"Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Salmo 127:1).
Deus nos criou e designou o casamento e a família como a mais fundamental das relações humanas. Em nosso mundo de hoje em dia, vemos famílias atormentadas pelo conflito e arrasadas pela negligência e o abuso. O divórcio tornou-se uma palavra comum, significando miséria e dureza para os múltiplos milhões de suas vítimas. Muitos homens jamais aprenderam a ser esposos e pais devotados. Muitas mulheres estão fugindo de seus papéis dados por Deus. Pais que não têm nenhuma idéia de como preparar seus filhos estão assim perturbados pelo conflito com seus rebentos rebeldes. Outros simplesmente abandonam seu dever, deixando filhos sem qualquer preparação ou provisão.
Para muitas pessoas, hoje em dia, a frase familiar e confortadora "Lar, Doce Lar" não é mais do que uma ilusão vazia. Não há nada doce ou seguro num lar onde há o abuso, a traição e o abandono.
Haver uma solução? Poderemos evitar tais tragédias em nossas famílias? Poderão os casais jovens manter o brilho do amor e do otimismo décadas depois de fazerem os votos no casamento? Haverá esperança de recuperação dos terríveis erros do passado?
A resposta para todas estas perguntas é SIM! As soluções raramente são fáceis. A construção de lares sólidos não acontece por pura sorte. Somente pelo retorno ao padrão de Deus para nossas famílias poderemos começar a entender as grandes bênçãos que ele preparou para nós em lares construídos sobre a rocha sólida da sua palavra. Consideremos brevemente alguns princípios básicos ensinados na Bíblia sobre a família.
O Propósito Básico de Deus para a Família
Quando temos dificuldade com a geladeira, entendemos que o fabricante, que escreveu o manual do usário, sabe mais sobre o aparelho do que nós. Lemos o manual para resolver o problema. Quando vemos tantos problemas nas famílias de hoje, só faz sentido que nosso Criador, que escreveu o "manual do usuário", sabe mais a respeito da família do que nós. Precisamos ler o manual para achar como construir e manter bons lares. Encontramos estas instruções na Bíblia. Ela nos guia em cada aspecto do serviço a ele, incluindo a realização de nossos papéis na família.
Casamento
A família começa com o casamento. Quando Deus criou Adáo e Eva, ele revelou seu plano básico para o casamento: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Gênesis 2:24). Este plano é claro. Um homem ligado a uma mulher. Milhares de anos mais tarde, Jesus afirmou que este ainda é o plano de Deus. Ele citou este versículo e acrescentou: "Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" (Mateus 19:6). Este casamento é uma relação para toda a vida. Somente a morte deve cortar este laço (Romanos 7:1-3).
Deus aprovou as relações sexuais somente dentro do casamento. Não há nada de mal ou impuro sobre as relações sexuais dentro de um casamento aprovado por Deus (Hebreus 13:4). Esposos e esposas têm a responsabilidade de satisfazer os desejos sexuais (dados por Deus) aos seus companheiros (1 Coríntios 7:1-5).
Todas as outras relações sexuais são sempre e absolutamente erradas. Relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são absolutamente proibidas por Deus (Romanos 1:24-27; 1 Coríntios 6:9-11). Deus não criou Adão e João. Ele fez uma mulher, Eva, como uma parceira apropriada para Adão. As relações sexuais antes do casamento, mesmo entre pessoas que pretendem se casar, são condenadas por Deus (1 Coríntios 7:1-2, 8-9; Gálatas 5:19). As relações sexuais extra-conjugais são também claramente proibidas (Hebreus 13:4).
Filhos
Casais assim unidos diante de Deus pelo casamento gozam o privilégio de terem filhos. Deus ordenou a Adão e Eva e aos filhos de Noé que tivessem filhos (Gênesis 1:28; 9:1). Ainda que nem todas as pessoas tenham que se casar, e que nem todas terão filhos, é ainda o plano básico de Deus que os filhos nasçam dentro de famílias, completas com pai e mãe (1 Timóteo 5:14). Em lugar nenhum da Bíblia encontramos autorização para uma mulher ter relações sexuais para conceber um filho, antes ou sem casamento. A paternidade solteira, que está se tornando moda em nossa sociedade moderna é um afastamento do plano de Deus que terá sérias conseqüências para as gerações vindouras.
Papéis Dados por Deus Dentro da Família
Dentro desta estrutura do propósito Divino, consideremos os papéis que Deus atribuiu aos homens, mulheres e filhos.
Homens: Esposos e Pais
A responsabilidade dos esposos é bem resumida em Efésios 5:25: "Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela". O esposo tem que colocar as necessidades de sua esposa acima das suas próprias, mostrando devoção desprendida aos melhores interesses da "parte mais frágil" que necessita da sua proteção. Ele tem que trabalhar honestamente para prover as necessidades da família (2 Tessalonicenses 3:10-11; 1 Timóteo 5:8).
Os pais são especialmente instruídos por Deus para preparar seus filhos na instrução e na disciplina do Senhor (Efésios 6:4). Este é um trabalho sério e, às vezes, difícil, mas com resultados eternos! Os espíritos de seus filhos existirão eternamente, ou na presença de Deus ou separados dele. A maior meta de um pai para seus filhos deveria sempre ser a salvação eterna deles.
Mulheres: Esposas e Mães
Uma esposa tem um papel muito desafiador no plano de Deus. Ela tem que complementar seu esposo como uma auxiliar submissa, que partilha com ele as experiências da vida. As pressões da sociedade moderna para rejeitar a autoridade masculina não obstante, a mulher devota aceita seu papel como aquela que é cuidadosamente submissa ao seu esposo (Efésios 5:22-24; 1 Pedro 3:1-2). As mulheres de hoje em dia que rejeitam este papel dado por Deus estão na realidade difamando a palavra dele (Tito 2:5).
Deus instrui as mulheres para mostrarem terna afeição aos seus esposos e filhos, e a serem honestas e fiéis donas de casa (Tito 2:4-5). Apesar dos esforços de algumas pessoas para desvalorizar o papel das mulheres que são dedicadas a suas famílias, Deus tem em alta estima a mulher que é uma boa dona de casa e uma amorosa esposa e mãe. Tais mulheres devotas são também dignas de respeito e apreciação de seus esposos e filhos (Provérbios 31:11-12,28).
Filhos: Seguidores Obedientes
Deus também definiu o papel dos filhos. Paulo revelou em Efésios 6:1-2 que os filhos deverão:
1. Obedecer a seus pais. Deus colocou os pais nesta posição de autoridade e os filhos têm que respeitá-los. Muitas pessoas consideram a rebeldia de uma criança como uma parte comum e esperada do "crescimento", mas Deus coloca-a na lista com outros terríveis pecados contra ele (2 Timóteo 3:2-5).
2. Honrar seus pais. Os pais que sustentam, instruem e preparam seus filhos devem ser honrados. Jesus mostrou que esta honra inclui prover as necessidades dos pais idosos (Mateus 15:3-6).
Lares Piedosos Nestes Dias?
É, freqüentemente, muito difícil corrigir anos ou mesmo gerações de erros. Mas está claro que o único modo pelo qual podemos esperar ter boas famílias construídas nos princípios divinos é voltar ao plano que Deus tem revelado. Temos que estudar a Bíblia, aprender estes princípios, aplicá-los em nossas vidas, e ensiná-los aos nossos filhos e aos outros. Lembre-se, os benefícios serão eternos!
Você está construindo seu lar sobre a fundação da palavra de Deus?
- por Dennis Allan
PREDESTINAÇÃO E ELEIÇÃO
Poucas doutrinas das Escrituras são tão mal entendidas e conseqüentemente tão abusadas e pervertidas quanto essas duas doutrinas, mas a Escrituras as apresentam numa simplicidade relativa; se tal é o caso, por que então elas são tão mal entendidas e abusadas? A verdade é que essas doutrinas atacam a própria raiz do orgulho e vaidade do homem, e quando são entendidas e aceitas de modo correto, não deixam absolutamente nenhum espaço para o homem se regozijar ou se orgulhar em seus próprios feitos e realizações. Por esse motivo, o homem em seu orgulho e vaidade natural as rejeita, ou as modifica tanto a ponto de torná-las aceitáveis à sua mente orgulhosa.
Acerca da eleição, Abraham Booth disse:
Mas qual é a razão desse protesto contra a eleição? Se é que não estou muito enganado, dá para compreender esse protesto da seguinte forma. Essa doutrina põe o machado na raiz de toda excelência moral da qual nos gloriamos. Essa doutrina, em suas conseqüências naturais, demole todo subterfúgio do orgulho humano; já que não deixa nenhuma sombra de diferença entre um homem e outro, o motivo por que Deus deveria estimar e salvar esta pessoa, em vez daquela; mas ensina todos os que sabem e todos os que a adotam a descansar naquela máxima memorável; SIM, Ó PAI, PORQUE ASSIM TE APROUVE; reduzindo o assunto todo a graça divina e a soberania divina. — The Reign of Grace (O Reinado da Graça), p. 56. American Baptist Public¬ation Society, Philadelphia, sem data.
Um pregador idoso, amigo deste escritor, que desde então partiu para o Senhor, certa vez comentou que uma pessoa tinha de se converter para toda doutrina da Bíblia antes de realmente as aceitar, e em nenhuma doutrina é esse fato tão verdadeiro quanto no caso que estamos agora tratando. Este escritor passou por um longo período de conflito interno antes de chegar a aceitar essa doutrina; ele não tinha nenhuma pré-disposição para crer nela; aliás, ele estava inteiramente firme em sua oposição a ela, mas ele orava continuamente para que o Senhor lhe desse sabedoria e entendimento nas coisas espirituais, e o resultado foi esse. Até hoje, o orgulho carnal ainda se rebela contra essa doutrina, mas o espírito foi levado a se regozijar nela, achando nela grande consolo e segurança. É por causa desse grande conflito interno que o escritor não se envolve em argumentos e debates com aqueles que não crêem nessas doutrinas, pois ele crê que elas não são doutrinas que se pode aprender meramente com a sabedoria carnal, mas são doutrinas às quais devemos nos converter, e as quais só dá para aceitar pela graça. Tentar enfiar a Bíblia goela abaixo de outro crente raramente faz mais do que firmá-lo em sua oposição à doutrina proposta com tanto zelo. Isso não quer dizer que não podemos nos engajar em debate quieto e amistoso acerca dessas doutrinas ou outras da Palavra; isso podemos e devemos fazer, mas a qualquer momento que o debate vai além de amizade e tranqüilidade, é hora de terminá-lo, pois depois desse ponto não poderá haver proveito algum para nenhuma das duas pessoas.
Alguns rejeitam as doutrinas dos decretos de Deus completamente, dizendo que não seria justo no caráter de Deus oferecer decretos predeterminados quanto ao que virá a ocorrer no tempo. Contudo, Charles H. Spurgeon, num sermão sobre Efésios 1:5, respondeu bem a essa questão ao dizer:
É ao mesmo tempo uma doutrina das Escrituras e do bom senso, que tudo o que Deus faz no tempo ele predestinou fazer na eternidade. Alguns homens criticam a predestinação divina, e desafiam a justiça dos decretos eternos. Ora, se eles quiserem se lembrar de que a predestinação é o pano de fundo da história, como um plano de arquitetura, a execução do qual lemos nos fatos que acontecem, podem talvez obter uma leve pista para a irracionalidade de sua hostilidade. Nunca ouvi ninguém entre os mestres de forma maliciosa e deliberada criticar o modo como Deus trata suas criaturas humanas, mas ouvi alguns que nem mesmo ousariam colocar em dúvida a justiça de Seus conselhos. Se a coisa em si é certa, tem de ser certo que Deus tencionou fazer a coisa; se você não tem motivo para criticar os fatos, conforme você os vê na providência, você não tem base alguma para se queixar dos decretos, à medida que os acha na predestinação, pois os decretos e os fatos são apenas as semelhanças um do outro. Você tem algum motivo para criticar a Deus, que ele quis salvar você, e salvar a mim? Então por que você deveria criticar, pois as Escrituras dizem que ele predeterminou que ele nos salvaria? Não vejo, se o fato em si é compatível, o motivo por que o decreto deveria ser condenável. Não consigo ver razão alguma por que você deveria criticar a predestinação de Deus, se você não criticar o que realmente acontece como efeito dela. Que as pessoas apenas concordem em reconhecer um ato da providência, e quero saber como elas poderão, a não ser que se oponham descaradamente à providência, criticar a predestinação ou intenção que Deus fez com relação à providência. — Metropolitan Tabernacle Pulpit (Púlpito do Tabernáculo Metropolitano), p. 97. Pilgrim Publication, reimpressão, Pasadena, Texas, 1969.
De novo, de modo geral não é proveitoso pregar essa doutrina para pessoas perdidas, pois muitas delas estão procurando uma desculpa para continuar no pecado, e a perspectiva fatalista de “se vou ser salvo, serei não importa o que eu faça”, será rapidamente adotada, e a responsabilidade humana será removida imediatamente. Mas essa mesma coisa se aplica a muitas doutrinas amplamente diferentes das Escrituras, pois a pessoa perdida tem pouca compreensão espiritual, e muitas vezes usará os ensinos doutrinários como escudo ou defesa para continuar em sua maldade. Este escritor sabe de um exemplo em que a pregação do dever do dízimo para um homem não salvo foi utilizada como desculpa para não ser salvo, pois o homem perdido se isentava com a alegação de que “O pregador só estava interessado em conseguir mais dinheiro na igreja de modo que pudesse obter um aumento de salário”. Esse mesmo tipo de desculpa poderia ilustrar outros casos com relação a outras doutrinas também, de modo que quando dizemos que não é geralmente prudente pregar a predestinação e eleição para os perdidos, não queremos dizer isso com a exceção de outras doutrinas, mas só que a pessoa perdida tem necessidade de que apenas o evangelho lhe seja pregado. Tal indivíduo tem essa necessidade com quase qualquer outro assunto. J. M. Pendleton bem sabiamente diz que:
Deus começa com a eleição, mas o homem não pode. Ele deve começar com o chamado, e quando confirmado o seu chamado, confirma-se a eleição. O chamado é a única prova real da eleição. Portanto, veremos que o cerne da eleição é, nas mãos de um pecador, a mais difícil de todas as questões. A razão é que a eleição, não é da conta dele, e a nada que ele pode fazer com ela. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 112. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Ao estudar essas doutrinas, deve-se reconhecer que essas doutrinas são bem profundas, quase impenetráveis, e por esse motivo, só podemos nos apegar aos ensinos das Escrituras, e não ousamos ir além deles, pois em nada a mente humana é menos preparada para raciocinar do que ao lidar com as doutrinas da predestinação e eleição. Alguns usam esse próprio fato como desculpa para rejeitar essas doutrinas, como se jamais devêssemos aceitar qualquer coisa que não estejamos em condições de compreender plenamente; outros, não encontrando um jeito de reconciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana nesse assunto, escolheram repudiar a eleição soberana de Deus. Mas isso é deixar de entender completamente o ponto; pois se entendemos, ou se podemos reconciliar esses dois fatos, de modo algum determina a verdade dos dois; mas, precisamos deixar Deus ser Deus, e Lhe dar crédito por saber algumas coisas que nem sabemos nem entendemos. Reconciliar as Escrituras não é algo que compete a nós; o que nos compete é simplesmente aprendê-las e crer nelas. Na verdade, a reconciliação é necessária apenas entre inimigos, e as Escrituras não estão em inimizade consigo. O Dr. Richard Fuller, ao falar da predestinação e livre agência, bem disse que:
Mostrei que é impossível rejeitarmos uma dessas duas grandes verdades, e é igualmente impossível nossas mentes as reconciliarem. Mas aí, como em toda parte, a fé tem de vir ao nosso auxílio, ensinando-nos a descansar, sem duvidar, na veracidade de Deus; fazendo-nos lembrar que “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus”; e repreendendo a arrogância que exige que nosso intelecto penetre e reconcilie aqueles pensamentos da mente divina que estão tão acima de nossos pensamentos como os céus estão acima da terra. — Sermons, Second Series (Sermões, Segunda Série), p. 19. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1877.
Charles H. Spurgeon, num sermão sobre 2 Tessalonicenses 2:13 14, semelhantemente diz dessa doutrina:
Não está aqui nas Escrituras? E não é teu dever se prostrar diante delas, e humildemente reconhecer o que tu não entendes — recebendo-as como a verdade ainda que não entendas seu sentido? Não tentarei provar a justiça de Deus ao ter assim eleito uns e deixado outros. Não me cabe justificar meu Mestre. Ele falará por Si, ele assim o faz: — “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” — The New Park Street Pulpit (O Púlpito da Nova Rua Parque), Vol. I, p. 316. Zondervan Publishing House, reimpressão, Grand Rapids, Michigan, 1963.
Como seria tolo esperarmos que numa xícara de chá caiba o oceano, assim também seria tolo esperarmos poder entender inteiramente as grandes obras e propósitos do Todo-poderoso, e é apenas jactância imensa que fará da nossa própria ignorância a base para rejeitar o que as Escrituras apresentam como a verdade.
Espero lidar com esse assunto de um modo que não seja exaustivo, quero apenas observar três coisas principais acerca dessa doutrina, e confiar que o Espírito de Deus guiará nosso entendimento na verdade à medida que estudarmos.
I. A DEFINIÇÃO DE ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO.
Ambas dessas doutrinas serão consideradas juntas, pois muitas vezes se trata a eleição como um ramo da predestinação, e em outras vezes como equivalente à predestinação. O Dr. John Gill diz acerca dessas duas doutrinas:
Os decretos especiais de Deus com respeito às criaturas racionais comumente levam o nome de predestinação; embora se entenda isso num sentido amplo, para expressar toda coisa que Deus predeterminou…mas geralmente se considera a predestinação como consistindo de duas partes, e inclusive os dois ramos da eleição e reprovação, ambos com respeito a anjos e homens… Embora às vezes a predestinação tenha a ver apenas com esse ramo dela chamado eleição, e os predestinados significam apenas os eleitos. — Body of Divinity (Corpo da Divindade), Book II, capítulo 2, p. 176. Turner Lassetter, Atlanta, Georgia, 1950.
Considerando a partir desse ponto de vista negativo, deve-se observar que há muitas concepções erradas acerca dessa doutrina, e não será incorreto notar algumas delas de passagem.
(1) Alguns sustentam que a eleição é apenas para vocação, mas enquanto é verdade que às vezes se declare a eleição para a vocação ou um ofício, porém muitas vezes isso é uma conseqüência que se origina a partir de uma eleição para a vida eterna, em vez da própria eleição. “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (João 15:16). Aqui, é óbvio que a ordenação para ser frutífero é algo separado da eleição, embora necessariamente a pressuponha, e se origine dela.
(2) Outros sustentam que a eleição é unicamente um ato do homem: que, nas palavras de alguém: “Deus lança um voto em favor de vida eterna para você, e Satanás lança um voto contra, e o homem deve lançar o voto de decisão, quebrando assim o empate, e se elegendo”. As Escrituras que acabamos de citar, bem como muitas outras, definitivamente negam essa teoria; aliás, no que se refere à salvação, nunca se diz que o homem faz a eleição ou escolha; é um ato que é sempre estabelecido pelo Senhor. Se, como sustenta essa teoria, fosse o homem que fizesse a escolha, o povo de Deus não seria chamado de “os eleitos” — os escolhidos —, mas seria chamado de “os eleitores”. É estranho o modo como muitas vezes o homem, por suas próprias interpretações das Escrituras, faça parecer que o Senhor não sabe como dizer o que Ele quer dizer, e como se não se pudesse assim aceitar as Escrituras em seu sentido mais óbvio.
(3) Uma terceira concepção errada acerca da eleição, que sempre se baseia numa opinião distorcida dela, é que se é verdade que os homens são eleitos para a salvação, então jamais devemos pregar o evangelho para ninguém, nem nos esforçarmos de forma alguma para ver almas salvas, já que só Deus faz a eleição. Muitos que não crêem na eleição a distorcerão desse jeito a fim de ter um bode-expiatório, e alguns até daqueles que afirmam crer nela a distorcerão a fim de desculpar sua negligência, mas o dever dos cristãos de apresentarem o evangelho aos perdidos é de modo algum afetado pela eleição, desde que não há como conhecer o eleito a não ser pela sua resposta ao evangelho. Nosso dever é ser testemunhas de Jesus Cristo — apresentar o evangelho; a eleição para a vida eterna foi tratada numa eternidade passada, e será manifesta pelo Espírito aplicando a verdade salvadora à alma eleita a fim de regenerá-la e fazer com que confie no Salvador. Ainda que o homem não pudesse saber que os decretos de eleição de Deus eram tais que impediriam qualquer pessoa de chegar a se salvar, ou, por outro lado, fizessem com que toda alma perdida fosse salva, não afetaria minimamente o mandamento do Senhor para Seu povo de ser testemunhas fiéis de Sua verdade salvadora. O que Deus faz ou não faz não tem efeito algum em nossa responsabilidade de dar testemunho fiel acerca dEle.
