Darlyson Feitosa
E quem transviar um desses pequeninos, que crêem em mim, mas lhe valia que lhe pendurassem ao pescoço uma pedra de moinho e o jogassem no fundo do mar (Mt 18:6).
Há sempre um assunto polêmico de plantão. Se ele faltar, que seja imediatamente inventado, pois não podemos viver sem ele. O assunto agora é prostituição infantil. Na verdade, esse não é um assunto de agora, mas é agora que mais falamos nele. Talvez parte da ênfase seja oriunda do confuso relatório da ONU (ou, como ela diz, do Ministério do Bem-Estar Social?), que declara haver cerca de 500.000 crianças se prostituindo no Brasil. Ainda que tal número seja questionável, e ainda que o assunto tenha um cheiro de polêmica da hora, não podemos ignorá-lo e dizer simplesmente que isso passará.
Não resta dúvida que este assunto possui o seu epicentro nas questões sociais do nosso país. As soluções hão de vir de leis mais justas, de não aceitação da impunibilidade, enfim, as soluções são compreensivelmente buscadas na própria sociedade, que pode construir mecanismos eficazes no combate à prostituição, seja ela infantil ou não. Contudo, arrisco-me a uma análise, não sociológica, mas teológica sobre o assunto.
Por razões desconhecidas, comumente encontramos declarações sobre a prostituição infantil a partir de uma ação reflexiva, ou seja, as crianças são agentes e receptores do processo. Essa declaração é simplesmente exposta na expressão “crianças se prostituindo”. Conquanto de fato as crianças adotem uma participação ativa, ou seja, elas agem em prol e são instrumentos da prostituição, penso que a expressão é inadequada, pois ela se configura com muito mais clareza na voz passiva: “crianças são prostituídas”. Há um agente muito maior por trás da ação infantil, e esse agente é de igual forma prostituto, sem que sobre ele pese o estigma que o termo carrega. Sabemos de declarações de garotos e garotas de programa que é comum o atendimento a duas, três ou quatro pessoas por noite. Ora, para cada criança que está na “se prostituindo”, há um número quase que imensurável de clientes que patrocinam ativamente a prostituição. Pode-se até imaginar a existência de um poder quase que incontrolável a fazer pressão nas crianças que, geralmente carentes, não possuem mecanismos para rejeitar as propostas que lhes são feitas. O ponto que quero aqui enfatizar é este: a prostituição infantil é, em sua maior parte, oriunda do desejo sexual desenfreado dos prostitutos disfarçados, e muitas vezes nem tão disfarçados assim. Para cada menina que mostra o seu corpo, há muito mais adultos, bem vestidos, a patrocinar o comércio do sexo.
Encontramo-nos, então, diante de um problema com implicações teológicas, pois o cristianismo pauta a sua essência do significado do Reino de Deus em cima de uma suposta inocência e fé infantil. Disse Jesus que o Reino de Deus pertence às crianças (Mc 10:14). É Mateus quem nos informa sobre a presença de crença entre as crianças mencionadas por Jesus, o que implica num mínimo de lucidez por parte delas (Mt 18:6). O texto bíblico não parece se referir a crianças recém-nascidas. Poderiam muito bem ser meninas de 12 anos, que conforme a tendência dos dias atuais, passarão a ser consideradas como moças - leia-se: ser consideradas adultas para poderem ter relações sexuais com quem quiserem ou, na maioria das vezes, com quem elas realmente não querem, mas têm! Eis que esta base de entendimento sobre a natureza do Reino de Deus, isto é, a fé infantil, está sendo colocada em cheque em escala cada vez maior, pois as crianças estão sendo desviadas do curso da fé para o curso do sexo. Uma das principais bases de entendimento da natureza no Reino de Deus está sendo literalmente transviada.
Pergunta-se, pois: possui a Igreja cristã mecanismos para resgatar o valor dessa sua base de compreensão do Reino, a de que só entraremos no Reino de Deus se a nossa fé for como a fé infantil, esteriotipada numa criança que Jesus colocou em seu colo? A resposta deve ser positiva. Conforme a introdução desse assunto, não há nada de desmerecedor nas soluções sociais, políticas ou econômicas para o problema da prostituição infantil. Que elas sejam incessantemente buscadas. Mas é tarefa da Igreja também apresentar soluções teológicas para a maldade que existe na sociedade, no ser humano. Quando a teologia exposta pela Igreja cristã se afasta da doutrina bíblica, a Igreja apresenta a sua pregação retórica de amor e igualdade, mas ela chega como o címbalo que retine: falta amor. Ademais, a Igreja tem visto ao longo das décadas e dos séculos a sua teologia vir a reboque da história, das transformações sociais, e há muito se perdeu a perspectiva profética, aquela que antevê a realidade espiritual e apresenta as suas soluções espirituais. Estamos sempre enfrentando problemas, muitas vezes sem respostas para eles, outras vezes tentando uma modernidade teológica, mas não sem constrangimentos, como o caso de muitos teólogos sugerirem uma releitura da Bíblia.
A prostituição infantil deve lembrar à Igreja sobre a realidade pecaminosa da humanidade e que o problema do mal ainda é presente em nossos dias. Estaria Deus “permitindo” que crianças - as benditas crianças, objeto de seu profundo amor - estejam sendo prostituídas em larga escala no Brasil e no mundo? A questão teológica mais fácil é aceitar um dualismo: o Diabo existe e está fazendo sexo à vontade! Contudo, essa aparente facilidade acaba complicando mais as coisas, pois é como se Deus estivesse sendo derrotado nessas 500.000 crianças, mesmo sendo esse um número exagerado. Também a questão seria mais facilmente vista se admitíssemos que Deus estaria punindo - tanto os que prostituem como os que são prostituídos. Mas isso representaria muita punição para pouco efeito, e uma configuração de um tribunal injusto: o mais fraco é o mais punido. De modo que esta também é uma possibilidade difícil de aceitarmos. Não poderia Deus simplesmente fazer cessar tanta maldade, como freqüentemente as orações e rezas pedem? Isso seria a antecipação escatológica: o fim dos tempos, com a separação explícita dos homens maus e bons, teria que acontecer agora. Mas diz a Bíblia que a lágrima só cessará no céu, na presença de Deus.
Pois bem, a resposta teológica que a Igreja cristã pode dar não é nenhuma novidade, mas é incrivelmente esquecida: o homem é responsável pelos seus atos e é essa responsabilidade que lhe será requerida em sua apresentação diante de Deus. A Igreja precisa urgentemente de uma teologia que deixe transparecer o contraste entre a pureza do Cristo e a maldade humana. Não podemos ficar dando glórias a Deus em nossa redoma sem a percepção de que das crianças é o Reino de Deus - e elas estão sendo prostituídas. Parece ser cada vez claro a nossa falha no discipulado, cujo padrão se encontra expresso na palavra de Deus, que nos manda ensinar aos homens todas as coisas que Jesus mesmo ensinou aos seus discípulos - como por exemplo, de que não devemos impedir o acesso das crianças ao Senhor, porque delas é o Reino de Deus. Se os homens não têm sido ensinados pela Igreja, acabamos por contribuir para que a maldade prolifere.
É teologicamente correto esperarmos um poder interventor de Deus, mas é também correto que a nossa teologia nos inclua como instrumentos do poder interventor de Deus para as transformações das aberrações sociais. E nessa instrumentalidade, a nossa teologia deve ser de tal modo correta, a ponto de equilibrarmos os dois lados da questão: essa pessoa que prostitui crianças, que merece ser afogada no mar, com uma pedra lhe prendendo o corpo para que ninguém o ache, merece ser resgatada do poder da carne para o poder do Espírito.
Missão e espiritualidade
Carlos Queiroz
Sempre que se fala de espiritualidade pressupõe-se uma experiência humana exclusiva
no campo religioso e subjetivo da fé, alienada às demais experiências da vida. No cristianismo, quando se aborda sobre missão a ênfase recai no ativismo enquanto serviço prestado ao próximo, seja pela proclamação do evangelho, ou pelas obras de misericórdia e justiça. Nesta reflexão estamos considerando espiritualidade e missão como eixos paralelos do mandamento principal das Escrituras: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo…”. Assim, amar a Deus é uma missão espiritual, do mesmo modo que, amar ao próximo é uma espiritualidade missionária. Estas duas manifestações cristãs evidenciam-se de forma interativa e interdependente. Por conta dessa interação afirmamos que a espiritualidade cristã precisa sempre encontrar o seu caminho devocional em missão ao próximo. No catolicismo, a missa é o evento em que o adorador tendo encontrado-se com Deus no espaço sagrado, sai dai em missão ao mundo. Desse modo, a espiritualidade pode ser entendida como uma experiência humana no campo da fé e missão como uma resposta ética dessa mesma fé.
Na narrativa sobre a tentação de Jesus, tanto Mateus quanto Lucas fazem referência a importância do pão, quanto da Palavra de Deus: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”. Na oração Dominical, Jesus ensina aos seus discípulos a orarem ao “Pai nosso celestial”, pelo “pão nosso de cada dia”. Os textos fazem referência à sobrevivência física (pão) e a experiência transcendente (Palavra da boca de Deus e Pai nosso). O pão é um bem compartilhado ou acumulado – portanto, fermentado de implicações sociais, econômicas e políticas; da mesma forma, que a Palavra procedente da boca de Deus e Pai nosso possuem implicações religiosas. Portanto, as relações políticas, econômicas e religiosas da sociedade em que estamos inseridos anunciam ou denunciam a nossa espiritualidade e missão.
Apenas para efeito de exposição das idéias, vamos discorrer sobre missão e espiritualidade em categorias separadas, mas entendendo que ambas confluem-se na vida e natureza da igreja de Jesus Cristo.
Pretendo concluir esta parte introdutória, com uma frase que pode resumir o enfoque como abordaremos o nosso tema durante esses dias: A falta de pão na mesa do pobre pode ser uma denuncia da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. Com esta frase desejo enfatizar a idéia de que missão e espiritualidade, no evangelho de Jesus Cristo, confluem-se nos espaços em que há sinais da sobre-vivência humana: devoção e pão de cada dia. Todavia, preciso também, explicitar dois reducionismos que a frase pode gerar:
a) Que a missão se torne um serviço voltado somente para o problema da falta de pão para os pobres, e
b) Que a espiritualidade se torne uma tarefa exclusiva em torno do altar.
Mais grave do que a dicotomia mencionada acima, é a constatação de que o cristianismo brasileiro, mesmo que, numericamente significativo, não tenha conseguido atender com respons-habilidade as demandas de nossa sociedade.
No contexto brasileiro há várias práticas espirituais nas mais diversas comunidades cristãs, que evidenciam distorções e limitações na atividade missionária da igreja de Jesus Cristo. Além dos pentecostais e neo-pentecostais, o protestantismo histórico tem passado por uma de suas transições mais comprometedoras entre a sua identidade histórica e a necessidade de contextualização. Na primeira parte de nossa reflexão estou considerando a missão como um desdobramento de práticas espirituais expostas nas vitrines no cenário religioso brasileiro. Em seguida estabeleço três eixos básicos de sustentação e balizamento para a espiritualidade e missão da igreja: fé, amor e graça.
Por enquanto, olhemos algumas práticas de espiritualidade na vitrine.
1. PRÁTICAS DE ESPIRITUALIDADE NA VITRINE
1.1. ESPIRITUALIDADE E FETICHE
Têm-se associado ao cristianismo evangélico brasileiro elementos estranhos, tanto à sua herança judaico-cristã, como à sua configuração histórica. Nunca fez parte de nossas crenças a fé no poder e mediação dos objetos - seja para fazer o bem, seja para produzir o mal. Sou filho da geração que nunca acreditou, por exemplo, no poder dos objetos usados nos “despachos”. Que tais objetos tivessem poder capaz de gerar qualquer resultado sobre alguém - nem para o bem, nem para o mal. Qual o argumento, no passado, usado exclusivamente nos espaços de “fetichi religioso popular” para manter pânico e dependência nos seus fregueses? Aqui surge o “sacerdote mágico” argumentando com o cliente que alguém lhe fez um despacho, ou que um encosto o persegue. Há amarras misteriosas, que somente ele – “sacerdote mágico”, pelo poder da magia, pode “mover o sobrenatural” e desatar os nós na vida do cliente. A mesma lógica fetichisou os arraias evangélicos, que passaram a confiar no poder dos objetos, nas frases mágicas, nos demônios que habitam em máscaras, roupas e desenhos. Do ponto de vista bíblico, os demônios habitaram em pessoas, e no máximo, não como regra, mas como exceção, numa única ocasião invadiram, com a permissão de Jesus, uma manada de porcos.
