdade de arbítrio do homem; ao contrário, movendo e predeterminando a criatura, move tudo que nesta se encontra, isto é, as faculdades de agir e o livre arbítrio mesmo; ela dá ao homem não somente agir, e tal agir determinado, mas também a modalidade com que o homem costuma agir, isto é, a liberdade; em conseqüência, sob a graça eficaz (na doutrina tomista) o homem pratica infalivelmente a ação à qual Deus predetermina, mas pratica-a sem perder a sua liberdade, antes atuando-a plenamente. Como se vê, o tomismo é rigorosamente lógico: partindo dos conceitos de Criador e criatura, ensina que Deus deve ser o Autor de tudo aquilo de que também o homem é autor, até mesmo desta determinação do homem e do modo livre de tal determinação; o homem deve a Deus não somente a sua faculdade de livre arbítrio, mas também o uso preciso (tal e tal modo de usar) dessa faculdade.No tocante à predestinação, o tomismo conseqüentemente afirma que Deus a decreta ante praevisa merita, antes de prever os méritos do homem: de maneira absoluta e independente, o Criador determina levar tal e tal criatura à glória eterna e, por conseguinte, conferir-lhe os meios necessários para que a alcance. Em conseqüência desta predestinação é que o homem produzirá atos meritórios no decorrer da sua vida; estes são gratuitos dons de Deus; não desencadeiam o amor divino, mas, ao contrário, são desencadeados pelo liberal beneplácito do Senhor.Nos séculos XVII/XIX alguns teólogos procuraram sistemas intermediários, conciliatórios entre o tomismo e o molinismo; recaíram, porém, indiretamente neste ou naquele. De fato, os dois sistemas são irredutíveis um ao outro. Quando foram pela primeira vez propostos na história, o Papa Clemente VIII instituiu em Roma uma Comissão ou Congregação dita “de autxiliis” (“concernente aos auxílios da graça”) a fim de os julgar. As sessões da Congregação prolongaram-se de 2 de janeiro de 1958 a 20 de agosto de 1607, tendo os Soberanos Pontífices tomado parte pessoal nos estudos respectivos. Finalmente o Papa Paulo V resolveu suspender o exame da questão, declarando lícito ensinar qualquer dos dois sistemas, pois nenhum deles envolve heresia (um é outro salvaguardam suficientemente a soberana ação de Deus e o livre arbítrio do homem, embora o tomismo mais acentue aquela e o molinismo mais realce a este). O Papa bento XIV confirmou esta decisão em um decreto de 13 de julho de 1748.Fica, portanto, aos teólogos e fiéis católicos a liberdade de optar entre as duas teorias acima propostas. O católico tanto pode ser tomista como pode ser molinista; a ação do Espírito Santo em sua alma, a sua conaturalidade com as coisas de Deus lhe sugerirão a atitude a tomar.Há, porém, três pontos atinentes à doutrina estudada sobre os quais a Santa Igreja se pronunciou definitivamente, de sorte que tanto molinistas como tomistas os professam indistintamente:1) a conversão do pecador a Deus, ou seja, o ato inicial da via da salvação já é efeito da graça de Deus; é Deus quem primeiramente se volta para o pecador e lhe dá os meios de se colocar em estado de graça; não é o homem quem por suas forças naturais começa a procurar o Senhor, recebendo d’Este em resposta a graça sobrenatural;2) a perseverança final ou a morte em estado de graça (a boa morte) é dom especial de Deus: não decorre dos mártires anteriores da pessoa, mas pode ser implorada pela oração;3) a predestinação “adequada” (isto é, o desígnio que compreende todos os auxílios sobrenaturais, desde a graça da conversão até a graça da boa morte) é gratuita ou anterior à previsão dos méritos da criatura. E isto, tanto no tomismo como no molinismo... Também este reconhece que é Deus quem gratuitamente decreta colocar o homem em tais e tais circunstâncias nas quais Ele prevê que a criatura fará bom uso da graça (o tomismo diria:... nas quais Ele predetermina a criatura a fazer livremente bom o uso da graça).As três proposições acima foram definidas por concílios, cujas declarações se encontram em Denziger-Umberg, Enchiridion Symbolorum 176-180; 183-189, 191-193;200.III. Um juízo sobre a questão1. A muitos fiéis impressiona o fato de que Deus predestina positivamente alguns para a glória celeste, deixando que outros se percam - fato firmemente atestado pela Sagrada Escritura e pela Tradição cristã. Perguntam se não haveria nisto injustiça da parte do Senhor.