Teologia da Prosperidade - 3

O que é a teologia da prosperidade?É um conceito religioso, no cenário evangélico mundial, que defende a ideia de que Deus tem intenções definidas, para fazer com que as pessoas fiquem ricas, em suas várias facetas materiais, físicas e emocionais. No geral, pensa-se que Deus tem um compromisso, e assim uma obrigação consigo mesmo, e com os Seus filhos, ou por quem fez algo para Deus, em sentido material – uma oferta, dízimo, um sacrifício, uma campanha, etc – e esse compromisso é de recompensa imediata. As vertentes dessa teologia ainda caminham em uma postura de “tomar posse da benção”, em um suposto exercício da fé, para se apoderarem daquilo, que segundo creem, “já nos foi dado”. Essa também é chamada de “confissão positiva”. Kenneth E. Hagin escreveu um livreto chamado “Pensamento Certo ou Errado”, que nada mais é que uma postura psicológica, com linguagem bíblica, que se assemelha bem ao positivismo que o mundo defende quando falam em “dar sorte”. Não muito tempo atrás, percebemos que um grande sucesso literário mundial foi O Segredo, onde essa força positivista é levada às suas perspectivas de posse. Morris Cerullo, expoente da teologia da prosperidade, escreve: “Cristo já conquistou a vitória e dividiu os “despojos” conosco. A escravidão da doença foi anulada! A escravidão das dívidas foi anulada! A escravidão da pobreza foi anulada. Para tomar os “despojos” do Inimigo – os recursos financeiros que roubou de nós -, precisamos receber uma revelação nova sobre a batalha que Cristo venceu, na qual destruiu as obras do Diabo.”1 Quais as bases bíblicas apresentadas pelos promotores dessa escola teológica?(1) as promessas de Deus aos patriarcas, (2) as promessas de bênçãos ao povo de Israel, (3) passagens bíblicas a respeito de dízimos e ofertas, e (4)algumas porções do Novo Testamento, são apresentadas como indicativos de que Deus promete e tem que fazer seus servos prosperarem materialmente. Faremos uma avaliação dessas supostas bases bíblicas, examinando tais porções das Escrituras dentro do seu contexto imediato e no progresso da revelação bíblica. Onde nasceu a teologia da prosperidade? Segundo alguns “Foi durante os avivamentos de cura (healing revivals) dos anos 1950 que a teologia da prosperidade ganhou proeminência nos Estados Unidos, apesar de especialistas terem ligado suas origens ao Movimento Novo Pensamento. Os ensinamentos da teologia da prosperidade mais tarde ganharam proeminência no Movimento Palavra de Fé e no televangelismo dos anos 1980. Nos anos 1990 e 2000, foi adotada por líderes influentes do Movimento Carismático e promovida por missionários cristãos em todo o mundo, levando à construção de megaigrejas. Líderes proeminentes no desenvolvimento da teologia da prosperidade incluem E. W. Kenyon, Oral Roberts, T. L. Osborn e Kenneth Hagin.”2 Outros como Benny Hinn, Morris Cerulo e Mike Murdock também são os proponentes referenciais. Quais igrejas são as principais promotoras dessa teologia aqui no Brasil?Sabemos que as igrejas neopentecostais2, como a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça, Igreja Mundial do Poder de Deus, são as mais conhecidas. Porém, em várias regiões do Brasil, apesar de não serem expressivas, muitos ensinam tão veementemente essa doutrina, que podemos ver em qualquer lugar igrejas seguindo essa teoria. A teologia da prosperidade é vista apenas em igrejas neopentecostais? Não, infelizmente não. Hoje, não é mais novidade dizer que essa teologia está penetrando em igrejas tradicionais, pentecostais e comunidades evangélicas independentes, e vestígios claros dessa teologia, são também percebidos especialmente em movimentos evangélicos, cantores gospels, pregadores de renomes, enfim. Não existe mais uma barreira que impeça o avanço desta influência. E até mesmo pastores fieis, sem perceberem, acabam fazendo a vez dessa teologia quando fazem uma má interpretação do texto de Malaquias 3.10. Por que essa teoria é tão facilmente aceita?Ela está ligada aos interesses materialistas do ser humano, e onde houver pessoas, que sofrem pressão da mídia, e de suas necessidades, assim entram nas igrejas que estimulam isso. Nossos desejos e necessidadesserão sempre uma locomotiva psicológica para nos levar a aceitar essa oferta teológica. Ainda mais, se ela for recebida como vindo de Deus, por meio de nossos esforços, ‘ou melhor ainda’, como recompensa de nosso labor sacrificial. Além do mais, é isso que queremos sempre – estar financeiramente melhores, pois vemos nisso segurança. Quais são os recursos mais usados pelos pregadores da teologia da prosperidade e confissão positiva?Em primeiro lugar percebemos, ao acompanhar programas de TV, que carnês (boletos bancários para dar as ofertas estipuladas) são usados em muitas igrejas da prosperidade, e são exibidos como que um troféu, ou uma garantia da benção divina. Geralmente a multiplicação do que é doada, é exorbitante. Outro meio muito comum são os objetos ungidos, uma versão neopentecostal da prática católica de benzer. Tais objetos assim ‘ungidos’, são vistos como um detentor simbólico, visível, de um poder específico para deixar a pessoa rica, ou livre de doenças, problemas e demônios. E a criatividade vai desde uma rosa ungida, uma palmilha, tijolinhos, fronhas, toalhinhas e até balas para crianças desobedientes. O que a Bíblia diz sobre a teologia da Prosperidade? Veremos agora em três partes assuntos pertinentes ao ensino da Bíblia: Como os promotores da prosperidade usam a Escritura? O que a bíblia diz nesses textos à luz de todo contexto bíblico? O que a bíblia diz da prosperidade, pobreza, saúde e doença? O uso da Escritura por parte dos pregadores da prosperidade: As bênçãos prometidas, e adquiridas, aos patriarcas, são nossas também? Antes de responder, uma breve perspectiva da história bíblica a respeito deles se faz necessária: No livro bíblico de Gênesis, a história de Abraão, Isaque e Jacó, são exemplos de como Deus pode fazer que pessoas que não tem nada, em peregrinações, em grandes homens de negócio. Especialmente do capítulo 12 em diante do livro, percebemos como receberam posses materiais, e vitórias sobre grandes problemas, dos mais variados possíveis. Deus prometeu aos patriarcas, e aos seus descendentes, bênçãos materiais que seriam adquiridas, em especial, na terra de Canaã, onde manava leite e mel. Como era de interesse nacional, as guerras literais eram um dos mecanismos usados para se apoderarem dessas bênçãos no período especialmente posterior. A execução dos inimigos nacionais de Israel fazia parte desse avanço de domínio material e territorial, prometido por Deus. Com esse pano de fundo histórico, retornemos à pergunta: As bênçãos prometidas, e adquiridas, pelos patriarcas, são nossas também?Nossa resposta inicia-se com as seguintes elucidações – Como cristãos na dispensação da Nova Aliança, não recebemos de Deus promessa para adquirir algum território, terreno, especifico. Nem estamos em território estrangeiro, rumo à outra terra física: “Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial. Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade.” (Hb 11.16 [grifo acrescentado]). “Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos;” (Hb 12.22). Perceba que o argumento do autor dessa carta bíblica, no capítulo 11º, mostra a história de todo povo de Deus que viveu pela fé no VT e alcançaram alguns feitos, porém, não era a promessa final e essencial que estava por detrás de todas as coisas que avistavam. Ele demonstra que a fé foi o instrumento que Deus usou para eles adquirirem algumas amostras do que de fato era o alvo – a pátria, os bens, celestiais! E ainda aponta que eles, como quem não havia alcançado. E no primeiro texto a advertência foi que isso não mais deveria ser esperado! Ideia repetida aqui: “Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,” (Fl 3.20). Não estamos adquirindo essas bênçãos por meio de batalhas/guerras literais, em nossas conquistas em nível de riquezas materiais: “Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo;” (2 Coríntios 10:3-5). “Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.” (Mateus 8:11,12). A as bênçãos da nação de Israel, no período bíblico, são as mesmas da Igreja? Em Deuteronômio capítulos 27, 28, 29 temos um compêndio de bênçãos e maldições físicas ao povo de Deus na antiga aliança. Houve uma promessa divina de que os descendentesde Abraão possuiriam a Terra da Promessa, mas para que tais bênçãos fossem efetivadas no decorrer da história, na vida de cada geração subsequente, foram apresentados os termos da aliança feita no Sinai. Eles receberam tais promessas materiais, ao mesmo tempo que foram abundantemente abençoados com a Teocracia, onde Deus governava por meio da Lei ‘mosaica’, ao se instalarem na Terra Prometida, e na subsequente organização da nação em monarquia. Porém, esse povo quebrou os termos da aliança, várias vezes, e foram amaldiçoados consequentemente, deixaram de ser Israel de 12 tribos, foram deportados para Babilônia, o Templo destruído, a arca da aliança desapareceu, e com o tempo, até o ponto de não mais serem um Reino independente, no período de Jesus – e para piorar, ainda rejeitaram a Jesus como o Messias (Jo 1.11). As bênçãos que recebemos agora em vida não são as mesmas. Elas são em um mesmo nível, mas em uma maior intensidade, na vida espiritual, com uma percepção e profundidade que o servos fieis de Deus não recebiam no período do Velho Testamento: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;” (Ef 1.3). Que bênçãos são essas? – O Batismo com o Espírito Santo: “De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis.”(At 2.33). – O testemunho do perdão imediato por confessar: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” (I Jo 1.9) – A consciência intima da bendita reconciliação com Deus: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.”(Rm 5.10). – A superlativa, soberana e santa justificação:“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.”(Rm 5.1,2). – A desejável adoção: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm 8.16). – A árdua e necessária santificação: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.”(Hb 12.14). – A inegociável presença e habitação de Deus produzindo Seu fruto em nós: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.”(Gl 5.22-25). – E promessa imutável da glorificação: “Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” (Rm 8.30). Prezado leitor, SE tais bênçãos e promessas não encher o nosso coração de alegria, mui provavelmente, precisamos de conversão genuína! “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.”(1 Coríntios 2:14,15). —————— Notas Bíblia de Estudo – Batalha Espiritual e Vitória Financeira(2000) – Editora Central Gospel, p. 1301. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_prosperidade Esse termo “novos pentecostais” – neopentecostais é usado pelas igrejas tradicionais protestantes para fazer uma distinção entre as igrejas da confissão positiva e os antigos pentecostais que surgiram entre os anos de 1910 e 1914. Na chamada primeira onda. Luciano Sena do Blog http://mcapologetico.blogspot.com/