De fato o cristianismo brasileiro passa por um processo de sincretismo interno e externo. Basta observarmos que do ponto de vista da liturgia o catolicismo pentecostalizou-se, enquanto que, do ponto de vista da magia, o protestantismo catolicizou-se ou umbandicizou-se. Sem emitir um juízo de valor no que diz respeito às negociações dos símbolos e expressões religiosas, estou tão somente apontando para a possibilidade de que, diante de uma espiritualidade fetichizada, superficial e alienada do pão de cada dia para todos, a missão tende a ser uma interferência exclusiva pela via do milagre, em que o intermediário é o mais beneficiado..
1.2. ESPIRITUALIDADE QUE SUPERVALORIZA O ESTÉTICO EM DETRIMENTO DO ÉTICO
Entre os programas de televisão que dão ibop, encontram-se os programas das “mascaradas” - jovens bonitas com o corpo quase 100% descoberto e uma máscara encobrindo o belo da fisionomia. Os olhos, a face formam uma parte do corpo por onde fluem as intenções, os desejos mais íntimos, os sentimentos – expressões no campo da ética; porém agora, escondidos por máscaras. No outro lado o corpo, com suas expressões estéticas, exposto na vitrine.
Não estou falando de moralismo. Refiro-me a esse fenômeno, em que as aparências cosméticas e teatrais na espiritualidade da igreja travestiram-se de uma estética visual de tal forma tentadora, que mascara a necessidade de uma religião mais ética e comprometida com a vida. Tiago ressalta: “A religião pura e verdadeira é visitar os órfãos e as viúvas e se manter puro…” Aqui encontramos equilíbrio entre o ético e o estético. Manter-se puro – pode estar relacionado à imagem pessoal e coletiva diante da sociedade. Uma boa imagem pública é uma questão estética. Preservar uma liturgia harmoniosamente adequada para comunicar os elementos da graça se faz necessário, mas pode se tornar apenas estético. Cuidar dos órfãos e das viúvas (pessoas à margem da sociedade) é mais ético do que apenas estético. Assim, manter a coerência da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo, amar o próximo como Cristo nos amou, ser íntegro e transparente, ser uma noiva sem máscaras - é ético.
A espiritualidade estética é meramente ritualista, legalista e meritória; predispondo seus praticantes a uma missão que gira em torno da publicidade pessoal.
1.3. ESPIRITUALIDADE COMO FENÔMENO DE MERCADO
O cristianismo brasileiro passa por manifestações, que não se sabe de fato, se é um fenômeno de mercado com elementos da religiosidade popular ou se um fenômeno religioso que utiliza os instrumentos de mercado. Estruturar uma igreja passou a ser um grande negócio de mercado. Não se sabe se os sacerdotes dos nossos tempos são atraídos por vocação ou tentação.
Há uma propaganda de motocicleta que ilustra bem essa promiscuidade entre religião e mercado. Aparecem três jovens com vestimentas sacerdotais (batina e colarinho clerical), com uma frase: “Se a igreja usa o marketing, o marketing usa a igreja”. Em seguida começam a cantar usando uma coreografia bastante comum nos espaços religiosos dos nossos dias. Usar o marketing como instrumento de propagação ou a coreografia é irrelevante na questão em referência. Estamos buscando discernir se o fenômeno a priori é de fato religioso; ou se o ídolo de marcado, além de se utilizar de todos os meios materiais para manutenção do sistema, consegue também coptar uma “espiritualidade neo-liberal” em beneficio do status quo de seus sacerdotes. Neste caso, mais do que nas situações de omissão, germina-se uma “espiritualidade” com toda a lógica de mercado, cuja missão é pragmática e materialista.
1.4. ESPIRITUALIDADE NUM CRISTIANISMO PAGANIZADO
A espiritualidade no paganismo é identificada especialmente na forma em que se relacionam os devotos e a divindade. No paganismo o devoto tem controle e domínio sobre o ídolo; até porque, o ídolo, em si mesmo, é apenas a materialização simbólica das demandas religiosas, ou no máximo, uma projeção dos desejos e aspirações humanas, atendidas supostamente pela magia no campo da fé. Portanto, o ídolo é uma projeção sem inteligência e vontade próprias. Não há nenhuma expressão de vida na divindade pagã. Por causa disso, o devoto assume total controle sobre as tarefas e favores a serem “executados” pelo ídolo. O cliente, no paganismo, determina e pressupõe manipular seu ídolo com promessas, oferendas, frases mágicas, etc.. O cliente determina o que deseja. Aproxima-se do “mágico” e diz qual o bem ou o mal que deve ser executado pela divindade. Seja qual for o desejo do cliente, a tarefa da divindade é somente a de obedecer ao cliente, através do manuseio de objetos sagrados ou frases mágicas. Nesse cenário religioso o “sacerdote” (agente intermediário) é maior do que o santo.
No paganismo, a divindade sem inteligência, vontade própria, sem projeto algum, existe apenas como expressão da esperteza dos sacerdotes do sistema ou dos desejos e aspirações dos devotos; portanto, como imagens ou ilusões invisíveis dos clientes. Assim, numa relação pagã, não se precisa orar: “seja feita a tua vontade” - o ídolo não tem vontade, somente o cliente.
Nas narrativas dos evangelistas do Novo Testamento Jesus reconhece um Deus autônomo, revestido de sabedoria e inteligência. Pensa por si mesmo, tem vontade própria e soberana, e seus adoradores devem segui-lo por obediência e fé.
Enquanto no paganismo os devotos estabelecem as regras na relação; no Evangelho, Jesus Cristo define as alianças e as formas a serem obedecidas. Ele mesmo orou reconhecendo a soberania e autonomia de Deus - fez referência ao Pai que está nos céus (Mt. 6.9), confessou sua total submissão à vontade de Deus, referiu-se ao Reino de Deus que deve ser acolhido (Mt. 6.10). Assim, Deus tem o controle de tudo e não os adoradores. O Deus sobrenatural move todas as coisas, e não o contrário.
Quando escuto as orações em vários cultos cristãos, incluindo os evangélicos, fico desconfiando que há uma invasão de paganismo em nossas liturgias, cânticos, orações e confissões.
Numa espiritualidade em que o devoto tem o controle e “soberania” das coisas, tanto a divindade quanto o próximo são apenas objetos na transação mercantilista do cliente. Em caso de alguma missão (e, aqui a missão se reduz a proselitismo e filantropia), esta existe prioritariamente como meio de promoção dos sacerdotes e de suas respectivas instituições.
1.5. ESPIRITUALIDADE ESOTÉRICA SENSITIVA
Estamos denominando de espiritualidade esotérica sensitiva aquela que é caracterizada pelo exercício interior e individualista, fechado a grupos restritos e herméticos, percebidos entre si como pessoas dotadas de poderes místicos ou “energia positiva”.
Sensitivo pela priorização da experiência em detrimento da participação inteligente da revelação decodificavel. Sem dúvida alguma, o Evangelho é profundamente arraigado no campo dos sentimentos; todavia, somente sentir sem discernimento e implicações comunitárias, pode conduzir o cristão ao isolamento e ao fanatismo desumano e inconseqüente.
Levando-se em consideração ao apelo pela experiência pessoal, há no esoterismo uma grande semelhança com o evangelho de Jesus Cristo. O cristianismo tem vários aspectos que o torna intimo, pessoal e sensorial. Nas narrativas bíblicas encontram-se experiências místicas, subjetivas -, acontecem no campo da alma; mas não são resultantes da habilidade interior de se transcender ao racional. No evangelho as experiências pessoais são acima de tudo ex-otéricas – acessível a todos, simples e sem burocracia ou tecnicismo.
Os modelos esotéricos tendem a privilegiar os gurus, que por sua vez individualizam-se, isolam-se da comunidade. Aqui os espirituais são reconhecidos por níveis superiores ou inferiores. Os “pós-iniciados” passam a ser identificados como indivíduos especiais, super-espirituais, pessoas dotadas de capacidades espetaculares. Vale neste caso, a experiência, a capacidade de encontrar-se com o “além”, o poder que “seres humanos evoluídos” adquirem para controlar “energias” ou serem influenciados por estas.
Se numa comunidade cristã, as pessoas estão dando mais ênfase a experiência espiritual que isola, discrimina os de fora, põe os “espirituais” em pedestais superiores, difíceis de serem alcançados por outros seres humanos, é bem provável, que estejamos diante, mais de uma espiritualidade esotérica - sensitiva, do que diante do modelo proposto por Jesus Cristo.
No Novo Testamento, vamos encontrar tanto Jesus quanto seus apóstolos vivenciando experiências sensitivas extraordinárias, muitas delas por iniciativas que fugiam ao controle deles.
Por mais que o evangelho seja inclusivo, ele é também seletivo e, portanto, de certo modo, excludente. A diferença consiste no fato de que, no evangelho, o discípulo é estimulado a uma experiência de conversão, um encontro com Deus e desse encontro, a um retorno para viver a comunhão numa comunidade de fé cristã em serviço ao mundo – neste caso, confluem-se espiritualidade e missão. A experiência de conversão do discípulo de Jesus Cristo desemboca numa espiritualidade íntima e pessoal, e ao mesmo tempo, comunitária e universal.
No evangelho ensinado por Jesus, oramos ao Pai nosso que está nos céus – espiritualidade transcendente. E, enquanto se busca ao Pai na transcendência, deve-se buscá-lo na primeira pessoa do plural – O Pai é nosso - É Pai da comunidade e na comunidade. É também, a oração do pão nosso de cada dia.
Na Oração Dominical, espiritualidade e missão são manifestações transcendentes inseridas na realidade do cotidiano.
2. A FÉ COMO EIXO E BALIZAMENTO de Transcendência e Resposta Ética
Início esta parte com uma afirmação de Rodolfo Otto:
“Os elementos não-racionais que permanecem vivos numa religião preservam-na da degeneração em racionalismo. Os elementos racionais que nela são abundantemente saturados, preservam-na de cair no fanatismo ou no misticismo ou de nelas permanecer; e elevam-na ao nível de religião qualitativamente superior, culta, religião da humanidade. A presença desses dois elementos e sua harmonia, estabelecem um critério para medir a superioridade de uma religião…”
Baseado neste critério, Otto descreve o cristianismo como religião superior às demais religiões, considerando ainda, que o cristianismo toma para si, uma forma do clássico e nobre.
Diante das duas perspectivas qual a fé geradora de uma espiritualidade capaz de promover uma missão conseqüente?
1. FÉ TRANSCENDENTE, detectada no mundo dos sentimentos e decodificada, apenas por analogia, através de categorias racionais.
Aqui a fé deve ser entendida como experiência a prior, anterior a outras formas de expressão cognitiva, sejam elas: culturais, políticas, econômicas ou sociais. A crença inabalável, a convicção daquilo que não se vê. O conhecimento e confiança no Inominável, Indescritível naquele que é verdadeiramente o SER. Na teologia cristã este conhecimento é denominado de revelação - ato exclusivo da parte de Deus em se fazer conhecido para quem Ele quis, por Si mesmo, se manifestar. O Antigo Testamento está repleto de eventos com a natureza do que estamos falando. É só lembrarmos de Abraão, Moisés, Isaías. Os relatos sobre as experiências destes três personagens, mostram-nos a revelação de Deus de uma forma sobrenatural e aceita somente na esfera do sentimento da fé mística. Especialmente Paulo faz referência ao que ele denomina de “mistério” não concedido a outras gerações, mas a ele, “o menor de todos os santos” …. “foi-me dado conhecer o mistério da multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3.1-13).
Jesus disse a Tomé: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”.
Paulo diz, simplesmente: “Abraão creu e isso lhe foi imputado como justiça..”.
O escritor da carta aos Hebreus diz: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem (…) Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.” (Hb 11.1,6).
Referimo-nos a uma qualidade do sentimento humano que é sensibilizado e movido em direção a Deus, mesmo antes de quaisquer manifestações espetaculares. Como exemplo, poderíamos lembrar de Abraão, o pai da fé. Sobre ele, o apóstolo Paulo comenta:
“E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado.” (Ro 4.11,12).
Paulo está falando de uma confiança em Deus, que nasce em Abraão, antes de qualquer resultado que a sua fé pudesse manifestar. No Antigo Testamento a expressão dessa fé se dá como resultado da crença na Aliança de Deus com pessoas ou com o Seu povo. Assim, vários sinais e milagres se manifestam como confirmação da fé, seja para uma missão específica de alguém, seja para confirmação do poder de Deus. Todavia, estamos identificando aqui, a fé dentro do campo do sentimento humano, que encontra significado, simplesmente na crença, na confiança total e absoluta em Deus. Fé, que pode ser explicada pela tentativa de aproximações analógicas, mas jamais, açambarcada por meras definições. Foi dessa maneira que Jesus procurou decodificar para Nicodemos o mundo espiritual, e mesmo assim, Nicodemos não o entendeu. Jesus ironizou: “Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais? (Jo 3.12).