- Não; em absoluto. Considere-se quea) Deus a ninguém criou com destino positivo para a perdição ou a condenação.Ensinavam o concílio de Valença (França) em 855: “In malis ipsorum malitiam (Deus) praescivisse, quia ex ipsis est, non praedestinasse, quia ex illo non est. - Deus viu de ante-mão a malícia dos maus, porque provém deles, mas não a predestinou, porque não se deriva d’Ele” (Dz 322).Foi condenada pelo episcopado da Gália no séc. V a seguinte proposição: “Cristo, Senhor e Salvador nosso, não morreu pela salvação de todos...; a preciência de Deus impele o homem violentamente para a morte; e todo aquele que se perde, perde-se por vontade de Deus...; alguns são destinados à morte, outros predestinados à vida” (carta de Fausto de Riez, ed. Migne lat. T. 53,683).Outras declarações da Igreja se encontram em Dz 200; 316-318; 321-323; 514; 816; 827.b) Deus, porém, criou seres finitos (só pode haver um Infinito, Deus), aos quais é inerente a falibilidade, o “poder errar”.c) Esta falibilidade, sendo congênita, naturalmente tende a se atuar num ou noutro. Deus concede, sim, a qualquer indivíduo humano os meios necessários para que se salve pois quer a salvação de todos os homens (cf. 1 Tim 2,4); isto é doutrina freqüentemente afirmada pela Escritura e a Tradição (cf. Dz 318); nenhum desses meios de salvação, porém, força a liberdade humana; esta é sempre respeitada por Deus.d) Por conseguinte, a menos que o Criador intervenha extraordinariamente, algumas criaturas, em virtude da sua falibilidade natural, se encaminham para a ruína eterna; o Criador não lhes faz injustiça se permite que se percam, apesar de terem os meios necessários para não se perderem.e) Dado, porém, que Deus se empenhe infalivelmente pela salvação de alguns (muito ou poucos) homens, predestinando-os à glória eterna, Ele faz ato de pura misericórdia beneficia gratuitamente a estes, sem lesar em absoluto aos outros, que, por sua natural falibilidade e apesar dos auxílios divinos, se perdem (cf. a parábola dos operários na vinha, comentado em “Pergunte e Responderemos” 1/1958 qu. 8).O concílio de Quierzy na Gália em 853 declarava: “Quod quidam salvantur, salvantis est donum; quod autem pereunt, pereuntilum est meritum. - O fato de que alguns se salvam, deve-se a um dom d’Aquele que os salva; o fato de que outros se perdem, deve-se ao mérito (mérito mau ou demérito) dos que se perdem” (Dz 318).Deus, no caso de uns, manifesta sua Bondade transcendente; no caso de outros patenteia sua Justiça; em todo e qualquer caso, porém, faz reluzir sua soberana Liberdade, a qual não pode ser necessitada por bem algum criado, pois ela é o princípio e a causa de qualquer bem: “Que é que te distingue dos outros? E que tens que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te vanglorias como se não o tivesses recebido?” (1 Cor 4,7).A predestinação, portanto, não implica injustiça em Deus; não deixa, porém, de constituir um mistério, mistério porque, com nosso intelecto finito, não vemos plenamente como em Deus se conciliam Justiça, Misericórdia e Liberdade, embora não nos seja plausível duvidar de que de fato se associam em estupenda harmonia (na visão face a face de Deus, no céu, contemplaremos a sábia combinação dos atributos divinos). - Em particular, não podemos assinalar motivo por que Deus escolhe tal homem para a glória, e não tal outro, por que escolheu Pedro e não Judas; lembremo-nos de que não são os méritos do homem que a este atraem o amor de Deus, mas é o amor antecipado de Deus que proporciona à criatura os respectivos méritos Sto. Agostinho admoestava: “Quare hunc trahat (Deus) et ilum non trahat, noli velle diiundicare, si non vis errare. - Porque é que Deus atrai a este e não aquele, não queiras investigar, se não queres errar” (In Io tr. 26 init.). Ante os desígnios do Criador, tome a criatura uma atitude de silêncio reverente; confie em Deus, cuja sabedoria e santidade certamente ultrapassam as de qualquer ser humano.2. A luz dos procedentes, vê-se que sentido tem a frase de São Paulo: “Deus quer que todos os homens sejam salvos” (1 Tim 2,4). São Tomaz (I Sent. D. 46, q. 1, a.1) a distingue nos termos seguintes:a) Deus quer que se salvem todos os homens, enquanto os considera em si, como criaturas capazes de apreender a vida eterna, abstração feita das circunstâncias particulares em que tal ou tal homem se possa encontrar; deus a ninguém criou senão para a vida eterna;b) O Criador, porém, não pode (não pode, por causa de sua Justiça) querer que todos se salvem, se considera cada um nas circunstâncias precisas em que ocorre ao Divino Juiz; alguns, com efeito, se Lhe apresentam como criaturas que deliberadamente rejeitam ser salvas ou recusam estar com Deus, pois se rebelaram conscientemente (por um pecado grave) contra Ele e permanecem impenitentes ou apegados ao pecado; o Senhor respeita o alvitre de tais homens e, em conseqüência, só pode querer assinalar-lhes a sorte por que optaram (embora tenha feito tudo para se salvarem).