(4) Ainda outros sustentam que na medida que essa doutrina é misteriosa, que não deveria pois ser pregada nem ensinada de forma alguma. Mas não é bem assim, pois não se pode ignorar nenhuma doutrina das Escrituras sem incorrer culpa séria diante de Deus; é necessário que os santos sejam informados da fonte e causa de sua salvação, para que em seu orgulho e prepotência não tentem tomar para si essa glória que pertence somente ao Senhor.
O que então é a eleição? A palavra significa simplesmente “escolher” e se refere à escolha eterna de homens indignos de ser os objetos da obra salvadora do Senhor no tempo. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). As definições seguintes poderão nos ajudar a entender as doutrinas da predestinação e eleição.
A eleição é o ato eterno de Deus, pelo qual em Sua vontade soberana, e por causa de nenhum mérito antevisto neles, ele escolhe certos homens pecadores para receber a graça especial de Seu Espírito, e assim se tornarem participantes voluntários da salvação de Cristo. — A. H. Strong, Systematic Theology (Teologia Sistemática) p. 779. Fleming H. Revell Company, 1954.
Falando de predestinação, o Dr. J. M. Pendleton diz:
A predestinação abrange o propósito da eleição, e também, conforme será mostrado, o propósito da “reprovação”, como tem sido chamada, que, como bem se disse: “nada mais é do que negar a alguns a graça que é transmitida a outros” (Hill’s Divinity [A Divindade do Hill], p. 561) Pode-se expressar esses dois propósitos assim: “Que Deus escolheu em Cristo certas pessoas da raça caída de Adão, antes da fundação do mundo, para a glória eterna, de acordo com Seu próprio propósito e graça, sem relação com a fé e obras antevistas deles, ou quaisquer condições que eles tenham cumprido”; e que Ele negou ao resto da humanidade Sua graça e os entregou à desonra, e o justo castigo de seus pecados. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 105. Ameri¬can Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
As Escrituras apresentam essa doutrina, não só com a terminologia de “eleição”, mas também sob os termos de “escolher”, “ordenar”, “designar”, “determinar”, “destinar” e “constituir”, pois essa doutrina envolve a determinação soberana de Deus de exercer tais dons e graças em homens caídos específicos a fim de fazer com que certamente venham a conhecer a salvação de Seu Filho. Por causa do caráter dos propósitos do Senhor, essa realização é sempre atribuída totalmente a Deus, e jamais ao homem. Nenhuma obra, mérito ou fé humana, ou real ou antevista, pode chegar a entrar na determinação desse assunto. Isso é óbvio a partir de Romanos 9:11: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)”. Ao se referir aos filhos que não haviam nascido, nem tinham feito nada de bom ou mau, e então ao se referir aos propósitos de Deus de acordo com a posição de eleição, mostra-se claramente que uma presciência de atos, mérito ou fé humana jamais entra no assunto, pois se entrasse, aí seria o lugar lógico para se fazer menção, mas o silêncio reina de modo supremo nesse exemplo.
Muitos sustentam uma eleição condicional — condicionada em alguma resposta humana, geralmente fé. Aliás, alguns pregadores mudaram a declaração das velhas confissões bíblicas de fé que quase todos os batistas costumavam sustentar de que “somos eleitos para Sua graça”, e deixaram seu texto assim: Somos “por condição eleitos para essa graça”. Isso soa bom para a mente orgulhosa e humanista do homem! Mas o fato das Escrituras é que, na gramática grega, existe apenas um tempo condicional, e a palavra “eleito” JAMAIS é nesse tempo.
E outro fato interessante que refuta a teoria acima acerca da eleição condicional é que em toda vez que aparece no Novo Testamento a palavra grega traduzida “eleito” ou “escolher”, quando Deus está fazendo a eleição, o verbo está na voz média. Isso é muito significativo, conforme mostra W. W. Goodwin.
Na voz média o sujeito é representado como agindo em si mesmo, ou de algum modo que tem a ver consigo. 1. Como agindo em si mesmo… 2. Como agindo por si mesmo ou com referência a si mesmo… 3. Como agindo num objeto que pertença a si mesmo. — A Greek Grammar (Gramática Grega), Section 1242, p. 267. Ginn & Company, Boston, 1892.
Por isso, NÃO DÁ para achar a causa da eleição no sujeito, assim escolhido, mas é devido totalmente por causa da determinação dAquele que faz a escolha. NÃO HÁ NADA NOS ELEITOS QUE MOVA DEUS A ESCOLHER ALGUM DELES, É TOTALMENTE DA GRAÇA.
A eleição, que se declara claramente ser eterna — isto é, antes que o tempo, o mundo, ou o homem tivessem vindo a existir. A única alternativa daqueles que determinaram não aceitar a soberania absoluta de Deus nesse assunto é baseá-la no mérito antevisto de algum tipo no homem, tal como fé, bondade ou utilidade; mas Romanos 9:11, citado acima, bem como o fato de que a fé, e aliás, “toda a boa dádiva”, se declara ser dádiva de Deus, anula essa teoria, e deixa a eleição ainda um ato soberano de Deus sem explicação a partir do lado humano do assunto. Será que Deus não tem o mesmo direito que nós temos, de exigir para si e escolher quem serão Seus amigos e parceiros a vida inteira? Se alguém tentar cobrar que Deus tem de lidar do mesmo jeito e grau com toda a humanidade, ele imediatamente se deparará com todos os tipos de dificuldades, pois Deus exige o direito soberano de fazer com quem é dEle conforme Ele quiser, como o dono da casa na parábola em Mateus 20:15: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” Se alguém chega a ser salvo, é mais do que merecimento, e se ninguém chegar a ser salvo, não haveria base alguma para queixa, pois todos merecem apenas o inferno. Em nenhuma outra esfera o homem raciocina de modo tão incoerente como na questão da eleição. Por exemplo, se o governador de um estado perdoa um presidiário da prisão estadual, ninguém imediatamente começa a gritar que a fim de ser justo, ele tem de perdoar todos os outros presidiários igualmente culpados. Todos compreendem que perdoar um criminoso é um ato de graça e misericórdia, não de justiça, e que direitos e merecimento nada têm a ver com isso; mas os propósitos de eleição de Deus são exatamente paralelos a isso.
Temos de nos lembrar de que a eleição é totalmente de Deus, que foi realizada na eternidade passada, que é para a salvação, e que inclui todos os meios necessários para cumprir a salvação, como está escrito: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13 14). Não resta assim nenhum espaço para o louvor do homem e suas obras ou atitudes, mas toda a glória é devida a Deus.
II. A ELEIÇÃO EM DETALHES.
Conforme já dissemos, a eleição é um ato totalmente de Deus, e o homem não tem parte nesse ato, como declaram com clareza as seguintes passagens: “E, se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma carne se salvaria; mas, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias” (Marcos 13:20). Essa é a primeira vez em que aparece no Novo Testamento a palavra grega eklegomai (eklektous ous exelexato), e enfatiza o fato de que é a escolha de Deus que constitui certas pessoas como eleitas. Não importa que essa referência tenha a ver com o período da Grande Tribulação, nem (como as objeções de alguns) que essa referência tenha a ver só com os judeus (o que não é verdade, pois embora inclua os eleitos de Israel, não está limitada a eles, mas abrange todos os eleitos que estavam vivendo na terra naquela época). Prova que os homens são eleitos por causa da escolha de Deus, não do homem. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). Outra vez é provada que Deus faz a escolha, mas se revela um fato adicional: não fomos escolhidos por causa de alguma santidade pessoal, mas em vez disso fomos escolhidos para essa condição, isto é, essa condição se origina da eleição de Deus. “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). De novo, a eleição é ato de Deus.
A eleição é também atribuída a Cristo nas seguintes passagens: “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido” (João 13:18). É óbvio que a referência não é à eleição para serviço, pois Judas Iscariotes havia sido escolhido para serviço, mas ele nunca foi salvo, e assim não poderia ter sido eleito para salvação. “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda… Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (João 15:16,19). Observe nesses últimos versículos que: (1) Cristo expressamente nega que o homem fez a escolha. (2) Que essa escolha não foi “para serviço”, como muitos afirmam que a eleição é, pois o serviço é algo que é em acréscimo à, e se origina da, eleição. (3) Essa eleição coloca os santos numa classe diferente do mundo. (4) O mundo odeia os santos porque eles foram eleitos por Cristo.
É verdade que um homem pode escolher servir a Deus, (Josué 24:15), mas tal escolha jamais se chama eleição, pois a eleição é sempre um ato divino quando tem relação com a salvação, que é geralmente o caso no Novo Testamento. A escolha dos homens de servir a Deus não significa nada quanto à sua eleição para a salvação, pois Judas Iscariotes havia escolhido, por suas próprias razões, seguir Cristo e, até certo ponto, servir a Deus, mas somos expressamente informados de que ele nunca foi salvo. Portanto, ele não era um dos eleitos.
Não só é declarada que a eleição é de Deus, mas que é também “em Cristo”, conforme está escrito: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo…” (Efésios 1:3-4). Com isso se quer dizer que todos os eleitos são englobados no Filho de Deus, e são aceitos diante do Pai apenas por causa dEle: “Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1:6). É inteiramente natural para os homens orgulhosos e egoístas buscarem, em algum lugar em si mesmo, a causa de sua aceitação diante de Deus — em suas obras, ou em sua fé, ou talvez em seu serviço potencial ao Senhor, mas tal não é a fonte da aceitação de homem algum diante do Senhor, pois se fosse, o homem só teria segurança na mesma medida da sua fidelidade contínua ao Senhor. Mas pelo fato de que “somos agradáveis no Amado”, e não por causa de qualquer coisa em nós mesmos, temos eterna segurança, e jamais poderemos nos perder; nossa aceitação se baseia nos méritos gloriosos de Jesus Cristo, e jamais poderão falhar enquanto Ele mantiver Seu caráter santo e imaculado. O próprio Jesus Cristo teria primeiro de pecar, antes que pudéssemos chegar a nos perder, e isso, é claro, é um assunto além das possibilidades. Portanto, a salvação de todo verdadeiro filho de Deus está eternamente resolvida e segura.
A eleição é pessoal, tratando com indivíduos; é verdade que Israel era uma nação escolhida, conforme está escrito: “Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome”, (Isaías 45:4), mas de longe a maioria das referências à eleição e aos eleitos trata não com a nação de Israel, mas em vez disso com os santos individuais de Deus. Alguns declararam que nunca se menciona eleição como tendo a ver com salvação, mas é sempre em referência a Israel como nação eleita, ou caso contrário é uma eleição para serviço. Só dá para explicar essa declaração por ignorância ou preconceito, pois as Escrituras declaram: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9). “E creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). E há numerosas outras passagens que, de forma explícita ou implícita, declaram que a salvação é o resultado direto da eleição.
Isso nos leva a observar outra coisa acerca da eleição, a qual os oponentes da doutrina bíblica da eleição ou não percebem ou então ignoram. A eleição não é a mesma coisa que a salvação. Os oponentes muitas vezes tentam fazer a doutrina parecer absurda dizendo: “Então você crê que os eleitos foram salvos desde a eternidade passada?” A eleição é para a salvação, pois a eleição ocorre na eternidade passada, mas um homem só é salvo depois de nascer de novo, e as primeiras evidências desse novo nascimento são arrependimento e fé. A eleição é aquela determinação de Deus conduzir o homem as circunstâncias e debaixo de influências que certamente farão com que ele seja salvo.
A eleição de Deus é um assunto individual, exatamente como o modo como Deus trata os homens é individual; os homens não são salvos em grupo, e nem são eleitos em grupo. Num versículo os santos de Deus são chamados “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido”, (1 Pedro 2:9), mas eles são na maioria das vezes citados em termos que frisam a eleição individual que o Senhor faz de cada um.
A eleição também se baseia na presciência de Deus, pois está escrito: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Tragicamente, há uma profunda ignorância dessa palavra “presciência” e sua aplicação. Caso contrário, há muitas vezes uma perversão absoluta desse texto a fim de se evitar seu ensino óbvio. Antes de lidar com esse texto, talvez seja bom ler também 1 Pedro 1:2, e lidar com ambos de uma só vez: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”.
Essa perversão de Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2 é feita por homens que declaram que essa é uma presciência da fé dos homens — que Deus elege os homens porque Ele antevê que eles crerão em Jesus Cristo. Mas por que Deus deveria elegê-los se Ele vê que eles vão crer de qualquer forma? Será que Ele é como muitos moderninhos que primeiro observam para ver de que jeito as coisas vão indo, então pulam na primeira tendência da moda que aparece de modo que pareça que eles estão de acordo com todo mundo? Dificilmente: É óbvio que essa não é uma interpretação que esses textos produzirão, a partir do fato de que essa presciência não é “o que” — isto é, sua fé, obras, atitude ou serviço potencial — mas é de “quem” — isto é, uma presciência de suas pessoas. De novo, não poderia ser de suas obras ou fé, pois isso faria com que Romanos 8:29 entrasse em conflito com 1 Pedro 1:2, onde se revela que a fé é conseqüência natural e resultado da eleição, pois Deus elege “para a obediência”, e 2 Tessalonicenses 2:13, onde os homens são escolhidos “para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade”. Em ambos os exemplos, revela-se que a obediência e a fé são conseqüência natural e resultado da escolha soberana de Deus, e não a causa dela. Veja também Atos 13:48, onde se apresenta a mesma coisa. Os homens dizem que Deus anteviu que os homens creriam, mas as Escrituras em parte alguma dizem isso; pelo contrário, o que Deus viu quando Ele olhou do céu foi descrença, desobediência e rebelião universal, conforme está escrito: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Salmo 53:2-3). Isso resolve esse assunto para todos os que estão sujeitos à Palavra de Deus. Deus não elegeu os homens porque Ele anteviu que eles creriam, mas Ele os elegeu porque Ele anteviu que a menos que Eles os elegesse, e oferecesse os meios para conduzi-los à salvação, ninguém chegaria a ser salvo.
Ora, se essa presciência não é da fé deles, então a que isso se refere? Em 1 Pedro 1:20, essa mesma palavra grega que é traduzida “presciência” em 1 Pedro 1:2, é traduzida em 1 Pedro 1:20 “em outro tempo foi conhecido”. Acerca disso o Dr. B. H. Carroll diz:
Conforme Pedro declara a eleição, perguntamos: o que é? Significa escolhidos para a salvação. Quem elege? Deus o Pai. Ele elege de acordo com quê? De acordo com sua presciência. O que Ele quer dizer com presciência? A palavra grega é “prognosis:” “nosis” significa conhecimento, e “pro” (o “g” significa eufonia) quer dizer antes, ou presciência, e essa palavra é um substantivo usado apenas por Pedro no Novo Testamento. Ele o usa três vezes, conforme o seguinte: Atos 2:23; a passagem aí, 1 Pedro 1:2, e em 1 Pedro 1:20. Esses são os únicos lugares no Novo Testamento em que temos a palavra “prognosis,” presciência, que significa conhecer de antemão. Mas tanto Pedro quanto Paulo usam o verbo “prognosco,” que significa conhecer de antemão… Paulo usa a palavra em referência ao conhecimento de antemão que Deus tem de seu povo, e todas as outras vezes que Pedro fala do conhecimento de antemão de Deus. Ora, então a pergunta é: O que significa conhecer de antemão?… O uso de presciência no Novo Testamento era exatamente equivalente à predestinação. Qualquer estudioso da língua grega lhe diria isso. A eleição não se baseava em alguma bondade antevista no homem ou em algum arrependimento ou fé no homem, mas o arrependimento e a fé procedem da eleição, e não vice-versa. De modo que o que Paulo quer dizer com presciência é praticamente a mesma coisa que a predestinação; que na eternidade Deus determinou e elegeu de acordo com essa predestinação. — An Interpretation of the English Bible (Uma Interpretação da Bíblia em Inglês), Vol. 16, pp. 188 189. Broadman Press, Nashville, Tennessee, 1947.
Obviamente “conhecer antes” envolve mais do que mera presciência nessas passagens, pois em Atos 2:23 a presciência de Deus fez mais do que meramente conhecer de antemão a crucificação de Cristo, mas era realmente parte da força de entrega nela: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. O outro uso dessa palavra em 1 Pedro 1:20, onde se traduz “conhecido antes” revela essa mesma coisa, isto é, que essa palavra envolve não só presciência de um fato, mas também a execução de um fato. A presciência de Deus é pois equivalente ao ato de Ele decretar esse fato. Sua predestinação é o cumprimento de todos os eventos que têm a ver com as vidas de Seus eleitos. Portanto, como disse alguém, a eleição tem a ver com pessoas, enquanto a predestinação tem a ver com eventos.
Muitas vezes se usa a palavra “propósito” para denotar a firme decisão ou determinação da mente de buscar um objeto específico. Mas não seria sábio um Ser onisciente tornar qualquer coisa uma finalidade de ação, a menos que se saiba que dá para alcançá-la; e, se sabe que dá para alcançar, tem de se saber também os meios e o modo de obtenção. Assim, o propósito de Deus, abrangendo tanto finalidade quanto meios, tem de abranger tudo o que ele determinou fazer ou permitir. — Alvah Hovey, Manual of Systematic Theology (Manual de Teologia Sistemática), p. 96. Ameri¬can Baptist Publication Society, Philadelphia, 1880.
Não só isso, mas enquanto todos sabemos o que significa “antes” quando adicionado a “conhecer”, muitos não consideraram o uso bíblico da palavra “conhecer”, mas presumiram que só se refere à consciência mental de algo. O primeiro uso de “conhecer” nas Escrituras mostra que se refere a entrar numa íntima união de amor com outro (veja Gênesis 4:1). Esse é o mesmo uso no primeiro uso de “conhecer” no Novo Testamento em Mateus 1:25. Maria também usou essa palavra na mesma forma em Lucas 1:34. É verdade que essa palavra foi usada nessas passagens referindo-se a uma união física, mas ilustra o uso espiritual, como o físico faz em muitos exemplos. Assim, ao “conhecer antes” certas pessoas, Deus estava simplesmente entrando numa íntima relação espiritual de amor com elas em Cristo, o representante delas, como em Efésios 1:3 4. Essa presciência de Deus o Pai equivale em sentido quanto ao que se declara de Israel em Jeremias 31:3. “Há muito [ou na eternidade passada] que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei [ou, te escolhi para mim mesmo], por isso com benignidade te atraí [ou, chamado eficaz]”. Deus tomou a iniciativa com relação à redenção do homem antes que o homem até viesse a existir, e assim, independente de alguma fé real ou possível, obras ou mérito de qualquer tipo. É graça, pura graça, SOBERANA GRAÇA.
A fim de interpretar corretamente a Palavra de Deus, precisamos considerar todas as vezes que uma palavra ou frase aparece, e interpretar cada uma em harmonia com todas as outras; mas se fizermos isso, então não podemos tomar qualquer um dos cognatos dessa palavra “conhecer [antes]”, isolá-la dos outros usos, e dar-lhe um sentido diferente dos outros. Assim, não dá para forçar o termo “dantes conhecer” em Romanos 8:29 a se referir a uma presciência passiva das ações do homem no tempo, quando as formas do substantivo e do verbo dessa palavra em outros lugares mostram que envolve uma força ativa que realiza o fato assim “dantes conhecido”. Parece óbvio para este escritor que a palavra grega traduzida “dantes conheceu” em Romanos 8:29 tem a força de “entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” como na verdade a mesma palavra é traduzida em Atos 2:23, e a maioria dos grandes teólogos batistas do passado tinha esse consenso.
A eleição não se baseia em alguma obra ou ato humano, real ou previsto, mas em vez disso é soberana, conforme está escrito: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:15-16). E de novo: “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:5-6). E ainda de novo: “Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Coríntios 1:26-29).
O homem foi criado e existe para um propósito supremo — para que Deus seja nele glorificado, e Deus jamais tolera nada que vá além daquilo que contribui para Sua glória, pois está escrito: “Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás” (Salmos 76:10). Isso explica o motivo por que a eleição é soberana, e o motivo por que Deus lida com o homem em graça — é para que a glória possa ser toda dEle; e isso explica também o motivo por que a doutrina da eleição é tão desagradável ao paladar do homem — não lhe deixa espaço algum para se gloriar em si mesmo. Assim as Escrituras declaram que a vontade e os propósitos de Deus são os fatores determinantes de Sua relação com o homem: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado… Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:5-6, 9-11).