Teologia da Prosperidade - 2

Chega-nos dos Estados Unidos da América a notícia de que Jim Bakker, um dos mais influentes mestres da Teologia da Prosperidade (daqui para a frente indicada pela sigla TP) renunciou publicamente essa teologia como errônea, com a publicação do livro I WAS WRONG (Eu Estava Errado) – Revista A Seara, fev/1997, p.30. Enquanto isso, na outra América, os líderes das igrejas pentecostais no Brasil se mostram empolgados com os ensinos da TP, afixando em seus templos faixas com dizeres bombásticos, para atrair pessoas com a promessa de se tornarem ricas. É verdade que os cultos realizados com essa finalidade superlotam os templos, com a presença de crentes e interessados no assunto. E o ensino é levado a sério a tal ponto, que alguns pregadores recomendam aos crentes que possuem veículos usados, como fuscas velhos, estacionarem seus veículos bem distantes do local dos cultos. Os que possuem carros modernos, do ano, devem estacionar seus carros mais próximos, a fim de estimular a fé daqueles que estão se orientando pelos ensinos da TP. E assim, o povo pentecostal do Brasil se sente motivado a buscar em primeiro lugar as riquezas, e depois o reino de Deus, invertendo a ordem de Jesus em Mateus 6.33: “Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. COMO CHEGOU AO BRASIL “Se a morte física de Jesus fosse suficiente para cobrar a dívida dos nossos pecados, então todo o cristão poderia pagar a pena dos seus pecados com a sua morte” (Essek William Kenyon, considerado o pai da Teologia da Prosperidade). KENNETH HAGIN São poucos os brasileiros que sabem ler o inglês. Com isso, os pregadores da TP, da outra América, eram praticamente ignorados no Brasil. Com a tradução dos livros de Kenneth Hagin para o português, pela Editora Betânia [1], os crentes passaram a ter conhecimento dos conceitos da chamada TP, e esses conceitos são realmente fabulosos quanto ao incentivo pela busca da riqueza material. Conta Hagin que Deus lhe disse: “não ore mais sobre dinheiro… peça o que precisar”. O Senhor continuou “você diz: Satanás, tire as mãos do meu dinheiro! Diga ordeno …nomeando o que quer ou deseja”. Eu disse ao Senhor: “Senhor, não creio que queiras que as nossas necessidades sejam satisfeitas, mas sim os nossos desejos”. Ele replicou: “No Salmo 23 está escrito: O Senhor é o meu pastor, nada me faltará!”. Portanto Deus continua: “Peça o que precisas ou deseja. Diga: Satanás, tire as mãos das minhas finanças. Depois diga: Ide, espíritos ministradores, e façam o dinheiro chegar” – How God Taught Me, 16-19, citado no livro “Os Fatos Sobre o Movimento da Fé”, editora Obra Missionária Chamada da Meia-Noite. Com tais ensinos, os pregadores brasileiros logo descobriram o “jeito brasileiro” de tornar os cultos diferentes. Convida-se um pregador que adotou a TP e ele começa com formas de culto estranhas, nunca vistas em igrejas tradicionalmente pentecostais. Diz ele: “Ponha a mão no bolso e retire da carteira a nota de maior valor”. Os crentes, sem saber do logro em que vão cair, inocentemente tiram sua nota. “Agora – diz ele – troquem a sua nota com a do seu irmão ao lado”. Isso é feito e ele prossegue: “Jogue a nota da sua mão no chão e pise sobre ela, amaldiçoando-a em nome do Senhor Jesus”. Depois ele pergunta: “Vocês vão querer ficar com essa nota amaldiçoada? Certamente que não. Vamos passar a sacola para recolhê-las”. Os diáconos passam as sacolas e recolhem o dinheiro. O pregador passa as saolas para o pastor local, que para não ficar com a maldição na sua igreja devolve ao pregador visitante. Quem lucrou com toda essa forma de culto estranho? O eloquente pregador da TP. Se não funciona para os ouvintes, para ele é funcionai. Não falha. Logo, logo, estará rico. O DINHEIRO É REALMENTE UMA MALDIÇÃO? À luz da Bíblia não. Foi ordem divina que o homem com o suor do seu rosto comesse o seu pão (Gênesis 3.19). O que a Bíblia condena é o amor ao dinheiro, afirmando que tal sentimento pode levar à idolatria: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviarem da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Timóteo 6.10). Dessa forma, como meio eficaz de enriquecer – não os crentes, mas os próprios teólogos da prosperidade – é que se vão conduzindo algumas igrejas pentecostais do Brasil. E a moda está pegando. Aquele pregador que não aderir é incrédulo, vive fora do contexto bíblico. BENNY HINN Benny Hinn veio ao Brasil. Na primeira vez esteve em São Paulo, onde pregou no auditório do Memorial da América Latina. Foi um acontecimento notável no meio dos pentecostais. Formaram-se caravanas de várias cidades no interior e litoral de São Paulo com destino à Capital. Ônibus lotados. Ninguém queria perder a oportunidade de ouvir e presenciar milagres. A fama dos milagres já tinha chegado ao Brasil. Além disso, ele também foi convidado para pregar para uma assistência seleta de pastores do Conselho dos Pastores da Capital de São Paulo. Logo após a sua retirada, começaram as novidades por ele deixadas a serem copiadas pelos líderes presentes: os pastores começaram a assoprar no microfone para derrubar as pessoas. Quando não funcionava o assopro no microfone, o paletó era jogado. Quando ainda o paletó não derrubava, eram então aplicados empurrões na testa. E pessoas já adredemente preparadas para segurar os que caiam para trás. Não caiam com o rosto no chão, em humildade diante da augusta presença de Deus, como se observa em algumas partes da Bíblia. Sempre caiam para trás, para não se machucarem ao cair. Ninguém pergunta se os ensinos de Benny Hinn são ortodoxos. Querem novidade que atraia os crentes. Que encham os templos. E Hinn – sabemos – tem ensinos estranhos: Que a pobreza vem do diabo e que Deus quer que todos os cristãos prosperem; Que cada pessoa da Divindade tem seu próprio espírito, alma e corpo espiritual, passando as três pessoas da Trindade a ser nove pessoas; Que o homem é divino e que se conscientiza disso ao repetir seguidamente ser um homem de Deus; Que nunca se deve dizer na oração “Se for da tua vontade”, pois tais palavras são destruidoras da fé; Que o Espírito Santo lhe revelara que as mulheres haviam sido originalmente criadas para dar à luz pelo lado de seus corpos; Que o primeiro super-homem a existir foi Adão, dado que Deus lhe dera autoridade sobre os peixes do mar, logo ele podia viver debaixo da água como o homem submarino das histórias de quadrinhos; que podia também voar, pois Deus lhe dera poder sobre as aves do céu. Mas, de todos os ensinos errôneos de Hinn, o mais contundente é ele afirmar: “Eu sou um ‘pequeno messias’, caminhando sobre a terra” – Praise-o-Thon, 6 de novembro de 1990, citado em Cristianismo em Crise, p. 119. MODELO DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS (IURD) Dentre as chamadas igrejas neopentecostais, a que mais cresceu e se tornou a vedete das denominações pentecostais é a IURD. Até poucos anos atrás, quando alguém queria referir-se a uma igreja pentecostal equilibrada e progressiva se referia às Assembleias de Deus. Hoje, o modelo de igreja pentecostal próspera, igreja que serve de modelo de avanço no meio do povo brasileiro, é a lURD. Qual é o ensino fundamental da IURD? É a prosperidade material. Todo o povo brasileiro, através da TV Record, está vendo e ouvindo diariamente os testemunhos eloquentes de como certas pessoas enriqueceram frequentando a lURD. Relatos emocionantes de alguém chegar arrasado financeiramente na IURD, e que agora fala de ter dois, três carros do ano, apartamentos, casas de praia e de campo, lojas, dinheiro no banco e por aí adiante: uma prosperidade alcançada em curto espaço de tempo frequentando a IURD. Será tudo verdade? As correntes milagrosas para alcançar esse derrame de bênçãos materiais são incontáveis. Cada semana se inventa um título pomposo, novo. E os pentecostais tradicionais não querem ficar atrás. Por incrível que pareça, enviam “espiões”, ou seja, obreiros disfarçados de crentes para aprenderem como se maneja com o povo (2Pedro 2.3), como se faz propaganda espalhafatosa, a fim de aplicarem os mesmos métodos em suas igrejas. São bíblicos tais métodos? Não importa. O que importa é que funciona: templos sempre lotados, dinheiro entrando com facilidade. E, como afirma o Pastor Joaquim de Andrade “Edir Macedo construiu um império às custas dos dízimos, ofertas e do ensino da Teologia da Prosperidade. Daí as correntes de oração de Jericó, do trabalhador, do desafio, da prosperidade, dos dizimistas, dos empresários etc.” – Os Fatos Sobre o Movimento da Fé, p. 90. IDENTIFICAÇÃO DO MOVIMENTO Teologia da Prosperidade é o título pelo qual se identifica o ensino segundo o qual o cristão autêntico é conhecido por possuir ótima saúde física e boa situação financeira. Cristão que vive choramingando com doenças e problemas financeiros, é porque não está bem espiritualmente: ou está em pecado ou tem falta de fé. Não se deve ser pobre nem estar doente. Pobreza e doença são as marcas de pessoas dominadas pelo diabo. Ridicularizando a situação da maioria dos evangélicos, quesão notadamente da classe pobre, inclusive os membros da IURD, o Pastor Jorge Tadeu declara: “Pobreza é uma maldição, e não uma bênção” – Finanças – Princípios Bíblicos Para a Vida de Sucesso, p. 9, 1ª Edição, junho de 1993, Igreja Maná, Portugal. Os títulos dos grupos que se baseiam na TP são: Evangelho da Saúde e Prosperidade, Movimento da Fé, Palavrá da Fé, Confissão Positiva e Avivamento da Verdade. O QUE DIZ A BÍBLIA SOBRE SER POBRRE? “Bem aventurados, vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6.20). “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres” (Lucas 4.18). “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me” (Marcos 10.21). “Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem” (Marcos 14.7). “Porque todos ali deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento” (Marcos 12.44). AS ADVERTÊNCIAS DE DEUS AOS RICOS “Mas ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lucas 6.24). “Não ajunteis tesouros na terra… mas ajuntai tesouros no céu… Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração” (Mateus 6.19-21). “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Marcos 10.25). Como mencionou o Jornal Mensageiro da Paz (Junho de 1991, p. 15): “A TP é um insulto aos cristãos do Terceiro Mundo. Milhões de crentes zelosos no Terceiro Mundo nada têm de posses materiais. Estão eles enganados ou fracos na fé? Eles entendem mais sobre a cruz do que de carro do ano, e a única riqueza de que se ufanam é a vida eterna”. É FALTA DE FÉ FICAR DOENTE OU SOFRER? Os mais fervorosos servos de Deus do passado e do presente não ficaram imunes às doenças e sofrimentos. Isso se vê na vida de José, de Jeremias e de Paulo. Paulo fala de