É esta a famosa distinção entre “vontade antecedente” (isto é, que considera seu objeto em si, abstraindo das circunstâncias concretas em que ocorre) e “vontade conseqüente” (isto é, que considera o mesmo na situação precisa em que se acha). S. Tomaz ilustra a doutrina lembrando o que se dá com todo juiz justo: este, em tese, antes de examinar as causas judiciárias, quer que todo e qualquer homem permaneça em vida; dado, porém, que se apresente algum homicida, ele não pode (porque é justo) deixar de querer seja punido (e punido com a pena de morte, onde esta é imposta pela lei).IV. A atitude prática do cristãoO mistério da predestinação dos justos para a glória, embora apresente seus aspectos luminosos, tem suas raízes na insondável Magnificência divina; não podemos sempre assinalar a causa por que Deus outorga tal dom a tal pessoa. A quem o interrogasse a respeito. Ele diria com o Senhor da parábola: “Amigo, não cometo injustiça para contigo... Toma o que te compete, e vai-te... Não tenho o direito de dispor dos meus bens como me agrada? Ou tornar-se-á mau o teu modo de ver pelo fato de que Eu sou bom?” (Mt 20,13-15).Consciente disto, o cristão não se detém em perscrutar sutilmente o que está acima do seu alcance, preocupando-se com questões curiosas ou vãs atinentes à predestinação. Na orientação da sua conduta cotidiana, tenha o fiel ante os olhos as três seguintes proposições:1) Deus a ninguém absolutamente faz injustiça, nem no decorrer desta vida nem no momento do juízo final;2) Muito ao contrário, o Criador se comporta para com todos qual Pai cheio de amor ou como o primeiro Ator empenhado na salvação dos homens.Lembra o concílio de Trento, retomando palavras de Sto. Agostinho:“Deus não manda o impossível, mas, dando os seus preceitos. Exorta-te a fazer o que podes e a pedir-lhe a graça para o que não podes, e auxilia-te para que o possas” (Sto Agostinho, de natura et gratia 43,50; Denziger 804).Mais ainda:“Deus não abandona a não ser que primeiro seja abandonado. - Non deserit nisi prius deseratur” (Dz 804).3) A atitude prática do cristão encontras ótimo modelo em São Paulo:a) de um lado, o Apóstolo, consciente da eficácia e da responsabilidade do livre arbítrio, lutava qual bom atleta no estádio para conseguir a incorruptível coroa da vida (cf. 1 Cor 9, 24-27). No mistério da predestinação, muita coisa pode ficar oculta ao fiel; contudo nunca lhe restará dúvida sobre o fato de que Deus exige de cada um todo o zelo de que é capaz para chegar à salvação. Nisto se diferencia a doutrina tradicional cristã de qualquer fatalismo ou determinismo: Deus não retira ao homem o dom do livre arbítrio e da responsabilidade própria com que o quis dignificar; nem há força super-humana cega que de antemão torne vãos os esforços da criatura que procura o Criador. Portanto, errado estaria quem, com vistas à vida eterna, tomasse atitude desinteressada e passiva, baseada em raciocínio análogo ao seguinte: “Se tenho que quebrar a cabeça, nada me pode preservar desta desgraça; não importa, pois, que me atire ou deixe de me atirar à rua pela janela do quinto andar da casa”. Ó homem, nada há que determine a tua sorte eterna independentemente do teu livre arbítrio ! O decreto pelo qual Deus predestina alguém à salvação eterna, implica sempre que esta será obtida mediante a livre cooperação do homem.b) De outro lado, São Paulo, o lutador de Cristo, era feliz ao pensar na sua sorte póstuma; assim também o cristão. Para o Apóstolo, morrer equivalia a “dissolver-se para estar com Cristo” (cf. Flp 1,23), “deixar de ser peregrino na terra a fim de viver na casa do Senhor” (cf. 2 Cor 5,8). Todo discípulo de Cristo, embora reconheça a possibilidade de frustrar o seu último fim, tem confiança no Pai do céu e sabe que a procura sincera de Deus na terra não poderá ficar vã junto ao Pai; vive, por conseguinte, em demanda otimista da mansão celeste, consciente de que Deus o chama continuamente a esta após lhe ter preparado os meios para a conseguir. E, firme nesta crença, não permite que hipóteses inconsistentes tomem na sua mente o lugar de verdades seguras.