A rebeldia do homem em aceitar a doutrina da eleição resume-se a apenas uma coisa — ele está indisposto que Deus seja soberano nesse assunto. Ao reconhecer a soberania absoluta de Deus, não teremos problemas com a doutrina da eleição, nem com nenhum dos temas relacionados, pois se Deus tem o direito soberano de fazer com Sua criação conforme bem quiser, e se Ele não pode agir de modo injusto, então tudo o que Ele faz será certo, quer nós seres humanos mortais consigamos ou não entender as razões para Suas ações. Nem mesmo a doutrina da reprovação nos afligirá ao reconhecermos a justiça e soberania de Deus. No entanto, muitos inflam a reprovação (ou rejeição, como também é chamada) para proporções desnecessárias, não percebem sua conexão com o pecado do homem e tornam decreto arbitrário enviar alguns para o inferno sem relação com a descrença disposta do homem. J. M. Pendleton bem diz:
Se se diz que a eleição de alguns é a rejeição de outros, pode-se comentar: A Rejeição é um termo desnecessariamente forte, e é preferível dizer que Deus deixou outros como estavam. A doutrina da eleição os deixa onde eles estariam se não houvesse eleição alguma. Nenhuma injustiça lhes é feita. A verdade é, a eleição não é injustiça para ninguém, embora seja uma bênção inexpressável para alguns. É preciso uma multidão que nenhum homem pode contar do meio da raça caída de Adão, mas Deus pode contá-los e elevá-los à esperança e céu. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), pp. 106 107. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Alguns, em ignorância abjeta, afirmam às vezes que essa doutrina ensina que Deus arbitrariamente manda todos os não eleitos para o inferno “sem uma chance” e exclusivamente como um ato de soberania, mas tal idéia ignora os fatos (1) Que ninguém vai para o inferno exceto por pecado real e pessoal, e assim todo indivíduo no inferno estará ali por justiça. (2) Que nenhum homem vai para o inferno exceto depois de uma vida inteira de pecado, incredulidade e rejeição ao único remédio para o pecado. (3) Que nenhum incrédulo pode saber de sua eleição ou sua não eleição até o fim da vida, e enquanto há vida ele não só tem a oportunidade de se arrepender e se salvar, mas também convites nesses sentido lhe são oferecidos. Séculos atrás, João Bunyan escreveu sobre a Reprovação:
Tenho de lembrá-lo novamente acerca desses detalhes: 1. Que a reprovação eterna não torna um homem pecador. 2. Que a presciência de Deus, que os reprovados perecerão, não torna nenhum homem pecador. 3. Que a infalível determinação de Deus para a condenação daquele que perece não torna homem algum pecador. 4. A paciência, a longanimidade e a moderação, até que o reprovado se prepare para a destruição eterna, não tornam nenhum homem pecador. — The Doctrine of Election And Reprobation, in The Complete Works Of John Bunyan (A Doutrina da Eleição e Reprovação, nas Obras Completas de John Bunyan), Vol. II, p. 285. National Foundation For Christian Educat¬ion, reimpressão, Marshallton, Delaware, 1968.
Nenhum homem tem o direito de falar contra o modo como Deus se relaciona com o homem, qualquer que seja tal relação, e é somente mediante a presunção e prepotência blasfema que alguém ousa agir desse jeito. “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:20-21). Portanto, que nenhum homem orgulhoso desafie o modo como Deus se relaciona com o homem, mas em vez disso que ele se regozije no fato de que Deus escolheu alguns do mundo para serem Seus escolhidos, e que o homem confie no Senhor Jesus para obter a salvação de sua alma para que ele possa ter a certeza de que está incluído entre os escolhidos, e agora humildemente se regozijar nessa eleição.
De novo, que se observe que a eleição inclui todos os meios necessários para a chamada dos eleitos entre o restante do mundo. Aqueles que não crêem nessa doutrina muitas vezes acusam aqueles que crêem de incoerência porque pregam o evangelho e se esforçam para obter a salvação das almas dos homens; ao agirem desse jeito, eles traem sua ignorância, ou então são culpados de propositalmente mal-representar a verdade, pois todos os que verdadeiramente entendem e crêem nessa doutrina também crêem que Deus não só escolheu certas pessoas para serem somente dEle na eternidade, mas que Ele também ordenou os meios para levá-las ao arrependimento e fé no tempo. Referindo-se a Romanos 8:30, o Dr. J. M. Pendleton diz:
Nesse versículo temos, se é que podemos assim chamar, uma corrente de ouro de quatro elos, e essa corrente alcança de eternidade a eternidade. O primeiro elo é a predestinação, e o último é a glorificação, enquanto os dois elos no meio são chamado e justificação. O primeiro elo não tem conexão alguma com o último, exceto mediante os elos intermediários. Isto é, não há jeito de o propósito de Deus na predestinação poder alcançar sua finalidade na glorificação, se o chamado e a justificação não ocorrerem. Mas o chamado e a justificação são inseparáveis de “a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21). O arrependimento e a fé, então, sem mencionar outras coisas, são meios mediante os quais se realiza o propósito de Deus na eleição. Portanto, Deus, ao predestinar a salvação para seu povo, predestinou o arrependimento deles, e a fé e todos os outros meios necessários para a salvação deles. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), pp. 110 111. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Se nos perguntassem o motivo por que temos de pregar o evangelho se Deus escolheu os homens para a salvação, deixamos Paulo responder: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). Se nos perguntassem de modo faccioso o motivo por que então não pregamos somente aos eleitos, respondemos primeiramente que não podemos saber antecipadamente quem são eles, a não ser pela reação deles ao evangelho, mas ainda que pudéssemos saber antecipadamente quem são eles, isso em nada nos aliviaria do dever de “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Quantos eleitos há, e quem são, de modo algum afeta nossa responsabilidade de proclamar fielmente a todo o mundo o evangelho da graça salvadora de Deus; é responsabilidade de Deus chamá-los através do evangelho que pregamos. O evangelho tem um de dois resultados quando é pregado: justificação ou juízo; assim, Paulo diz: “Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem. Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo?” (2 Coríntios 2:15-16). A pregação do evangelho torna mais ainda os homens responsáveis de prestar contas a Deus por sua incredulidade e rejeição.
III. A DETERMINAÇÃO DA ELEIÇÃO.
Muitas vezes se faz a pergunta: “Como uma pessoa pode saber que ela pertence aos eleitos?” O que todos temos de compreender é que enquanto nosso Senhor disse: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus”, Lucas 10:20, mas não temos jeito algum de subir até o céu e contemplar aquele maravilhoso e glorioso Livro da Vida do Cordeiro, em que estão inscritos todos os santos de todas as épocas. Mas se esse é o caso, como então se pode saber que ele pertence aos eleitos? Não simplesmente porque ele é membro de uma igreja, pois isso nada prova, como revela o caso de Judas Iscariotes; e um homem não pode saber que ele é dos eleitos porque ouviu a pregação do evangelho e sentiu a convicção da Palavra, pois Mateus 20:16 declara que “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. O chamado do evangelho mexe com muitos corações que nunca são transformados e nunca são vivificados pelo Espírito Santo, e assim o número dos eleitos é muito menor do que o número dos que sentiram a convicção e ouviram um chamado de receber o Salvador.
Quando consideramos as referências aos homens sendo chamados em Romanos 8:30: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”, e 1 Coríntios 1:23 24: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus”, e 2 Tessalonicenses 2:14: “Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”, e outras passagens, então se torna óbvio que além do chamado normal, que vem mediante a pregação, e que muitas vezes é mais ineficaz do que não, há outro chamado que é sempre apenas para os eleitos, e sempre resulta em justificação, e finalmente se completará na glorificação. Esse último chamado é o que os teólogos do passado chamavam de chamado eficaz, enquanto o primeiro chamado é conhecido como o chamado geral; a menos que se faça essa distinção, o resultado será muita confusão, e parecerá que os propósitos de Deus muitas vezes falham na realização. O chamado eficaz, porém, não falha, sendo idêntico com regeneração, de modo que qualquer pessoa nasce de novo quando esse chamado lhe vem. Esse chamado é co-extensivo com o número daqueles que são justificados e glorificados, pois não há quebra entre eles, nem diminuição nem aumento no número de pessoas entre o chamado, a justificação e a glorificação em Romanos 8:30. Note a correlação entre “aos que” e “estes” aparecendo três vezes.
Ninguém tem a garantia de sua eleição, exceto ao se submeter ao chamado do evangelho e se arrepender de seus pecados e confiar na obra expiatória do Senhor Jesus Cristo, pois essas coisas são as primeiras evidências da eleição de alguém, como está escrito: “… e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Esse versículo sofre enorme violência por parte daqueles que não crêem na eleição soberana de Deus, alguns tentando tornar a ordenação para a vida subseqüente ao ato de crer, e outros desafiando o sentido da palavra traduzida “ordenado”.
Quanto à primeira dessas duas reações a esse versículo, temos só de citar as palavras do Dr. A. T. Robertson, cuja autoridade como estudioso grego é inquestionável, pois ele é conhecido e reconhecido como um dos grandes estudiosos gregos da geração passada. Ele diz:
Não há nenhum tipo de truque que possa fazer significar que aqueles que creram foram depois ordenados. Foi a fé salvadora que foi exercitada somente por aqueles que foram ordenados para a vida eterna, aqueles classificados para a vida eterna, que foram assim revelados como alvos da graça de Deus pela posição que tomaram para o Senhor neste dia. — Word Pictures In The New Testament (Retratos da Palavra no Novo Testamento), Vol. III, pp. 200 201. Broadman Press, Nashville, Tenn., 1930.
A única ordem correta dessa sentença é com ordenação à vida eterna indo antes, e sendo a causa da fé que se estava exercendo. Quanto à segunda reação a esse versículo — o desafio do sentido da palavra traduzida “ordenado” — alguns dizem que se deve lhe atribuir um sentido reflexivo: “se dispuseram para a vida eterna”. Não somos informados acerca do motivo por que essa palavra tem de receber tal atribuição, a menos que seja forçada a concordar com a idéia de antemão deles. É suficiente responder que essa palavra (grego tasso) jamais sustenta tal sentido no Novo Testamento conforme manifestará um estudo de todas as vezes que essa palavra aparece; (veja Mateus 28:16; Lucas 7:8; Atos 13:48; 15:2; 22:10; 28:23; Romanos 13:1; 1 Coríntios 16:15). Só no último exemplo a ação da sentença chega a ser reflexiva, e é reflexiva apenas porque o pronome reflexivo eatous a exige. O próprio verbo jamais é reflexivo, e tentar forçá-lo a ser mostra uma indisposição de se aceitar o sentido claro do verbo original.
Além dos mais, se torna ainda mais óbvio que a Versão do Rei James traduz essa palavra de modo correto quando consideramos que quase todos os tradutores do Novo Testamento reconhecem esse como o sentido verdadeiro dessa palavra, e assim a traduzem. É interessante notar que os homens muitas vezes lidam de modo bem negligente com as Escrituras quando fazem comentários sobre elas, muitas vezes tentando forçar suas próprias crenças nelas, mas quando eles as estão traduzindo, eles são mais prudentes, e parecem temer lidar com elas do mesmo modo sacrílego que lidam em seus comentários. Das mais de trinta versões que este escritor consultou, apenas duas traduziram essa palavra de modo diferente de “ordenar”, “nomear”, “destinado”, “escolhido”, e palavras de importância semelhante. Uma dessas duas é a Versão do Novo Mundo (das testemunhas-de-jeová), que é bem conhecida por sua falta de confiabilidade. A outra versão é a Bíblia Viva, que se reconhece como paráfrase, e não uma tradução, mas até mesmo essa versão, embora use a palavra “desejaram” no texto, dá, no rodapé, o sentido de “arranjados para” ou “ordenados para”. O sentido passivo mostra com clareza que a disposição não era do homem, e assim deve ter sido de Deus, pois Satanás certamente jamais tentaria determinar ninguém para a vida eterna. Cremos que esses fatos acerca de Atos 13:48 falam por si mesmos.
Que o homem não tenha o poder intrínseco de crer, e que ele tem de pertencer ao número dos eleitos antes que possa crer no evangelho, é óbvio a partir de João 10:26: “Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito”. Essa é uma declaração difícil, mas não temos a liberdade de rejeitá-la simplesmente porque não podemos entendê-la, pois não é o único versículo que ensina essa verdade profunda, pois João 6:44 45 também declara: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim”. Se o Pai não atrair uma pessoa, e lhe der o poder da fé, então esse indivíduo não pode se salvar; assim, toda a glória da salvação pertence ao Senhor e somente a Ele.
Do ponto de vista humano, determina-se a eleição pela vida que alguém vive, e por esse motivo só é possível sabermos com certeza nesta vida mediante o exemplo de uma vida de santidade. Paulo disse acerca dos tessalonicenses: “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus”, 1 Tessalonicenses 1:4, mas como ele sabia disso? Ele próprio dá a resposta no versículo precedente: “Lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai” (versículo 3). Quando compreendemos que os homens são eleitos para a fé e obediência, e não por causa destas, (2 Tessalonicenses 2:13; Atos 13:48; 1 Pedro 1:2), então compreendemos que onde as vemos, há evidência de eleição. Na salvação somos criados “em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”, (Efésios 2:10), de modo que uma vida constante em boas obras é evidência de que alguém foi salvo, e conseqüentemente de que é uma pessoa eleita.
A eleição é uma doutrina misteriosa, mas maravilhosa; é uma doutrina que, embora não deixe espaço para o orgulho e vaidade, é porém uma grande bênção para o homem, pois garante a salvação de cada um dos eleitos de Deus. Alguns repudiam a doutrina da eleição, dizendo que mostra ser respeitadora de homens, mas deixa alguns sem esperança de salvação. A verdade é que ninguém pode saber se ele pertence aos eleitos ou não eleitos, exceto crendo ou então morrendo sem arrependimento, o que coloca a questão toda no nível da fé ou falta de fé do indivíduo. Observe o que Jesus diz acerca disso: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Aí aprendemos: (1) Que só aqueles que foram dados a Cristo no pacto da redenção virão a Ele. Isso se refere, é claro, à eleição. (2) Todos aqueles que foram assim dados virão a Cristo. A salvação de todos os eleitos é assegurada pelo chamado eficaz e a atração deles. Essa é graça eficaz ou irresistível. (3) Que embora essas coisas sejam gloriosamente assim, há porém também a esperança para todos os que se achegam a Cristo em fé serão por Ele recebidos. Assim, enfatiza-se a responsabilidade humana, de modo que ninguém pode culpar a Deus por qualquer homem que se perde. Já que ele não pode saber de antemão acerca de sua não eleição, e já que se oferece a promessa de aceitação a todos os que se achegam, o homem perdido se perde exclusivamente por causa de sua própria incredulidade da promessa de Deus.
Nosso chamado e eleição podem ser afirmados — afirmados para nós e para outros homens, pois Deus já os conhece, sendo obra dEle. Assim diz Pedro: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (2 Pedro 1:10). As coisas às quais se refere Pedro, que tornam firmes o chamado e eleição de alguém, são aquelas boas obras que se esperam de toda pessoa que verdadeiramente nasceu de novo, e que manifestam que ele é verdadeiramente salvo. Elas são boas obras que se originam da fé (veja os versículos 5 9).
A eleição, sendo obra de Deus, e sem causa humana, glorifica a Deus enquanto ao mesmo tempo humilha o homem, e essa é a razão principal por que é tão desagradável ao paladar do homem. Quando nos lembramos da declaração de Paulo de que, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”, (Romanos 7:18), então temos de reconhecer que quase qualquer coisa que humilhe o orgulho carnal, enquanto glorifica a Deus, pode ser presumida como verdadeira. Nada de bom jamais teve sua origem na carne, e nada de ruim (nada verdadeiramente ruim à luz dos propósitos de Deus) jamais procede de Deus.
Autor: Pr Davis W. Huckabee
Acerca da eleição, Abraham Booth disse:
Mas qual é a razão desse protesto contra a eleição? Se é que não estou muito enganado, dá para compreender esse protesto da seguinte forma. Essa doutrina põe o machado na raiz de toda excelência moral da qual nos gloriamos. Essa doutrina, em suas conseqüências naturais, demole todo subterfúgio do orgulho humano; já que não deixa nenhuma sombra de diferença entre um homem e outro, o motivo por que Deus deveria estimar e salvar esta pessoa, em vez daquela; mas ensina todos os que sabem e todos os que a adotam a descansar naquela máxima memorável; SIM, Ó PAI, PORQUE ASSIM TE APROUVE; reduzindo o assunto todo a graça divina e a soberania divina. — The Reign of Grace (O Reinado da Graça), p. 56. American Baptist Public¬ation Society, Philadelphia, sem data.
Um pregador idoso, amigo deste escritor, que desde então partiu para o Senhor, certa vez comentou que uma pessoa tinha de se converter para toda doutrina da Bíblia antes de realmente as aceitar, e em nenhuma doutrina é esse fato tão verdadeiro quanto no caso que estamos agora tratando. Este escritor passou por um longo período de conflito interno antes de chegar a aceitar essa doutrina; ele não tinha nenhuma pré-disposição para crer nela; aliás, ele estava inteiramente firme em sua oposição a ela, mas ele orava continuamente para que o Senhor lhe desse sabedoria e entendimento nas coisas espirituais, e o resultado foi esse. Até hoje, o orgulho carnal ainda se rebela contra essa doutrina, mas o espírito foi levado a se regozijar nela, achando nela grande consolo e segurança. É por causa desse grande conflito interno que o escritor não se envolve em argumentos e debates com aqueles que não crêem nessas doutrinas, pois ele crê que elas não são doutrinas que se pode aprender meramente com a sabedoria carnal, mas são doutrinas às quais devemos nos converter, e as quais só dá para aceitar pela graça. Tentar enfiar a Bíblia goela abaixo de outro crente raramente faz mais do que firmá-lo em sua oposição à doutrina proposta com tanto zelo. Isso não quer dizer que não podemos nos engajar em debate quieto e amistoso acerca dessas doutrinas ou outras da Palavra; isso podemos e devemos fazer, mas a qualquer momento que o debate vai além de amizade e tranqüilidade, é hora de terminá-lo, pois depois desse ponto não poderá haver proveito algum para nenhuma das duas pessoas.
Alguns rejeitam as doutrinas dos decretos de Deus completamente, dizendo que não seria justo no caráter de Deus oferecer decretos predeterminados quanto ao que virá a ocorrer no tempo. Contudo, Charles H. Spurgeon, num sermão sobre Efésios 1:5, respondeu bem a essa questão ao dizer:
É ao mesmo tempo uma doutrina das Escrituras e do bom senso, que tudo o que Deus faz no tempo ele predestinou fazer na eternidade. Alguns homens criticam a predestinação divina, e desafiam a justiça dos decretos eternos. Ora, se eles quiserem se lembrar de que a predestinação é o pano de fundo da história, como um plano de arquitetura, a execução do qual lemos nos fatos que acontecem, podem talvez obter uma leve pista para a irracionalidade de sua hostilidade. Nunca ouvi ninguém entre os mestres de forma maliciosa e deliberada criticar o modo como Deus trata suas criaturas humanas, mas ouvi alguns que nem mesmo ousariam colocar em dúvida a justiça de Seus conselhos. Se a coisa em si é certa, tem de ser certo que Deus tencionou fazer a coisa; se você não tem motivo para criticar os fatos, conforme você os vê na providência, você não tem base alguma para se queixar dos decretos, à medida que os acha na predestinação, pois os decretos e os fatos são apenas as semelhanças um do outro. Você tem algum motivo para criticar a Deus, que ele quis salvar você, e salvar a mim? Então por que você deveria criticar, pois as Escrituras dizem que ele predeterminou que ele nos salvaria? Não vejo, se o fato em si é compatível, o motivo por que o decreto deveria ser condenável. Não consigo ver razão alguma por que você deveria criticar a predestinação de Deus, se você não criticar o que realmente acontece como efeito dela. Que as pessoas apenas concordem em reconhecer um ato da providência, e quero saber como elas poderão, a não ser que se oponham descaradamente à providência, criticar a predestinação ou intenção que Deus fez com relação à providência. — Metropolitan Tabernacle Pulpit (Púlpito do Tabernáculo Metropolitano), p. 97. Pilgrim Publication, reimpressão, Pasadena, Texas, 1969.