prisões, açoites sem medida, perigos de morte, varadas ou chibatadas, apedrejamento, naufrágios, fome, sede etc. (2Coríntios 11.23-29). Paulo orou pela saúde de Trófimo, mas não obteve resposta (2Timóteo 4.20). OUTROS ENSINOS ESTRANHOS Os crentes não devem morrer antes dos 70 anos. “A maneira como o cristão deve morrer depende da sua fé. O mínimo que você deveria viver são 70 anos. Você deveria viver até os 120 anos. É o que a Bíblia afirma. Deus pronunciou com a sua própria boca o número de seus dias para 120 anos. Não fui eu que escrevi isso. Deus disse isso. O mínimo a ser atingido são 70 anos e esses anos não devem ser acompanhados de doenças e dores” – Fred Price, “Is Healing for All?”, p. 104, citado no livro “A Different Gospel, p. 157. Resposta bíblica: É verdade que a Bíblia afirma que há tempo de nascer e tempo de morrer (Eclesiastes 3.1-2), mas conhecer o nosso tempo de nascer, e ocasião de morrer, só pertence a Deus (Jó 14.5; Salmos 39.4-6). Crianças que nascem mortas ou que morrem na infância “As crianças que nascem mortas, que não têm controle sobre suas vidas, esse controle passa para os pais. Entretanto, se os pais não conhecem a Palavra de Deus, e não clamam por seus direitos em Cristo, as crianças morrem prematuramente” – Ibidem, Ever Increasing Faith Messenger, citado no livro “A Different Gospel”, p. 158. Resposta bíblica: Davi orou por seu filho recém nascido, usando sua condição de servo de Deus, e não obteve resposta favorável. A criança morreu (2 Samuel 12.16-23). Confissão negativa produz enfermidades “Uma confissão negativa dá a Satanás o direito de infringir a doença. Falar sobre a doença é um modo de adorar o Diabo e deve ser expressamente proibido” – E. W. Kenyon, em “Jesus The Healer”, p. 44. Kenneth Hagin afirma: “Nunca falo de doença… Nunca falo no fracasso… Nunca falo sobre o que o diabo fez”. E continua: “Mas, se eu tivesse dor de cabeça, não contaria a ninguém. E se alguém me perguntasse como estava me sentindo, eu diria: Estou ótimo, obrigado” – Words, p. 21, citado em “Os Fatos Sobre o Movimento da Fé”, p. 75. Resposta bíblica: Daqui para frente, leitor, cuidado com as suas palavras. Por exemplo, se você disser: “Eu vou morrer de rir” ou “Isso me intriga até a morte” e outros ditados parecidos, isso levará à morte mesmo. Paulo confessou: “Temo, pois, que indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero… que haja entre vós contendas, invejas, iras…” (2 Coríntios 12.20-21). Paulo continua: “em nós opera a morte… mesmo que a nosso homem exterior se corrompa…” (2 Coríntios 4.12-16). Os crentes não devem procurar a medicina “O mundo tem um sistema de cura que é um fracasso miserável” – Kenneth Hagin, God‘s Medicine, p. 17-18, citado no livro “A Different Gospel”, p.154. “Eu não uso remédio… Tenho a minha fé operando de tal modo que não necessito dele” – Faith, Foolishness or Presumption?, p. 65. Resposta bíblica: A Bíblia recomenda: “orai uns pelos outros para que sareis” (Tiago 5.16), mas não proíbe o recurso médico ou a medicina. Paulo recomendou a Timóteo, que sofria de frequentes enfermidades, o uso de vinho como remédio: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1Timóteo 5.23). Ser pobre é pecado “Não só a preocupação é pecado, mas também ser pobre é pecado, porque a promessa de Deus é a prosperidade” – Robert Tilton, Success in Life, programa de TV em 27/12/1990. “Se a Máfia roda sobre um Lincoln Continental, por que não pode usar um bom carro um filho do Rei? Os filhos do Rei devem rodar com um Rolls Royce” – Fred Price, Faith Foolishness or Presumption?, p. 23, citado em “A Different Gospel, p. 175. Quando lemos acerca de Pedro e João responderem ao coxo junto à Porta Formosa do Templo não terem prata nem ouro, estariam eles em pecado? Tinham mais do que riqueza material: tinham o nome excelso de Jesus operando com poder em suas vidas, e assim puderam ordenar ao coxo que se levantasse no nome de Jesus (Atos 3.6). Esse negócio de filho do Rei usando Rolls Royce mais parece uma justificativa dos pregadores da TP para usarem tais veículos como prova da bênção mateiial de Deus sobre suas vidas: um ministério aprovado medido por ostentação de riqueza. CONCLUSÃO Jesus justificou a necessidade da sua partida para o céu, a fim de que o Espírito Santo viesse a habitar com os seus seguidores (João 14.16,20). A missão do Espírito Santo aqui na terra, dentre outras, seria promover o convencimento do pecado. O homem está endurecido pelo pecado. O deus deste século tem cegado a mente dos homens, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo (2Coríntios 4.4). Sem a ação do Espírito Santo no coração do perdido sem perdão de Deus é impossível alguém se converter. Paulo falou que o evangelho de Cristo é poder de Deus para a salvação de todo o que crer (Romanos 1.16-17). Mas como crer, se não há quem pregue contra o pecado? O pecado faz separação entre o homem e Deus e impede a entrada do pecador no céu (Isaías 59.1-2). Ora, se nos tornamos agradáveis aos homens, pregando que o evahgeiho traz prosperidade material e saúde física, atraímos, com certeza, grandes multidões, mas não estamos sendo fieis a Bíblia (Marcos 15.15-16). Estamos dando paliativos, estamos esquecendo o principal e a razão precípua a da existência da Igreja na terra. As multidões precisam de Jesus: o Senhor e Salvador, sem o qual ninguém se salva do pecado (Atos 4.12; 16.30-31) e não se salvando doa pecado se perderá eternanente. Paulo alertou contra outro evangelho (2Corintios 11.4). O evangelho de saúde e prosperidade da TP é outro evangelho. É apostasia (1Timóteo 4.1). ——————- Pr. Natanael Rinaldi

Teologia da Prosperidade

Estudo Bíblico A Teologia da Prosperidade à Luz da Bíblia Introdução Nos últimos anos, tem sido apregoada aos quatro cantos do mundo um ensino exagerado sobre a prosperidade cristã. Segundo este ensinamento, todo crente tem que ser rico, não morar em casa alugada, ganhar bem, além de ter saúde plena, sem nunca adoecer. Caso não seja assim, é porque está em pecado ou não tem fé. Neste estudo, procuraremos examinar o assunto à luz da Bíblia, buscando entender a verdadeira doutrina da prosperidade. I - O Que é Prosperidade. No Dic. Aurélio, encontramos vários significados em torno da palavra prosperidade.: 1. PROSPERIDADE (do lat., prosperitate). Qualidade ou estado de próspero; situação próspera. 2. PROSPERAR. Tornar-se próspero ou afortunado; enriquecer; ser favorável; progredir; desenvolver. 3. PRÓSPERO. Propício, favorável, ditoso, feliz, venturoso. 4. BIBLICAMENTE, prosperidade é mais que isso. É o que diz o Salmo 1. 1-3. II - A Moderna Teologia da Prosperidade em Confronto Com a Bíblia. 1. Nomes Influentes. 1.1. KENYON. Nasceu em 24.04.1867, Saratoga, Nova York, EUA, falecendo aos 19.03.48. Nos anos 30 a 40, desenvolveram-se os ensinos de Essek William Kenyon. Segundo Pieratt (p. 27), ele tinha pouco conhecimento teológico formal. "Kenyon nutria uma simpatia por Mary Baker Eddy" (Gondim, p. 44), fundadora do movimento herético "Ciência Cristã", que afirma que a matéria, a doença não existem. Tudo depende da mente. Pastoreou igrejas batistas, metodistas e pentecostais. Depois, ficou sem ligar-se a qualquer igreja. De acordo com Hanegraaff, Kenyon sofreu influência das seitas metafísicas como Ciência da Mente, Ciência Cristã e Novo Pensamento, que é o pai do chamado "Movimento da Fé". Esses ensinos afirmam que tudo o que você pensar e disser transformará em realidade. Enfatizam o "Poder da Mente". 1.2. Kenneth Hagin. Discípulo de Kenyon. Nasceu em 20.08.1918, em McKinney, Estado do Texas, EUA. sofreu várias enfermidades e pobreza; diz que se converteu após ter ido três vezes ao inferno (Romeiro, p. 10). Aos 16 anos diz ter recebido uma revelação de Mc 11.23,24, entendendo que tudo se pode obter de Deus, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário. Isso é a essência da "Confissão Positiva". Foi pastor de uma igreja batista (1934-1937); depois ligou-se à Assembléia de Deus (1937-1949), em seguida passou por várias igrejas pentecostais, e , finalmente, fundou seu próprio ministério, aos 30 anos, fundando o Instituto Bíblico Rhema. Foi criticado por ter escrito livros com total semelhança aos de Kenyon, mas defendeu-se , dizendo que não era plágio, que os recebera diretamente de Deus. Outros Kenneth Copeland, seguidor de Haggin, diz que "Satanás venceu Jesus na cruz" (Hanegraaff, p. 36). Benny Hinn. Tem feito muito sucesso. Diz que teve a revelação de que as mulheres originalmente deveriam dar à luz pelo lado de seus corpos (id., p. 36). Há muitos outros nomes, mas este espaço do estudo não permite registrá-los. III - Os Ensinos do Evangelho da Prosperidade em Confronto com a Bíblia. Os defensores da "teologia ou do evangelho da prosperidade" baseiam-se em três pontos a serem considerados: 1. Autoridade Espiritual 1.1. Profetas, hoje. Segundo K. Hagin, Deus tem dado autoridade (unção) a profetas nos dias atuais, como seus porta-vozes. Ele diz que "recebe revelações diretamente do Senhor"; "...Dou graças a Deus pela unção de profeta...Reconheço que se trata de uma unção diferente...é a mesma unção, multiplicada cerca de cem vezes" (Hagin, Compreendendo a Unção, p. 7). O Que Diz a Bíblia: O ministério profético, nos termos do AT, duraram até João (Mt 11.13). Os profetas de hoje são os ministros da Palavra (Ef 4.11). O dom de profecia (1 Co 12.10) não confere autoridade profética. 1.2. "Autoridade das Revelções". Essa autoridade deriva das "visões, profecias, entrevistas com Jesus, curas, palavras de conhecimento, nuvens de glória, rostos que brilham, ser abatido (cair) no Espírito", rejeição às doenças, ordenando-lhes que saiam, etc. Ele diz que quem rejeitar seus ensinos "serão atingidos de morte, como Ananias e Safira" (Pieratt, p. 48). è O Que Diz a Bíblia. A Palavra de Deus garante autoridade aos servos do Senhor (cf. Lc 24.49; At 1.8; Mc 16.17,18). Mas essa autoridade ou poder deriva da fé no Nome de Jesus e da Sua Palavra, e não das experiências pessoais, de visões e revelações atuais. Não pode existir qualquer "nova revelação" da vontade de Deus. Tudo está na Bíblia (Ver At 20.20; Ap 22.18,19). Se um homem diz que lhe foi revelado que a mulher deveria ter filhos pelos lados do corpo, isso não tem base bíblica, carecendo tal pessoa de autoridade espiritual. Deveria seguir o exemplo de Paulo, que recebeu revelação extraordinária, mas não a escreveu (cf. 2 Co 12.1-6). 