Paulo fala de um conhecimento não decodificado “naturalmente”, refere-se a coisas que olhos não viram, ouvidos não ouviram, nem jamais penetrou o conhecimento racional (I Co. 2.8-9). Ele afirma sobre coisas que são discernidas com um critério espiritual e por pessoas espirituais. Aqui a espiritualidade assume um papel místico, sobrenatural, transcendente.
2. FÉ COMO CAPACIDADE SOBRE-HUMANA para realização de fenômenos sobrenaturais
Especialmente, nos quatro evangelistas do Novo Testamento encontramos registros sobre a fé na perspectiva da realização de proezas e milagres inusitados. Tudo indica, que os narradores das histórias dos milagres de Jesus tinham em mente, a tentativa de fazer com que as pessoas acreditassem na missão de Jesus Cristo. João, referindo-se aos registros em seu livro diz: “estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.(Jo 20.31).
De um lado, podemos observar a intenção dos narradores no conjunto geral de seus documentos: uma tentativa de sistematização inteligente, racional da fé. Sobre isto falaremos mais adiante. De outro lado, podemos olhar para as narrativas observando a atitude dos personagens de cada história. Aí vamos encontrar peças, cuja ênfase, está na fé da pessoa doente, fé daqueles que cercavam o Senhor Jesus (Mt 8:10; Mc 2:5; 5:34; 10:52); ou, na falta de fé, que limitavam a intensidade dos milagres: “E não podia fazer ali nenhum milagre, a não ser curar alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-se da incredulidade deles. Em seguida percorria as aldeias circunvizinhas, ensinando.” (Mc 6:5,6).
A fé chega a ser mensurável. Encontramos no Novo Testamento expressões como: “grande é a tua fé”, ou: “Fé do tamanho de um grão de mostarda”, ou ainda: “…homens de pequena fé”. Nestes casos, a fé se apresenta como um testemunho de que as pessoas estão, potencialmente - às vezes mais, às vezes, menos - abertas às possibilidades das coisas que Deus pode realizar, através de suas vidas.
Neste ponto poderíamos dizer que a espiritualidade se caracteriza pela capacidade individual ou coletiva de se realizar “os impossíveis” aos olhos da grande maioria.
4. Fé expressa num conjunto de doutrinas e confissões.
As narrativas do Novo Testamento são, em geral, uma tentativa de convencer pelo argumento inteligente, que Jesus Cristo é o Salvador, o Messias enviado por Deus. As cartas paulinas, especialmente as doutrinárias, são elaborações sistematizadas, racionais, que pretendem dar à experiência cristã transcendente, um conteúdo prático e lógico, histórico, tangível e decodificável, mesmo que, por analogias, que apenas nos aproximam das realidades espirituais mais profundas. Assim, nessa tentativa de elaboração da prática da fé e de sua sistematização vão surgindo as confissões e declarações de fé no mundo cristão. Um jeito fascinante de não permitir, que a experiência sensitiva conduza os cristãos a um espiritualismo individualista, fanático e desconectado das realidades da vida presente. A fé neste aspecto deve ser entendida como balizamento da conduta moral, ética e confessional da comunidade cristã.
Contudo, devemos reconhecer também, que a partir da fé confessional, os divisores de águas foram se estabelecendo no mundo cristão. De inicio eram apenas testemunhos dos novos catecúmenos, que pelo arrependimento e fé, confissão de seus pecados e engajamento na Comunidade de Jesus Cristo, confessavam aos “de fora” a sua fidelidade ao Senhor Jesus Cristo ressuscitado. Depois foram surgindo as confissões para estabelecer linhas demarcatórias, também, dentro do cristianismo. As confissões mais ecumênicas ainda são: o Credo Apostólico, o Credo Niceno, e o Atasasiano, este, um símbolo latino atribuído ao bispo Atanásio de Alexandria.
Com a Reforma Protestante essas confissões passaram a ser basicamente um tratado teológico e doutrinário, e não mais apenas um “hino” confessional usado na liturgia. A Dieta de Augsburgo em 1530 ilustra esse novo momento confessional da igreja cristã. Um outro símbolo desse discurso confessional de teor teológico aparece no ambiente evangelical, através do Pacto de Lausanne - Suíça; 1974. A diferença é que no Pacto de Lausanne surge também um teor estratégico e ético da missão da igreja no mundo.
Bem, de fato, estamos apenas registrando que a fé assume, neste sentido, um caráter confessional - uma interpretação decodificável e inteligente, a fim de:
1. Inicialmente, com a intencionalidade de testemunhar e explicitar a fé no Evangelho de Jesus Cristo, para os de “fora”
2. Num segundo momento para posicionar-se diante de ameaças doutrinárias - às vezes internas, outras vezes externas. Uma espécie de busca da unidade pela verdade.
3. E, por último, com o propósito de “discernir os tempos” e praticar com fidelidade e eficácia a missão da Igreja no mundo.
Neste ponto, espero não confundirmos o que estamos denominando de fé confessional - conjunto de ensinamento capaz de discernir e explicitar por analogia inteligente os fenômenos da revelação; com o neo-fundamentalismo doutrinário prepotente, desumano, exclusivista e criminoso, que suprime o dinamismo da “confissão de fé” como forma de responder adequadamente aos desafios éticos e sociais de cada nova geração.
3. Fé como resposta ética - resultado da reconciliação com Deus
Nas Escrituras a fé é também apresentada como uma resposta humana que testemunha, pratica as boas obras do Reino de Deus e resiste a toda espécie de maldade. A fé, nessa perspectiva, não é uma mediadora entre Deus e as pessoas. O mediador é Deus/Cristo, em si mesmo e não a nossa fé. Assim, constatamos que há expressões de fé fora dessa perspectiva relacional com Deus. Ou seja, a ausência de uma resposta ética denuncia um tipo de crença, que não se enquadra dentro do que a Bíblia reconhece como fé cristã. Os demônios, por exemplo, crêem e, ao mesmo tempo, se rebelam contra Deus (Tg 2.19). Nesse sentido podemos observar que os demônios reconhecem que Deus é absolutamente melhor, e mesmo assim, não se submetem nem assimilam a bondade de Deus. Já para aqueles que são reconciliados, a fé passa a ser uma conseqüência espiritual, traduzindo-se dessa maneira numa missão de amor ao próximo. Escrevendo às igrejas do I Século, Paulo usa expressões como:
• Por isso também eu, tendo ouvido falar da fé que entre vós há no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos,… Ef 1.15
• Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé. Ro 1.8
• …desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes a todos os santos,… (Cl 1.4).
Não é possível separarmos a fé como imagem pública (comportamento, caráter); da fé enquanto ato de misericórdia e compaixão pelo próximo. Até porque a imagem pública da igreja é também resultante de atos de sua compaixão. Mas aqui, a fé deve ser entendida como evento atuante no caráter, integridade, atitudes, comportamento - um modo de ser próprio do discípulo de Jesus Cristo: “Vós sois a luz do mundo…”; “Vós sois o sal da terra” (Mt 5.13,14). Desse modo a fé concede a comunidade cristã um caráter distintivo: “para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandeceis como luminares no mundo,” (Fl 2.15)
C.A. Anderson Scott (Christianity According to St. Paul, 1972, P.111) diz que: “desde o momento em que a fé adquiriu caráter ativo idealmente se operou ali uma transformação da perspectiva ética”. Portanto, olhando com esse enfoque, podemos afirmar que a fé é uma resposta (conseqüência) ética, à graça recebida de Deus. “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,…” As palavras deste texto dão a idéia de salvação como um ato ou processo de reeducação da nova criatura em Cristo. A Bíblia enfoca este aspecto da fé como sendo o processo de formação de Cristo em nós. Uma espécie de novo “ethos” transplantado pelo Espírito para o espírito humano. Deus transplanta o coração de pedra, insensível, desumano, por um coração de carne - humano sensível, fiel, confiável (Ez. 18.31; 36.26; Jr. 31.31-34).
Esse novo modo de ser dos discípulos de Jesus provoca reações - às vezes de aceitação, outras vezes de repúdio e perseguição. A história está repleta de casos de hostilidade e crueldade contra os cristãos:
Pedro escrevendo aos cristãos da Ásia Menor, estimula-os a confirmarem a fé, a despeito de tribulações (1Pe 1.6,7).
Paulo escrevendo aos Tessalonicenses comenta sobre essa fé constante, a despeito de perseguições e aflições: “De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa constância e fé em todas as perseguições e aflições que suportais;…” (2Ts 1.4)
No livro de Apocalipse encontramos registros sobre aqueles que sofreram por conta do testemunho de sua fé: “…conservas o meu nome e não negaste a minha fé…” Ap 2.13. ou ainda: “…e por causa do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.” Ap 12.11).
A igreja de Jesus Cristo é formada por esses indivíduos, que buscam uma fé, comunitária, partilhada. Uma fé marcada por obras de caridade e justiça. Na ótica de Tiago as obras se confundem com a fé: “…mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras…”. Para ele uma comunidade que discrimina o pobre e não cuida dos necessitados deve ser submetida a avaliação da fé (Tg 2.1-11). E, arremata o seu argumento com uma pergunta: “…se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg 2.14).
Ruth Tucker, em sua historiografia sobre o cristianismo, faz referência a igreja dos três primeiros séculos, sendo percebida, até pelos seus opositores e críticos, como uma comunidade que acolhia pessoas inúteis, desprezíveis, escravos, mulheres, pobres e crianças. O imperador Juliano chegou a comentar, que eles (os cristãos) cuidavam “não apenas de seus próprios pobres, mas também dos nossos” (Tucker 1986; 26,27).
Portanto, há duas dimensões da fé como resposta ética.
1) Uma espiritual: que se inicia na experiência intima, pessoal, privada - “entra no teu quarto fecha a porta e fala ao teu Pai…. e teu Pai que vê em secreto te recompensará”; mas desemboca no serviço.
2) É, portanto, missionária: Fé que se expressa através de uma espiritualidade comunitária, pública, sócio-política, inclusiva - “…Assim brilhe a vossa luz diante dos homens…”. Esta última dimensão é marcada por práticas de justiça social, implica no reconhecimento e admiração de alguns; outras vezes, no repúdio e perseguição de outros.
Observando o testemunho da Igreja Primitiva podemos afirmar que era uma comunidade batizada por uma missão espiritual e aspergida por uma espiritualidade missionária.
3. O AMOR COMO EIXO E BALIZAMENTO de Santidade e Serviço
Nas Escrituras, o povo de Deus é uma comunidade distintiva, santa, vocacionada para amar. A Igreja é composta pelos “filhos da luz” que, por essa condição “andam na luz” e amam a luz (Ef 5.8). Há outros que amam mais as trevas do que a luz (Jo 3.19). É possível se identificar na linguagem dos apóstolos o uso da primeira pessoa do plural (nós), às vezes segunda pessoa do plural (vós), para fazer referência a essa comunidade escolhida por Deus, a fim de manifestar ao mundo a multiforme sabedoria de Deus (Ef 2.2,3).
Deus convoca a igreja, não para privilegiar alguns, mas para abençoar a muitos. O propósito inclusivista não descarta uma atuação seletiva. No Novo Testamento fica evidente a existência de uma comunidade universal, que tem respondido positivamente ao ato redentor do amor de Deus, devendo diferenciar-se, portanto de outros que Paulo denomina de: “filhos da desobediência” (Ef 2.2,3) e continua: “Mas Deus sendo rico em misericórdia por causa do grande amor com que nos amou…” (Ef 2.5). E, ainda afirma: “…Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo Jesus morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Ro 5.8).
Pedro usa a segunda pessoa do plural: “vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa…” (I Pe 2.9). João é mais enfático quando descreve o amor entre Deus e a Igreja: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (I Jo 4.19). Afinal, a Bíblia se resume nessa fascinante iniciativa de Deus de salvar a humanidade, através do Seu amor.
Estamos reconhecendo que Deus ama a todos, mas alguns, como refluxos desse amor vivenciam o mandamento de amar uns aos outros.
Entendendo a igreja como comunidade de Jesus Cristo, como povo alcançado pela bondade de Deus, e não apenas como estrutura institucionalizada as possibilidades da missão tendem a ser ampliadas. As instituições são limitadas, não possuem neurônios, sentimentos; logo, não são obrigatoriamente capazes de amar, e mesmo que, em dados momentos sejam úteis ao Reino de Deus, podem em outros momentos, prestar um desserviço ao Reino, dada a natureza institucional de existir para preservar-se a si mesma. Por isso, o amor deve ser o paradigma que não permite sacrificar as pessoas em beneficio da instituição -, seja pelo abandono ou proteção da instituição.