De novo, de modo geral não é proveitoso pregar essa doutrina para pessoas perdidas, pois muitas delas estão procurando uma desculpa para continuar no pecado, e a perspectiva fatalista de “se vou ser salvo, serei não importa o que eu faça”, será rapidamente adotada, e a responsabilidade humana será removida imediatamente. Mas essa mesma coisa se aplica a muitas doutrinas amplamente diferentes das Escrituras, pois a pessoa perdida tem pouca compreensão espiritual, e muitas vezes usará os ensinos doutrinários como escudo ou defesa para continuar em sua maldade. Este escritor sabe de um exemplo em que a pregação do dever do dízimo para um homem não salvo foi utilizada como desculpa para não ser salvo, pois o homem perdido se isentava com a alegação de que “O pregador só estava interessado em conseguir mais dinheiro na igreja de modo que pudesse obter um aumento de salário”. Esse mesmo tipo de desculpa poderia ilustrar outros casos com relação a outras doutrinas também, de modo que quando dizemos que não é geralmente prudente pregar a predestinação e eleição para os perdidos, não queremos dizer isso com a exceção de outras doutrinas, mas só que a pessoa perdida tem necessidade de que apenas o evangelho lhe seja pregado. Tal indivíduo tem essa necessidade com quase qualquer outro assunto. J. M. Pendleton bem sabiamente diz que:
Deus começa com a eleição, mas o homem não pode. Ele deve começar com o chamado, e quando confirmado o seu chamado, confirma-se a eleição. O chamado é a única prova real da eleição. Portanto, veremos que o cerne da eleição é, nas mãos de um pecador, a mais difícil de todas as questões. A razão é que a eleição, não é da conta dele, e a nada que ele pode fazer com ela. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 112. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Ao estudar essas doutrinas, deve-se reconhecer que essas doutrinas são bem profundas, quase impenetráveis, e por esse motivo, só podemos nos apegar aos ensinos das Escrituras, e não ousamos ir além deles, pois em nada a mente humana é menos preparada para raciocinar do que ao lidar com as doutrinas da predestinação e eleição. Alguns usam esse próprio fato como desculpa para rejeitar essas doutrinas, como se jamais devêssemos aceitar qualquer coisa que não estejamos em condições de compreender plenamente; outros, não encontrando um jeito de reconciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana nesse assunto, escolheram repudiar a eleição soberana de Deus. Mas isso é deixar de entender completamente o ponto; pois se entendemos, ou se podemos reconciliar esses dois fatos, de modo algum determina a verdade dos dois; mas, precisamos deixar Deus ser Deus, e Lhe dar crédito por saber algumas coisas que nem sabemos nem entendemos. Reconciliar as Escrituras não é algo que compete a nós; o que nos compete é simplesmente aprendê-las e crer nelas. Na verdade, a reconciliação é necessária apenas entre inimigos, e as Escrituras não estão em inimizade consigo. O Dr. Richard Fuller, ao falar da predestinação e livre agência, bem disse que:
Mostrei que é impossível rejeitarmos uma dessas duas grandes verdades, e é igualmente impossível nossas mentes as reconciliarem. Mas aí, como em toda parte, a fé tem de vir ao nosso auxílio, ensinando-nos a descansar, sem duvidar, na veracidade de Deus; fazendo-nos lembrar que “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus”; e repreendendo a arrogância que exige que nosso intelecto penetre e reconcilie aqueles pensamentos da mente divina que estão tão acima de nossos pensamentos como os céus estão acima da terra. — Sermons, Second Series (Sermões, Segunda Série), p. 19. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1877.
Charles H. Spurgeon, num sermão sobre 2 Tessalonicenses 2:13 14, semelhantemente diz dessa doutrina:
Não está aqui nas Escrituras? E não é teu dever se prostrar diante delas, e humildemente reconhecer o que tu não entendes — recebendo-as como a verdade ainda que não entendas seu sentido? Não tentarei provar a justiça de Deus ao ter assim eleito uns e deixado outros. Não me cabe justificar meu Mestre. Ele falará por Si, ele assim o faz: — “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” — The New Park Street Pulpit (O Púlpito da Nova Rua Parque), Vol. I, p. 316. Zondervan Publishing House, reimpressão, Grand Rapids, Michigan, 1963.
Como seria tolo esperarmos que numa xícara de chá caiba o oceano, assim também seria tolo esperarmos poder entender inteiramente as grandes obras e propósitos do Todo-poderoso, e é apenas jactância imensa que fará da nossa própria ignorância a base para rejeitar o que as Escrituras apresentam como a verdade.
Espero lidar com esse assunto de um modo que não seja exaustivo, quero apenas observar três coisas principais acerca dessa doutrina, e confiar que o Espírito de Deus guiará nosso entendimento na verdade à medida que estudarmos.
I. A DEFINIÇÃO DE ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO.
Ambas dessas doutrinas serão consideradas juntas, pois muitas vezes se trata a eleição como um ramo da predestinação, e em outras vezes como equivalente à predestinação. O Dr. John Gill diz acerca dessas duas doutrinas:
Os decretos especiais de Deus com respeito às criaturas racionais comumente levam o nome de predestinação; embora se entenda isso num sentido amplo, para expressar toda coisa que Deus predeterminou…mas geralmente se considera a predestinação como consistindo de duas partes, e inclusive os dois ramos da eleição e reprovação, ambos com respeito a anjos e homens… Embora às vezes a predestinação tenha a ver apenas com esse ramo dela chamado eleição, e os predestinados significam apenas os eleitos. — Body of Divinity (Corpo da Divindade), Book II, capítulo 2, p. 176. Turner Lassetter, Atlanta, Georgia, 1950.
Considerando a partir desse ponto de vista negativo, deve-se observar que há muitas concepções erradas acerca dessa doutrina, e não será incorreto notar algumas delas de passagem.
(1) Alguns sustentam que a eleição é apenas para vocação, mas enquanto é verdade que às vezes se declare a eleição para a vocação ou um ofício, porém muitas vezes isso é uma conseqüência que se origina a partir de uma eleição para a vida eterna, em vez da própria eleição. “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (João 15:16). Aqui, é óbvio que a ordenação para ser frutífero é algo separado da eleição, embora necessariamente a pressuponha, e se origine dela.
(2) Outros sustentam que a eleição é unicamente um ato do homem: que, nas palavras de alguém: “Deus lança um voto em favor de vida eterna para você, e Satanás lança um voto contra, e o homem deve lançar o voto de decisão, quebrando assim o empate, e se elegendo”. As Escrituras que acabamos de citar, bem como muitas outras, definitivamente negam essa teoria; aliás, no que se refere à salvação, nunca se diz que o homem faz a eleição ou escolha; é um ato que é sempre estabelecido pelo Senhor. Se, como sustenta essa teoria, fosse o homem que fizesse a escolha, o povo de Deus não seria chamado de “os eleitos” — os escolhidos —, mas seria chamado de “os eleitores”. É estranho o modo como muitas vezes o homem, por suas próprias interpretações das Escrituras, faça parecer que o Senhor não sabe como dizer o que Ele quer dizer, e como se não se pudesse assim aceitar as Escrituras em seu sentido mais óbvio.
(3) Uma terceira concepção errada acerca da eleição, que sempre se baseia numa opinião distorcida dela, é que se é verdade que os homens são eleitos para a salvação, então jamais devemos pregar o evangelho para ninguém, nem nos esforçarmos de forma alguma para ver almas salvas, já que só Deus faz a eleição. Muitos que não crêem na eleição a distorcerão desse jeito a fim de ter um bode-expiatório, e alguns até daqueles que afirmam crer nela a distorcerão a fim de desculpar sua negligência, mas o dever dos cristãos de apresentarem o evangelho aos perdidos é de modo algum afetado pela eleição, desde que não há como conhecer o eleito a não ser pela sua resposta ao evangelho. Nosso dever é ser testemunhas de Jesus Cristo — apresentar o evangelho; a eleição para a vida eterna foi tratada numa eternidade passada, e será manifesta pelo Espírito aplicando a verdade salvadora à alma eleita a fim de regenerá-la e fazer com que confie no Salvador. Ainda que o homem não pudesse saber que os decretos de eleição de Deus eram tais que impediriam qualquer pessoa de chegar a se salvar, ou, por outro lado, fizessem com que toda alma perdida fosse salva, não afetaria minimamente o mandamento do Senhor para Seu povo de ser testemunhas fiéis de Sua verdade salvadora. O que Deus faz ou não faz não tem efeito algum em nossa responsabilidade de dar testemunho fiel acerca dEle.
(4) Ainda outros sustentam que na medida que essa doutrina é misteriosa, que não deveria pois ser pregada nem ensinada de forma alguma. Mas não é bem assim, pois não se pode ignorar nenhuma doutrina das Escrituras sem incorrer culpa séria diante de Deus; é necessário que os santos sejam informados da fonte e causa de sua salvação, para que em seu orgulho e prepotência não tentem tomar para si essa glória que pertence somente ao Senhor.
O que então é a eleição? A palavra significa simplesmente “escolher” e se refere à escolha eterna de homens indignos de ser os objetos da obra salvadora do Senhor no tempo. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). As definições seguintes poderão nos ajudar a entender as doutrinas da predestinação e eleição.
A eleição é o ato eterno de Deus, pelo qual em Sua vontade soberana, e por causa de nenhum mérito antevisto neles, ele escolhe certos homens pecadores para receber a graça especial de Seu Espírito, e assim se tornarem participantes voluntários da salvação de Cristo. — A. H. Strong, Systematic Theology (Teologia Sistemática) p. 779. Fleming H. Revell Company, 1954.
Falando de predestinação, o Dr. J. M. Pendleton diz:
A predestinação abrange o propósito da eleição, e também, conforme será mostrado, o propósito da “reprovação”, como tem sido chamada, que, como bem se disse: “nada mais é do que negar a alguns a graça que é transmitida a outros” (Hill’s Divinity [A Divindade do Hill], p. 561) Pode-se expressar esses dois propósitos assim: “Que Deus escolheu em Cristo certas pessoas da raça caída de Adão, antes da fundação do mundo, para a glória eterna, de acordo com Seu próprio propósito e graça, sem relação com a fé e obras antevistas deles, ou quaisquer condições que eles tenham cumprido”; e que Ele negou ao resto da humanidade Sua graça e os entregou à desonra, e o justo castigo de seus pecados. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), p. 105. Ameri¬can Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
As Escrituras apresentam essa doutrina, não só com a terminologia de “eleição”, mas também sob os termos de “escolher”, “ordenar”, “designar”, “determinar”, “destinar” e “constituir”, pois essa doutrina envolve a determinação soberana de Deus de exercer tais dons e graças em homens caídos específicos a fim de fazer com que certamente venham a conhecer a salvação de Seu Filho. Por causa do caráter dos propósitos do Senhor, essa realização é sempre atribuída totalmente a Deus, e jamais ao homem. Nenhuma obra, mérito ou fé humana, ou real ou antevista, pode chegar a entrar na determinação desse assunto. Isso é óbvio a partir de Romanos 9:11: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)”. Ao se referir aos filhos que não haviam nascido, nem tinham feito nada de bom ou mau, e então ao se referir aos propósitos de Deus de acordo com a posição de eleição, mostra-se claramente que uma presciência de atos, mérito ou fé humana jamais entra no assunto, pois se entrasse, aí seria o lugar lógico para se fazer menção, mas o silêncio reina de modo supremo nesse exemplo.
Muitos sustentam uma eleição condicional — condicionada em alguma resposta humana, geralmente fé. Aliás, alguns pregadores mudaram a declaração das velhas confissões bíblicas de fé que quase todos os batistas costumavam sustentar de que “somos eleitos para Sua graça”, e deixaram seu texto assim: Somos “por condição eleitos para essa graça”. Isso soa bom para a mente orgulhosa e humanista do homem! Mas o fato das Escrituras é que, na gramática grega, existe apenas um tempo condicional, e a palavra “eleito” JAMAIS é nesse tempo.
E outro fato interessante que refuta a teoria acima acerca da eleição condicional é que em toda vez que aparece no Novo Testamento a palavra grega traduzida “eleito” ou “escolher”, quando Deus está fazendo a eleição, o verbo está na voz média. Isso é muito significativo, conforme mostra W. W. Goodwin.
Na voz média o sujeito é representado como agindo em si mesmo, ou de algum modo que tem a ver consigo. 1. Como agindo em si mesmo… 2. Como agindo por si mesmo ou com referência a si mesmo… 3. Como agindo num objeto que pertença a si mesmo. — A Greek Grammar (Gramática Grega), Section 1242, p. 267. Ginn & Company, Boston, 1892.
Por isso, NÃO DÁ para achar a causa da eleição no sujeito, assim escolhido, mas é devido totalmente por causa da determinação dAquele que faz a escolha. NÃO HÁ NADA NOS ELEITOS QUE MOVA DEUS A ESCOLHER ALGUM DELES, É TOTALMENTE DA GRAÇA.
A eleição, que se declara claramente ser eterna — isto é, antes que o tempo, o mundo, ou o homem tivessem vindo a existir. A única alternativa daqueles que determinaram não aceitar a soberania absoluta de Deus nesse assunto é baseá-la no mérito antevisto de algum tipo no homem, tal como fé, bondade ou utilidade; mas Romanos 9:11, citado acima, bem como o fato de que a fé, e aliás, “toda a boa dádiva”, se declara ser dádiva de Deus, anula essa teoria, e deixa a eleição ainda um ato soberano de Deus sem explicação a partir do lado humano do assunto. Será que Deus não tem o mesmo direito que nós temos, de exigir para si e escolher quem serão Seus amigos e parceiros a vida inteira? Se alguém tentar cobrar que Deus tem de lidar do mesmo jeito e grau com toda a humanidade, ele imediatamente se deparará com todos os tipos de dificuldades, pois Deus exige o direito soberano de fazer com quem é dEle conforme Ele quiser, como o dono da casa na parábola em Mateus 20:15: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” Se alguém chega a ser salvo, é mais do que merecimento, e se ninguém chegar a ser salvo, não haveria base alguma para queixa, pois todos merecem apenas o inferno. Em nenhuma outra esfera o homem raciocina de modo tão incoerente como na questão da eleição. Por exemplo, se o governador de um estado perdoa um presidiário da prisão estadual, ninguém imediatamente começa a gritar que a fim de ser justo, ele tem de perdoar todos os outros presidiários igualmente culpados. Todos compreendem que perdoar um criminoso é um ato de graça e misericórdia, não de justiça, e que direitos e merecimento nada têm a ver com isso; mas os propósitos de eleição de Deus são exatamente paralelos a isso.
Temos de nos lembrar de que a eleição é totalmente de Deus, que foi realizada na eternidade passada, que é para a salvação, e que inclui todos os meios necessários para cumprir a salvação, como está escrito: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13 14). Não resta assim nenhum espaço para o louvor do homem e suas obras ou atitudes, mas toda a glória é devida a Deus.
II. A ELEIÇÃO EM DETALHES.
Conforme já dissemos, a eleição é um ato totalmente de Deus, e o homem não tem parte nesse ato, como declaram com clareza as seguintes passagens: “E, se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma carne se salvaria; mas, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias” (Marcos 13:20). Essa é a primeira vez em que aparece no Novo Testamento a palavra grega eklegomai (eklektous ous exelexato), e enfatiza o fato de que é a escolha de Deus que constitui certas pessoas como eleitas. Não importa que essa referência tenha a ver com o período da Grande Tribulação, nem (como as objeções de alguns) que essa referência tenha a ver só com os judeus (o que não é verdade, pois embora inclua os eleitos de Israel, não está limitada a eles, mas abrange todos os eleitos que estavam vivendo na terra naquela época). Prova que os homens são eleitos por causa da escolha de Deus, não do homem. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4). Outra vez é provada que Deus faz a escolha, mas se revela um fato adicional: não fomos escolhidos por causa de alguma santidade pessoal, mas em vez disso fomos escolhidos para essa condição, isto é, essa condição se origina da eleição de Deus. “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus” (1 Tessalonicenses 1:4). De novo, a eleição é ato de Deus.
A eleição é também atribuída a Cristo nas seguintes passagens: “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido” (João 13:18). É óbvio que a referência não é à eleição para serviço, pois Judas Iscariotes havia sido escolhido para serviço, mas ele nunca foi salvo, e assim não poderia ter sido eleito para salvação. “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda… Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (João 15:16,19). Observe nesses últimos versículos que: (1) Cristo expressamente nega que o homem fez a escolha. (2) Que essa escolha não foi “para serviço”, como muitos afirmam que a eleição é, pois o serviço é algo que é em acréscimo à, e se origina da, eleição. (3) Essa eleição coloca os santos numa classe diferente do mundo. (4) O mundo odeia os santos porque eles foram eleitos por Cristo.
É verdade que um homem pode escolher servir a Deus, (Josué 24:15), mas tal escolha jamais se chama eleição, pois a eleição é sempre um ato divino quando tem relação com a salvação, que é geralmente o caso no Novo Testamento. A escolha dos homens de servir a Deus não significa nada quanto à sua eleição para a salvação, pois Judas Iscariotes havia escolhido, por suas próprias razões, seguir Cristo e, até certo ponto, servir a Deus, mas somos expressamente informados de que ele nunca foi salvo. Portanto, ele não era um dos eleitos.
Não só é declarada que a eleição é de Deus, mas que é também “em Cristo”, conforme está escrito: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo…” (Efésios 1:3-4). Com isso se quer dizer que todos os eleitos são englobados no Filho de Deus, e são aceitos diante do Pai apenas por causa dEle: “Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1:6). É inteiramente natural para os homens orgulhosos e egoístas buscarem, em algum lugar em si mesmo, a causa de sua aceitação diante de Deus — em suas obras, ou em sua fé, ou talvez em seu serviço potencial ao Senhor, mas tal não é a fonte da aceitação de homem algum diante do Senhor, pois se fosse, o homem só teria segurança na mesma medida da sua fidelidade contínua ao Senhor. Mas pelo fato de que “somos agradáveis no Amado”, e não por causa de qualquer coisa em nós mesmos, temos eterna segurança, e jamais poderemos nos perder; nossa aceitação se baseia nos méritos gloriosos de Jesus Cristo, e jamais poderão falhar enquanto Ele mantiver Seu caráter santo e imaculado. O próprio Jesus Cristo teria primeiro de pecar, antes que pudéssemos chegar a nos perder, e isso, é claro, é um assunto além das possibilidades. Portanto, a salvação de todo verdadeiro filho de Deus está eternamente resolvida e segura.
A eleição é pessoal, tratando com indivíduos; é verdade que Israel era uma nação escolhida, conforme está escrito: “Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome”, (Isaías 45:4), mas de longe a maioria das referências à eleição e aos eleitos trata não com a nação de Israel, mas em vez disso com os santos individuais de Deus. Alguns declararam que nunca se menciona eleição como tendo a ver com salvação, mas é sempre em referência a Israel como nação eleita, ou caso contrário é uma eleição para serviço. Só dá para explicar essa declaração por ignorância ou preconceito, pois as Escrituras declaram: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13). “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9). “E creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). E há numerosas outras passagens que, de forma explícita ou implícita, declaram que a salvação é o resultado direto da eleição.
Isso nos leva a observar outra coisa acerca da eleição, a qual os oponentes da doutrina bíblica da eleição ou não percebem ou então ignoram. A eleição não é a mesma coisa que a salvação. Os oponentes muitas vezes tentam fazer a doutrina parecer absurda dizendo: “Então você crê que os eleitos foram salvos desde a eternidade passada?” A eleição é para a salvação, pois a eleição ocorre na eternidade passada, mas um homem só é salvo depois de nascer de novo, e as primeiras evidências desse novo nascimento são arrependimento e fé. A eleição é aquela determinação de Deus conduzir o homem as circunstâncias e debaixo de influências que certamente farão com que ele seja salvo.
A eleição de Deus é um assunto individual, exatamente como o modo como Deus trata os homens é individual; os homens não são salvos em grupo, e nem são eleitos em grupo. Num versículo os santos de Deus são chamados “a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido”, (1 Pedro 2:9), mas eles são na maioria das vezes citados em termos que frisam a eleição individual que o Senhor faz de cada um.
A eleição também se baseia na presciência de Deus, pois está escrito: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Tragicamente, há uma profunda ignorância dessa palavra “presciência” e sua aplicação. Caso contrário, há muitas vezes uma perversão absoluta desse texto a fim de se evitar seu ensino óbvio. Antes de lidar com esse texto, talvez seja bom ler também 1 Pedro 1:2, e lidar com ambos de uma só vez: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo”.
Essa perversão de Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2 é feita por homens que declaram que essa é uma presciência da fé dos homens — que Deus elege os homens porque Ele antevê que eles crerão em Jesus Cristo. Mas por que Deus deveria elegê-los se Ele vê que eles vão crer de qualquer forma? Será que Ele é como muitos moderninhos que primeiro observam para ver de que jeito as coisas vão indo, então pulam na primeira tendência da moda que aparece de modo que pareça que eles estão de acordo com todo mundo? Dificilmente: É óbvio que essa não é uma interpretação que esses textos produzirão, a partir do fato de que essa presciência não é “o que” — isto é, sua fé, obras, atitude ou serviço potencial — mas é de “quem” — isto é, uma presciência de suas pessoas. De novo, não poderia ser de suas obras ou fé, pois isso faria com que Romanos 8:29 entrasse em conflito com 1 Pedro 1:2, onde se revela que a fé é conseqüência natural e resultado da eleição, pois Deus elege “para a obediência”, e 2 Tessalonicenses 2:13, onde os homens são escolhidos “para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade”. Em ambos os exemplos, revela-se que a obediência e a fé são conseqüência natural e resultado da escolha soberana de Deus, e não a causa dela. Veja também Atos 13:48, onde se apresenta a mesma coisa. Os homens dizem que Deus anteviu que os homens creriam, mas as Escrituras em parte alguma dizem isso; pelo contrário, o que Deus viu quando Ele olhou do céu foi descrença, desobediência e rebelião universal, conforme está escrito: “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” (Salmo 53:2-3). Isso resolve esse assunto para todos os que estão sujeitos à Palavra de Deus. Deus não elegeu os homens porque Ele anteviu que eles creriam, mas Ele os elegeu porque Ele anteviu que a menos que Eles os elegesse, e oferecesse os meios para conduzi-los à salvação, ninguém chegaria a ser salvo.