1.3. Homens São Deuses! Diz Hagin: "Você é tanto uma encarnação de Deus quanto Jesus Cristo o foi..." (Hagin, Word of Faith, 1980, p. 14). "Você não tem um deus dentro de você. Você é um Deus" (Kenneth Copeland, fita cassete The Force of Love, BBC-56). "Eis quem somos: somos Cristo!" (Hagin, Zoe: A Própria Vida de Deus, p.57). Baseiam-se, erroneamente, no Sl 82.6, citado por Jesus em Jo 10.31-39. "Eu sou um pequeno Messias" (Hagin, citado por Hanegraaff, p. 119). O Que Diz a Bíblia. Satanás, no Éden, incluiu no seu engodo, que o homem seria "como Deus, sabendo o bem e o mal" (Gn 3.5). Isso é doutrina de demônio. Em Jo 10.34, Jesus citou o Sl 82.6, mostrando a fragilidade do homem e não sua deificação: "...Todavia, como homem morrereis e caireis, como qualquer dos príncipes" (v. 7). "Deus não é homem" (Nm 23.19; 1 Sm 15.29; Os 11.9 Ex 9.14). Fomos feitos semelhantes a Deus, mas não somos iguais a Ele, que é Onipotente (Jó 42.2;...); o homem é frágil (1 Co 1.25); Deus é Onisciente (Is 40.13, 14; Sl 147.5); o homem é limitado no conhecimento (Is 55.8,9). Deus é Onipresente (Jr 23.23,24). O homem só pode estar num lugar (Sl 139.1-12). Diante desse ensino, pode-se entender porque os adeptos da doutrina da prosperidade pregam que podem obter o que quiserem, nunca sendo pobres, nunca adoecendo. É que se consideram deuses! 2. Saúde e Prosperidade. Esse tema insere-se no âmbito das "promessas da doutrina da prosperidade". Segundo essa doutrina, o cristão tem direito a saúde e riqueza; diante disso, doença e pobreza são maldições da lei. 2.1. Bênção e Maldição da Lei. Com base em Gl 3.13,14, K.Hagin diz que fomos libertos da maldição da lei, que são: 1) Pobreza; 2) doença e 3) morte espiritual. Ele toma emprestadas as maldições de Dt 28 contra os israelitas que pecassem. Hagin diz que os cristão sofrem doenças por causa da lei de Moisés. O Que Diz a Bíblia. Paulo refere-se, no texto de Gl 3 à maldição da lei a todos os homens, que permanecem nos seus pecados. A igreja não se encontra debaixo da maldição da lei de Moisés. (cf. Rm 3.19; Ef 2.14). Hagin diz que ficamos debaixo da bênção de Abraão (Gl 3.7-9), que inclui não ter doenças e ser rico. Ora, Abraão foi abençoado por causa da fé e não das riquezas. Aliás, estas lhe causaram grandes problemas. Muitos cristãos fiéis ficaram doentes e foram martirizados, vivendo na pobreza, mas herdeiros das riquezas celestiais (1 Pe 3.7). Os teólogos da prosperidade dizem que Cristo, na Cruz, "removeu não somente a culpa do pecado, mas os efeitos do pecado" (Pieratt, p. 132). Mas isso não é verdade, pois Paulo diz que "toda a criação geme", inclusive os crentes, aguardando a completa redenção. 2.2. O Cristão Não Deve Adoecer. Eles ensinam que "todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças" e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções (Pieratt, p. 135). Pregam que Is. 53.4,5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. O Que Diz a Bíblia. "No mundo, tereis aflições" (Jo 16.33). São Paulo viveu doente (Ver 1 Co 4.11; Gl 4.13), passou fome, sede, nudez, agressões, etc. Seus companheiros adoeceram (Fp 2.30). Timóteo tinha uma doença crônica (1 Tm 5.23). Trófimo ficou doente (2 Tm 4.20). Essas pessoas não tinham fé? Jesus curou enfermos, e citou Is 53.4,5 (cf. Mt 8.16,17). No tanque de Betesda, havia muitos doentes, mas Jesus só curou um (cf. Jo 5.3,8,9). Deus cura, sim. Mas não cura todos as pessoas. Se assim fosse, não haveria nenhum crente doente. Deve-se considerar os desígnios e a soberania divina. Conhecemos homens e mulheres de Deus, gigantes na fé, que têm adoecido e passado para o Senhor. 2.3. O Cristão Não Deve Ser Pobre. Os seguidores de Hagin enfatizam muito que o crente deve ter carro novo, casa nova (jamais morar em casa alugada!), as melhores roupas, uma vida de luxo. Dizem que Jesus andou no "cadillac" da época, o jumentinho. Isso é ingênuo, pois o "cadillac" da época de Cristo seria a carruagem de luxo, e não o simples jumentinho. O Que Diz a Bíblia. A Palavra de Deus não incentiva a riqueza (também não a proíbe, desde que adquirida com honestidade, nem santifica a pobreza); S. Paulo diz que aprendeu a contentar-se com o que tinha (cf. Fp 4.11,12; 1 Tm 6.8); Jesus enfatizou que só uma coisa era necessária: ouvir sua palavra (Lc 10.42); Ele disse que é difícil um rico entrar no céu (Mt 19.23); disse, também, que a vida não se constitui de riquezas (Lc 12.15). Os apóstolos não foram ricaços, mas homens simples, sem a posse de riquezas materiais. S. Paulo advertiu para o perigo das riquezas (1 Tm 6.7-10) 3. Confissão Positiva. É o terceiro ponto da teologia da prosperidade. Ela está incluída na "fórmula da fé", que Hagin diz ter recebido diretamente de Jesus, que lhe apareceu e mandou escrever de 1 a 4, a "fórmula". Se alguém deseja receber algo de Jesus, basta segui-la: 1) "Diga a coisa" positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo. De acordo com o que o indivíduo quiser, ele receberá". Essa é a essência da confissão positiva. 2) " Faça a coisa". "Seus atos derrotam-no ou lhe dão vitória. De acordo com sua ação, você será impedido ou receberá". 3) "Receba a coisa". Compete a nós a conexão com o dínamo do céu". A fé é o pino da tomada. Basta conectá-lo. 4) "Conte a coisa" a fim de que outros também possam crer". Para fazer a "confissão positiva", o cristão dever usar as expressões: exijo, decreto, declaro, determino, reivindico, em lugar de dizer : peço, rogo, suplico; jamais dizer: "se for da tua vontade", segundo Benny Hinn, pois isto destrói a fé. Mas Jesus orou ao Pai, dizendo: "Se é da tua vontade...faça-se a tua vontade..." (Mt 26.39,42). "Confissão positiva" se refere literalmente a trazer à existência o que declaramos com nossa boca, uma vez que a fé é uma confissão" (Romeiro, p. 6). IV - A Verdadeira Prosperidade. A Palavra de Deus tem promessas de prosperidade para seus filhos. Ao refutar a "Teologia da Prosperidade", não devemos aceitar nem pregar a "Teologia da Miserabilidade". 1. A Prosperidade Espiritual. Esta deve vir em primeiro lugar. Sl 112.3; Sl 73.23-28. É ser salvo em Cristo Jesus; batizado com o Espírito Santo; é ter o nome escrito no Livro da Vida; é ser herdeiro com Cristo (Rm 8.17); Deus escolheu os pobres deste mundo para serem herdeiros do reino (Tg 2.5); somos co-herdeiros da graça (1 Pe 3.7); devemos ser ricos de boas obras (1 Tm 6.18,19); tudo isso nos é concedido pela graça de Deus. 2. Prosperidade em Tudo. Deus promete bênçãos materiais a seus servos, condicionando-as à obediência à sua Palavra e não à "Confissão Positiva". 2.1. Bênçãos e Obediência. Dt 28.1-14. São bênçãos prometidas a Israel, que podem ser aplicadas aos crentes, hoje. 2.2. Prosperidade em Tudo (Sl 1.1-3; Dt 29.29; ). As promessas de Deus para o justo são perfeitamente válidas para hoje. Mas isso não significa que o crente que não tiver todos os bens, casa própria, carro novo, etc, não seja fiel. 2.3. Crendo Nos Seus Profetas (2 Cr 20.20;). Deus promete prosperidada para quem crê na Sua palavra, transmitida pelos seus profetas, ou seja, homens e mulheres de Deus, que falam verdadeiramente pela direção do Espírito Santo, em acordo com a Bíblia, e não por entendimento pessoal. 2.4. Prosperidade e Saúde (3 Jo 2). A saúde é uma bênção de Deus para seu povo em todos os tempos. Mas não se deve exagerar, dizendo que quem ficar doente é porque está em pecado ou porque não tem fé. 2.5. Bênçãos Decorrentes da Fidelidade no Dízimo (Ml 3.10,11). As janelas do céu são abertas para aqueles que entregam seus dízimos fielmente, pela fé e obediência à Palavra de Deus. 2.6. O Justo Não Deve Ser Miserável. (Sl 37.25). O servo de Deus não deve ser miserável, ainda que possa ser pobre, pois a pobreza nunca foi maldição, de acordo com a Bíblia. Conclusão O crente em Jesus tem o direito de ser próspero espiritual e materialmente, segundo a bênção de Deus sobre sua vida, sua família, seu trabalho. Mas isso não significa que todos tenham de ser ricos materialmente, no luxo e na ostentação. Ser pobre não é pecado nem ser rico é sinônimo de santidade. Não devemos aceitar os exageros da "Teologia da Prosperidade", nem aceitar a "Teologia da Miserabilidade". Deus é fiel em suas promessa. Na vida material, a promessa de bênçãos decorrentes da fidelidade nos dízimos aplicam-se á igreja. A saúde é bênção de Deus. Contudo, servos de Deus, humildes e fiéis, adoecem e muitos são chamados á glória, não por pecado ou falta de fé, mas por desígnio de Deus. Que o Senhor nos ajude a entender melhor essas verdades. BIBLIOGRAFIA. - Bíblia Sagrada, ERC. Ed. Vida, S. Paulo, 1982. - GONDIM, Ricardo. O Evangelho da Nova Era. Abba, S. Paulo, 1993. - HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. CPAD, Rio, 1996. - ROMEIRO, Paulo. Super Crentes. Mundo Cristão, S. Paulo, 1993. Autor: Pr. Elinaldo Renovato de Lima

Apóstolos atuais - 2

Há apóstolos hoje em dia? A palavra "apóstolo" significa aquele que é enviado numa missão. A Bíblia geralmente emprega este termo para os apóstolos de Cristo. Eles eram doze homens especialmente escolhidos por Cristo para estarem com ele e para serem enviados a pregar (estude Marcos 3:13-19). Muitas vezes eles foram simplesmente chamados "os doze". O número doze tinha uma história de grande importância entre o povo de Deus (doze filhos de Jacó e doze tribos de Israel). Os doze tinham uma missão muito importante. Para cumprir esta missão, eles receberam o batismo do Espírito Santo, para que pudessem ser guiados em toda a verdade (João 14:26; 15;26-27; 16:7-15; Atos 1:8; 2:1-4). Eles revelaram esta verdade nas Escrituras, que são o nosso padrão nos dias atuais (Efésios 3:5; 2 Pedro 3:2; Judas 17). Os apóstolos foram testemunhas oculares Cristo ressuscitado (Lucas 24:48; Atos 1:8,22; 2:32; 3:15; 4:33; 5:32; 10:39-41; 13:31; 1 Pedro 5:1; 1 João 1:2). Somente eles foram capazes de conceder os dons espirituais, impondo suas mãos sobre os outros (Atos 8:14-18). Os apóstolos fazem parte da fundação da igreja, tendo o próprio Jesus Cristo como a pedra angular principal (Efésios 2:20; Apocalipse 21:14). Os doze apóstolos foram selecionados inicialmente pelo Senhor. Judas caiu porque pecou e por isso foi excluído (Atos 1:20, 25); como resultado, Matias foi escolhido para ficar no seu lugar (Atos 1:16-26). Note atentamente que uma das qualificações que Matias tinha que cumprir, para poder ser selecionado, era ter visto o Senhor ressuscitado (Atos 1:22). Mais tarde, Paulo foi selecionado de uma maneira especial para ser o apóstolo enviado para os gentios (Atos 9:15; 22:14-15; 26:16-18; Gálatas 1:15-17; 1 Timóteo 2:7). Esta é a razão porque o Senhor lhe apareceu, uma vez que ele não teria as qualificações para ser um apóstolo, se não tivesse visto o Senhor depois de sua ressurreição (note 1 Coríntios 9:1-2; 15:8; Atos 22:15; 26:16). Os apóstolos que a igreja tem hoje em dia são os mesmos que teve desde a escolha de Paulo. Eles permanecem no fundamento da igreja, onde o Senhor os colocou, e não há razão para procurar substituições. Através do Novo Testamento, que eles escreveram, eles continuam a ensinar e a guiar o povo de Deus. Seria impossível para alguém hoje ser um novo apóstolo, porque Paulo foi o último a ver o Senhor (1 Coríntios 15:7-9), e alguém tinha que ver o Senhor para ser qualificado, para ser escolhido pelo Senhor como um apóstolo (Atos 1:22). A presença de impostores modernos não nos deveria surpreender (2 Coríntios 11:13), mas precisamos testá-los e rejeitá-los (Apocalipse 2:2). Não temos novos