A igreja é a expressão desse amor. E como o expressa? No Novo Testamento a manifestação do amor acontece pela igreja ser, em si mesma, diaconia. Como expressa o Bispo anglicano Sebastião G. Soares: “a igreja de Jesus Cristo ou é diaconia, ou não é Igreja de Jesus Cristo”. A figura de servo atribuída a Jesus faz mais sentido como “diácono da humanidade”, do que escravo. Pensando dessa maneira nos deparamos com diaconia como missão essencial do povo de Deus. No Sermão do Monte, a espiritualidade não se restringe no ato de se levar oferta ao altar. A missão de se buscar o outro para o espaço da reconciliação, ambiente da paz e partilha do pão é devoção e espiritualidade.
Não seria verdade afirmar que espiritualidade é o ato de fazer desdobrar-se em amor ao próximo a experiência transcendente, enquanto missão é a tarefa de transformar num culto a Deus a ação sócio-política em favor da vida?
3.1. A IGREJA - UMA COUMUIDADE DE AMOR – a marca da santidade
Desse modo o amor é a marca com a qual deve ser identificada a comunidade de Jesus Cristo. Para Francis Schaeffer o amor é uma espécie de emblema, uma marca, um selo que o Espírito confere para rotular o cristão, em todos os tempos e em todos os lugares (1970;5).
Os discípulos de Jesus Cristo são identificados como tais, pela evidência do amor: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos; se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13.35). Na ótica de João amamos a Deus, quando de fato, amamos aquele a quem vemos (aquele a quem vemos - possivelmente refere-se ao irmão na fé). (I Jo 4.20,21). A necessidade de se praticar o amor existe em forma de mandamento, e sendo mandamento, existe para ser obedecido. Mas essa constatação não implica que o amor deva ser praticado por imposição, senão apenas, para enfatizar que não é um mero sentimento. Pois, amar é também um caminho, é o jeito de ser, o modus vivendis do cristão. Logo, a Igreja ama como refluxo do amor recebido de Deus. Amar deve fazer parte da pulsação natural da Igreja, a expressão da maturidade cristã, o mais evidente referencial de espiritualidade. Uma vez que amamos a Deus, naturalmente obedecemos ao Seu mandamento de amar, e por desfrutarmos de Sua natureza, amamos incondicionalmente como conseqüência do ser cristão. Assim como uma planta, naturalmente produz frutos da sua espécie o cristão produz o fruto do Espírito - “Amor, paz, alegria, bondade, fidelidade, mansidão…” (Gl 5.20-22)
Se desfrutarmos de manifestações sobrenaturais na esfera dos sentimentos, mas se, no entanto, não estivermos revestidos de amor - Paulo afirma - nada disso me aproveitará. Ou, se possuirmos conhecimento misterioso e científico, mas se da mesma maneira, não tivermos a prática do amor - Paulo outra vez diz - nada disso adianta. Na ótica de Paulo pode-se até fazer obras filantrópicas sacrificiais, mas se o amor não for o fundamento e a motivação de tais práticas; de nada vai adiantar (I Co 13.1-3).
O princípio da unidade do povo de Deus está fundamentado no amor. Assim sendo, a Igreja deve ser internamente a comunidade da comunhão, afetividade, fraternidade, o espaço de pessoas acolhedoras, misericordiosas; a expressão mais explícita de um ambiente e ambiência onde as pessoas possam se sentir amadas por Deus, tocadas por Ele, através da Sua encarnação no Corpo de Cristo. Testemunhar do amor de Deus ao mundo depende da unidade, em amor, da Igreja. Jesus disse: “Que eles sejam um para que o mundo saiba que tu me enviaste…” (Jo 17.23,24).
3.2. A IGREJA – UMA COMUNIDADE DE SERVIÇO – a marca da missão
Sendo a Igreja uma comunidade de amor, como conseqüência de sua própria natureza seria contraditório viver para dentro de si mesma e não para os “de fora”. A igreja deve manter como diferencial a característica ser uma sociedade em que os associados vivem a serviço dos não-associados. Até porque a lógica de quem ama é viver para o bem do outro e não de si mesmo. A unidade da Igreja como expressão interna do amor, não deve ser praticada de forma excludente. O novo mandamento de amor aos irmãos não anula o antigo mandamento de se amar a Deus e ao próximo. Sobre isto observemos o que Jesus disse:
“Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. (Mt 5.44-48).
A unidade é a manifestação do testemunho de amor entre os cristãos, a despeito de suas diferenças e diversidade, a fim de que, os “de fora” creiam que Jesus Cristo é o Messias enviado por Deus. O amor na igreja fortalece a comunhão interna do Corpo de Cristo, ao mesmo tempo em que, libera a igreja para praticar obras de misericórdia e justiça em favor do próximo, com o fim de revelar ao mundo a perfeição de Deus, no Seu tratamento com as pessoas.
Uma espiritualidade fundamentada no amor aprecia e deslumbra-se com todas as manifestações de Deus. Uma espiritualidade aspergida de amor tem sensibilidade aguçada para todos os dons da vida; vive o exercício permanente de contemplação da natureza nos seus mais variados cenários. Quem assim ama vive em missão permanente. Missão inteligente com vistas à preservação de todo o ecossistema, busca de vida abundante para todas as pessoas e profundidade harmoniosa nas relações com Deus e com toda a natureza.
Sempre que se fala de espiritualidade pressupõe-se uma experiência humana exclusiva
no campo religioso e subjetivo da fé, alienada às demais experiências da vida. No cristianismo, quando se aborda sobre missão a ênfase recai no ativismo enquanto serviço prestado ao próximo, seja pela proclamação do evangelho, ou pelas obras de misericórdia e justiça. Nesta reflexão estamos considerando espiritualidade e missão como eixos paralelos do mandamento principal das Escrituras: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo…”. Assim, amar a Deus é uma missão espiritual, do mesmo modo que, amar ao próximo é uma espiritualidade missionária. Estas duas manifestações cristãs evidenciam-se de forma interativa e interdependente. Por conta dessa interação afirmamos que a espiritualidade cristã precisa sempre encontrar o seu caminho devocional em missão ao próximo. No catolicismo, a missa é o evento em que o adorador tendo encontrado-se com Deus no espaço sagrado, sai dai em missão ao mundo. Desse modo, a espiritualidade pode ser entendida como uma experiência humana no campo da fé e missão como uma resposta ética dessa mesma fé.
Na narrativa sobre a tentação de Jesus, tanto Mateus quanto Lucas fazem referência a importância do pão, quanto da Palavra de Deus: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”. Na oração Dominical, Jesus ensina aos seus discípulos a orarem ao “Pai nosso celestial”, pelo “pão nosso de cada dia”. Os textos fazem referência à sobrevivência física (pão) e a experiência transcendente (Palavra da boca de Deus e Pai nosso). O pão é um bem compartilhado ou acumulado – portanto, fermentado de implicações sociais, econômicas e políticas; da mesma forma, que a Palavra procedente da boca de Deus e Pai nosso possuem implicações religiosas. Portanto, as relações políticas, econômicas e religiosas da sociedade em que estamos inseridos anunciam ou denunciam a nossa espiritualidade e missão.
Apenas para efeito de exposição das idéias, vamos discorrer sobre missão e espiritualidade em categorias separadas, mas entendendo que ambas confluem-se na vida e natureza da igreja de Jesus Cristo.
Pretendo concluir esta parte introdutória, com uma frase que pode resumir o enfoque como abordaremos o nosso tema durante esses dias: A falta de pão na mesa do pobre pode ser uma denuncia da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. Com esta frase desejo enfatizar a idéia de que missão e espiritualidade, no evangelho de Jesus Cristo, confluem-se nos espaços em que há sinais da sobre-vivência humana: devoção e pão de cada dia. Todavia, preciso também, explicitar dois reducionismos que a frase pode gerar:
a) Que a missão se torne um serviço voltado somente para o problema da falta de pão para os pobres, e
b) Que a espiritualidade se torne uma tarefa exclusiva em torno do altar.
Mais grave do que a dicotomia mencionada acima, é a constatação de que o cristianismo brasileiro, mesmo que, numericamente significativo, não tenha conseguido atender com respons-habilidade as demandas de nossa sociedade.
No contexto brasileiro há várias práticas espirituais nas mais diversas comunidades cristãs, que evidenciam distorções e limitações na atividade missionária da igreja de Jesus Cristo. Além dos pentecostais e neo-pentecostais, o protestantismo histórico tem passado por uma de suas transições mais comprometedoras entre a sua identidade histórica e a necessidade de contextualização. Na primeira parte de nossa reflexão estou considerando a missão como um desdobramento de práticas espirituais expostas nas vitrines no cenário religioso brasileiro. Em seguida estabeleço três eixos básicos de sustentação e balizamento para a espiritualidade e missão da igreja: fé, amor e graça.
Por enquanto, olhemos algumas práticas de espiritualidade na vitrine.
1. PRÁTICAS DE ESPIRITUALIDADE NA VITRINE
1.1. ESPIRITUALIDADE E FETICHE
Têm-se associado ao cristianismo evangélico brasileiro elementos estranhos, tanto à sua herança judaico-cristã, como à sua configuração histórica. Nunca fez parte de nossas crenças a fé no poder e mediação dos objetos - seja para fazer o bem, seja para produzir o mal. Sou filho da geração que nunca acreditou, por exemplo, no poder dos objetos usados nos “despachos”. Que tais objetos tivessem poder capaz de gerar qualquer resultado sobre alguém - nem para o bem, nem para o mal. Qual o argumento, no passado, usado exclusivamente nos espaços de “fetichi religioso popular” para manter pânico e dependência nos seus fregueses? Aqui surge o “sacerdote mágico” argumentando com o cliente que alguém lhe fez um despacho, ou que um encosto o persegue. Há amarras misteriosas, que somente ele – “sacerdote mágico”, pelo poder da magia, pode “mover o sobrenatural” e desatar os nós na vida do cliente. A mesma lógica fetichisou os arraias evangélicos, que passaram a confiar no poder dos objetos, nas frases mágicas, nos demônios que habitam em máscaras, roupas e desenhos. Do ponto de vista bíblico, os demônios habitaram em pessoas, e no máximo, não como regra, mas como exceção, numa única ocasião invadiram, com a permissão de Jesus, uma manada de porcos.
De fato o cristianismo brasileiro passa por um processo de sincretismo interno e externo. Basta observarmos que do ponto de vista da liturgia o catolicismo pentecostalizou-se, enquanto que, do ponto de vista da magia, o protestantismo catolicizou-se ou umbandicizou-se. Sem emitir um juízo de valor no que diz respeito às negociações dos símbolos e expressões religiosas, estou tão somente apontando para a possibilidade de que, diante de uma espiritualidade fetichizada, superficial e alienada do pão de cada dia para todos, a missão tende a ser uma interferência exclusiva pela via do milagre, em que o intermediário é o mais beneficiado..
1.2. ESPIRITUALIDADE QUE SUPERVALORIZA O ESTÉTICO EM DETRIMENTO DO ÉTICO
Entre os programas de televisão que dão ibop, encontram-se os programas das “mascaradas” - jovens bonitas com o corpo quase 100% descoberto e uma máscara encobrindo o belo da fisionomia. Os olhos, a face formam uma parte do corpo por onde fluem as intenções, os desejos mais íntimos, os sentimentos – expressões no campo da ética; porém agora, escondidos por máscaras. No outro lado o corpo, com suas expressões estéticas, exposto na vitrine.
Não estou falando de moralismo. Refiro-me a esse fenômeno, em que as aparências cosméticas e teatrais na espiritualidade da igreja travestiram-se de uma estética visual de tal forma tentadora, que mascara a necessidade de uma religião mais ética e comprometida com a vida. Tiago ressalta: “A religião pura e verdadeira é visitar os órfãos e as viúvas e se manter puro…” Aqui encontramos equilíbrio entre o ético e o estético. Manter-se puro – pode estar relacionado à imagem pessoal e coletiva diante da sociedade. Uma boa imagem pública é uma questão estética. Preservar uma liturgia harmoniosamente adequada para comunicar os elementos da graça se faz necessário, mas pode se tornar apenas estético. Cuidar dos órfãos e das viúvas (pessoas à margem da sociedade) é mais ético do que apenas estético. Assim, manter a coerência da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo, amar o próximo como Cristo nos amou, ser íntegro e transparente, ser uma noiva sem máscaras - é ético.
A espiritualidade estética é meramente ritualista, legalista e meritória; predispondo seus praticantes a uma missão que gira em torno da publicidade pessoal.
1.3. ESPIRITUALIDADE COMO FENÔMENO DE MERCADO
O cristianismo brasileiro passa por manifestações, que não se sabe de fato, se é um fenômeno de mercado com elementos da religiosidade popular ou se um fenômeno religioso que utiliza os instrumentos de mercado. Estruturar uma igreja passou a ser um grande negócio de mercado. Não se sabe se os sacerdotes dos nossos tempos são atraídos por vocação ou tentação.