Ora, se essa presciência não é da fé deles, então a que isso se refere? Em 1 Pedro 1:20, essa mesma palavra grega que é traduzida “presciência” em 1 Pedro 1:2, é traduzida em 1 Pedro 1:20 “em outro tempo foi conhecido”. Acerca disso o Dr. B. H. Carroll diz:
Conforme Pedro declara a eleição, perguntamos: o que é? Significa escolhidos para a salvação. Quem elege? Deus o Pai. Ele elege de acordo com quê? De acordo com sua presciência. O que Ele quer dizer com presciência? A palavra grega é “prognosis:” “nosis” significa conhecimento, e “pro” (o “g” significa eufonia) quer dizer antes, ou presciência, e essa palavra é um substantivo usado apenas por Pedro no Novo Testamento. Ele o usa três vezes, conforme o seguinte: Atos 2:23; a passagem aí, 1 Pedro 1:2, e em 1 Pedro 1:20. Esses são os únicos lugares no Novo Testamento em que temos a palavra “prognosis,” presciência, que significa conhecer de antemão. Mas tanto Pedro quanto Paulo usam o verbo “prognosco,” que significa conhecer de antemão… Paulo usa a palavra em referência ao conhecimento de antemão que Deus tem de seu povo, e todas as outras vezes que Pedro fala do conhecimento de antemão de Deus. Ora, então a pergunta é: O que significa conhecer de antemão?… O uso de presciência no Novo Testamento era exatamente equivalente à predestinação. Qualquer estudioso da língua grega lhe diria isso. A eleição não se baseava em alguma bondade antevista no homem ou em algum arrependimento ou fé no homem, mas o arrependimento e a fé procedem da eleição, e não vice-versa. De modo que o que Paulo quer dizer com presciência é praticamente a mesma coisa que a predestinação; que na eternidade Deus determinou e elegeu de acordo com essa predestinação. — An Interpretation of the English Bible (Uma Interpretação da Bíblia em Inglês), Vol. 16, pp. 188 189. Broadman Press, Nashville, Tennessee, 1947.
Obviamente “conhecer antes” envolve mais do que mera presciência nessas passagens, pois em Atos 2:23 a presciência de Deus fez mais do que meramente conhecer de antemão a crucificação de Cristo, mas era realmente parte da força de entrega nela: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. O outro uso dessa palavra em 1 Pedro 1:20, onde se traduz “conhecido antes” revela essa mesma coisa, isto é, que essa palavra envolve não só presciência de um fato, mas também a execução de um fato. A presciência de Deus é pois equivalente ao ato de Ele decretar esse fato. Sua predestinação é o cumprimento de todos os eventos que têm a ver com as vidas de Seus eleitos. Portanto, como disse alguém, a eleição tem a ver com pessoas, enquanto a predestinação tem a ver com eventos.
Muitas vezes se usa a palavra “propósito” para denotar a firme decisão ou determinação da mente de buscar um objeto específico. Mas não seria sábio um Ser onisciente tornar qualquer coisa uma finalidade de ação, a menos que se saiba que dá para alcançá-la; e, se sabe que dá para alcançar, tem de se saber também os meios e o modo de obtenção. Assim, o propósito de Deus, abrangendo tanto finalidade quanto meios, tem de abranger tudo o que ele determinou fazer ou permitir. — Alvah Hovey, Manual of Systematic Theology (Manual de Teologia Sistemática), p. 96. Ameri¬can Baptist Publication Society, Philadelphia, 1880.
Não só isso, mas enquanto todos sabemos o que significa “antes” quando adicionado a “conhecer”, muitos não consideraram o uso bíblico da palavra “conhecer”, mas presumiram que só se refere à consciência mental de algo. O primeiro uso de “conhecer” nas Escrituras mostra que se refere a entrar numa íntima união de amor com outro (veja Gênesis 4:1). Esse é o mesmo uso no primeiro uso de “conhecer” no Novo Testamento em Mateus 1:25. Maria também usou essa palavra na mesma forma em Lucas 1:34. É verdade que essa palavra foi usada nessas passagens referindo-se a uma união física, mas ilustra o uso espiritual, como o físico faz em muitos exemplos. Assim, ao “conhecer antes” certas pessoas, Deus estava simplesmente entrando numa íntima relação espiritual de amor com elas em Cristo, o representante delas, como em Efésios 1:3 4. Essa presciência de Deus o Pai equivale em sentido quanto ao que se declara de Israel em Jeremias 31:3. “Há muito [ou na eternidade passada] que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei [ou, te escolhi para mim mesmo], por isso com benignidade te atraí [ou, chamado eficaz]”. Deus tomou a iniciativa com relação à redenção do homem antes que o homem até viesse a existir, e assim, independente de alguma fé real ou possível, obras ou mérito de qualquer tipo. É graça, pura graça, SOBERANA GRAÇA.
A fim de interpretar corretamente a Palavra de Deus, precisamos considerar todas as vezes que uma palavra ou frase aparece, e interpretar cada uma em harmonia com todas as outras; mas se fizermos isso, então não podemos tomar qualquer um dos cognatos dessa palavra “conhecer [antes]”, isolá-la dos outros usos, e dar-lhe um sentido diferente dos outros. Assim, não dá para forçar o termo “dantes conhecer” em Romanos 8:29 a se referir a uma presciência passiva das ações do homem no tempo, quando as formas do substantivo e do verbo dessa palavra em outros lugares mostram que envolve uma força ativa que realiza o fato assim “dantes conhecido”. Parece óbvio para este escritor que a palavra grega traduzida “dantes conheceu” em Romanos 8:29 tem a força de “entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” como na verdade a mesma palavra é traduzida em Atos 2:23, e a maioria dos grandes teólogos batistas do passado tinha esse consenso.
A eleição não se baseia em alguma obra ou ato humano, real ou previsto, mas em vez disso é soberana, conforme está escrito: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:15-16). E de novo: “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:5-6). E ainda de novo: “Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Coríntios 1:26-29).
O homem foi criado e existe para um propósito supremo — para que Deus seja nele glorificado, e Deus jamais tolera nada que vá além daquilo que contribui para Sua glória, pois está escrito: “Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás” (Salmos 76:10). Isso explica o motivo por que a eleição é soberana, e o motivo por que Deus lida com o homem em graça — é para que a glória possa ser toda dEle; e isso explica também o motivo por que a doutrina da eleição é tão desagradável ao paladar do homem — não lhe deixa espaço algum para se gloriar em si mesmo. Assim as Escrituras declaram que a vontade e os propósitos de Deus são os fatores determinantes de Sua relação com o homem: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado… Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:5-6, 9-11).
A rebeldia do homem em aceitar a doutrina da eleição resume-se a apenas uma coisa — ele está indisposto que Deus seja soberano nesse assunto. Ao reconhecer a soberania absoluta de Deus, não teremos problemas com a doutrina da eleição, nem com nenhum dos temas relacionados, pois se Deus tem o direito soberano de fazer com Sua criação conforme bem quiser, e se Ele não pode agir de modo injusto, então tudo o que Ele faz será certo, quer nós seres humanos mortais consigamos ou não entender as razões para Suas ações. Nem mesmo a doutrina da reprovação nos afligirá ao reconhecermos a justiça e soberania de Deus. No entanto, muitos inflam a reprovação (ou rejeição, como também é chamada) para proporções desnecessárias, não percebem sua conexão com o pecado do homem e tornam decreto arbitrário enviar alguns para o inferno sem relação com a descrença disposta do homem. J. M. Pendleton bem diz:
Se se diz que a eleição de alguns é a rejeição de outros, pode-se comentar: A Rejeição é um termo desnecessariamente forte, e é preferível dizer que Deus deixou outros como estavam. A doutrina da eleição os deixa onde eles estariam se não houvesse eleição alguma. Nenhuma injustiça lhes é feita. A verdade é, a eleição não é injustiça para ninguém, embora seja uma bênção inexpressável para alguns. É preciso uma multidão que nenhum homem pode contar do meio da raça caída de Adão, mas Deus pode contá-los e elevá-los à esperança e céu. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), pp. 106 107. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Alguns, em ignorância abjeta, afirmam às vezes que essa doutrina ensina que Deus arbitrariamente manda todos os não eleitos para o inferno “sem uma chance” e exclusivamente como um ato de soberania, mas tal idéia ignora os fatos (1) Que ninguém vai para o inferno exceto por pecado real e pessoal, e assim todo indivíduo no inferno estará ali por justiça. (2) Que nenhum homem vai para o inferno exceto depois de uma vida inteira de pecado, incredulidade e rejeição ao único remédio para o pecado. (3) Que nenhum incrédulo pode saber de sua eleição ou sua não eleição até o fim da vida, e enquanto há vida ele não só tem a oportunidade de se arrepender e se salvar, mas também convites nesses sentido lhe são oferecidos. Séculos atrás, João Bunyan escreveu sobre a Reprovação:
Tenho de lembrá-lo novamente acerca desses detalhes: 1. Que a reprovação eterna não torna um homem pecador. 2. Que a presciência de Deus, que os reprovados perecerão, não torna nenhum homem pecador. 3. Que a infalível determinação de Deus para a condenação daquele que perece não torna homem algum pecador. 4. A paciência, a longanimidade e a moderação, até que o reprovado se prepare para a destruição eterna, não tornam nenhum homem pecador. — The Doctrine of Election And Reprobation, in The Complete Works Of John Bunyan (A Doutrina da Eleição e Reprovação, nas Obras Completas de John Bunyan), Vol. II, p. 285. National Foundation For Christian Educat¬ion, reimpressão, Marshallton, Delaware, 1968.
Nenhum homem tem o direito de falar contra o modo como Deus se relaciona com o homem, qualquer que seja tal relação, e é somente mediante a presunção e prepotência blasfema que alguém ousa agir desse jeito. “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:20-21). Portanto, que nenhum homem orgulhoso desafie o modo como Deus se relaciona com o homem, mas em vez disso que ele se regozije no fato de que Deus escolheu alguns do mundo para serem Seus escolhidos, e que o homem confie no Senhor Jesus para obter a salvação de sua alma para que ele possa ter a certeza de que está incluído entre os escolhidos, e agora humildemente se regozijar nessa eleição.
De novo, que se observe que a eleição inclui todos os meios necessários para a chamada dos eleitos entre o restante do mundo. Aqueles que não crêem nessa doutrina muitas vezes acusam aqueles que crêem de incoerência porque pregam o evangelho e se esforçam para obter a salvação das almas dos homens; ao agirem desse jeito, eles traem sua ignorância, ou então são culpados de propositalmente mal-representar a verdade, pois todos os que verdadeiramente entendem e crêem nessa doutrina também crêem que Deus não só escolheu certas pessoas para serem somente dEle na eternidade, mas que Ele também ordenou os meios para levá-las ao arrependimento e fé no tempo. Referindo-se a Romanos 8:30, o Dr. J. M. Pendleton diz:
Nesse versículo temos, se é que podemos assim chamar, uma corrente de ouro de quatro elos, e essa corrente alcança de eternidade a eternidade. O primeiro elo é a predestinação, e o último é a glorificação, enquanto os dois elos no meio são chamado e justificação. O primeiro elo não tem conexão alguma com o último, exceto mediante os elos intermediários. Isto é, não há jeito de o propósito de Deus na predestinação poder alcançar sua finalidade na glorificação, se o chamado e a justificação não ocorrerem. Mas o chamado e a justificação são inseparáveis de “a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21). O arrependimento e a fé, então, sem mencionar outras coisas, são meios mediante os quais se realiza o propósito de Deus na eleição. Portanto, Deus, ao predestinar a salvação para seu povo, predestinou o arrependimento deles, e a fé e todos os outros meios necessários para a salvação deles. — Christian Doctrines (Doutrinas Cristãs), pp. 110 111. American Baptist Publication Society, Philadelphia, 1878.
Se nos perguntassem o motivo por que temos de pregar o evangelho se Deus escolheu os homens para a salvação, deixamos Paulo responder: “Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). Se nos perguntassem de modo faccioso o motivo por que então não pregamos somente aos eleitos, respondemos primeiramente que não podemos saber antecipadamente quem são eles, a não ser pela reação deles ao evangelho, mas ainda que pudéssemos saber antecipadamente quem são eles, isso em nada nos aliviaria do dever de “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Quantos eleitos há, e quem são, de modo algum afeta nossa responsabilidade de proclamar fielmente a todo o mundo o evangelho da graça salvadora de Deus; é responsabilidade de Deus chamá-los através do evangelho que pregamos. O evangelho tem um de dois resultados quando é pregado: justificação ou juízo; assim, Paulo diz: “Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem. Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo?” (2 Coríntios 2:15-16). A pregação do evangelho torna mais ainda os homens responsáveis de prestar contas a Deus por sua incredulidade e rejeição.
III. A DETERMINAÇÃO DA ELEIÇÃO.
Muitas vezes se faz a pergunta: “Como uma pessoa pode saber que ela pertence aos eleitos?” O que todos temos de compreender é que enquanto nosso Senhor disse: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus”, Lucas 10:20, mas não temos jeito algum de subir até o céu e contemplar aquele maravilhoso e glorioso Livro da Vida do Cordeiro, em que estão inscritos todos os santos de todas as épocas. Mas se esse é o caso, como então se pode saber que ele pertence aos eleitos? Não simplesmente porque ele é membro de uma igreja, pois isso nada prova, como revela o caso de Judas Iscariotes; e um homem não pode saber que ele é dos eleitos porque ouviu a pregação do evangelho e sentiu a convicção da Palavra, pois Mateus 20:16 declara que “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. O chamado do evangelho mexe com muitos corações que nunca são transformados e nunca são vivificados pelo Espírito Santo, e assim o número dos eleitos é muito menor do que o número dos que sentiram a convicção e ouviram um chamado de receber o Salvador.
Quando consideramos as referências aos homens sendo chamados em Romanos 8:30: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”, e 1 Coríntios 1:23 24: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus”, e 2 Tessalonicenses 2:14: “Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo”, e outras passagens, então se torna óbvio que além do chamado normal, que vem mediante a pregação, e que muitas vezes é mais ineficaz do que não, há outro chamado que é sempre apenas para os eleitos, e sempre resulta em justificação, e finalmente se completará na glorificação. Esse último chamado é o que os teólogos do passado chamavam de chamado eficaz, enquanto o primeiro chamado é conhecido como o chamado geral; a menos que se faça essa distinção, o resultado será muita confusão, e parecerá que os propósitos de Deus muitas vezes falham na realização. O chamado eficaz, porém, não falha, sendo idêntico com regeneração, de modo que qualquer pessoa nasce de novo quando esse chamado lhe vem. Esse chamado é co-extensivo com o número daqueles que são justificados e glorificados, pois não há quebra entre eles, nem diminuição nem aumento no número de pessoas entre o chamado, a justificação e a glorificação em Romanos 8:30. Note a correlação entre “aos que” e “estes” aparecendo três vezes.
Ninguém tem a garantia de sua eleição, exceto ao se submeter ao chamado do evangelho e se arrepender de seus pecados e confiar na obra expiatória do Senhor Jesus Cristo, pois essas coisas são as primeiras evidências da eleição de alguém, como está escrito: “… e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Esse versículo sofre enorme violência por parte daqueles que não crêem na eleição soberana de Deus, alguns tentando tornar a ordenação para a vida subseqüente ao ato de crer, e outros desafiando o sentido da palavra traduzida “ordenado”.
Quanto à primeira dessas duas reações a esse versículo, temos só de citar as palavras do Dr. A. T. Robertson, cuja autoridade como estudioso grego é inquestionável, pois ele é conhecido e reconhecido como um dos grandes estudiosos gregos da geração passada. Ele diz:
Não há nenhum tipo de truque que possa fazer significar que aqueles que creram foram depois ordenados. Foi a fé salvadora que foi exercitada somente por aqueles que foram ordenados para a vida eterna, aqueles classificados para a vida eterna, que foram assim revelados como alvos da graça de Deus pela posição que tomaram para o Senhor neste dia. — Word Pictures In The New Testament (Retratos da Palavra no Novo Testamento), Vol. III, pp. 200 201. Broadman Press, Nashville, Tenn., 1930.
A única ordem correta dessa sentença é com ordenação à vida eterna indo antes, e sendo a causa da fé que se estava exercendo. Quanto à segunda reação a esse versículo — o desafio do sentido da palavra traduzida “ordenado” — alguns dizem que se deve lhe atribuir um sentido reflexivo: “se dispuseram para a vida eterna”. Não somos informados acerca do motivo por que essa palavra tem de receber tal atribuição, a menos que seja forçada a concordar com a idéia de antemão deles. É suficiente responder que essa palavra (grego tasso) jamais sustenta tal sentido no Novo Testamento conforme manifestará um estudo de todas as vezes que essa palavra aparece; (veja Mateus 28:16; Lucas 7:8; Atos 13:48; 15:2; 22:10; 28:23; Romanos 13:1; 1 Coríntios 16:15). Só no último exemplo a ação da sentença chega a ser reflexiva, e é reflexiva apenas porque o pronome reflexivo eatous a exige. O próprio verbo jamais é reflexivo, e tentar forçá-lo a ser mostra uma indisposição de se aceitar o sentido claro do verbo original.
Além dos mais, se torna ainda mais óbvio que a Versão do Rei James traduz essa palavra de modo correto quando consideramos que quase todos os tradutores do Novo Testamento reconhecem esse como o sentido verdadeiro dessa palavra, e assim a traduzem. É interessante notar que os homens muitas vezes lidam de modo bem negligente com as Escrituras quando fazem comentários sobre elas, muitas vezes tentando forçar suas próprias crenças nelas, mas quando eles as estão traduzindo, eles são mais prudentes, e parecem temer lidar com elas do mesmo modo sacrílego que lidam em seus comentários. Das mais de trinta versões que este escritor consultou, apenas duas traduziram essa palavra de modo diferente de “ordenar”, “nomear”, “destinado”, “escolhido”, e palavras de importância semelhante. Uma dessas duas é a Versão do Novo Mundo (das testemunhas-de-jeová), que é bem conhecida por sua falta de confiabilidade. A outra versão é a Bíblia Viva, que se reconhece como paráfrase, e não uma tradução, mas até mesmo essa versão, embora use a palavra “desejaram” no texto, dá, no rodapé, o sentido de “arranjados para” ou “ordenados para”. O sentido passivo mostra com clareza que a disposição não era do homem, e assim deve ter sido de Deus, pois Satanás certamente jamais tentaria determinar ninguém para a vida eterna. Cremos que esses fatos acerca de Atos 13:48 falam por si mesmos.
Que o homem não tenha o poder intrínseco de crer, e que ele tem de pertencer ao número dos eleitos antes que possa crer no evangelho, é óbvio a partir de João 10:26: “Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito”. Essa é uma declaração difícil, mas não temos a liberdade de rejeitá-la simplesmente porque não podemos entendê-la, pois não é o único versículo que ensina essa verdade profunda, pois João 6:44 45 também declara: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim”. Se o Pai não atrair uma pessoa, e lhe der o poder da fé, então esse indivíduo não pode se salvar; assim, toda a glória da salvação pertence ao Senhor e somente a Ele.
Do ponto de vista humano, determina-se a eleição pela vida que alguém vive, e por esse motivo só é possível sabermos com certeza nesta vida mediante o exemplo de uma vida de santidade. Paulo disse acerca dos tessalonicenses: “Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus”, 1 Tessalonicenses 1:4, mas como ele sabia disso? Ele próprio dá a resposta no versículo precedente: “Lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai” (versículo 3). Quando compreendemos que os homens são eleitos para a fé e obediência, e não por causa destas, (2 Tessalonicenses 2:13; Atos 13:48; 1 Pedro 1:2), então compreendemos que onde as vemos, há evidência de eleição. Na salvação somos criados “em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”, (Efésios 2:10), de modo que uma vida constante em boas obras é evidência de que alguém foi salvo, e conseqüentemente de que é uma pessoa eleita.
A eleição é uma doutrina misteriosa, mas maravilhosa; é uma doutrina que, embora não deixe espaço para o orgulho e vaidade, é porém uma grande bênção para o homem, pois garante a salvação de cada um dos eleitos de Deus. Alguns repudiam a doutrina da eleição, dizendo que mostra ser respeitadora de homens, mas deixa alguns sem esperança de salvação. A verdade é que ninguém pode saber se ele pertence aos eleitos ou não eleitos, exceto crendo ou então morrendo sem arrependimento, o que coloca a questão toda no nível da fé ou falta de fé do indivíduo. Observe o que Jesus diz acerca disso: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Aí aprendemos: (1) Que só aqueles que foram dados a Cristo no pacto da redenção virão a Ele. Isso se refere, é claro, à eleição. (2) Todos aqueles que foram assim dados virão a Cristo. A salvação de todos os eleitos é assegurada pelo chamado eficaz e a atração deles. Essa é graça eficaz ou irresistível. (3) Que embora essas coisas sejam gloriosamente assim, há porém também a esperança para todos os que se achegam a Cristo em fé serão por Ele recebidos. Assim, enfatiza-se a responsabilidade humana, de modo que ninguém pode culpar a Deus por qualquer homem que se perde. Já que ele não pode saber de antemão acerca de sua não eleição, e já que se oferece a promessa de aceitação a todos os que se achegam, o homem perdido se perde exclusivamente por causa de sua própria incredulidade da promessa de Deus.