apóstolos hoje em dia. -por Gary Fisher Nunca se viu tantos apóstolos como neste início de século. Em cada canto, esquina e cidade encontramos alguém reivindicando o direito de ser chamado apóstolo. Entendendo o movimento de restauração e o movimento apostólico: O chamado movimento de restauração defende a tese de que Deus está restaurando a igreja. Para estes, após a morte dos primeiros apóstolos, a igreja de Cristo paulatinamente experimentou um processo de declínio espiritual culminando com a apostasia vivenciada pelos seus adeptos no período da idade média. Com o advento da Reforma Protestante, os defensores desta teologia afirmam que Deus começou a restaurar a saúde da igreja. Segundo estes, Lutero foi responsável pela redescoberta da salvação pela graça, e agora no século XXI, estamos vivendo a restauração do ministério apostólico. Os teólogos desta linha de pensamento afirmam que a restauração dos apóstolos é uma das últimas coisas a serem feitas pelo Senhor, antes de sua vinda. Para os adeptos desta linha de pensamento, os apóstolos de hoje possuem, em alguns casos, maior autoridade do que os apóstolos do primeiro século, até porque, para os defensores desta corrente teológica a glória da segunda casa será maior do que a primeira. Para estes o ministério apostólico não acabou. Na verdade, tais teólogos advogam que o ministério apostólico é perpétuo e que o livro de Atos ainda continua a ser escrito por santos homens de Deus, os quais, mediante a sua autoridade apostólica, agem em nome do Senhor. Este movimento tem suas semelhanças com o surgimento dos mórmons e a Igreja dos Santos dos Últimos Dias, que ensina que o corpo de escritos inspirados por Deus não se fechou e que Deus tem muita coisa nova para dizer e para revelar aos seus santos através de seus apóstolos. Infelizmente, assim como os mórmons, os adeptos do movimento apostólico consideram a Bíblia uma fonte importante, mas não única para a fé. Para os apóstolos deste tempo, Deus, através de seus profetas, pode revelar coisas novas, ainda que isso se contraponha a sua Palavra. Basta olharmos para as doutrinas hodiernas que chegaremos à conclusão que os apóstolos do século XXI, acreditam que suas revelações são absolutamente diretivas, normativas e inquestionáveis. Segundo a bíblia quais deveriam ser as credenciais de um apóstolo? 1. O apóstolo teria de ser testemunha do Senhor ressurreto. Em Atos vemos os apóstolos reunidos no cenáculo, conversando sobre quem substituiria Judas. Em Atos 1.21-22 lemos: “É necessário pois, que, dos homens que nos acompanham todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre vós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição”. Paulo diz que viu Jesus ressurreto: “Não sou, porventura livre? Não sou apóstolo? Não vi a Jesus, Nosso Senhor?” (1Co 9.1) 2. O apóstolo tinha de ter um chamado especial da parte de Cristo para exercer este ministério. As Escrituras são absolutamente claras em nos mostrar que os apóstolos, incluindo Paulo, foram chamados por Cristo (Mt 10.2-4; Gl 1.11-24). 3. O apóstolo era alguém a quem foi dada autoridade para operar milagres. Isso fica bem claro em 2Coríntios 12.12: “Pois as credenciais do meu apostolado foram manifestadas no meio de vós com toda a persistência, por sinais prodígios e poderes miraculosos”. Era como se ele dissesse: “Como vocês podem questionar meu ofício de apóstolo, se as minhas credenciais foram apresentadas claramente entre vós”. Sinais, milagres e prodígios maravilhosos. 4. O apóstolo tinha autoridade para ensinar e definir a doutrina firmando as pessoas na verdade. 5. Os apóstolos tiveram autoridade para estabelecer a ordem nas igrejas. Nomeavam os presbíteros, decidiam questões disciplinares e questões doutrinárias, e falavam com autoridade do próprio Jesus. Será que diante destas questões os “apóstolos” da modernidade podem de fato reivindicar o título de apóstolo de Cristo? Por acaso, algum deles viu o Senhor ressurreto? Foram eles comissionados por Cristo a exercerem o ministério apostólico? Quantos dos apóstolos brasileiros ressuscitaram mortos? E suas doutrinas? Possuem elas autoridade para se contraporem aos ensinamentos bíblicos? Pois é, infelizmente os “apóstolos” do nosso tempo não possuem respostas a estas perguntas. O posicionamento da ortodoxia evangélica entende que o ministério apostólico cessou com a morte dos apóstolos no primeiro século. Sem a menor sombra de dúvidas, considero a utilização do título “apóstolo” por parte dos pastores como uma apropriação indevida de um ministério, o qual não existe mais nos moldes que vemos no Novo Testamento.

Apóstolos atuais?

Seria ainda em nossa época possível existir tal ministério entregue pelo Senhor Jesus. A palavra "apóstolo" significa aquele que é enviado numa missão. A Bíblia geralmente se refere a eles, como os apóstolos de Cristo. Eram doze homens escolhidos por Cristo para estarem com ele e para serem enviados a pregar (Marcos 3:13-19). Em algumas ocasiões na Bíblia eles foram simplesmente chamados "os doze". O número doze tinha uma história de grande importância entre o povo de Deus (doze filhos de Jacó e doze tribos de Israel). Para cumprir a missão recebida do Senhor Jesus, eles receberam o batismo do Espírito Santo, para que pudessem ser guiados em toda a verdade (Atos 1:8; 2:1-4). Esta verdade nas Escrituras, é o nosso padrão nos dias atuais (Atos 2.42). Os apóstolos foram testemunhas oculares de Cristo ressuscitado (Lucas 24:48; Atos 1:8,22; 2:32; 3:15; 4:33; 5:32; 10:39-41; 13:31; 1 Pedro 5:1; 1 João 1:2). A única maneira de descobrir, se realmente existem apóstolos nos dias atuais e fazendo como base de estudo a Bíblia, a Palavra de Deus. Sabemos que no presente século é evidente esta falácia no meio evangélico. Apóstolo fulano de tal, apóstola, e outros títulos requeridos por estes que se intitulam nesta categoria. O que era exigido, ou pelo menos identificado com a geração apostólica escolhida por Jesus, Nosso Senhor. Vejamos alguns pontos, sem querer esgotar o assunto: 1 - Os apóstolos foram testemunhas oculares de Cristo, esta foi a exigência para escolha de um novo apóstolo para o lugar de Judas (que se enforcou) (atos 1.21). Temos também o relato acerca de Paulo, ele mesmo não estando com Cristo em seu ministério antes de Sua Glorificação, a Bíblia nos informa que o Senhor lhe apareceu a caminho de Damasco (Atos 9.5). 2 - Os apóstolos de Cristo sofriam pelo evangelho que anunciavam, em contraste com este apostolado atual que se manifesta em plena regalia de bens terrenos, e vivem a vida em um paraíso episcopal. 3 - Os apóstolos de Cristo, ou ministério e apostolado que o Senhor deu a seus discípulos não era renumerado, nem possuía grandes somas em dinheiro, pelo contrário estes apóstolos viviam de maneira simples e singela, nenhum tostão no bolso. (Disse Pedro: "Não tenho prata nem ouro... Atos 3:6¨). O que não podemos dizer acerca desta geração apostólica atual. 4 - A bases doutrinarias e fundamentais para fortalecimento e crescimento sadio da Igreja do Senhor Jesus estavam designadas aos ensinos apostólicos. Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. (Atos 2.42-43). Atividades puramente espirituais. Será que os tais apóstolos como disse Paulo no passado, estão ensinando corretamente a doutrina de Cristo? Estarão eles vivendo uma vida a qual poderíamos imitar? 5 – Não querendo ser muito extenso, pois não faltaria ensinos nas escrituras para que pudéssemos identificar a ausência de ministérios apostólicos nos dias atuais, fica a base que Paulo se utiliza para identificar-se como o derradeiro apóstolo do Senhor. O Senhor lhe apareceu, e o comissionou, uma vez que ele não teria as qualificações para ser um apóstolo, se não tivesse visto o Senhor depois de sua ressurreição (1 Coríntios 9:1-2; 15:8; Atos 22:15; 26:16). Será que alguns destes podem também fazer este relato. Ou poderá dizer como Paulo. O que recebi do Senhor também vos entreguei. A Igreja brasileira e posso dizer não somente ela, mas todos nós sofremos destes males. A arrogância, a exaltação, e a vontade de ir além do que está escrito, tem destruído o verdadeiro evangelho de Cristo. A cruz tem sido esquecida, e neste novo caminho que a igreja escolheu, é preferível os holofotes do que a humilhação. Que o Senhor possa nos abençoar e nos ajudar a se submeter a Cristo a não ao espirito deste mundo. Que os holofotes da fama, do sucesso, estejam longe de nós. Que possamos voltar ao evangelho puro e simples de nosso Senhor Jesus Cristo. Convém que Ele cresça e que nos venhamos a diminuir, já dizia João o Batista. (João 3:30) Deus abençoe. Pr. Adélcio Ferreira www.servoprudente.com.br

Maldição Hereditária - 2

O EVANGELHO DA MALDIÇÃO Uma das distorções doutrinárias mais difundidas entre o povo de Deus ultimamente é o ensino das “maldições hereditárias”, conhecido também como “maldição de família ou “pecado de geração”. Estes conceitos circulam bastante através da televisão, rádio, literatura e seminários nas igrejas. Muitos líderes, ministérios e igrejas, antes sólidos e confiáveis, acabaram sucumbindo a mais esse ensino controvertido e importado dos Estados Unidos. Os pregadores da maldição afirmam que se alguém tem algum problema relacionado com alcoolismo, pornografia, de­pressão, adultério, nervosismo, divórcio, diabete, câncer e muitos outros, é porque algum antepassado viveu aquela situação ou praticou aquele pecado e transmitiu tal pecado ou maldição a um descendente.A pessoa deve então orar a Deus a fim de que lhe seja revelado qual é a geração no passado que o está afetando. Uma vez que se saiba qual, pede-se perdão por aquele antepassado ou pela geração revelada e o problema estará resolvido, isto é, estará desfeita a maldição. Marilyn Hickey, autora norte-americana e que já esteve várias vezes no Brasil em conferências da Adhonep (Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno), promove constantemente este ensino. Note suas palavras: Se você ou algum de seus ancestrais deu lugar ao diabo, sua família poderá estar sob a “Maldição Hereditária”, e esta se transmitirá a seus filhos. Não permita que sua descendência seja atingi­da pelo diabo através das maldições de geração. Os pecados dos pais podem passar de uma a outra geração, e assim consecutiva­mente. Há na sua família casos de câncer, pobreza, alcoolismo, alergia, doenças do coração, perturbações mentais e emocionais, abusos sexuais, obesidade, adultério’? Estas são algumas das características que fazem parte da maldição hereditária nas famílias. Contudo, elas podem ser quebradas! Um dos textos bíblicos mais usados pelos pregadores da maldição hereditária para defender este ensino é Êxodo 20:4-6: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”. É preciso que se leve em consideração o assunto do texto aqui citado. De que trata, afinal, tal passagem? Alcoolismo, pornografia, depressão, ou problemas do gênero? É óbvio que não. O texto fala de idolatria e não oferece