Há uma propaganda de motocicleta que ilustra bem essa promiscuidade entre religião e mercado. Aparecem três jovens com vestimentas sacerdotais (batina e colarinho clerical), com uma frase: “Se a igreja usa o marketing, o marketing usa a igreja”. Em seguida começam a cantar usando uma coreografia bastante comum nos espaços religiosos dos nossos dias. Usar o marketing como instrumento de propagação ou a coreografia é irrelevante na questão em referência. Estamos buscando discernir se o fenômeno a priori é de fato religioso; ou se o ídolo de marcado, além de se utilizar de todos os meios materiais para manutenção do sistema, consegue também coptar uma “espiritualidade neo-liberal” em beneficio do status quo de seus sacerdotes. Neste caso, mais do que nas situações de omissão, germina-se uma “espiritualidade” com toda a lógica de mercado, cuja missão é pragmática e materialista.
1.4. ESPIRITUALIDADE NUM CRISTIANISMO PAGANIZADO
A espiritualidade no paganismo é identificada especialmente na forma em que se relacionam os devotos e a divindade. No paganismo o devoto tem controle e domínio sobre o ídolo; até porque, o ídolo, em si mesmo, é apenas a materialização simbólica das demandas religiosas, ou no máximo, uma projeção dos desejos e aspirações humanas, atendidas supostamente pela magia no campo da fé. Portanto, o ídolo é uma projeção sem inteligência e vontade próprias. Não há nenhuma expressão de vida na divindade pagã. Por causa disso, o devoto assume total controle sobre as tarefas e favores a serem “executados” pelo ídolo. O cliente, no paganismo, determina e pressupõe manipular seu ídolo com promessas, oferendas, frases mágicas, etc.. O cliente determina o que deseja. Aproxima-se do “mágico” e diz qual o bem ou o mal que deve ser executado pela divindade. Seja qual for o desejo do cliente, a tarefa da divindade é somente a de obedecer ao cliente, através do manuseio de objetos sagrados ou frases mágicas. Nesse cenário religioso o “sacerdote” (agente intermediário) é maior do que o santo.
No paganismo, a divindade sem inteligência, vontade própria, sem projeto algum, existe apenas como expressão da esperteza dos sacerdotes do sistema ou dos desejos e aspirações dos devotos; portanto, como imagens ou ilusões invisíveis dos clientes. Assim, numa relação pagã, não se precisa orar: “seja feita a tua vontade” - o ídolo não tem vontade, somente o cliente.
Nas narrativas dos evangelistas do Novo Testamento Jesus reconhece um Deus autônomo, revestido de sabedoria e inteligência. Pensa por si mesmo, tem vontade própria e soberana, e seus adoradores devem segui-lo por obediência e fé.
Enquanto no paganismo os devotos estabelecem as regras na relação; no Evangelho, Jesus Cristo define as alianças e as formas a serem obedecidas. Ele mesmo orou reconhecendo a soberania e autonomia de Deus - fez referência ao Pai que está nos céus (Mt. 6.9), confessou sua total submissão à vontade de Deus, referiu-se ao Reino de Deus que deve ser acolhido (Mt. 6.10). Assim, Deus tem o controle de tudo e não os adoradores. O Deus sobrenatural move todas as coisas, e não o contrário.
Quando escuto as orações em vários cultos cristãos, incluindo os evangélicos, fico desconfiando que há uma invasão de paganismo em nossas liturgias, cânticos, orações e confissões.
Numa espiritualidade em que o devoto tem o controle e “soberania” das coisas, tanto a divindade quanto o próximo são apenas objetos na transação mercantilista do cliente. Em caso de alguma missão (e, aqui a missão se reduz a proselitismo e filantropia), esta existe prioritariamente como meio de promoção dos sacerdotes e de suas respectivas instituições.
1.5. ESPIRITUALIDADE ESOTÉRICA SENSITIVA
Estamos denominando de espiritualidade esotérica sensitiva aquela que é caracterizada pelo exercício interior e individualista, fechado a grupos restritos e herméticos, percebidos entre si como pessoas dotadas de poderes místicos ou “energia positiva”.
Sensitivo pela priorização da experiência em detrimento da participação inteligente da revelação decodificavel. Sem dúvida alguma, o Evangelho é profundamente arraigado no campo dos sentimentos; todavia, somente sentir sem discernimento e implicações comunitárias, pode conduzir o cristão ao isolamento e ao fanatismo desumano e inconseqüente.
Levando-se em consideração ao apelo pela experiência pessoal, há no esoterismo uma grande semelhança com o evangelho de Jesus Cristo. O cristianismo tem vários aspectos que o torna intimo, pessoal e sensorial. Nas narrativas bíblicas encontram-se experiências místicas, subjetivas -, acontecem no campo da alma; mas não são resultantes da habilidade interior de se transcender ao racional. No evangelho as experiências pessoais são acima de tudo ex-otéricas – acessível a todos, simples e sem burocracia ou tecnicismo.
Os modelos esotéricos tendem a privilegiar os gurus, que por sua vez individualizam-se, isolam-se da comunidade. Aqui os espirituais são reconhecidos por níveis superiores ou inferiores. Os “pós-iniciados” passam a ser identificados como indivíduos especiais, super-espirituais, pessoas dotadas de capacidades espetaculares. Vale neste caso, a experiência, a capacidade de encontrar-se com o “além”, o poder que “seres humanos evoluídos” adquirem para controlar “energias” ou serem influenciados por estas.
Se numa comunidade cristã, as pessoas estão dando mais ênfase a experiência espiritual que isola, discrimina os de fora, põe os “espirituais” em pedestais superiores, difíceis de serem alcançados por outros seres humanos, é bem provável, que estejamos diante, mais de uma espiritualidade esotérica - sensitiva, do que diante do modelo proposto por Jesus Cristo.
No Novo Testamento, vamos encontrar tanto Jesus quanto seus apóstolos vivenciando experiências sensitivas extraordinárias, muitas delas por iniciativas que fugiam ao controle deles.
Por mais que o evangelho seja inclusivo, ele é também seletivo e, portanto, de certo modo, excludente. A diferença consiste no fato de que, no evangelho, o discípulo é estimulado a uma experiência de conversão, um encontro com Deus e desse encontro, a um retorno para viver a comunhão numa comunidade de fé cristã em serviço ao mundo – neste caso, confluem-se espiritualidade e missão. A experiência de conversão do discípulo de Jesus Cristo desemboca numa espiritualidade íntima e pessoal, e ao mesmo tempo, comunitária e universal.
No evangelho ensinado por Jesus, oramos ao Pai nosso que está nos céus – espiritualidade transcendente. E, enquanto se busca ao Pai na transcendência, deve-se buscá-lo na primeira pessoa do plural – O Pai é nosso - É Pai da comunidade e na comunidade. É também, a oração do pão nosso de cada dia.
Na Oração Dominical, espiritualidade e missão são manifestações transcendentes inseridas na realidade do cotidiano.
2. A FÉ COMO EIXO E BALIZAMENTO de Transcendência e Resposta Ética
Início esta parte com uma afirmação de Rodolfo Otto:
“Os elementos não-racionais que permanecem vivos numa religião preservam-na da degeneração em racionalismo. Os elementos racionais que nela são abundantemente saturados, preservam-na de cair no fanatismo ou no misticismo ou de nelas permanecer; e elevam-na ao nível de religião qualitativamente superior, culta, religião da humanidade. A presença desses dois elementos e sua harmonia, estabelecem um critério para medir a superioridade de uma religião…”
Baseado neste critério, Otto descreve o cristianismo como religião superior às demais religiões, considerando ainda, que o cristianismo toma para si, uma forma do clássico e nobre.
Diante das duas perspectivas qual a fé geradora de uma espiritualidade capaz de promover uma missão conseqüente?
1. FÉ TRANSCENDENTE, detectada no mundo dos sentimentos e decodificada, apenas por analogia, através de categorias racionais.
Aqui a fé deve ser entendida como experiência a prior, anterior a outras formas de expressão cognitiva, sejam elas: culturais, políticas, econômicas ou sociais. A crença inabalável, a convicção daquilo que não se vê. O conhecimento e confiança no Inominável, Indescritível naquele que é verdadeiramente o SER. Na teologia cristã este conhecimento é denominado de revelação - ato exclusivo da parte de Deus em se fazer conhecido para quem Ele quis, por Si mesmo, se manifestar. O Antigo Testamento está repleto de eventos com a natureza do que estamos falando. É só lembrarmos de Abraão, Moisés, Isaías. Os relatos sobre as experiências destes três personagens, mostram-nos a revelação de Deus de uma forma sobrenatural e aceita somente na esfera do sentimento da fé mística. Especialmente Paulo faz referência ao que ele denomina de “mistério” não concedido a outras gerações, mas a ele, “o menor de todos os santos” …. “foi-me dado conhecer o mistério da multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3.1-13).
Jesus disse a Tomé: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”.
Paulo diz, simplesmente: “Abraão creu e isso lhe foi imputado como justiça..”.
O escritor da carta aos Hebreus diz: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem (…) Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.” (Hb 11.1,6).
Referimo-nos a uma qualidade do sentimento humano que é sensibilizado e movido em direção a Deus, mesmo antes de quaisquer manifestações espetaculares. Como exemplo, poderíamos lembrar de Abraão, o pai da fé. Sobre ele, o apóstolo Paulo comenta:
“E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado.” (Ro 4.11,12).
Paulo está falando de uma confiança em Deus, que nasce em Abraão, antes de qualquer resultado que a sua fé pudesse manifestar. No Antigo Testamento a expressão dessa fé se dá como resultado da crença na Aliança de Deus com pessoas ou com o Seu povo. Assim, vários sinais e milagres se manifestam como confirmação da fé, seja para uma missão específica de alguém, seja para confirmação do poder de Deus. Todavia, estamos identificando aqui, a fé dentro do campo do sentimento humano, que encontra significado, simplesmente na crença, na confiança total e absoluta em Deus. Fé, que pode ser explicada pela tentativa de aproximações analógicas, mas jamais, açambarcada por meras definições. Foi dessa maneira que Jesus procurou decodificar para Nicodemos o mundo espiritual, e mesmo assim, Nicodemos não o entendeu. Jesus ironizou: “Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais? (Jo 3.12).
Paulo fala de um conhecimento não decodificado “naturalmente”, refere-se a coisas que olhos não viram, ouvidos não ouviram, nem jamais penetrou o conhecimento racional (I Co. 2.8-9). Ele afirma sobre coisas que são discernidas com um critério espiritual e por pessoas espirituais. Aqui a espiritualidade assume um papel místico, sobrenatural, transcendente.
2. FÉ COMO CAPACIDADE SOBRE-HUMANA para realização de fenômenos sobrenaturais
Especialmente, nos quatro evangelistas do Novo Testamento encontramos registros sobre a fé na perspectiva da realização de proezas e milagres inusitados. Tudo indica, que os narradores das histórias dos milagres de Jesus tinham em mente, a tentativa de fazer com que as pessoas acreditassem na missão de Jesus Cristo. João, referindo-se aos registros em seu livro diz: “estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.(Jo 20.31).
De um lado, podemos observar a intenção dos narradores no conjunto geral de seus documentos: uma tentativa de sistematização inteligente, racional da fé. Sobre isto falaremos mais adiante. De outro lado, podemos olhar para as narrativas observando a atitude dos personagens de cada história. Aí vamos encontrar peças, cuja ênfase, está na fé da pessoa doente, fé daqueles que cercavam o Senhor Jesus (Mt 8:10; Mc 2:5; 5:34; 10:52); ou, na falta de fé, que limitavam a intensidade dos milagres: “E não podia fazer ali nenhum milagre, a não ser curar alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-se da incredulidade deles. Em seguida percorria as aldeias circunvizinhas, ensinando.” (Mc 6:5,6).
A fé chega a ser mensurável. Encontramos no Novo Testamento expressões como: “grande é a tua fé”, ou: “Fé do tamanho de um grão de mostarda”, ou ainda: “…homens de pequena fé”. Nestes casos, a fé se apresenta como um testemunho de que as pessoas estão, potencialmente - às vezes mais, às vezes, menos - abertas às possibilidades das coisas que Deus pode realizar, através de suas vidas.
Neste ponto poderíamos dizer que a espiritualidade se caracteriza pela capacidade individual ou coletiva de se realizar “os impossíveis” aos olhos da grande maioria.
4. Fé expressa num conjunto de doutrinas e confissões.
As narrativas do Novo Testamento são, em geral, uma tentativa de convencer pelo argumento inteligente, que Jesus Cristo é o Salvador, o Messias enviado por Deus. As cartas paulinas, especialmente as doutrinárias, são elaborações sistematizadas, racionais, que pretendem dar à experiência cristã transcendente, um conteúdo prático e lógico, histórico, tangível e decodificável, mesmo que, por analogias, que apenas nos aproximam das realidades espirituais mais profundas. Assim, nessa tentativa de elaboração da prática da fé e de sua sistematização vão surgindo as confissões e declarações de fé no mundo cristão. Um jeito fascinante de não permitir, que a experiência sensitiva conduza os cristãos a um espiritualismo individualista, fanático e desconectado das realidades da vida presente. A fé neste aspecto deve ser entendida como balizamento da conduta moral, ética e confessional da comunidade cristã.