Nosso chamado e eleição podem ser afirmados — afirmados para nós e para outros homens, pois Deus já os conhece, sendo obra dEle. Assim diz Pedro: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (2 Pedro 1:10). As coisas às quais se refere Pedro, que tornam firmes o chamado e eleição de alguém, são aquelas boas obras que se esperam de toda pessoa que verdadeiramente nasceu de novo, e que manifestam que ele é verdadeiramente salvo. Elas são boas obras que se originam da fé (veja os versículos 5 9).
A eleição, sendo obra de Deus, e sem causa humana, glorifica a Deus enquanto ao mesmo tempo humilha o homem, e essa é a razão principal por que é tão desagradável ao paladar do homem. Quando nos lembramos da declaração de Paulo de que, “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”, (Romanos 7:18), então temos de reconhecer que quase qualquer coisa que humilhe o orgulho carnal, enquanto glorifica a Deus, pode ser presumida como verdadeira. Nada de bom jamais teve sua origem na carne, e nada de ruim (nada verdadeiramente ruim à luz dos propósitos de Deus) jamais procede de Deus.
Autor: Pr Davis W. Huckabee
A LIBERDADE DE DEUS E O LIVRE ARBÍTRIO DOS HOMENS
O livre arbítrio do homem é axioma cristão. Toda moral, quer sob a Lei, quer sob o Evangelho, o responsabiliza e o considera capaz de considerar motivos, pesar alternativas, calcular necessários para os atingir. Esta verdade elementar é fato fundamental em nossa experiência e assim agimos a cada momento.
Entre as verdades reveladas, freqüentemente aparecem gêmeas. Andam em pares. Assim a liberdade de Deus é verdade tão axiomática como o livre arbítrio dos homens, é infinitamente maior em alcance, santidade e valor, e no horizonte de seu panorama são vistas, em suas verdadeiras proporções e forças divinas, humanas, angélicas, demoníacas, e cósmicas. A liberdade de Deus não pode ser elemento latem, suprimido ou nulo no pensamento cristão. Sem este fato, nossas mentes ficam sem a luz e a força da eternidade, do invisível, criação, da providência, da redenção, do juízo, da revelação, e dos atributos de Pai, Filho e Espírito Santo, como fatores na vida e no pensamento. Nosso Deus não é Deus de palanque, mero espectador do curso do universo. Sua imanência em tudo, e sua transcendência a parte de tudo e sobre tudo, como o “Todo-Poderoso”, são da essência da fé, uma vez entregue aos santos, revelada em toda a Escritura. Deus, pois, goza de liberdade em seu universo. Os nomes bíblicos desta verdade são as doutrinas de predestinação, eleição, chamada eficaz, graça, providência, soberania divina, e doutrinas congêneres em toda a esfera de revelação. Todos esses atos correspondem, em Deus, a decisões tomadas por nós, no exercício de nossa liberdade, todos os dias de nossa vida, não neguemos, pois, a Deus a liberdade que gozamos e usamos e consideramos indispensável ao gozo de personalidade. Porquanto a personalidade é a natureza que é comem a nós e Deus, a liberdade de escolha é da sua essência vital.
Nem a nossa liberdade nem a de Deus existe em absoluto. Quando Deus criou o universo, encheu de bilhões de seres responsáveis, tolerou sua queda em pecado e rebelião numa vasta escala, ainda empenhou os recursos divinos da Trindade na redenção, e entregou a empresa de evangelizar os pecadores aos esforços vagarosos e imperfeitos de outros pecadores, salvos pela graça, Ele inevitavelmente pôs pesados limites á liberdade divina. Há, pois, vários sentidos em que a liberdade divina é limitada. Deus não pode fazer aquilo que esteja contrário ao seu caráter, nem o inerentemente contraditório ou impossível. Também havendo cedido a responsabilidade por um prazo, ou pela imortalidade de seres criados a sua imagem, ele não pode agir senão dentro de suas próprias alianças ou pactos ou concertos que definem seus planos, promessas, e maneiras garantidas de agir. Tudo quanto seja condicional, nas relações entre Deus e outras personalidades responsáveis e dotadas de livre arbítrio, constitui limite à liberdade divina. Outrossim, enquanto existe o estado atual da matéria, Deus se conforma com suas próprias “leis da natureza”, por Ele estabelecidas, as quais são apenas seus “hábitos de ação” providencial nessa esfera. Mas Ele não está preso numa gaiola de leis da sua confecção. Antes possui sempre os recursos infinitos da personalidade divina para introduzir, á sua vontade, fatores por nós desconhecidos que também podem agir no regime dessas leis, por exemplo, em responder ás orações do seu povo, em salvar, guardar e orientar o crente em Cristo Jesus, em toda aquela esfera da providência divinas que faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que são chamados segundo o seu propósito, e em manter o universo em sua quilha, seguro no seu rumo dos séculos, a despeito das maquinações de demônios e homens maus, em marcha rítmica ao dia do juízo final e à ordem eterna das coisas. Em todo o seu domínio sobre essa complexa unidade de seres responsáveis, Deus é incapaz de uma só injustiça, falta de amor positivo e agressivo, ou arbitrariedade, em todo o exercício multi-secular desta liberdade divina, assim voluntariamente limitada, mas soberana e eficaz.
É igualmente importante, para reter e manter em simetria e coerência a verdade evangélica, que reconheçamos os vastos limites da liberdade humana. É limitada pela existência de Deus, pela queda da raça pela atividade hostil de outra raça decaída, os demônios que agem sob Satanás, o deus deste mundo, e pelos direitos de milhões de nossos semelhantes humanos, que existem como sardinhas em lata na terra, na vasta confusão que o pecado operou e desenvolve a cada passo. Forçosamente, nossa liberdade existe nessa complexa responsabilidade multiforme, ajuntando-se a cada instante com outros seres do mundo visível e invisível. Em todas estas relações sem conta, ela respeita os direitos alheios ou sofre as conseqüências. E as conseqüências ou aumentam as barreiras em nosso caminho de vontade própria ou salientam amargamente para nós que tais barreiras às vezes têm por cima arame farpado para ferir o transgressor, no sentido de conseqüências das próprias leis da natureza, física e mentais e sociais, que nossa própria consciência ajuizadamente apoia.
A moral, pois, a salvação, a religião, o fruto do Espírito, a ética, a sociologia, a vida econômica, a política, a autoridade do Estado em lei municipais, estaduais, nacionais e internacionais, e nas emergências de guerra ou calamidade, e todas as organizações voluntárias e domésticas impõem restrições em nossa liberdade pessoal. E quando mais adiantada a civilização, tanto mais complexa a responsabilidade limitada, e mais exigente ainda é o exercício do livre arbítrio.
Ora, a cada passo o nosso próximo nos lembra das restrições da nossa liberdade, dizendo-nos em solene advertência: “A tua liberdade termina no ponto onde começa o meu nariz!” E às vezes seu nariz está tão perto, e diretamente no rumo aonde queremos seguir. E nós nos sentimos nervosos, medrosos, muito prudentes ao chegarmos bem perto desse término. Só com muita cortesia, prévia aviso, e inegável necessidade é que fica de mútuo acordo que alguém toque no nariz alheio, como por exemplo, quando o dentista é solicitado a arrancar um dente que nos dói, embora seja necessário tomar liberdades com o nosso nariz e boca. Todavia, podemos recusar os bons serviços do dentista a ainda manter a inviolabilidade da ponta do nosso nariz. Contudo, sempre achei bom sacrificar um pouco a liberdade e o respeito próprio e me escravizar na cadeira do dentista, a fim de gozar aquela liberdade maior que é o alívio da dor de dente. Assim, no pleno exercício do meu livre arbítrio, caminhei submissa, tristonho, mas reluto, para o gabinete da tortura. Há sacrifícios voluntários da liberdade que o próprio arbítrio livre impõem e exige, e paga o preço para obter. Contudo somos nós que decidimos a questão. Fica intacta nossa escolha de motivos e meios.
Muito mais séria barreira e limitação da liberdade humana é feita pelo pecado, em todos os seus aspectos pessoais, coletivos, raciais, cósmicos e superhumanos. “Em verdade, em verdade, vos digo que todo aquele que comete pecado é servo (escravo) do pecado” (João 8.34). Assim Jesus afirmou. Um escravo, porém tem livre arbítrio, embora a sua liberdade seja pouca. Há regiões íntimas da personalidade onde ele pode ser livre e superior. A vítima do alcoolismo, por exemplo, tem toda a liberdade de não beber. Não há lei divina ou humana que exija que ele beba. Nem Deus nem os homens de bem apoiam essa crescente escravatura a que o bêbado voluntariamente se entregou, e até seus tentadores chegam ao ponto em que já não têm prazer na sua companhia no bar ou clube. É livre, pois, para não beber, não é? É livre, sim, mas impotente, incapaz de exercer seu livre arbítrio. Já não existe nele a força para resistir ao poder da tentação. Quem se cobre de grilhões não é livre. Há, de fato, tantas limitações liberdade humana quantos aspectos há ao pecado na vida do homem, pessoal, coletiva, racial e cosmicamente. A suposição popular ou filosófica de existir um ser criado e decaído que seja absolutamente livre e totalmente capaz, é hipótese admissível somente num asilo de doidos. Nunca houve um pecado que não acrescentasse mais grilhões ao escravo do mal e da depravação. A impotência moral e espiritual do pecador, pois, embora não seja total, no sentido de paralisar por completo todos os poderes da vontade humana, é fato racial e universalmente individual, com a única exceção de Jesus Cristo, e é total no sentido de afetar todo o nosso ser nas suas influências. Assim a depravação humana é total, mas não máxima; e este fato diminui a capacidade humana sem lhe diminuir a responsabilidade, no exercício do livre árbitro.
Nosso meio ambiente filosófico e religioso é quase totalmente hostil a qualquer doutrina real de Deus, e especialmente da liberdade de deus. O Deus vivo e verdadeiro ainda é um deus desconhecido aos nossos soberbos atenienses do Areópago dos intelectuais. O positivismo renascente não admite admitir verdade, portanto quer desviar até os crentes para um estéril humanismo anti-teológico, feroz contra toda a doutrina, sem entre a verdadeira e a falsa ou entre as tradições dos homens e a revelação divina nas Escrituras e em Jesus Cristo. As várias “ideologias” prevalecentes ambicionam limitar nosso horizonte a esta vida. O unionismo “ecumênico” quer reduzir todas as doutrinas nominalmente cristão ao mesmo nível, por mais contraditórias que sejam. Num meio tão hostil, é preciso ser crente de coragem moral, decisão de caráter, fibra, intelectual resistente e real independência de juízo para crer, apoiar e testemunhar as verdades que Deus tenha revelado na sua Palavra, mormente a verdade do Deus livre e sempre ativo na vida. Neste terreno, porém vale mais um Paulo do que dez mil Gamaliéis, e um Spurgeon significa mais para o mundo contemporâneo religioso do que um milhões de Darwins. Teremos ensejo de examinar e decidir se realmente cremos num Deus de palanque, nulo, irresponsável, mera fábula de velhas, ou se o Deus da Bíblia é o nosso Deus, adorado, acatado, amado, obedecido e proclamado no seu evangelho para todos.
Três doutrinas que nos falam da liberdade de deus são sua predestinação, sua eleição e sua chamada eficaz. Há pouco no Novo Testamento sobre a doutrina da predestinação, pois a palavra só se emprega em Atos 4.28; Romanos 8.29, 30; 1 Coríntios 2.7; e Efésios 1.5,11. O estudante da Bíblia, porém, se ler estas Escrituras e lhe der seu valor evidente, há de sentir quão profunda é esta verdade e quão extenso o seu alcance. O leitor é convidado a ler, meditar estudar e assimilar estas verdades, sem rodeios, sem buscar anular seu sentido e valor pela lógica de sofismas incrédulos. Verá na sua pujança e pureza a doutrina da liberdade de Deus, não precisa gastar tempo procurando harmonizar isto coma liberdade humana, pois não há conflito entre as múltiplas liberdade de personalidade. Nunca entenderemos isto, mas podemos crer, pois, ou Deus é livre, ou não há Deus. Sua liberdade de fazer planos, escolher meios e pessoas para a execução destes planos e orientar tudo de acordo é exatamente a natureza da liberdade que nós verificamos existir imperfeitamente em nós mesmos. Deus é pelo menos tão livre como suas criaturas.
A doutrina da eleição e os termos congêneres se encontram em Romanos 9.11; 11.5,7; 1 Tessalonicenses 1.4; 2 Pedro 1.10; 1 Pedro 2.4.6,9; Tito 1.1; 2 Timóteo 2.10; Marcos 13.20,22,27; Mateus 20.16; 22.14; 24.24; João 15.16; 1 Coríntios 1.27; Efésios 1.4; Tiago 2.5. Esta eleição divina foi feita mesmo antes da nossa existência, na antiga eternidade (Apocalipse 17.8). Jesus fala de ovelhas suas que ainda não eram convertidas (João 10.26-27), e a Paulo animou com a declaração de que Ele tinha muito povo em corinto (Atos 18.10), quando os crentes ainda eram poucos e novos. É fútil dizer que Deus meramente escolheu aos que O tiverem escolhido, ou que faz sua escolha depois da escolha humana de salvação. Isto reduz o Deus da eternidade a um deus de palanque e nega a veracidade destas muitas Escrituras. Deus elege livremente, como nós O escolhemos em plena liberdade de O receber ou rejeitar. Onde há muitas vontades, muitos livremente escolhem, e fútil negar a Deus a liberdade de escolha que nós mesmos gozamos. Nós escolhemos pessoas, por exemplo, no casamento. Isto não ofende a ética: antes a ética o exige. Um rapaz que meramente escolhesse casar-se com uma classe, decidisse que sua esposa seria mulher, mas nunca fosse além, seria para sempre solteiro. É a escolha do indivíduo que resulta no casamento ou na salvação. No casamento ou na salvação há duas pessoas a decidir, duas escolhas, mas a escolha de Deus é pelo menos tão livre como a escolha do pecador a quem Ele estende a sua graça. Nem digamos que a eleição seja só para serviço. Isto não evita nenhum problema de doutrina. Se Deus escolheu e capturou a Paulo, para ser o apóstolo aos gentios, e não escolheu Gamaliel para tão elevado lugar na história humana, o problema moral é o mesmo, em grau menor, que existe na escolha para a salvação. A escolha divina é para todos os fins da vontade de Deus. A definição da doutrina da eleição por Strong é: “O ato eterno de Deus, pelo qual, segundo o seu beneplácito soberano e não em consideração de mérito previsto, Ele escolhe certas pessoas do mundo de pendores, para serem os recipientes da graça especial de seu Espírito, de modo a se tornarem participantes voluntários da salvação de Cristo…” Assim a escolha divina e a fé humana são voluntárias. Não há perigo de negarmos o livre arbítrio do homem na salvação. Tenhamos pela fé ao menos igual apoio da liberdade de Deus em todas as escolhas relacionadas com a salvação, o serviço cristão e o progresso do reino de Deus até o seu triunfo final.
Strong também salienta duas doutrinas distintas das chamadas divinas que as Escrituras afirmam. Uma é a chamada universal do evangelho, como se vê em Isaías 45.22; 55.16; 65.12; João 12.22, etc. etc… A outra é a chamada eficaz do Espírito Santo no Coração que nos conduz sobrenaturalmente, pela correspondermos à eleição divina e à sua chamada eficaz, unido assim a escolha divina e a humana, mutuamente, na experiência da salvação. Esta doutrina da chamada especial e eficaz, gravada em nossos espíritos pelo Espírito de Deus, se encontra em Lucas 14.23; Romanos 1.7; 8.30; 11.29; 1 Coríntios 1.23,24,26; Filipenses 3.14; Efésios 1.18; 1 Tessalonicenses 2.12; 2 Tessalonicenses 2.14; 2 Timóteo 1.9; Hebreus 3.1; 2 Pedro 1.10. Strong define esta chamada eficaz como a operação poderosa do Espírito, levando o pecador a Cristo. Paulo contempla a majestosa unidade inquebrantável desta eterna salvação. As mesmas pessoas que ele previu como já glorificadas no céu, foram anteriormente predestinadas, eficazmente chamadas, justificadas e então glorificadas. E de todos os crentes Ele tem tanta certeza da sua salvação assim consumada que emprega até tempo passado do verbo cinco vezes: “Dantes conheceu (não era mera presciência, mas eleição, conhecendo-os como seus)… predestinou…chamou… justificou… glorificou” (Romanos 8.29,30). Os elos se estendem de eternidade a eternidade, e são todos atos divinos, decisões da livre vontade de Deus. Nunca ponhamos uma verdade em oposição a outra, nem consintamos que uma eclipse outra. Acima de todas as liberdades, sem contradizer ou negar ou enfraquecer nenhuma delas, é a liberdade de Deus. Creiamos no Deus livre e real, cujo livre arbítrio é tão genuíno e independente como o nosso, e para cujos propósitos há os infinitos recursos de sua personalidade divina, “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade”.
Autor: Dr William Carey Taylor
Entre as verdades reveladas, freqüentemente aparecem gêmeas. Andam em pares. Assim a liberdade de Deus é verdade tão axiomática como o livre arbítrio dos homens, é infinitamente maior em alcance, santidade e valor, e no horizonte de seu panorama são vistas, em suas verdadeiras proporções e forças divinas, humanas, angélicas, demoníacas, e cósmicas. A liberdade de Deus não pode ser elemento latem, suprimido ou nulo no pensamento cristão. Sem este fato, nossas mentes ficam sem a luz e a força da eternidade, do invisível, criação, da providência, da redenção, do juízo, da revelação, e dos atributos de Pai, Filho e Espírito Santo, como fatores na vida e no pensamento. Nosso Deus não é Deus de palanque, mero espectador do curso do universo. Sua imanência em tudo, e sua transcendência a parte de tudo e sobre tudo, como o “Todo-Poderoso”, são da essência da fé, uma vez entregue aos santos, revelada em toda a Escritura. Deus, pois, goza de liberdade em seu universo. Os nomes bíblicos desta verdade são as doutrinas de predestinação, eleição, chamada eficaz, graça, providência, soberania divina, e doutrinas congêneres em toda a esfera de revelação. Todos esses atos correspondem, em Deus, a decisões tomadas por nós, no exercício de nossa liberdade, todos os dias de nossa vida, não neguemos, pois, a Deus a liberdade que gozamos e usamos e consideramos indispensável ao gozo de personalidade. Porquanto a personalidade é a natureza que é comem a nós e Deus, a liberdade de escolha é da sua essência vital.
Nem a nossa liberdade nem a de Deus existe em absoluto. Quando Deus criou o universo, encheu de bilhões de seres responsáveis, tolerou sua queda em pecado e rebelião numa vasta escala, ainda empenhou os recursos divinos da Trindade na redenção, e entregou a empresa de evangelizar os pecadores aos esforços vagarosos e imperfeitos de outros pecadores, salvos pela graça, Ele inevitavelmente pôs pesados limites á liberdade divina. Há, pois, vários sentidos em que a liberdade divina é limitada. Deus não pode fazer aquilo que esteja contrário ao seu caráter, nem o inerentemente contraditório ou impossível. Também havendo cedido a responsabilidade por um prazo, ou pela imortalidade de seres criados a sua imagem, ele não pode agir senão dentro de suas próprias alianças ou pactos ou concertos que definem seus planos, promessas, e maneiras garantidas de agir. Tudo quanto seja condicional, nas relações entre Deus e outras personalidades responsáveis e dotadas de livre arbítrio, constitui limite à liberdade divina. Outrossim, enquanto existe o estado atual da matéria, Deus se conforma com suas próprias “leis da natureza”, por Ele estabelecidas, as quais são apenas seus “hábitos de ação” providencial nessa esfera. Mas Ele não está preso numa gaiola de leis da sua confecção. Antes possui sempre os recursos infinitos da personalidade divina para introduzir, á sua vontade, fatores por nós desconhecidos que também podem agir no regime dessas leis, por exemplo, em responder ás orações do seu povo, em salvar, guardar e orientar o crente em Cristo Jesus, em toda aquela esfera da providência divinas que faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que são chamados segundo o seu propósito, e em manter o universo em sua quilha, seguro no seu rumo dos séculos, a despeito das maquinações de demônios e homens maus, em marcha rítmica ao dia do juízo final e à ordem eterna das coisas. Em todo o seu domínio sobre essa complexa unidade de seres responsáveis, Deus é incapaz de uma só injustiça, falta de amor positivo e agressivo, ou arbitrariedade, em todo o exercício multi-secular desta liberdade divina, assim voluntariamente limitada, mas soberana e eficaz.