qualquer base para alguém afirmar que herdamos maldições espirituais de nos­sos antepassados em qualquer área das dificuldades humanas. A narrativa do Antigo Testamento nos informa que sempre que a nação de Israel esteve num relacionamento de amor com Deus, ela não podia ser amaldiçoada. Vemos a prova disso em Números 23:7, 8, quando Balaque pediu a Balaão que amaldiçoasse a Israel. A resposta de Balaão aparece no versículo 23: “Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel”. Por outro lado, sempre que a nação quebrou a aliança de amor com Deus, ela ficou exposta a maldição, calamidades e cativeiro. É verdade que os filhos que repetem os pecados de seus pais têm toda a possibilidade de colher o que seus pais colhe­ram. Os pais que vivem no alcoolismo têm grande possibilidade de ter filhos alcoólatras. Os que vivem blasfemando, ou na imoralidade e vícios, estão estabelecendo um padrão de comportamento que, com grande probabilidade, será segui­do por seus filhos, pois “aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7). Isso poderá suceder até que uma geração se arrependa, volte-se para Deus e entre num relaciona­mento de amor com ele através de Jesus Cristo. Cessou aí toda a maldição. Não deve ser esquecido também que o autor da maldição ou punição é Deus e que ela é a manifestação da sua ira. Note que,. no final do versículo cinco do capítulo vinte de Êxodo, a Palavra de Deus declara que a maldição viria apenas sobre aqueles que aborrecem a Deus, algo que não se passa com o cristão. A Bíblia ensina uma responsabilidade individual pelo pecado, como pode ser observado no livro do profeta Ezequiel: “Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18:1-4). Seria o mesmo que afirmar nos dias atuais: os pais comeram chocolate e os dentes dos filhos criaram carie. O capítulo 18 de Ezequiel dá a entender que havia se tornado um costume em Israel colocar a culpa dos fracassos pessoais nos antepassados ou em outros. Isso faz lembrar o que aconteceu no jardim do Éden, quando, por ocasião da Queda, o homem colocou a culpa na mulher e a mulher na serpente. Parece ser próprio do ser humano não admitir seus erros, buscando evasivas para não tratá-los de forma responsável à luz da Palavra de Deus. Infelizmente, alguns acham mais fácil culpar os antepassados do que enfrentar suas tentações. O ensino da maldição de família mais escraviza do que liberta. Até crentes que há vários anos viviam alegres, evangelizando, servindo ao Senhor e dando frutos, agora estão preocupados, deprimidos, pensando que talvez as tentações, as dificuldades e lutas pelas quais estão passando sejam de fato reflexo de pecados ou do comportamento dos seus ancestrais. Não faz muito tempo, numa grande igreja pentecostal, um diácono, que havia participado de um desses seminários para quebra de maldições hereditárias, me procurou para aconselhamento. Tal irmão encontrava-se confuso e deprimido com as informações que recebera e queria saber o que a Bíblia tinha a dizer sobre tudo isso. Depois de uns dez minutos de conversa, ele respirou aliviado. Temos encontrado e ajudado a muitos outros em situações semelhantes pelos lugares por onde passamos, em diferentes partes do Brasil. Ora, todo cristão é tentado, de uma forma ou de outra, uns mais, outros menos. Se um cristão enfrenta problemas em relação à pornografia, ao alcoolismo, ao adultério, à depressão ou a qualquer outro aspecto ligado às tentações, os métodos para vencer tais lutas devem ser bíblicos. O caminho para a vitória tem muito mais a ver com a doutrina da santificação, com o cultivo da vida espiritual através da oração, do jejum, da comunhão saudável numa determinada parte do Corpo de Cristo e do contato constante com a Palavra de Deus. O ensino da quebra de maldições hereditárias aparece como um atalho mágico e ilusório para substituir a doutrina da santificação, que é um processo indispensável a ser desenvolvido pelo Espírito Santo na vida do cristão, exigindo dele autodisciplina e perseverança na fé. DOENÇA OU MALDIÇÃO? Um outro aspecto incorreto desse ensino é confundir as doenças transmitidas por herança genética com maldições hereditárias espirituais. Isto pode ser observado nas declarações de Marilyn Híckey: Será que você já observou uma família na qual todos os membros usam óculos? Desde o pai e a mãe até a criança menor, todos es­tão usando óculos, e geralmente os do tipo de lentes grossas. Es­sas pobres criaturas estão debaixo de uma maldição, e precisam ser libertas. Não se pode construir uma doutrina em cima de uma observação, experiência ou somente porque uma família toda usa óculos! Existem muitas famílias em que apenas um ou outro membro usa óculos. O que aconteceu? Por que só alguns herdam a maldição e outros não? E se as doenças são maldições transmitidas de pais para filhos através dos genes (geneticamente), por que os pregadores dessa doutrina não quebram, por exemplo, a maldição da calvície, transmitida geneticamente? Até hoje não há notícia de que alguém tenha feito isso. O Senhor Jesus nunca ensinou tal doutrina. Quando perguntado sobre o cego de nascença: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”, ele respondeu: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9:2-3). Alguns usam este texto para afirmar que os discípulos acreditavam na maldição de família, procurando dar assim legitimidade a tal ensino. É preciso lembrar que os discípulos nem sempre estiveram certos no período de treinamento que passaram juntos a Jesus. Certa vez, em alto-mar, quando Cristo se aproximava, eles pensa­ram ser ele um fantasma (Mt 14:26). Felizmente, os discípulos estavam errados em suas conclusões, pois eram humanos, sujeitos a erros. É óbvio que não erraram quando falaram e escreveram inspirados pelo Espírito Santo. Quanto ao cego de nascença, Jesus destruiu qualquer superstição ou crença que os discípulos pudessem ter de que a cegueira fora provocada pelos pecados de seus antepassados, e o próprio Jesus nunca ensinou tal doutrina. Tal ensino não encontrou espaço também nos escritos do apóstolo Paulo. Ao contrário, quando escreveu aos coríntios pela segunda vez, declarou com muita certeza: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5:17). Aos efésios, ele afirma: “Bendito o Deus e pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1:3). Onde existe espaço para maldições na vida de um cristão diante de uma declaração como esta? Paulo não se deixou prender ao passado. Quando escreveu aos crentes de Filipos, declarou: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp.3:13, 14). É importante observar a sugestão do apóstolo Paulo a Timóteo, quando lhe escreveu a primeira carta: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1 Tm 5:23). Paulo nunca insinuou que a enfermidade de Timóteo fosse uma maldição de seus antepassados, pois sabia que Timóteo vivia numa natureza afetada pela desobediência dos primeiros país (Adão e Eva). Apesar de o Reino de Deus estar entre nós, ele ainda não chegou à sua plenitude, pois até a criação geme, aguardando ser redimida do cativeiro da corrupção (Rm 8: 19-23). Paulo apenas sugeriu que Timóteo tomasse um pouco de vinho como um remédio para suas freqüentes enfermidades estomacais e não que fizesse a quebra das maldições hereditárias. A CONVERSÃO É A SOLUÇÃO Ensinar que um cristão tem que romper com maldições ou pactos dos antepassados pedindo perdão por eles é minimizar o poder de Deus na conversão. Isso está mais para o espiritismo ou mormonismo (com sua doutrina antibíblíca do batismo pelos mortos) do que para o cristianismo. A Bíblia de­clara com muita ousadia: “Por isso também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25). O advérbio “totalmente” (panteles, no grego) tem o sentido de pleno, completo e para sempre. Jesus não salva em prestações, mas de uma vez por todas. Marilyn Híckey chega a afirmar que: “Você pode decidir quanto ao destino exato da sua linhagem. Eles ou vão para Jesus, ou vão para o diabo”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Quantos filhos há que hoje vivem uma vida cristã exemplar, são cheios do Espírito Santo, enquanto seus pais permanecem alheios ao Evangelho, rejeitando constante­mente a palavra de salvação e até tentando dificultar-lhes a vida espiritual! Comigo também foi assim. Ai de mim se fosse esperar meu pai decidir sobre o meu futuro espiritual. Não sei onde estaria hoje. É claro que os pais têm grande influência na formação espiritual dos filhos, mas o milagre da salvação é obra de Deus, e é pela graça que somos salvos (Ef 2:8, 9). É o Espírito Santo, o Consolador, quem convence o coração do pecado, da justiça e do juízo, como o próprio Senhor Jesus disse (Jo 16:7, 8). Paulo relatou aos gálatas que foi Deus quem lhe revelou seu Filho (Gl 1:15, 16). Assim, a salvação é uma revelação de Jesus Cristo em nossos corações, e não algo decidido somente pelos pais. Observe o que aconteceu com os filhos de Samuel, um profeta de Deus e um homem íntegro, como pode ser observado em 1 Samuel 3:19 e 12:3. Apesar da integridade do pai, a Bíblia diz que seus filhos não andaram pelos caminhos dele: “antes se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos e per­verteram o direito” (1 Sm 8:3). Veja os reis de Israel e Judá. A narrativa do Antigo Testamento revela que muitos deles foram ímpios e tiveram fi­lhos piedosos, enquanto outros foram piedosos e tiveram fi­lhos ímpios. Eis alguns exemplos: Abias foi mau (1 Rs 15:3), mas seu filho Asa “fez o que era reto perante o SENHOR” (1 Rs 15:11). Jotão “fez o que era reto perante o SENHOR” (2 Rs.15:34), porém Acaz, seu filho, “não fez o que era reto perante o SENHOR” (2 Rs 16:2). Jeosafá agradou a Deus (2 Cr 17:1-4), enquanto Jeorão, seu filho, “fez o que era mau perante o SENHOR” (2 Cr 2 1:6). Assim, a seqüência de bondade ou maldade que deveria suceder na linhagem dos reis de Israel e Judá, de acordo com o que ensinam os pregadores da maldição de família simplesmente não aconteceu. A esses exemplos certamente não se poderia aplicar o provérbio: “Tal pai… tal filho”. Inspirado pelo Espírito Santo, Paulo escreveu aos irmãos de Corinto, na sua primeira carta, uma palavra tremendamente elucidativa quanto a esta questão: “Ou não sabeis que os in­justos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1 Co 6:9-11; leia também Gl.5:17-21). Pode-se notar que Paulo não afirmou no versículo onze: “Mas haveis quebrado as maldições hereditárias, mas haveis pedido perdão pelos pecados dos antepassados” ou algo similar. Não, de modo algum, este não é o seu pensamento. Paulo afirma que aqueles que estiveram presos nos pecados ha­viam sido lavados, haviam sido santificados e justificados, sem qualquer necessidade de quebrar maldições dos antepassados. Cabem aqui algumas perguntas: Qual é a maior das maldições? Sem dúvida é estar fora de Cristo. Qual a maior das bênçãos? Certamente é o estar em Cristo. Como se elimina a maior das maldições? Introduzindo a maior das