Contudo, devemos reconhecer também, que a partir da fé confessional, os divisores de águas foram se estabelecendo no mundo cristão. De inicio eram apenas testemunhos dos novos catecúmenos, que pelo arrependimento e fé, confissão de seus pecados e engajamento na Comunidade de Jesus Cristo, confessavam aos “de fora” a sua fidelidade ao Senhor Jesus Cristo ressuscitado. Depois foram surgindo as confissões para estabelecer linhas demarcatórias, também, dentro do cristianismo. As confissões mais ecumênicas ainda são: o Credo Apostólico, o Credo Niceno, e o Atasasiano, este, um símbolo latino atribuído ao bispo Atanásio de Alexandria.
Com a Reforma Protestante essas confissões passaram a ser basicamente um tratado teológico e doutrinário, e não mais apenas um “hino” confessional usado na liturgia. A Dieta de Augsburgo em 1530 ilustra esse novo momento confessional da igreja cristã. Um outro símbolo desse discurso confessional de teor teológico aparece no ambiente evangelical, através do Pacto de Lausanne - Suíça; 1974. A diferença é que no Pacto de Lausanne surge também um teor estratégico e ético da missão da igreja no mundo.
Bem, de fato, estamos apenas registrando que a fé assume, neste sentido, um caráter confessional - uma interpretação decodificável e inteligente, a fim de:
1. Inicialmente, com a intencionalidade de testemunhar e explicitar a fé no Evangelho de Jesus Cristo, para os de “fora”
2. Num segundo momento para posicionar-se diante de ameaças doutrinárias - às vezes internas, outras vezes externas. Uma espécie de busca da unidade pela verdade.
3. E, por último, com o propósito de “discernir os tempos” e praticar com fidelidade e eficácia a missão da Igreja no mundo.
Neste ponto, espero não confundirmos o que estamos denominando de fé confessional - conjunto de ensinamento capaz de discernir e explicitar por analogia inteligente os fenômenos da revelação; com o neo-fundamentalismo doutrinário prepotente, desumano, exclusivista e criminoso, que suprime o dinamismo da “confissão de fé” como forma de responder adequadamente aos desafios éticos e sociais de cada nova geração.
3. Fé como resposta ética - resultado da reconciliação com Deus
Nas Escrituras a fé é também apresentada como uma resposta humana que testemunha, pratica as boas obras do Reino de Deus e resiste a toda espécie de maldade. A fé, nessa perspectiva, não é uma mediadora entre Deus e as pessoas. O mediador é Deus/Cristo, em si mesmo e não a nossa fé. Assim, constatamos que há expressões de fé fora dessa perspectiva relacional com Deus. Ou seja, a ausência de uma resposta ética denuncia um tipo de crença, que não se enquadra dentro do que a Bíblia reconhece como fé cristã. Os demônios, por exemplo, crêem e, ao mesmo tempo, se rebelam contra Deus (Tg 2.19). Nesse sentido podemos observar que os demônios reconhecem que Deus é absolutamente melhor, e mesmo assim, não se submetem nem assimilam a bondade de Deus. Já para aqueles que são reconciliados, a fé passa a ser uma conseqüência espiritual, traduzindo-se dessa maneira numa missão de amor ao próximo. Escrevendo às igrejas do I Século, Paulo usa expressões como:
• Por isso também eu, tendo ouvido falar da fé que entre vós há no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos,… Ef 1.15
• Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé. Ro 1.8
• …desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes a todos os santos,… (Cl 1.4).
Não é possível separarmos a fé como imagem pública (comportamento, caráter); da fé enquanto ato de misericórdia e compaixão pelo próximo. Até porque a imagem pública da igreja é também resultante de atos de sua compaixão. Mas aqui, a fé deve ser entendida como evento atuante no caráter, integridade, atitudes, comportamento - um modo de ser próprio do discípulo de Jesus Cristo: “Vós sois a luz do mundo…”; “Vós sois o sal da terra” (Mt 5.13,14). Desse modo a fé concede a comunidade cristã um caráter distintivo: “para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandeceis como luminares no mundo,” (Fl 2.15)
C.A. Anderson Scott (Christianity According to St. Paul, 1972, P.111) diz que: “desde o momento em que a fé adquiriu caráter ativo idealmente se operou ali uma transformação da perspectiva ética”. Portanto, olhando com esse enfoque, podemos afirmar que a fé é uma resposta (conseqüência) ética, à graça recebida de Deus. “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,…” As palavras deste texto dão a idéia de salvação como um ato ou processo de reeducação da nova criatura em Cristo. A Bíblia enfoca este aspecto da fé como sendo o processo de formação de Cristo em nós. Uma espécie de novo “ethos” transplantado pelo Espírito para o espírito humano. Deus transplanta o coração de pedra, insensível, desumano, por um coração de carne - humano sensível, fiel, confiável (Ez. 18.31; 36.26; Jr. 31.31-34).
Esse novo modo de ser dos discípulos de Jesus provoca reações - às vezes de aceitação, outras vezes de repúdio e perseguição. A história está repleta de casos de hostilidade e crueldade contra os cristãos:
Pedro escrevendo aos cristãos da Ásia Menor, estimula-os a confirmarem a fé, a despeito de tribulações (1Pe 1.6,7).
Paulo escrevendo aos Tessalonicenses comenta sobre essa fé constante, a despeito de perseguições e aflições: “De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa constância e fé em todas as perseguições e aflições que suportais;…” (2Ts 1.4)
No livro de Apocalipse encontramos registros sobre aqueles que sofreram por conta do testemunho de sua fé: “…conservas o meu nome e não negaste a minha fé…” Ap 2.13. ou ainda: “…e por causa do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.” Ap 12.11).
A igreja de Jesus Cristo é formada por esses indivíduos, que buscam uma fé, comunitária, partilhada. Uma fé marcada por obras de caridade e justiça. Na ótica de Tiago as obras se confundem com a fé: “…mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras…”. Para ele uma comunidade que discrimina o pobre e não cuida dos necessitados deve ser submetida a avaliação da fé (Tg 2.1-11). E, arremata o seu argumento com uma pergunta: “…se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg 2.14).
Ruth Tucker, em sua historiografia sobre o cristianismo, faz referência a igreja dos três primeiros séculos, sendo percebida, até pelos seus opositores e críticos, como uma comunidade que acolhia pessoas inúteis, desprezíveis, escravos, mulheres, pobres e crianças. O imperador Juliano chegou a comentar, que eles (os cristãos) cuidavam “não apenas de seus próprios pobres, mas também dos nossos” (Tucker 1986; 26,27).
Portanto, há duas dimensões da fé como resposta ética.
1) Uma espiritual: que se inicia na experiência intima, pessoal, privada - “entra no teu quarto fecha a porta e fala ao teu Pai…. e teu Pai que vê em secreto te recompensará”; mas desemboca no serviço.
2) É, portanto, missionária: Fé que se expressa através de uma espiritualidade comunitária, pública, sócio-política, inclusiva - “…Assim brilhe a vossa luz diante dos homens…”. Esta última dimensão é marcada por práticas de justiça social, implica no reconhecimento e admiração de alguns; outras vezes, no repúdio e perseguição de outros.
Observando o testemunho da Igreja Primitiva podemos afirmar que era uma comunidade batizada por uma missão espiritual e aspergida por uma espiritualidade missionária.
3. O AMOR COMO EIXO E BALIZAMENTO de Santidade e Serviço
Nas Escrituras, o povo de Deus é uma comunidade distintiva, santa, vocacionada para amar. A Igreja é composta pelos “filhos da luz” que, por essa condição “andam na luz” e amam a luz (Ef 5.8). Há outros que amam mais as trevas do que a luz (Jo 3.19). É possível se identificar na linguagem dos apóstolos o uso da primeira pessoa do plural (nós), às vezes segunda pessoa do plural (vós), para fazer referência a essa comunidade escolhida por Deus, a fim de manifestar ao mundo a multiforme sabedoria de Deus (Ef 2.2,3).
Deus convoca a igreja, não para privilegiar alguns, mas para abençoar a muitos. O propósito inclusivista não descarta uma atuação seletiva. No Novo Testamento fica evidente a existência de uma comunidade universal, que tem respondido positivamente ao ato redentor do amor de Deus, devendo diferenciar-se, portanto de outros que Paulo denomina de: “filhos da desobediência” (Ef 2.2,3) e continua: “Mas Deus sendo rico em misericórdia por causa do grande amor com que nos amou…” (Ef 2.5). E, ainda afirma: “…Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo Jesus morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Ro 5.8).
Pedro usa a segunda pessoa do plural: “vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa…” (I Pe 2.9). João é mais enfático quando descreve o amor entre Deus e a Igreja: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (I Jo 4.19). Afinal, a Bíblia se resume nessa fascinante iniciativa de Deus de salvar a humanidade, através do Seu amor.
Estamos reconhecendo que Deus ama a todos, mas alguns, como refluxos desse amor vivenciam o mandamento de amar uns aos outros.
Entendendo a igreja como comunidade de Jesus Cristo, como povo alcançado pela bondade de Deus, e não apenas como estrutura institucionalizada as possibilidades da missão tendem a ser ampliadas. As instituições são limitadas, não possuem neurônios, sentimentos; logo, não são obrigatoriamente capazes de amar, e mesmo que, em dados momentos sejam úteis ao Reino de Deus, podem em outros momentos, prestar um desserviço ao Reino, dada a natureza institucional de existir para preservar-se a si mesma. Por isso, o amor deve ser o paradigma que não permite sacrificar as pessoas em beneficio da instituição -, seja pelo abandono ou proteção da instituição.
A igreja é a expressão desse amor. E como o expressa? No Novo Testamento a manifestação do amor acontece pela igreja ser, em si mesma, diaconia. Como expressa o Bispo anglicano Sebastião G. Soares: “a igreja de Jesus Cristo ou é diaconia, ou não é Igreja de Jesus Cristo”. A figura de servo atribuída a Jesus faz mais sentido como “diácono da humanidade”, do que escravo. Pensando dessa maneira nos deparamos com diaconia como missão essencial do povo de Deus. No Sermão do Monte, a espiritualidade não se restringe no ato de se levar oferta ao altar. A missão de se buscar o outro para o espaço da reconciliação, ambiente da paz e partilha do pão é devoção e espiritualidade.
Não seria verdade afirmar que espiritualidade é o ato de fazer desdobrar-se em amor ao próximo a experiência transcendente, enquanto missão é a tarefa de transformar num culto a Deus a ação sócio-política em favor da vida?
3.1. A IGREJA - UMA COUMUIDADE DE AMOR – a marca da santidade
Desse modo o amor é a marca com a qual deve ser identificada a comunidade de Jesus Cristo. Para Francis Schaeffer o amor é uma espécie de emblema, uma marca, um selo que o Espírito confere para rotular o cristão, em todos os tempos e em todos os lugares (1970;5).
Os discípulos de Jesus Cristo são identificados como tais, pela evidência do amor: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos; se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13.35). Na ótica de João amamos a Deus, quando de fato, amamos aquele a quem vemos (aquele a quem vemos - possivelmente refere-se ao irmão na fé). (I Jo 4.20,21). A necessidade de se praticar o amor existe em forma de mandamento, e sendo mandamento, existe para ser obedecido. Mas essa constatação não implica que o amor deva ser praticado por imposição, senão apenas, para enfatizar que não é um mero sentimento. Pois, amar é também um caminho, é o jeito de ser, o modus vivendis do cristão. Logo, a Igreja ama como refluxo do amor recebido de Deus. Amar deve fazer parte da pulsação natural da Igreja, a expressão da maturidade cristã, o mais evidente referencial de espiritualidade. Uma vez que amamos a Deus, naturalmente obedecemos ao Seu mandamento de amar, e por desfrutarmos de Sua natureza, amamos incondicionalmente como conseqüência do ser cristão. Assim como uma planta, naturalmente produz frutos da sua espécie o cristão produz o fruto do Espírito - “Amor, paz, alegria, bondade, fidelidade, mansidão…” (Gl 5.20-22)
Se desfrutarmos de manifestações sobrenaturais na esfera dos sentimentos, mas se, no entanto, não estivermos revestidos de amor - Paulo afirma - nada disso me aproveitará. Ou, se possuirmos conhecimento misterioso e científico, mas se da mesma maneira, não tivermos a prática do amor - Paulo outra vez diz - nada disso adianta. Na ótica de Paulo pode-se até fazer obras filantrópicas sacrificiais, mas se o amor não for o fundamento e a motivação de tais práticas; de nada vai adiantar (I Co 13.1-3).