É igualmente importante, para reter e manter em simetria e coerência a verdade evangélica, que reconheçamos os vastos limites da liberdade humana. É limitada pela existência de Deus, pela queda da raça pela atividade hostil de outra raça decaída, os demônios que agem sob Satanás, o deus deste mundo, e pelos direitos de milhões de nossos semelhantes humanos, que existem como sardinhas em lata na terra, na vasta confusão que o pecado operou e desenvolve a cada passo. Forçosamente, nossa liberdade existe nessa complexa responsabilidade multiforme, ajuntando-se a cada instante com outros seres do mundo visível e invisível. Em todas estas relações sem conta, ela respeita os direitos alheios ou sofre as conseqüências. E as conseqüências ou aumentam as barreiras em nosso caminho de vontade própria ou salientam amargamente para nós que tais barreiras às vezes têm por cima arame farpado para ferir o transgressor, no sentido de conseqüências das próprias leis da natureza, física e mentais e sociais, que nossa própria consciência ajuizadamente apoia.
A moral, pois, a salvação, a religião, o fruto do Espírito, a ética, a sociologia, a vida econômica, a política, a autoridade do Estado em lei municipais, estaduais, nacionais e internacionais, e nas emergências de guerra ou calamidade, e todas as organizações voluntárias e domésticas impõem restrições em nossa liberdade pessoal. E quando mais adiantada a civilização, tanto mais complexa a responsabilidade limitada, e mais exigente ainda é o exercício do livre arbítrio.
Ora, a cada passo o nosso próximo nos lembra das restrições da nossa liberdade, dizendo-nos em solene advertência: “A tua liberdade termina no ponto onde começa o meu nariz!” E às vezes seu nariz está tão perto, e diretamente no rumo aonde queremos seguir. E nós nos sentimos nervosos, medrosos, muito prudentes ao chegarmos bem perto desse término. Só com muita cortesia, prévia aviso, e inegável necessidade é que fica de mútuo acordo que alguém toque no nariz alheio, como por exemplo, quando o dentista é solicitado a arrancar um dente que nos dói, embora seja necessário tomar liberdades com o nosso nariz e boca. Todavia, podemos recusar os bons serviços do dentista a ainda manter a inviolabilidade da ponta do nosso nariz. Contudo, sempre achei bom sacrificar um pouco a liberdade e o respeito próprio e me escravizar na cadeira do dentista, a fim de gozar aquela liberdade maior que é o alívio da dor de dente. Assim, no pleno exercício do meu livre arbítrio, caminhei submissa, tristonho, mas reluto, para o gabinete da tortura. Há sacrifícios voluntários da liberdade que o próprio arbítrio livre impõem e exige, e paga o preço para obter. Contudo somos nós que decidimos a questão. Fica intacta nossa escolha de motivos e meios.
Muito mais séria barreira e limitação da liberdade humana é feita pelo pecado, em todos os seus aspectos pessoais, coletivos, raciais, cósmicos e superhumanos. “Em verdade, em verdade, vos digo que todo aquele que comete pecado é servo (escravo) do pecado” (João 8.34). Assim Jesus afirmou. Um escravo, porém tem livre arbítrio, embora a sua liberdade seja pouca. Há regiões íntimas da personalidade onde ele pode ser livre e superior. A vítima do alcoolismo, por exemplo, tem toda a liberdade de não beber. Não há lei divina ou humana que exija que ele beba. Nem Deus nem os homens de bem apoiam essa crescente escravatura a que o bêbado voluntariamente se entregou, e até seus tentadores chegam ao ponto em que já não têm prazer na sua companhia no bar ou clube. É livre, pois, para não beber, não é? É livre, sim, mas impotente, incapaz de exercer seu livre arbítrio. Já não existe nele a força para resistir ao poder da tentação. Quem se cobre de grilhões não é livre. Há, de fato, tantas limitações liberdade humana quantos aspectos há ao pecado na vida do homem, pessoal, coletiva, racial e cosmicamente. A suposição popular ou filosófica de existir um ser criado e decaído que seja absolutamente livre e totalmente capaz, é hipótese admissível somente num asilo de doidos. Nunca houve um pecado que não acrescentasse mais grilhões ao escravo do mal e da depravação. A impotência moral e espiritual do pecador, pois, embora não seja total, no sentido de paralisar por completo todos os poderes da vontade humana, é fato racial e universalmente individual, com a única exceção de Jesus Cristo, e é total no sentido de afetar todo o nosso ser nas suas influências. Assim a depravação humana é total, mas não máxima; e este fato diminui a capacidade humana sem lhe diminuir a responsabilidade, no exercício do livre árbitro.
Nosso meio ambiente filosófico e religioso é quase totalmente hostil a qualquer doutrina real de Deus, e especialmente da liberdade de deus. O Deus vivo e verdadeiro ainda é um deus desconhecido aos nossos soberbos atenienses do Areópago dos intelectuais. O positivismo renascente não admite admitir verdade, portanto quer desviar até os crentes para um estéril humanismo anti-teológico, feroz contra toda a doutrina, sem entre a verdadeira e a falsa ou entre as tradições dos homens e a revelação divina nas Escrituras e em Jesus Cristo. As várias “ideologias” prevalecentes ambicionam limitar nosso horizonte a esta vida. O unionismo “ecumênico” quer reduzir todas as doutrinas nominalmente cristão ao mesmo nível, por mais contraditórias que sejam. Num meio tão hostil, é preciso ser crente de coragem moral, decisão de caráter, fibra, intelectual resistente e real independência de juízo para crer, apoiar e testemunhar as verdades que Deus tenha revelado na sua Palavra, mormente a verdade do Deus livre e sempre ativo na vida. Neste terreno, porém vale mais um Paulo do que dez mil Gamaliéis, e um Spurgeon significa mais para o mundo contemporâneo religioso do que um milhões de Darwins. Teremos ensejo de examinar e decidir se realmente cremos num Deus de palanque, nulo, irresponsável, mera fábula de velhas, ou se o Deus da Bíblia é o nosso Deus, adorado, acatado, amado, obedecido e proclamado no seu evangelho para todos.
Três doutrinas que nos falam da liberdade de deus são sua predestinação, sua eleição e sua chamada eficaz. Há pouco no Novo Testamento sobre a doutrina da predestinação, pois a palavra só se emprega em Atos 4.28; Romanos 8.29, 30; 1 Coríntios 2.7; e Efésios 1.5,11. O estudante da Bíblia, porém, se ler estas Escrituras e lhe der seu valor evidente, há de sentir quão profunda é esta verdade e quão extenso o seu alcance. O leitor é convidado a ler, meditar estudar e assimilar estas verdades, sem rodeios, sem buscar anular seu sentido e valor pela lógica de sofismas incrédulos. Verá na sua pujança e pureza a doutrina da liberdade de Deus, não precisa gastar tempo procurando harmonizar isto coma liberdade humana, pois não há conflito entre as múltiplas liberdade de personalidade. Nunca entenderemos isto, mas podemos crer, pois, ou Deus é livre, ou não há Deus. Sua liberdade de fazer planos, escolher meios e pessoas para a execução destes planos e orientar tudo de acordo é exatamente a natureza da liberdade que nós verificamos existir imperfeitamente em nós mesmos. Deus é pelo menos tão livre como suas criaturas.
A doutrina da eleição e os termos congêneres se encontram em Romanos 9.11; 11.5,7; 1 Tessalonicenses 1.4; 2 Pedro 1.10; 1 Pedro 2.4.6,9; Tito 1.1; 2 Timóteo 2.10; Marcos 13.20,22,27; Mateus 20.16; 22.14; 24.24; João 15.16; 1 Coríntios 1.27; Efésios 1.4; Tiago 2.5. Esta eleição divina foi feita mesmo antes da nossa existência, na antiga eternidade (Apocalipse 17.8). Jesus fala de ovelhas suas que ainda não eram convertidas (João 10.26-27), e a Paulo animou com a declaração de que Ele tinha muito povo em corinto (Atos 18.10), quando os crentes ainda eram poucos e novos. É fútil dizer que Deus meramente escolheu aos que O tiverem escolhido, ou que faz sua escolha depois da escolha humana de salvação. Isto reduz o Deus da eternidade a um deus de palanque e nega a veracidade destas muitas Escrituras. Deus elege livremente, como nós O escolhemos em plena liberdade de O receber ou rejeitar. Onde há muitas vontades, muitos livremente escolhem, e fútil negar a Deus a liberdade de escolha que nós mesmos gozamos. Nós escolhemos pessoas, por exemplo, no casamento. Isto não ofende a ética: antes a ética o exige. Um rapaz que meramente escolhesse casar-se com uma classe, decidisse que sua esposa seria mulher, mas nunca fosse além, seria para sempre solteiro. É a escolha do indivíduo que resulta no casamento ou na salvação. No casamento ou na salvação há duas pessoas a decidir, duas escolhas, mas a escolha de Deus é pelo menos tão livre como a escolha do pecador a quem Ele estende a sua graça. Nem digamos que a eleição seja só para serviço. Isto não evita nenhum problema de doutrina. Se Deus escolheu e capturou a Paulo, para ser o apóstolo aos gentios, e não escolheu Gamaliel para tão elevado lugar na história humana, o problema moral é o mesmo, em grau menor, que existe na escolha para a salvação. A escolha divina é para todos os fins da vontade de Deus. A definição da doutrina da eleição por Strong é: “O ato eterno de Deus, pelo qual, segundo o seu beneplácito soberano e não em consideração de mérito previsto, Ele escolhe certas pessoas do mundo de pendores, para serem os recipientes da graça especial de seu Espírito, de modo a se tornarem participantes voluntários da salvação de Cristo…” Assim a escolha divina e a fé humana são voluntárias. Não há perigo de negarmos o livre arbítrio do homem na salvação. Tenhamos pela fé ao menos igual apoio da liberdade de Deus em todas as escolhas relacionadas com a salvação, o serviço cristão e o progresso do reino de Deus até o seu triunfo final.
Strong também salienta duas doutrinas distintas das chamadas divinas que as Escrituras afirmam. Uma é a chamada universal do evangelho, como se vê em Isaías 45.22; 55.16; 65.12; João 12.22, etc. etc… A outra é a chamada eficaz do Espírito Santo no Coração que nos conduz sobrenaturalmente, pela correspondermos à eleição divina e à sua chamada eficaz, unido assim a escolha divina e a humana, mutuamente, na experiência da salvação. Esta doutrina da chamada especial e eficaz, gravada em nossos espíritos pelo Espírito de Deus, se encontra em Lucas 14.23; Romanos 1.7; 8.30; 11.29; 1 Coríntios 1.23,24,26; Filipenses 3.14; Efésios 1.18; 1 Tessalonicenses 2.12; 2 Tessalonicenses 2.14; 2 Timóteo 1.9; Hebreus 3.1; 2 Pedro 1.10. Strong define esta chamada eficaz como a operação poderosa do Espírito, levando o pecador a Cristo. Paulo contempla a majestosa unidade inquebrantável desta eterna salvação. As mesmas pessoas que ele previu como já glorificadas no céu, foram anteriormente predestinadas, eficazmente chamadas, justificadas e então glorificadas. E de todos os crentes Ele tem tanta certeza da sua salvação assim consumada que emprega até tempo passado do verbo cinco vezes: “Dantes conheceu (não era mera presciência, mas eleição, conhecendo-os como seus)… predestinou…chamou… justificou… glorificou” (Romanos 8.29,30). Os elos se estendem de eternidade a eternidade, e são todos atos divinos, decisões da livre vontade de Deus. Nunca ponhamos uma verdade em oposição a outra, nem consintamos que uma eclipse outra. Acima de todas as liberdades, sem contradizer ou negar ou enfraquecer nenhuma delas, é a liberdade de Deus. Creiamos no Deus livre e real, cujo livre arbítrio é tão genuíno e independente como o nosso, e para cujos propósitos há os infinitos recursos de sua personalidade divina, “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade”.
Autor: Dr William Carey Taylor
O Escândalo do Comportamento Evangélico
A VISÃO BÍBLICA: Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto.
JOÃO 15.5: Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
ROMANOS 6.18: Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado.
1 JOÃO 3.9:O CONTRASTE entre o comportamento cristão contemporâneo e o ensino e a prática do Novo Testamento é absoluto. A extensão de nosso escandaloso fracasso hoje se torna clara quando nos lembramos daquilo que Jesus esperava e que os cristãos primitivos experimentaram. Jesus fez um chamado à obediência sacrifical e ao discipulado radical. Salvo alguns fracassos retumbantes, os cristãos primitivos viveram estilos de vida profundamente transformados. A ótima qualidade de suas vidas atraía as pessoas a Cristo. Hoje nossa hipocrisia quase sempre as afasta dele.
Neste capítulo faremos uma rápida jornada através do Novo Testamento. O que Jesus disse sobre como seriam os seus discípulos? O que o Novo Testamento diz sobre o que pensavam e como viviam os primeiros cristãos?
[...]
1 JOÃO: Talvez nenhum outro escrito do Novo Testamento consiga unir tão bem ortodoxia e ortopraxia — teologia correta com ação correta. Qualquer um que negue que Jesus é Deus encarnado é herege, e qualquer um que afirme amar a Deus, mas se recuse a amar seu irmão ou irmã não conhece a Deus (2.22-23; 3.17).
Qual o propósito da carta de João a seus “filhinhos” em Cristo? A resposta é simples: “Para que vocês não pequem” (2.1).
Ele insiste claramente que os cristãos genuínos não continuem a pecar. Todo aquele que aceita a Cristo é nascido de Deus e “todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus” (3.9). E novamente: “Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu” (3.6). Igualmente evidenciada é a declaração anterior de João: “Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6).
Ao mesmo tempo, João é igualmente claro acerca do fato de que os cristãos não são perfeitos: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1.8, 10). Se virmos um irmão ou irmã cometendo pecado, devemos orar por eles a fim de que o seu pecado não seja para morte (5.16-17). Nossa melhor resposta ao pecado é a confissão. Deus, por sua vez, perdoa e purifica. Poucos textos bíblicos são mais maravilhosos que esta promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1.9, ênfase acrescentada). Deus faz mais que nos conceder perdão. Ele nos purifica, nos limpa do pecado.
Portanto, podemos dizer quem é cristão observando suas ações:
Sabemos que o conhecemos [Jesus], se obedecemos aos seus mandamentos. Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou.
1 João 2.3-6
Mais adiante, ele escreve: “Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão” (3.10).
Como é de se esperar, João insiste que os cristãos genuínos amem de maneira prática. Se virmos um irmão ou irmã passando necessidade e não os ajudarmos, o amor de Deus não estará em nós (3.17). Uma vez que Cristo é o nosso modelo, devemos amar não de palavra nem de boca, “mas em ação e em verdade” (3.18). O amor a Deus, o amor ao próximo e a obediência a Deus estão inseparavelmente interligados: “Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos” (5.2).
Não sei se João ficaria mais desconcertado ou irado diante do comportamento escandaloso dos cristãos evangélicos de hoje. Provavelmente ele só chorasse. Nós alardeamos com orgulho nossa doutrina ortodoxa sobre Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e desobedecemos aos seus ensinamentos. Nós nos divorciamos, embora isso seja contrário aos seus mandamentos. Temos posses e sabemos que milhões de irmãos em Cristo vivem em pobreza absoluta; ofertamos uma ninharia, sendo que grande parte dela vai para a nossa igreja local. Apenas uma pequena fração daquilo que doamos alcança os cristãos pobres em outros lugares. Cristo morreu para formar um novo corpo de cristãos, multicultural; no entanto, demonstramos mais racismo que os cristãos liberais que negam sua deidade.
Nossos esforços evangelísticos são quase sempre comprometidos por nosso comportamento. Tanto em Atos 2 quanto em Atos 6, fica claro que ações amorosas, fruto da obediência dos primeiros cristãos, atraíam pessoas a Cristo. Era assim também durante os primeiros séculos da fé cristã. Muitos documentos daqueles anos demonstram que o comportamento dos cristãos era diferenciado. Em meados do segundo século, Justino Mártir escreveu sobre os cristãos:
Aqueles que antes se deliciavam em fornicações agora abraçam a castidade somente; [...] nós que antes tínhamos prazer no acúmulo de riquezas e de propriedades agora [...] compartilhamos o que temos com todos os necessitados; nós que odiávamos e matávamos uns aos outros e não nos associávamos a homens de diferentes tribos por causa de seus costumes estranhos agora, desde o advento de Cristo, vivemos com eles em família e oramos por nossos inimigos.
Por volta do ano 125 d.C., Aristides descreveu os cristãos com as seguintes palavras:
Eles caminham em humildade e em bondade, e a falsidade não está no meio deles, e eles amam uns aos outros. Eles não desprezam a viúva, nem afligem o órfão. Quem tem reparte liberalmente com quem não tem. Se vêem um estrangeiro, o abrigam em sua casa e se alegram com ele, como se fosse um irmão: pois se autodenominam irmãos, não segundo a carne, mas segundo o espírito e Deus; quando um de seus pobres parte deste mundo e qualquer um deles é informado sobre o ocorrido, ele providencia o enterro conforme sua possibilidade; se ouvem que qualquer um deles foi preso ou oprimido em nome de seu Messias, todos suprem suas necessidades, e, se é possível libertá-lo, eles assim o fazem. Se há entre eles um homem pobre e necessitado, e eles não têm recursos para ajudá-lo, eles jejuam por dois ou três dias a fim de suprir o necessitado com o alimento necessário.
Em ambos os documentos, o cuidado e a partilha de bens e de recursos com os pobres são profundamente marcantes. Por volta do ano 250 d.C., a igreja em Roma sustentava 1.500 pessoas necessitadas. Os de fora ficavam impressionados com o amor que viam na comunidade cristã. Tertuliano (155-220) registrou que até mesmo os inimigos do cristianismo consideravam o amor mútuo entre os cristãos como sua “marca”: “Nosso cuidado para com os abandonados e nosso amor ativo se tornaram uma marca diante do inimigo. [...] Eles dizem: ‘Vejam como se amam e como estão prontos para morrer um pelo outro’”.
Talvez o comentário mais notável sobre o caráter contracultural do comportamento cristão venha de uma citação invejosa, feita por um imperador pagão. Durante seu curto reinado (361-363), Juliano, o Apóstata tentou encerrar décadas de tolerância e aniquilar o cristianismo. No entanto, ele foi forçado a admitir a um companheiro pagão: “Os galileus desalmados [cristãos] não só alimentam os seus pobres, como também os nossos”. Com vergonha, reconheceu que seus companheiros pagãos nem sequer ajudavam uns aos outros: “Os que pertencem a nós procuram em vão pela ajuda que deveríamos prestar a eles”.
Vemos o grande contraste entre aquilo que Jesus e a igreja primitiva diziam e faziam e aquilo que muitos evangélicos fazem hoje. Que esse contraste nos faça cair de joelhos, primeiro em arrependimento e, então, peçamos a Deus que nos ajude a compreender as causas desse escandaloso fracasso e distinguir os passos que podemos dar para corrigi-lo.
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Ronald Sider, em O Escândalo do Comportamento Evangélico
JOÃO 15.5: Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
ROMANOS 6.18: Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado.
1 JOÃO 3.9:O CONTRASTE entre o comportamento cristão contemporâneo e o ensino e a prática do Novo Testamento é absoluto. A extensão de nosso escandaloso fracasso hoje se torna clara quando nos lembramos daquilo que Jesus esperava e que os cristãos primitivos experimentaram. Jesus fez um chamado à obediência sacrifical e ao discipulado radical. Salvo alguns fracassos retumbantes, os cristãos primitivos viveram estilos de vida profundamente transformados. A ótima qualidade de suas vidas atraía as pessoas a Cristo. Hoje nossa hipocrisia quase sempre as afasta dele.
Neste capítulo faremos uma rápida jornada através do Novo Testamento. O que Jesus disse sobre como seriam os seus discípulos? O que o Novo Testamento diz sobre o que pensavam e como viviam os primeiros cristãos?
[...]
1 JOÃO: Talvez nenhum outro escrito do Novo Testamento consiga unir tão bem ortodoxia e ortopraxia — teologia correta com ação correta. Qualquer um que negue que Jesus é Deus encarnado é herege, e qualquer um que afirme amar a Deus, mas se recuse a amar seu irmão ou irmã não conhece a Deus (2.22-23; 3.17).
Qual o propósito da carta de João a seus “filhinhos” em Cristo? A resposta é simples: “Para que vocês não pequem” (2.1).
Ele insiste claramente que os cristãos genuínos não continuem a pecar. Todo aquele que aceita a Cristo é nascido de Deus e “todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus” (3.9). E novamente: “Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu” (3.6). Igualmente evidenciada é a declaração anterior de João: “Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6).
Ao mesmo tempo, João é igualmente claro acerca do fato de que os cristãos não são perfeitos: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1.8, 10). Se virmos um irmão ou irmã cometendo pecado, devemos orar por eles a fim de que o seu pecado não seja para morte (5.16-17). Nossa melhor resposta ao pecado é a confissão. Deus, por sua vez, perdoa e purifica. Poucos textos bíblicos são mais maravilhosos que esta promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1.9, ênfase acrescentada). Deus faz mais que nos conceder perdão. Ele nos purifica, nos limpa do pecado.