O princípio da unidade do povo de Deus está fundamentado no amor. Assim sendo, a Igreja deve ser internamente a comunidade da comunhão, afetividade, fraternidade, o espaço de pessoas acolhedoras, misericordiosas; a expressão mais explícita de um ambiente e ambiência onde as pessoas possam se sentir amadas por Deus, tocadas por Ele, através da Sua encarnação no Corpo de Cristo. Testemunhar do amor de Deus ao mundo depende da unidade, em amor, da Igreja. Jesus disse: “Que eles sejam um para que o mundo saiba que tu me enviaste…” (Jo 17.23,24).
3.2. A IGREJA – UMA COMUNIDADE DE SERVIÇO – a marca da missão
Sendo a Igreja uma comunidade de amor, como conseqüência de sua própria natureza seria contraditório viver para dentro de si mesma e não para os “de fora”. A igreja deve manter como diferencial a característica ser uma sociedade em que os associados vivem a serviço dos não-associados. Até porque a lógica de quem ama é viver para o bem do outro e não de si mesmo. A unidade da Igreja como expressão interna do amor, não deve ser praticada de forma excludente. O novo mandamento de amor aos irmãos não anula o antigo mandamento de se amar a Deus e ao próximo. Sobre isto observemos o que Jesus disse:
“Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. (Mt 5.44-48).
A unidade é a manifestação do testemunho de amor entre os cristãos, a despeito de suas diferenças e diversidade, a fim de que, os “de fora” creiam que Jesus Cristo é o Messias enviado por Deus. O amor na igreja fortalece a comunhão interna do Corpo de Cristo, ao mesmo tempo em que, libera a igreja para praticar obras de misericórdia e justiça em favor do próximo, com o fim de revelar ao mundo a perfeição de Deus, no Seu tratamento com as pessoas.
Uma espiritualidade fundamentada no amor aprecia e deslumbra-se com todas as manifestações de Deus. Uma espiritualidade aspergida de amor tem sensibilidade aguçada para todos os dons da vida; vive o exercício permanente de contemplação da natureza nos seus mais variados cenários. Quem assim ama vive em missão permanente. Missão inteligente com vistas à preservação de todo o ecossistema, busca de vida abundante para todas as pessoas e profundidade harmoniosa nas relações com Deus e com toda a natureza.
Discipulado
O discipulado é um dos ministérios mais importantes da igreja, porem um dos mais negligenciados.
Também é um ministério mal entendido, muitas vezes relacionado à uma classe de novos convertido, ou mesmo relacionado a algumas lições ditas "básicas" para novos convertidos. Porém ele é muito mais que isso.
Ao mesmo tempo as prioridades da igreja acabam ofuscando este importante ministério. Programações, teorias de marketing, preocupação com resultados fazem com que a tarefa do discipulado seja cada vez mais negligenciada ou confundida nos dias de hoje.
Entretanto, o discipulado ainda é um ministério importante da igreja local. Ele não precisa de grandes estruturas, finanças, eventos, e coisas do tido. Seu segredo está no relacionamento de pessoas comprometidas com ele e com o desejo de servir a Deus auxiliando outras pessoas.
A Importância do Discipulado
Existem três razões para crermos que o discipulado é importante:
A. Foi o Método Usado por Jesus
Jesus passou boa parte de seu tempo com poucos homens que Ele mesmo escolheu - Mc 3.13-19.
Estes foram escolhidos de um grupo de outros discípulos, e mais tarde chamados apóstolos - Mt 10.1-5 e Lc 6.12-16.
Esta atitude foi crucial para a continuidade de Seu ministério quando partisse da terra.
B. Foi o Método Usado pelos Apóstolos
Os apóstolos seguiram o exemplo de Jesus e também em seus ministérios formaram discípulos.
Paulo teve vários discípulos, e os mais conhecidos são Timóteo e Tito.
Em sua carta a Timóteo, ele o instrui a continuar o processo de discipulado:
“e o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fieis e idôneos para instruir a outros.” – 2a Tm 2.2
C. É um Mandamento de Jesus
Esta é a razão mais importante para fazermos discípulos.
Jesus disse em Mateus 28.18-20:
“Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”
Este mandamento é claro e abrangente: devemos fazer discípulos de todas as nações.
Não temos opção A ou opção B, somente uma alternativa bem clara: fazer discípulos.
Mas como faze-los. Que métodos devemos empregar? O que devemos fazer? Como começar?
Creio que todas estas perguntas são muito importantes. A resposta a elas encontramos no ministério de Jesus relatado nos evangelhos e nos exemplos dos discípulos de Jesus que prosseguiram com seu ministério após Sua ascensão, liderados pelos apóstolos.
O Que é Discipulado?
Mas afinal de contas, o que é discipulado?
Vamos tentar uma fazer uma breve definição de discipulado:
"é um ministério do corpo de Cristo, onde todos os membros da igreja estão de alguma forma estão envolvidos com o objetivo de crescerem a semelhança de Cristo com o propósito final de glorificar a Deus."
Nesta sentença encontramos o propósito, os meios, a importância e as pessoas envolvidas.
A. Propósito
O discipulado é um dos grandes propósitos para a vida do cristão. Quando Jesus deixou suas últimas instruções, Ele exortou-os para que fossem ao mundo e formassem novos discípulos (Mt 28.18-20).
Eles entenderam muito bem o que Jesus dizia, pois durante cerca de três anos, estiveram na companhia de Jesus, foram instruídos e ensinados por Jesus como fazer discípulos. Em seu primeiro encontro com Pedro, Jesus convidou-o: “Vinde após mim, eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1.17).
Assim, Jesus usou boa parte de seu tempo treinando-os para serem verdadeiros pescadores de homens.
Jesus cria que a convivência, e o ensino da Palavra era muito importante. Veja o que ele disse:
“o discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre” – Lc 6.40.
Quando falamos em discipulado estamos falando em um processo de reprodução da vida de Cristo na vida de outros cristãos.
Este é o propósito do discipulado: “moldar o caráter do homem segundo o caráter de Cristo” -Rm 8.29.
Em poucas palavras: o alvo de todo o discípulo e ser como Jesus.
B. Os Meios
Os meios que Jesus usou para discipular estão relatados nas páginas dos evangelhos.
A escolha de seus discípulos foi um processo importante em seu ministério, tanto que Ele não fez logo no inicio, mas depois de um tempo.
Em Lucas 6.12-16 lemos que Jesus gastou uma noite inteira antes de sua importante escolha. Em Mateus (Mt 10.1ss) percebemos que dentre os seus escolhidos, estavam pessoas que já o acompanharam por um período de tempo.
Ao discipular, Jesus tinha sempre em mente qual era o seu propósito e como poderia alcançá-los da melhor forma. Ele não se prendeu a um método específico, antes, foi muito criativo em suas abordagens.
Duas coisas eram prioritárias: o ensino da Palavra e o convívio com eles.
Ensino: Ele usou de diversas formas: aconselhamento, pregações, conversas, ilustrações. Jesus aproveitava cada oportunidade para ensiná-los.Jesus os ensinou tanto formalmente, quanto informalmente aos seus discípulos.
Convivência: Além de ensinar, Jesus conviveu com os seus discipulos (Mc 3.13). Esta convivência tinha como propósito ensiná-los na prática a vida cristã. Havia uma preocupação com a prática, a vida transformada, e isto só poderia ocorrer por meio de uma convivência com os discípulos.
C. As Pessoas Envolvidas
Podemos dizer que existem três pessoas envolvidas no processo de discipulado: a Pessoa de Jesus Cristo, o discipulador, e o discipulado.
Jesus é a pessoa central no discipulado. Quando estamos investindo em uma vida, nosso alvo deve ser levá-lo a imitar a Cristo e não a nós mesmos. As nossas atitudes devem simplesmente refletir as atitudes de Cristo.
Paulo sabia muito bem disto quando escreveu: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” - 1a Co 11.1 veja também Fp 4.9 e 2a Tm 3.10-11.
Ele tinha isto bem claro para si quando disse: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim...” – Gl 2.20.
Além de ser o alvo nosso Jesus está diretamente envolvido neste processo, como Ele mesmo prometeu na grande comissão. Ressalto duas frases de Jesus, a primeira: “toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. – Mt 28.18. Discipular é um processo que envolve o Deus Todo Poderoso. Ele é quem nos comissiona.
A última frase também é importante: “e eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do século” – Mt 28.20. Jesus garante sua presença diante desta grande tarefa de discipular outras pessoas, seja nos dias bons, sejam nos dias de dificuldade, problemas e provações. Isto é importante, pois vidas são preciosas, e sem o poder de Deus, não conseguíramos mudá-las. Nós somos simples instrumentos que Ele utiliza.
O discipulador – Esta é a segunda pessoa envolvida no discipulado. Esta pessoa deve ter algumas características para exercer este ministério.
Em nossa definição lemos: “o cristão com uma vida digna de ser imitada...” O caráter é primordial para ser um bom discipulador. Em seus últimos conselhos a Timóteo, Paulo escreveu: “tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...” – 1a Tm 4.16. Para Jesus também a prática era importante, como Ele mesmo frisou no Sermão do Monte: “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus..” – Mt 7.21.
Portanto, viver a Palavra, viver aquilo em que cremos é uma condição primordial quando pensamos em influenciar vidas.
A terceira pessoa envolvida no discipulado é o discípulo.
O discípulo é um seguidor de Cristo, ou seja, uma pessoa salva.
Após o reconhecimento desta pessoa de sua condição de pecador, da necessidade de salvação e do reconhecimento público de sua fé em Jesus, ele se torna um discípulo de Cristo - Rm 10.9.
Quando começamos um processo de discipulado, precisamos avaliar qual a sua “experiência” de salvação, se ela é realmente uma pessoa salva, ou não. A salvação é o primeiro passo de todo discípulo de Cristo.
Devemos lembrar que o discípulo é um seguidor de Cristo, não seu. Ou seja, o tempo passados juntos, devem ajudá-lo a viver por si só e não em sua dependência. Jesus em seu ministério treinou os seus discípulos para viverem após sua partida. Isto não impediu que eles ficassem tristes, nem mesmo os desabilitou da tarefa de levar a mensagem adiante.
Quando focalizamos o discipulado na pessoa de Cristo a pessoa:
Aprende a depender de Jesus e não do discipulador - Jo 15.5;
Olha para discipulador como um outro discípulo e pecador – 1a Tm 1.15
Aprende a confiar em Deus – Jr 17.7-8
Evita o orgulho e a preocupação do discipulador de ser bem sucedido – 2Co 3.5-6
Evita divisões na igreja – Ef 4.13
D. O Compromisso do discipulado
O discipulado envolve um compromisso de em duas frentes.
Em primeiro lugar com Deus, onde procura viver uma vida de retidão e comunhão, juntamente com um compromisso de fidelidade a Palavra de Deus.
Podemos resumir isto a uma palavra: fidelidade. – 1a Co 4.1-2.
Em segundo lugar há o compromisso com o discípulo. Este compromisso envolve tempo de investimento, orientação, até o dia em que este adquire maturidade para andar com suas próprias pernas a ponto de reproduzir-se em uma outra pessoa.
E. Objetivos do Discipulado
O alvo do discipulado é bem claro: ser como Jesus, também chamado de maturidade cristã.
Nosso enunciado diz: "com o objetivo de crescerem a semelhança de Cristo com o propósito final de glorificar a Deus."
Algumas considerações são importantes:
1. Transformação de vida
Não devemos nos preocupar simplesmente em transmitir informações, mas transformar vidas. Isto não significa que não temos ensino, mas ele é uma ferramenta que facilita o crescimento.
Isto não é um processo instantâneo, mas gradual e constante. Cada pessoa reage de uma forma diferente, mas todas crescem.
2. Quando está maduro?
A resposta a esta pergunta pode ser bastante subjetiva a primeira vista. Podemos pensar em algumas coisas:
Tempo Maturidade leva tempo. Tenha paciência com seu amigo, sem esquecer de ser firme na aplicação das Escrituras. Lembre-se que estamos num processo de santificação.
Interesse: O interesse da pessoa no discipulado, na busca de uma vida próxima a Jesus é importante. Certas atitudes demonstram isso:
Pontualidade.
Interesse no estudo.
Transparecia ao falar de coisas difíceis.
Faz os projetos apresentados a eles.
Envolvimento na igreja, com as pessoas, o ministério.
3. Demonstra mudanças
É importante notar que haja mudanças de crença, que afetam o seu comportamento, suas emoções e sua vontade.
Mesmo que seja lento, a pessoa deve caminhar num processo de santificação à imagem de Jesus.