Portanto, podemos dizer quem é cristão observando suas ações:
Sabemos que o conhecemos [Jesus], se obedecemos aos seus mandamentos. Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou.
1 João 2.3-6
Mais adiante, ele escreve: “Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão” (3.10).
Como é de se esperar, João insiste que os cristãos genuínos amem de maneira prática. Se virmos um irmão ou irmã passando necessidade e não os ajudarmos, o amor de Deus não estará em nós (3.17). Uma vez que Cristo é o nosso modelo, devemos amar não de palavra nem de boca, “mas em ação e em verdade” (3.18). O amor a Deus, o amor ao próximo e a obediência a Deus estão inseparavelmente interligados: “Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos” (5.2).
Não sei se João ficaria mais desconcertado ou irado diante do comportamento escandaloso dos cristãos evangélicos de hoje. Provavelmente ele só chorasse. Nós alardeamos com orgulho nossa doutrina ortodoxa sobre Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e desobedecemos aos seus ensinamentos. Nós nos divorciamos, embora isso seja contrário aos seus mandamentos. Temos posses e sabemos que milhões de irmãos em Cristo vivem em pobreza absoluta; ofertamos uma ninharia, sendo que grande parte dela vai para a nossa igreja local. Apenas uma pequena fração daquilo que doamos alcança os cristãos pobres em outros lugares. Cristo morreu para formar um novo corpo de cristãos, multicultural; no entanto, demonstramos mais racismo que os cristãos liberais que negam sua deidade.
Nossos esforços evangelísticos são quase sempre comprometidos por nosso comportamento. Tanto em Atos 2 quanto em Atos 6, fica claro que ações amorosas, fruto da obediência dos primeiros cristãos, atraíam pessoas a Cristo. Era assim também durante os primeiros séculos da fé cristã. Muitos documentos daqueles anos demonstram que o comportamento dos cristãos era diferenciado. Em meados do segundo século, Justino Mártir escreveu sobre os cristãos:
Aqueles que antes se deliciavam em fornicações agora abraçam a castidade somente; [...] nós que antes tínhamos prazer no acúmulo de riquezas e de propriedades agora [...] compartilhamos o que temos com todos os necessitados; nós que odiávamos e matávamos uns aos outros e não nos associávamos a homens de diferentes tribos por causa de seus costumes estranhos agora, desde o advento de Cristo, vivemos com eles em família e oramos por nossos inimigos.
Por volta do ano 125 d.C., Aristides descreveu os cristãos com as seguintes palavras:
Eles caminham em humildade e em bondade, e a falsidade não está no meio deles, e eles amam uns aos outros. Eles não desprezam a viúva, nem afligem o órfão. Quem tem reparte liberalmente com quem não tem. Se vêem um estrangeiro, o abrigam em sua casa e se alegram com ele, como se fosse um irmão: pois se autodenominam irmãos, não segundo a carne, mas segundo o espírito e Deus; quando um de seus pobres parte deste mundo e qualquer um deles é informado sobre o ocorrido, ele providencia o enterro conforme sua possibilidade; se ouvem que qualquer um deles foi preso ou oprimido em nome de seu Messias, todos suprem suas necessidades, e, se é possível libertá-lo, eles assim o fazem. Se há entre eles um homem pobre e necessitado, e eles não têm recursos para ajudá-lo, eles jejuam por dois ou três dias a fim de suprir o necessitado com o alimento necessário.
Em ambos os documentos, o cuidado e a partilha de bens e de recursos com os pobres são profundamente marcantes. Por volta do ano 250 d.C., a igreja em Roma sustentava 1.500 pessoas necessitadas. Os de fora ficavam impressionados com o amor que viam na comunidade cristã. Tertuliano (155-220) registrou que até mesmo os inimigos do cristianismo consideravam o amor mútuo entre os cristãos como sua “marca”: “Nosso cuidado para com os abandonados e nosso amor ativo se tornaram uma marca diante do inimigo. [...] Eles dizem: ‘Vejam como se amam e como estão prontos para morrer um pelo outro’”.
Talvez o comentário mais notável sobre o caráter contracultural do comportamento cristão venha de uma citação invejosa, feita por um imperador pagão. Durante seu curto reinado (361-363), Juliano, o Apóstata tentou encerrar décadas de tolerância e aniquilar o cristianismo. No entanto, ele foi forçado a admitir a um companheiro pagão: “Os galileus desalmados [cristãos] não só alimentam os seus pobres, como também os nossos”. Com vergonha, reconheceu que seus companheiros pagãos nem sequer ajudavam uns aos outros: “Os que pertencem a nós procuram em vão pela ajuda que deveríamos prestar a eles”.
Vemos o grande contraste entre aquilo que Jesus e a igreja primitiva diziam e faziam e aquilo que muitos evangélicos fazem hoje. Que esse contraste nos faça cair de joelhos, primeiro em arrependimento e, então, peçamos a Deus que nos ajude a compreender as causas desse escandaloso fracasso e distinguir os passos que podemos dar para corrigi-lo.
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Ronald Sider, em O Escândalo do Comportamento Evangélico
Transformando a sociedade a partir da igreja local
“Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (v. 6b). Foi esta a denúncia sofrida pela igreja em Tessalônica perante as autoridades da cidade. Os perseguidores procuravam especialmente Paulo e Silas, que estavam há pelo menos 15 dias na cidade proclamando o evangelho e, consequentemente, subvertendo a (des)ordem religiosa, social, econômica e política. Porque é isso que provoca a mensagem de Cristo: radical e ampla transformação. Não encontrando os dois missionários, os acusadores judeus conduziram Jason e outros irmãos da igreja nascente em Tessalônica às autoridades.
Algumas perguntas nos ajudam a aprofundar o entendimento do texto.
1. QUEM SÃO “ESTES”?
Estes são aqueles que, alcançados e transformados pela mensagem de Cristo, tornaram-se testemunhas, no discurso e na prática, do evangelho integral. São aqueles que, a partir da experiência transformadora da igreja em Antioquia, foram chamados de cristãos. São homens e mulheres, adultos e crianças, tanto judeus quanto gregos, além de outros povos do contexto geográfico do Império Romano. São os seguidores de Jesus com uma postura não passiva da fé e uma experiência religiosa que muda não apenas o coração. São os que têm uma visão transformadora e renovada da vontade de Deus, tanto pessoalmente como para todas as dimensões da vida em sociedade e cultura. São estes, portanto, os acusados.
2. QUE TEM TRANSTORNADO O MUNDO... Que transtorno é esse? Qual é a natureza da acusação que recai sobre estes cristãos? Qual a dimensão dos transtornos provocados por esta igreja de Cristo?
O cerne da causa destes transtornos é a aceitação de Cristo como Salvador e Senhor por parte das pessoas. E sua nova prática de vida desdobra-se num inevitável confronto com a (des)ordem social e cultural, pois eles compreendem a necessidade de serem sal da terra e luz do mundo, efetivamente, para que toda a ordem decaída, desde o advento do pecado de Gênesis 3, seja transformada e submeta-se ao mando e governança de Cristo. Para o bem de toda a criação.
De fato, a acusação era procedente e verificável. Eles de fato estavam transtornando o mundo. A igreja nasce como um espaço de contracultura e produz verdadeiras transformações. E estes transtornos podem ser identificados de várias maneiras, mas destaco aqui apenas três dimensões:
- Transtorno do poder religioso (At 17.1-5)
Muitos são os exemplos de pessoas alcançadas pela graça redentora do evangelho que experimentaram uma nova vida e agora causavam furor naqueles que viviam do poder religioso estabelecido. (At 2. 37-43; 4.31). As pessoas mudavam de vida e passavam a se guiar pelo Caminho que é Cristo, com todas as implicações que isto significa.
- Transtorno do poder político – (At 17.6-8).
Os cristãos passam a reconhecer, agora, de fato, somente Deus e sua vontade como última autoridade. Somente Jesus Cristo é o Senhor. Pedro e João já haviam afirmado que “importa antes obedecer a Deus”. Todas as perseguições que seguiram sob Nero, Diocleciano e todos os imperadores romanos até o final do terceiro século, diziam respeito aos “problemas” causados pelos cristãos em confronto com a (des)ordem injusta e perversa. Por exemplo, a questão da escravidão. O Império vivia e lucrava economicamente com a estrutura da escravidão. Mas os cristãos estabeleceram comunidades livres em que o direito de todos era igualmente reconhecido.
- Transtorno do poder econômico (At 19.23-41)
Aonde os cristãos chegavam, com uma nova visão de como deviam viver amplamente a fé em Cristo, inclusive nas relações econômicas, causavam transtornos para todos quantos se aproveitavam de estruturas comerciais e de trabalho desumanizadoras. Como no exemplo paradigmático da cidade de Éfeso, cuja deusa Diana, supostamente ajudarora das pessoas, é desmistificada como um instrumento de engano e, portanto, de opressão, não de libertação e plenitude de vida. Tal compreensão desencadeou denúncias e perseguições contra os cristãos, chegando quase a linchamentos físicos, por incitação de fabricantes e comerciantes de ídolos, dentre outros.
Muitos outros transtornos podem ser citados: espirituais, físicos e sociais (At 2.42-47; 3.1-10; 5.12-16; 4.32-35); como também a construção de uma estrutura de assistência social para a comunidade, tanto da igreja como de fora dela (At 6.1-7))
Na verdade, os transtornos que os cristãos causavam em nome e pelo poder de Jesus eram vistos como problemas para os que se locupletavam com os poderes político, econômico, religioso, mas para aqueles que experimentam estas mudanças, isso era, de fato, o desfrutar da nova vida que o evangelho produz. As coisas antigas passavam e agora tudo se fazia novo.
A IGREJA VERDADEIRAMENTE AGIA COMO FATOR DE TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE.
Estes que têm transtornado o mundo. A igreja que se dispersa a partir de Jerusalém alcançou em pouco tempo todo o mundo conhecido, tanto em sua dimensão geográfica, conforme o mandado de Mateus 28.19 e Atos 1.8, quanto em seus aspectos religioso, social, econômico e cultural. Uma igreja sem muitos recursos, sem templos, mas que ao final do segundo século, contava com cerca de 500 mil cristãos na área do Império Romano.
ELES CHEGARAM TAMBÉM AQUI... Os discípulos foram a todas as partes e firmaram comunidades cristas que mudaram a face do mundo antigo.
Esta expressão – “Eles chegaram também aqui” – pode ser também entendida como uma exclamação de desespero dos acusadores: “Eles chegaram também aqui. Foi-se nosso sossego, nosso bem estar...”. Entretanto, ao conhecerem efetivamente o evangelho de Cristo, mudavam de vida e transformavam as estruturas injustas e perversas de seu contexto. Pois a mensagem de Cristo produz verdadeira redenção e dignidade para todos.
Mas todos estes transtornos, que são na verdade bênçãos efetivas do Senhor para a vida das pessoas e das sociedades, não aconteceram sem transtornos, para os cristãos. Muitas foram as perseguições, violências e mortes sofridas pela igreja. Alguns exemplos: Pedro e João presos e no Sinédrio (At 4. 1-22), apedrejamento de Estevão e também de Pedro (At 14.19ss), a prisão dos apóstolos (At 5.17-42), Paulo e Silas açoitados (At 16.19).
Conclusão
1. “Estes...”. Quem somos nós hoje? O significa nossa identidade de cristãos? Como a sociedade nos vê?
Precisamos desconstruir o que significa ser cristão hoje para muita gente, tanto dentro quanto fora do ambiente da igreja, para que possamos reconstruir nossa identidade à luz do evangelho de Cristo, a exemplo dos primeiros cristãos. Muito da identidade do que a igreja julga ser cristão, precisa ser transformado para se resgatar o sentido do seguimento a Jesus. O “Estes” hoje está domesticado, as vezes secularizado, quando não alienado da identidade de Jesus, a quem afirmamos, verbalmente, seguir e servir. (Lembremos o exemplo corajoso e contundente de Luther King...).
2. Estes que têm transtornado o mundo, os seguidores de Cristo devem formar a igreja do transtorno, a igreja que contraria, contrapõe e depõe as estruturas injustas. Estas produzem erro, maldade, engano. É relativamente fácil ir contra aquilo que é explicitamente oposto à vontade de Deus. No entanto hoje, no contexto mais amplo da sociedade e no ambiente micro da própria igreja, identificar e desmistificar os agentes enganosos e falaciosos que se dizem do Reino de Deus é tarefa difícil e arriscada.
A igreja é convidada e convocada a assumir sua missão de transtornar o Brasil e o mundo. A partir de nossas comunidades locais, dos espaços em que vivemos, alterando os indicadores sociais injustos, as políticas que não produzem vida e bem-estar para todos. Pensar global e agir local... (At 1.8).
É convocação para, em parceria com entidades evangélicas e outros atores sociais comprometidos com a justiça, transtornar as estruturas legais, nem sempre éticas, para maior efetivação da justiça.
E, finalmente, é preciso que o evangelho continue a transtornar a nós mesmos, nossas estrutruras, nossa religiosidade, nossa teologia, nossa eclesiologia, nossa liturgia, nossa diaconia, muitas vezes voltadas para nós mesmos, para que produzam justiça para fora. E as pessoas vejam as nossas boas obras, em nome de Cristo, e glorifiquem a Deus Pai que está nos céus e entre nós.
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Clemir Fernandes
Algumas perguntas nos ajudam a aprofundar o entendimento do texto.
1. QUEM SÃO “ESTES”?
Estes são aqueles que, alcançados e transformados pela mensagem de Cristo, tornaram-se testemunhas, no discurso e na prática, do evangelho integral. São aqueles que, a partir da experiência transformadora da igreja em Antioquia, foram chamados de cristãos. São homens e mulheres, adultos e crianças, tanto judeus quanto gregos, além de outros povos do contexto geográfico do Império Romano. São os seguidores de Jesus com uma postura não passiva da fé e uma experiência religiosa que muda não apenas o coração. São os que têm uma visão transformadora e renovada da vontade de Deus, tanto pessoalmente como para todas as dimensões da vida em sociedade e cultura. São estes, portanto, os acusados.
2. QUE TEM TRANSTORNADO O MUNDO... Que transtorno é esse? Qual é a natureza da acusação que recai sobre estes cristãos? Qual a dimensão dos transtornos provocados por esta igreja de Cristo?
O cerne da causa destes transtornos é a aceitação de Cristo como Salvador e Senhor por parte das pessoas. E sua nova prática de vida desdobra-se num inevitável confronto com a (des)ordem social e cultural, pois eles compreendem a necessidade de serem sal da terra e luz do mundo, efetivamente, para que toda a ordem decaída, desde o advento do pecado de Gênesis 3, seja transformada e submeta-se ao mando e governança de Cristo. Para o bem de toda a criação.
De fato, a acusação era procedente e verificável. Eles de fato estavam transtornando o mundo. A igreja nasce como um espaço de contracultura e produz verdadeiras transformações. E estes transtornos podem ser identificados de várias maneiras, mas destaco aqui apenas três dimensões:
- Transtorno do poder religioso (At 17.1-5)
Muitos são os exemplos de pessoas alcançadas pela graça redentora do evangelho que experimentaram uma nova vida e agora causavam furor naqueles que viviam do poder religioso estabelecido. (At 2. 37-43; 4.31). As pessoas mudavam de vida e passavam a se guiar pelo Caminho que é Cristo, com todas as implicações que isto significa.
- Transtorno do poder político – (At 17.6-8).
Os cristãos passam a reconhecer, agora, de fato, somente Deus e sua vontade como última autoridade. Somente Jesus Cristo é o Senhor. Pedro e João já haviam afirmado que “importa antes obedecer a Deus”. Todas as perseguições que seguiram sob Nero, Diocleciano e todos os imperadores romanos até o final do terceiro século, diziam respeito aos “problemas” causados pelos cristãos em confronto com a (des)ordem injusta e perversa. Por exemplo, a questão da escravidão. O Império vivia e lucrava economicamente com a estrutura da escravidão. Mas os cristãos estabeleceram comunidades livres em que o direito de todos era igualmente reconhecido.
- Transtorno do poder econômico (At 19.23-41)
Aonde os cristãos chegavam, com uma nova visão de como deviam viver amplamente a fé em Cristo, inclusive nas relações econômicas, causavam transtornos para todos quantos se aproveitavam de estruturas comerciais e de trabalho desumanizadoras. Como no exemplo paradigmático da cidade de Éfeso, cuja deusa Diana, supostamente ajudarora das pessoas, é desmistificada como um instrumento de engano e, portanto, de opressão, não de libertação e plenitude de vida. Tal compreensão desencadeou denúncias e perseguições contra os cristãos, chegando quase a linchamentos físicos, por incitação de fabricantes e comerciantes de ídolos, dentre outros.
Muitos outros transtornos podem ser citados: espirituais, físicos e sociais (At 2.42-47; 3.1-10; 5.12-16; 4.32-35); como também a construção de uma estrutura de assistência social para a comunidade, tanto da igreja como de fora dela (At 6.1-7))
Na verdade, os transtornos que os cristãos causavam em nome e pelo poder de Jesus eram vistos como problemas para os que se locupletavam com os poderes político, econômico, religioso, mas para aqueles que experimentam estas mudanças, isso era, de fato, o desfrutar da nova vida que o evangelho produz. As coisas antigas passavam e agora tudo se fazia novo.
A IGREJA VERDADEIRAMENTE AGIA COMO FATOR DE TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE.
Estes que têm transtornado o mundo. A igreja que se dispersa a partir de Jerusalém alcançou em pouco tempo todo o mundo conhecido, tanto em sua dimensão geográfica, conforme o mandado de Mateus 28.19 e Atos 1.8, quanto em seus aspectos religioso, social, econômico e cultural. Uma igreja sem muitos recursos, sem templos, mas que ao final do segundo século, contava com cerca de 500 mil cristãos na área do Império Romano.
ELES CHEGARAM TAMBÉM AQUI... Os discípulos foram a todas as partes e firmaram comunidades cristas que mudaram a face do mundo antigo.
Esta expressão – “Eles chegaram também aqui” – pode ser também entendida como uma exclamação de desespero dos acusadores: “Eles chegaram também aqui. Foi-se nosso sossego, nosso bem estar...”. Entretanto, ao conhecerem efetivamente o evangelho de Cristo, mudavam de vida e transformavam as estruturas injustas e perversas de seu contexto. Pois a mensagem de Cristo produz verdadeira redenção e dignidade para todos.
Mas todos estes transtornos, que são na verdade bênçãos efetivas do Senhor para a vida das pessoas e das sociedades, não aconteceram sem transtornos, para os cristãos. Muitas foram as perseguições, violências e mortes sofridas pela igreja. Alguns exemplos: Pedro e João presos e no Sinédrio (At 4. 1-22), apedrejamento de Estevão e também de Pedro (At 14.19ss), a prisão dos apóstolos (At 5.17-42), Paulo e Silas açoitados (At 16.19).
Conclusão
1. “Estes...”. Quem somos nós hoje? O significa nossa identidade de cristãos? Como a sociedade nos vê?
Precisamos desconstruir o que significa ser cristão hoje para muita gente, tanto dentro quanto fora do ambiente da igreja, para que possamos reconstruir nossa identidade à luz do evangelho de Cristo, a exemplo dos primeiros cristãos. Muito da identidade do que a igreja julga ser cristão, precisa ser transformado para se resgatar o sentido do seguimento a Jesus. O “Estes” hoje está domesticado, as vezes secularizado, quando não alienado da identidade de Jesus, a quem afirmamos, verbalmente, seguir e servir. (Lembremos o exemplo corajoso e contundente de Luther King...).
2. Estes que têm transtornado o mundo, os seguidores de Cristo devem formar a igreja do transtorno, a igreja que contraria, contrapõe e depõe as estruturas injustas. Estas produzem erro, maldade, engano. É relativamente fácil ir contra aquilo que é explicitamente oposto à vontade de Deus. No entanto hoje, no contexto mais amplo da sociedade e no ambiente micro da própria igreja, identificar e desmistificar os agentes enganosos e falaciosos que se dizem do Reino de Deus é tarefa difícil e arriscada.
A igreja é convidada e convocada a assumir sua missão de transtornar o Brasil e o mundo. A partir de nossas comunidades locais, dos espaços em que vivemos, alterando os indicadores sociais injustos, as políticas que não produzem vida e bem-estar para todos. Pensar global e agir local... (At 1.8).
É convocação para, em parceria com entidades evangélicas e outros atores sociais comprometidos com a justiça, transtornar as estruturas legais, nem sempre éticas, para maior efetivação da justiça.
E, finalmente, é preciso que o evangelho continue a transtornar a nós mesmos, nossas estrutruras, nossa religiosidade, nossa teologia, nossa eclesiologia, nossa liturgia, nossa diaconia, muitas vezes voltadas para nós mesmos, para que produzam justiça para fora. E as pessoas vejam as nossas boas obras, em nome de Cristo, e glorifiquem a Deus Pai que está nos céus e entre nós.
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Clemir Fernandes