Pessoas avessas à mudanças podem simplesmente gostar do estudo, dos momentos passados juntos não estão interessados no discipulado, mas agradar-se a si mesmas.
O Discipulado Ocorre na da Igreja Local
A igreja é um projeto de Deus que visa a salvação e uma nova postura de vida, por meio de seu crescimento espiritual. – Ef 4.12ss; Hb 10.24.
Com isso não queremos dizer que a igreja deve ter um departamento, um programa, mas uma postura natural dos seus membros. O centro de discipulado é a igreja, não um departamento dele.
O processo de discipular deveria ocorrer naturalmente entre os membros da igreja.
Deve ocorrer dentro da igreja, pois envolve vidas em seu relacionamento com Cristo e umas com as outras.
Na igreja encontramos pessoas que tem a mesma fé, os mesmos valores, que vivem em comunidade para exaltar a Deus.
No Novo Testamento, vemos que sempre ele ocorreu naturalmente dentro da igreja, feitas por pessoas compromissadas com Deus.
Deus deseja usá-lo nesse fascinante projeto. Este plano foi elaborado desde a eternidade para a salvação da humanidade através de discípulos maduros que dedicam sua vida a Deus, servindo-o por meio de uma igreja sadia e unida debaixo da orientação do Mestre.
Pr. Carlos Augusto P. Dias
Também é um ministério mal entendido, muitas vezes relacionado à uma classe de novos convertido, ou mesmo relacionado a algumas lições ditas "básicas" para novos convertidos. Porém ele é muito mais que isso.
Ao mesmo tempo as prioridades da igreja acabam ofuscando este importante ministério. Programações, teorias de marketing, preocupação com resultados fazem com que a tarefa do discipulado seja cada vez mais negligenciada ou confundida nos dias de hoje.
Entretanto, o discipulado ainda é um ministério importante da igreja local. Ele não precisa de grandes estruturas, finanças, eventos, e coisas do tido. Seu segredo está no relacionamento de pessoas comprometidas com ele e com o desejo de servir a Deus auxiliando outras pessoas.
A Importância do Discipulado
Existem três razões para crermos que o discipulado é importante:
A. Foi o Método Usado por Jesus
Jesus passou boa parte de seu tempo com poucos homens que Ele mesmo escolheu - Mc 3.13-19.
Estes foram escolhidos de um grupo de outros discípulos, e mais tarde chamados apóstolos - Mt 10.1-5 e Lc 6.12-16.
Esta atitude foi crucial para a continuidade de Seu ministério quando partisse da terra.
B. Foi o Método Usado pelos Apóstolos
Os apóstolos seguiram o exemplo de Jesus e também em seus ministérios formaram discípulos.
Paulo teve vários discípulos, e os mais conhecidos são Timóteo e Tito.
Em sua carta a Timóteo, ele o instrui a continuar o processo de discipulado:
“e o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fieis e idôneos para instruir a outros.” – 2a Tm 2.2
C. É um Mandamento de Jesus
Esta é a razão mais importante para fazermos discípulos.
Jesus disse em Mateus 28.18-20:
“Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”
Este mandamento é claro e abrangente: devemos fazer discípulos de todas as nações.
Não temos opção A ou opção B, somente uma alternativa bem clara: fazer discípulos.
Mas como faze-los. Que métodos devemos empregar? O que devemos fazer? Como começar?
Creio que todas estas perguntas são muito importantes. A resposta a elas encontramos no ministério de Jesus relatado nos evangelhos e nos exemplos dos discípulos de Jesus que prosseguiram com seu ministério após Sua ascensão, liderados pelos apóstolos.
O Que é Discipulado?
Mas afinal de contas, o que é discipulado?
Vamos tentar uma fazer uma breve definição de discipulado:
"é um ministério do corpo de Cristo, onde todos os membros da igreja estão de alguma forma estão envolvidos com o objetivo de crescerem a semelhança de Cristo com o propósito final de glorificar a Deus."
Nesta sentença encontramos o propósito, os meios, a importância e as pessoas envolvidas.
A. Propósito
O discipulado é um dos grandes propósitos para a vida do cristão. Quando Jesus deixou suas últimas instruções, Ele exortou-os para que fossem ao mundo e formassem novos discípulos (Mt 28.18-20).
Eles entenderam muito bem o que Jesus dizia, pois durante cerca de três anos, estiveram na companhia de Jesus, foram instruídos e ensinados por Jesus como fazer discípulos. Em seu primeiro encontro com Pedro, Jesus convidou-o: “Vinde após mim, eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1.17).
Assim, Jesus usou boa parte de seu tempo treinando-os para serem verdadeiros pescadores de homens.
Jesus cria que a convivência, e o ensino da Palavra era muito importante. Veja o que ele disse:
“o discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre” – Lc 6.40.
Quando falamos em discipulado estamos falando em um processo de reprodução da vida de Cristo na vida de outros cristãos.
Este é o propósito do discipulado: “moldar o caráter do homem segundo o caráter de Cristo” -Rm 8.29.
Em poucas palavras: o alvo de todo o discípulo e ser como Jesus.
B. Os Meios
Os meios que Jesus usou para discipular estão relatados nas páginas dos evangelhos.
A escolha de seus discípulos foi um processo importante em seu ministério, tanto que Ele não fez logo no inicio, mas depois de um tempo.
Em Lucas 6.12-16 lemos que Jesus gastou uma noite inteira antes de sua importante escolha. Em Mateus (Mt 10.1ss) percebemos que dentre os seus escolhidos, estavam pessoas que já o acompanharam por um período de tempo.
Ao discipular, Jesus tinha sempre em mente qual era o seu propósito e como poderia alcançá-los da melhor forma. Ele não se prendeu a um método específico, antes, foi muito criativo em suas abordagens.
Duas coisas eram prioritárias: o ensino da Palavra e o convívio com eles.
Ensino: Ele usou de diversas formas: aconselhamento, pregações, conversas, ilustrações. Jesus aproveitava cada oportunidade para ensiná-los.Jesus os ensinou tanto formalmente, quanto informalmente aos seus discípulos.
Convivência: Além de ensinar, Jesus conviveu com os seus discipulos (Mc 3.13). Esta convivência tinha como propósito ensiná-los na prática a vida cristã. Havia uma preocupação com a prática, a vida transformada, e isto só poderia ocorrer por meio de uma convivência com os discípulos.
C. As Pessoas Envolvidas
Podemos dizer que existem três pessoas envolvidas no processo de discipulado: a Pessoa de Jesus Cristo, o discipulador, e o discipulado.
Jesus é a pessoa central no discipulado. Quando estamos investindo em uma vida, nosso alvo deve ser levá-lo a imitar a Cristo e não a nós mesmos. As nossas atitudes devem simplesmente refletir as atitudes de Cristo.
Paulo sabia muito bem disto quando escreveu: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” - 1a Co 11.1 veja também Fp 4.9 e 2a Tm 3.10-11.
Ele tinha isto bem claro para si quando disse: “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim...” – Gl 2.20.
Além de ser o alvo nosso Jesus está diretamente envolvido neste processo, como Ele mesmo prometeu na grande comissão. Ressalto duas frases de Jesus, a primeira: “toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. – Mt 28.18. Discipular é um processo que envolve o Deus Todo Poderoso. Ele é quem nos comissiona.
A última frase também é importante: “e eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do século” – Mt 28.20. Jesus garante sua presença diante desta grande tarefa de discipular outras pessoas, seja nos dias bons, sejam nos dias de dificuldade, problemas e provações. Isto é importante, pois vidas são preciosas, e sem o poder de Deus, não conseguíramos mudá-las. Nós somos simples instrumentos que Ele utiliza.
O discipulador – Esta é a segunda pessoa envolvida no discipulado. Esta pessoa deve ter algumas características para exercer este ministério.
Em nossa definição lemos: “o cristão com uma vida digna de ser imitada...” O caráter é primordial para ser um bom discipulador. Em seus últimos conselhos a Timóteo, Paulo escreveu: “tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...” – 1a Tm 4.16. Para Jesus também a prática era importante, como Ele mesmo frisou no Sermão do Monte: “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus..” – Mt 7.21.
Portanto, viver a Palavra, viver aquilo em que cremos é uma condição primordial quando pensamos em influenciar vidas.
A terceira pessoa envolvida no discipulado é o discípulo.
O discípulo é um seguidor de Cristo, ou seja, uma pessoa salva.
Após o reconhecimento desta pessoa de sua condição de pecador, da necessidade de salvação e do reconhecimento público de sua fé em Jesus, ele se torna um discípulo de Cristo - Rm 10.9.
Quando começamos um processo de discipulado, precisamos avaliar qual a sua “experiência” de salvação, se ela é realmente uma pessoa salva, ou não. A salvação é o primeiro passo de todo discípulo de Cristo.
Devemos lembrar que o discípulo é um seguidor de Cristo, não seu. Ou seja, o tempo passados juntos, devem ajudá-lo a viver por si só e não em sua dependência. Jesus em seu ministério treinou os seus discípulos para viverem após sua partida. Isto não impediu que eles ficassem tristes, nem mesmo os desabilitou da tarefa de levar a mensagem adiante.
Quando focalizamos o discipulado na pessoa de Cristo a pessoa:
Aprende a depender de Jesus e não do discipulador - Jo 15.5;
Olha para discipulador como um outro discípulo e pecador – 1a Tm 1.15
Aprende a confiar em Deus – Jr 17.7-8
Evita o orgulho e a preocupação do discipulador de ser bem sucedido – 2Co 3.5-6
Evita divisões na igreja – Ef 4.13
D. O Compromisso do discipulado
O discipulado envolve um compromisso de em duas frentes.
Em primeiro lugar com Deus, onde procura viver uma vida de retidão e comunhão, juntamente com um compromisso de fidelidade a Palavra de Deus.
Podemos resumir isto a uma palavra: fidelidade. – 1a Co 4.1-2.
Em segundo lugar há o compromisso com o discípulo. Este compromisso envolve tempo de investimento, orientação, até o dia em que este adquire maturidade para andar com suas próprias pernas a ponto de reproduzir-se em uma outra pessoa.
E. Objetivos do Discipulado
O alvo do discipulado é bem claro: ser como Jesus, também chamado de maturidade cristã.
Nosso enunciado diz: "com o objetivo de crescerem a semelhança de Cristo com o propósito final de glorificar a Deus."
Algumas considerações são importantes:
1. Transformação de vida
Não devemos nos preocupar simplesmente em transmitir informações, mas transformar vidas. Isto não significa que não temos ensino, mas ele é uma ferramenta que facilita o crescimento.
Isto não é um processo instantâneo, mas gradual e constante. Cada pessoa reage de uma forma diferente, mas todas crescem.
2. Quando está maduro?
A resposta a esta pergunta pode ser bastante subjetiva a primeira vista. Podemos pensar em algumas coisas:
Tempo Maturidade leva tempo. Tenha paciência com seu amigo, sem esquecer de ser firme na aplicação das Escrituras. Lembre-se que estamos num processo de santificação.
Interesse: O interesse da pessoa no discipulado, na busca de uma vida próxima a Jesus é importante. Certas atitudes demonstram isso:
Pontualidade.
Interesse no estudo.
Transparecia ao falar de coisas difíceis.
Faz os projetos apresentados a eles.
Envolvimento na igreja, com as pessoas, o ministério.
3. Demonstra mudanças
É importante notar que haja mudanças de crença, que afetam o seu comportamento, suas emoções e sua vontade.
Mesmo que seja lento, a pessoa deve caminhar num processo de santificação à imagem de Jesus.
Pessoas avessas à mudanças podem simplesmente gostar do estudo, dos momentos passados juntos não estão interessados no discipulado, mas agradar-se a si mesmas.
O Discipulado Ocorre na da Igreja Local
A igreja é um projeto de Deus que visa a salvação e uma nova postura de vida, por meio de seu crescimento espiritual. – Ef 4.12ss; Hb 10.24.
Com isso não queremos dizer que a igreja deve ter um departamento, um programa, mas uma postura natural dos seus membros. O centro de discipulado é a igreja, não um departamento dele.
O processo de discipular deveria ocorrer naturalmente entre os membros da igreja.
Deve ocorrer dentro da igreja, pois envolve vidas em seu relacionamento com Cristo e umas com as outras.
Na igreja encontramos pessoas que tem a mesma fé, os mesmos valores, que vivem em comunidade para exaltar a Deus.
No Novo Testamento, vemos que sempre ele ocorreu naturalmente dentro da igreja, feitas por pessoas compromissadas com Deus.
Deus deseja usá-lo nesse fascinante projeto. Este plano foi elaborado desde a eternidade para a salvação da humanidade através de discípulos maduros que dedicam sua vida a Deus, servindo-o por meio de uma igreja sadia e unida debaixo da orientação do Mestre.
Pr. Carlos Augusto P. Dias