bênçãos. Os pregadores da maldição hereditária não deveriam pedir perdão pelos pecados da décima, nona, oitava ou de qualquer outra geração, mas deveriam, sim, pedir perdão pelos pecados de Adão e Eva, pois se houve brecha, foi ali, na queda do jardim do Éden, onde as maldições tiveram início. Ali está a raiz do problema. Isso, sim, seria um trabalho per­feito e completo. O leitor já imaginou se funcionasse? De repente, ninguém mais precisaria trabalhar para ganhar o pão, a mulher não sofreria mais ao dar à luz e os espinhos desapareceriam da Terra. É claro que não funciona, pois tal ensino não tem base na Palavra de Deus. TEXTOS MAL INTERPRETADOS Espíritos Familiares Para defender o ensino da maldição hereditária, seus prega­dores usam a expressão “espíritos familiares”, tradução de Levítico 19:31 e de outras passagens na Bíblia em inglês do Rei Tiago (King James Version). Observe o comentário de Marilyn Hickey quanto a isso: O que são “espíritos familiares”? São maus espíritos decaídos que se tornaram familiares numa família. Eles a seguem, com suas fraquezas — pecado físico, mental, emocional — por todo caminho, atacando e tentando cada membro seu naqueles aspectos, pois estão cientes de suas inclinações. “Marilyn, como é que você sabe disso?” Porque o Antigo Testamento fala acerca dos “espíritos familiares” (Versão King James). Usando o mesmo argumento, um certo autor comenta: Nas traduções em português, usamos as palavras necromantes, adivinhadores e feiticeiros. Mas em inglês usa-se o termo espíritos “familiares” e é esta a base bíblica que temos para demonstrar que estes espíritos de adivinhação, necromancia e feitiçaria passam de geração em geração. Há um acompanhamento, por parte destes demônios, sobre as famílias. E eles transmitem os mesmos vícios, comportamentos e atitudes de que temos falado. Defender um ensino controvertido com base na tradução de uma Bíblia em inglês (Versão do Rei Tiago) é algo inaceitável à luz da hermenêutica e da exegese bíblica. É preciso ter em mente que a Bíblia Sagrada não foi escrita em inglês. Para se entender o texto bíblico, é necessário que se faça a tradução e interpretação com base na língua em que ele foi escrito. No caso do Antigo Testamento, o hebraico, e não o inglês. Ao afirmar: “Mas em inglês se usa o termo espíritos familiares, e é esta a base bíblica que temos para demonstrar que estes espíritos de adivinhação, necromancia e feitiçaria passam de geração em geração”, o autor demonstra exata­mente o contrário: não ter base bíblica para tal ensino. Robert L.Alden, Ph.D., professor do Velho Testamento no Seminário Teológico Batista Conservador de Denver, Estado do Cobrado, nos Estados Unidos, esclarece: A palavra ‘ob aparentemente se refere àqueles que consultavam os espíritos, pois 1 Samuel 28 descreve alguém assim em ação. A famosa “feiticeira” de Endor é uma ‘ob. Ao povo de Deus foi ordenado ficar longe de tais ocultistas (Levítico 19:31). A punição por se envolver com tais “médiuns” era morte por apedrejamento (Levítico 20:27). Naturalmente ‘ob é incluída na lista de abominações semelhantes em Deuteronômio 18:10,11. Todas essas ocupações têm a ver com o ocultismo. Isaías desconsidera estes “necromantes” e sugere, pela sua escolha de palavras, que os sons dos espíritos assim emitidos não são nada mais do que ventriloquismo: “os necromantes e os adivinhos que chilreiam e murmuram” (Isaías 8:19). É importante observar ainda que a Septuaginta (a versão grega do Antigo Testamento) emprega o termo eggastrímithoi (ventríloquo) para traduzir a palavra ‘ob de Levítico 19:31. A Bíblia informa em 1 Samuel 28:3 que Saul havia banido de Israel os adivinhos e os encantadores e não os espíritos familiares. Assim, a palavra hebraica ‘ob significa o “vaso” ou instrumento dos espíritos, portanto o médium ou necromante, conforme aparece na maioria das traduções da Bíblia, não oferecendo tal vocábulo base para quebra de maldições hereditárias na vida do cristão. A crença de que a violência é provocada por espíritos familiares também não tem base bíblica. O apóstolo Paulo foi um homem violento. A Bíblia diz que “Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas, e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8:3). O apóstolo João, antes de se tornar o discípulo do amor, não hesitava em dar vazão à sua ira. Certa vez ele chegou a desejar que caísse fogo do céu para consumir os samaritanos que se recusaram a receber Jesus (Lc 9:52-54). Como abandonou Paulo sua violência e João deixou de ter um espírito ou temperamento vingativo? Sem dúvida, através da conversão e do viver com Cristo foi que eles foram transformados e libertos, e não através da quebra de maldição de família, algo que nunca fez parte de seus escritos. ARVORE GENEALÓGICA Embora haja quem sugira às pessoas para que desenhem árvores genealógicas a fim de facilitar a quebra das maldições, tal prática não encontra apoio na Bíblia. É verdade que encontramos genealogias nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, as quais tinham a intenção de apresentar a linhagem de Jesus como o Messias de Israel. Não há, depois disso, em todo o Novo Testamento, preocupação com tal ensino. Ao contrário, o apóstolo Paulo até recomendou a Timóteo e a Tito que não se envolvessem com esse assunto (1 Tm 1:4 e Tt 3:9). Os mórmons, sim, na tentativa de resolver os problemas espirituais de seus falecidos através do batismo pelos mortos (uma prática antibíblíca), gastam muito tempo e dinheiro com genealogias, contrariando assim as Escrituras Sagradas. Há os que dizem que devemos pedir perdão pelos pecados de P. C. Farias e de políticos acusados como corruptos. Outros estão sugerindo que, ao se encontrar uma pessoa negra na rua, deve-se chegar a ela e pedir perdão pelos pecados dos que promoveram a escravidão no Brasil. Há até aqueles que afir­mam que os carros roubados no Brasil e levados ao Paraguai são uma maneira de Deus fazer os brasileiros pagarem aos paraguaios pelo mal que lhes fizeram em guerras passadas. Que absurdo! Os que isto sugerem gostam de citar as orações de Esdras (capítulo nove), Neemias (capítulo nove) e Daniel (capítulo nove), em que eles fizeram confissão a Deus, citando os pecados de seus antepassados. Sabemos que as bênçãos do anti­go pacto eram condicionadas à obediência do povo de Israel. Quando desobedecia, as maldições de Deus vinham sobre ele. Esdras, Neemias e Daniel de fato reconheceram o pecado de seus antepassados, mas pediram perdão pelos pecados do presente, da geração atual. Embora seja possível alguém sofrer as conseqüências dos pecados de terceiros, o mesmo não acontece com a culpa. A Palavra de Deus não culpa ninguém pelos pecados dos outros. A Bíblia em nenhum lugar ensina a interceder por quem já morreu, uma vez que após a morte segue-se o juízo, não oração ou pedido de perdão pelos mortos (Hb 9:27). É preciso lembrar ainda que, à luz da Bíblia, ninguém pode se arrepender por outra pessoa. O arrependimento é algo pessoal, que se faz diante de Deus. A idéia de que “temos que até interceder, pedir perdão por pecados que aqueles antepassados cometeram, e quebrar os pactos que fizeram”, contradiz a Palavra de Deus, que afirma: “Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14:12). PROVÉRBIOS 26:2 Eis aqui outro texto freqüentemente mal usado pelos prega­dores da maldição de família. Allen P Ross comenta que era comum acreditar que as bênçãos e as maldições tinham existência objetiva — uma vez proferidas, produziam efeito. Ele acrescenta: “As Escrituras esclarecem que o poder de amaldiçoar e de abençoar depende do poder daquele que está por trás dele (por exemplo, Balaão não pôde amaldiçoar o que Deus havia abençoado; Nm 22:38 e 23:8). Este provérbio re­alça a correção da superstição. A Palavra do Senhor é pode­rosa porque é a Palavra do Senhor — ele a cumprirá”.12 Nota-se então que não existe base para se usar tal texto a fim de defender a transferência de maldições de geração em geração. MALDIÇÃO DE NOMES PRÓPRIOS É o que ensina o livro Bênção e Maldição quando afirma: A verdade é que há nomes próprios que estão carregados de mal­dição —já trazem prognóstico negativo (…) Por isso não convém dar aos nossos filhos nomes que tenham conotação negativa, que expressem derrota, tristeza, dureza: Maria das Dores, Mara (amargura), Dolores (dor e pesar), Adriana (deusa das trevas), Cláudio (coxo, aleijado), Piedade, Aparecida (sem origem, que não se sabe de onde veio). Este é mais um ensino que vem acrescentar cargas desnecessárias sobre os crentes que passam a acreditar nele. Existem muitas pessoas hoje vivendo preocupadas devido ao nome que receberam ao nascer, algo sobre o que não tiveram controle e nem escolha. E, de novo, não há base bíblica para isso. É verdade que há na Bíblia alguns nomes de pessoas que corresponderam às suas personalidades e às circunstâncias em que viveram. O próprio Deus mudou o nome de Abrão para Abraão, que significa “pai de uma grande multidão”. (“A mudança de Abrão para Abraão teve por fim reforçar a raiz da segunda sílaba para dar maior ênfase à idéia de exaltação”, J. D. Davis, Dicionário da Bíblia, p. 11.) Jacó significa “usurpador”, e ele assim se comportou por um bom período de sua vida, O legislador de Israel recebeu o nome de Moisés por que foi salvo das águas. Contudo, não se pode criar uma regra baseada em tais exemplos pelas razões que veremos em seguida. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas ímpias com nomes de bons significados, enquanto outras são boas, mas com nomes de significados nada recomendáveis. Veja o caso de Abias, que quer dizer “Jeová é pai”, filho de Samuel, um homem de Deus. Apesar de ter um bom nome e um bom pai, a Bíblia diz que ele não andou nos caminhos de Samuel e se corrompeu (1 Sm 8:3). Já Absalão quer dizer “pai da paz”. Embora tendo um nome tão pacífico, ele tentou usurpar o trono de seu pai Davi, teve uma vida turbulenta e morreu de forma trágica (2 Sm.3:3; 13-19). Daniel e seus amigos tiveram os nomes mudados pelo rei de Babilônia (Dn 1:7). Mesmo depois de receberem nomes ligados a deuses pagãos, isso não impediu que desfrutassem da bênção de Deus e permanecessem firmes na fé em Jeová. Logo, pode-se notar que o nome não influiu em nada. Judas quer dizer “louvor”, um significado muito piedoso, mas isso não impediu que ele traísse o Senhor (Mt 26:48,49). Por outro lado, um outro Judas foi fiel e deixou uma carta es­crita no Novo Testamento. Bar-Jesus é um nome fantástico, que quer dizer “filho de Jesus”. Apesar do nome, ele era um mágico, um falso profe­ta, e resistiu a Paulo quando este pregava ao procônsul Sér­gio Paulo (At 13). Apenas o nome não faz o homem. Se fizes­se, as prisões no Brasil não estariam cheias de presidiários chamados de Abel, Moisés, Isaías, Daniel, Pedro, Lucas, Pau­lo e outros nomes bíblicos. Há também homens e mulheres na Bíblia que serviram a Deus fielmente e foram vencedores na fé cristã, apesar dos nomes que tiveram com significados nada recomendáveis. Apolo foi um homem de Deus, poderoso nas Escrituras (At 18:24-28), mas seu nome significa “destruidor”. Hermes é um dos irmãos a quem Paulo envia saudações cristãs (Rm 16:14), porém seu nome é de um deus mitológico. O interessante é que Paulo nunca instruiu esses irmãos para que fizessem oração de renúncia pelos nomes que pos­suíam, pois eles terão um novo nome no céu (Ap 2:17). Alguns crentes até dão testemunho em público depois de pensar que foram bem-sucedidos ao amaldiçoar uma pessoa, uma empresa ou organização. Contam, por exemplo, que por não terem sido bem servidos num restaurante, o amaldiçoa­ram e o restaurante faliu. A Bíblia, porém, ensina que o cris­tão não deve amaldiçoar, mas, sim, abençoar. Ouçamos o conselho de Paulo: “Abençoai, e não amaldiçoeis” (Rm 12:14). Alguns têm dito que a quebra das maldições hereditárias é bíblica, já que deu certo ou funcionou para um ou outro. O fato de ter dado certo não quer dizer que seja bíblica. Há mui­ta coisa que funciona no espiritismo, na umbanda e na Ciência Cristã que nem por isso é bíblica. Geralmente, as distorções no seio da Igreja são muitas vezes baseadas apenas nas experiências, no subjetivo. Ora, não importa quão maravilhosa tenha sido a experiência; se ela contradiz as Escrituras e não tem base na Palavra de Deus, deve ser rejeitada, prevalecendo somente a Bíblia Sagrada, única regra de fé e prática para o cristão. PODE UM CRISTÃO TER DEMÔNIOS? Um dos temas mais polêmicos que a batalha espiritual tem gerado é se um cristão pode ter demônios. Muitos ministérios de libertação incluíram algum ritual para expulsar demônios de crentes em seus programas e isso tem acontecido em simpósios de batalha espiritual em muitas igrejas. Alguns teólogos também passaram, nos últimos anos, a aderir a tal posição e muitos deles reconhecem que o assunto é controvertido. De qualquer forma, a Bíblia Sagrada tem a palavra final sobre esta questão ou sobre qualquer outro assunto relacionado com a vida espiritual e o cristão. Merrill F. Unger, um autor lido e seguido por várias pessoas que hoje desenvolvem ministérios de libertação espiritual no Brasil, reconhece a dificuldade de se tratar do assunto, ao declarar: A verdade da questão é que as Escrituras em nenhum lugar declaram que um verdadeiro crente não pode ser invadido por Satanás ou seus demônios. Naturalmente, a doutrina deve sempre ter precedência sobre a experiência. Nem pode a experiência jamais oferecer base para a interpretação bíblica. Apesar disso, se experiências consistentes chocam com uma interpretação, a única conclusão possível é de que há alguma coisa errada, ou com a própria experiência ou com a interpretação da Escritura que vai contra ela. Certamente a Palavra inspirada de Deus nunca contradiz a experiência válida. Aquele que procura a verdade com sinceridade deve estar preparado para consertar sua interpretação a fim de traze­la em conformidade com os fatos como eles são. Unger já ensinou e escreveu, no passado, que somente os incrédulos estão sujeitos a endemoninhamento ou possessão demoníaca. Mais tarde ele mudou de idéia, e diz por que: Em Biblical Demonology (Demonologia Bíblica), publicado primeiramente em 1952, a posição tomada era de que somente os incrédulos são expostos ao endemoninhamento. Mas, através dos anos, várias cartas e relatórios de casos de invasão demoníaca de crentes têm chegado a mim de missionários em várias partes do mundo. Como resultado, em meu estudo sobre a explosão atual do ocultismo intitulado Demons in the World Today (Demônios no Mundo de Hoje), que apareceu em 1971, a confissão é feita livre­mente de que a posição tomada no Biblical Demonology (Demonologia Bíblica) “foi assim entendida, pois a Escritura não resolve claramente a questão”. Há alguns problemas com as declarações de Unger. Primeiro, ele diz que a Bíblia não afirma com clareza que um cristão não pode ser invadido por demônios. Ora, se a Bíblia não diz isso com clareza (o que não é verdade), como pode alguém então afirmar e ensinar sobre aquilo que não está claro na Palavra de Deus? Seria o mesmo que tentar ensinar escrever sobre o sexo dos anjos quando a Bíblia nada fala a questão. Se a Bíblia não é clara sobre a possessão de crentes, como pode alguém desenvolver então, biblicamente, uma prática de expulsar demônios de crentes? Simplesmente ­impossível. Pode-se perceber também que Unger, que no passado ensinava que crentes não podiam ficar possessos, depois mudou de posição. A mudança veio não pela avaliação bíblica, mas, como ele mesmo conta, através de cartas e relatórios de missionários baseados em experiências dos campos de missões. Mas Unger não está só ao basear a possessão de crentes em experiências e não na Bíblia. Veja a opinião de Bill Subbritzky sobre o assunto: “Pode um cristão ter demônios? A resposta é enfaticamente sim! Se você tem sido informado de que isso não acontece, continue lendo e deixe o Espírito Santo guiá-lo nesta questão. Estou ciente do muito que se tem ensinado a respeito de os cristãos não poderem ter demônios. Contudo, através de minha experiência no ministério há quatorze anos, constatei que tal opinião é totalmente incorre­ta”. Uma autora no Brasil demonstra ter também opinião semelhante ao declarar: Muitos defendem que, uma vez que o crente é habitação do Espírito (1 Coríntios 6:19), torna-se impossível um demônio habitar onde o Espírito habita (…) o fato de o nosso corpo ter-se tornado o templo do Espírito Santo não quer dizer que jamais poderá ser ocupado por maus espíritos. Não deveria, mas é possível (…) To­dos quantos se envolvem no ministério de libertação testemunham a manifestação de demônios em cristãos. Certa líder na área da batalha espiritual segue a mesma linha desses autores e conclui: Se partirmos do pressuposto de que os crentes não podem ter demônios ou não podem ficar endemoninhados, corremos o risco de deixar muitos crentes opressos dentro da igreja, vivendo uma vida de grande prisão, mornidão, com uma dificuldade tremenda para crescer. Afinal, o inimigo deseja uma vida cristã medíocre. E aqui é preciso esclarecer a questão da terminologia usada. De acordo com dezenas de estudiosos do grego, daimonozomenai significa “ter demônios” e é melhor traduzido pela palavra “endemoninhado”, nunca possesso, pois no Novo Testamento não vemos o uso do termo (…) Endemoninhado tem um significado lato, indicando o estado da pessoa que tenha um demônio ou até muitos demônios perturbando ou oprimindo sua vida. Quanto ao local onde ele fica, não é o mais importante. Ele pode ficar no corpo, fora do corpo, na alma da pessoa.”(Neuza Etioka). Dois outros autores norte-americanos, John e Paula Sanford, acrescentam também: Há aqueles que crêem que o cristão cheio do Espírito Santo não pode ser ocupado pelo poder demoníaco. Temos descoberto que isto não é um fato histórico, ainda que a teologia diga que o Espírito Santo e os demônios não podem habitar a mesma área. E o que tem acontecido. Temos expulsado demônios de centenas de crentes cheios do Espírito Santo, alguns deles não apenas cheios do Espí­rito Santo, mas poderosos servos do Senhor! Como isso acontece eu não posso explicar, mas tem sido para nós um fato incontestável de muitos anos de experiência exaustiva.’ Este é o segundo problema de Unger e é também o problema dos demais autores aqui mencionados: experiência, experiência, experiência. Na última citação, os autores até informam que nem sabem explicar como pode acontecer a expulsão de demônios de crentes, mas continuam levando tal prática adiante. CRENTES NÃO FICAM POSSESSOS Não creio na possessão demoníaca em crentes, pelas seguintes razões bíblicas: 1o – razão: o crente é santuário do Espírito Santo. “Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.” (1 Co 6:19, 20.) O Espírito Santo não é um visitante esporádico na vida do crente. É morador definitivo, e não se ausenta de sua morada. Paulo garante que não há possibilidade de convivência entre Cristo (Rm 8:9) e o maligno (Ef 2:2.) “Que harmonia entre Cristo e o maligno?” (2 Co 6:15.) 2o – razão: o Espírito Santo é zeloso pelo seu santuário. “Ou supondes que em vão afirma a Escritura: Ë com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em n6s?” (Tg 4:5.). O Espírito Santo é a pessoa da trindade santa para a qual Jesus mais reivindicou o nosso cuidado na análise de fatos ou no evitar de palavras precipitadas. “Por isso vos declaro: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito ‘Santo não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas se alguëm falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir.” (Mt 12:31, 32.) Atribuir as obras de Jesus ao poder de Belzebu, o maioral dos demônios, já era pecado e blasfêmia contra o Espírito Santo, que estava sobre Jesus (Lc 4:18, 19), pois o Espírito Santo não pode ser veículo usado por Satanás. Diante de tal santidade e zelo será possível admitirmos que o Espírito Santo permitiria a entrada de força maligna em seu santuário? Louvado seja o seu nome porque ele não permite. 3o – razão: o crente é propriedade de Deus. É maravilhosa a declaração, de Paulo em Efésios 1:13, 14: “Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória.” No verso 14, os crentes são chamados de “propriedade de Deus”. O sublime de tudo isto é que o Espírito Santo é o “penhor” da nossa ressurreição futura, ou seja, a garantia de que não estamos órfãos (Jo 14:18) e de que seremos transformados na ressurreição (1 Co 15:52.). A presença do Espírito Santo em nós é a garantia de que somos propriedade de Deus. “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” (1 Pe 2:9.) A propriedade é exclusiva. Essa “propriedade” não será loteada e vendida ao diabo. 4o – razão: Jesus é o valente que tomou posse da propriedade. “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos. (Lc 11:21, 22.)”. O Senhor Jesus veio ao mundo “para destruir as obras do diabo.” (1 Jo 3:8.) Jesus me fascinou pela sua valentia e coragem diante da cruz. Essa valentia é a mesma no que diz respeito a guardar os seus filhos das investidas do diabo na tentativa de possuí-los. Jesus é o Senhor absoluto de sua casa (1 Pe 2:5) e de seu tabernáculo (2 Co 5:1), que são os nossos corpos. 5o – razão: O Espírito Santo intercede pelos crentes em suas fraquezas. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8:26.) É porque o Espírito Santo perscruta até mesmo as profundezas de Deus que Ele pode interceder por nós de acordo com a vontade perfeita do profundo e humanamente insondável coração de Deus. “Porque, qual dos homens sabe as cousas do homem, senão o seu próprio espírito que nele está? Assim também as cousas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.” (1 Co 2:11.) Davi invocava o Espírito Santo para ajudá-lo a viver na perfeita vontade de Deus. “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano”.(Sl. 143:10.)! O cristão não é um super-homem, mas é superprotegido graças à intercessão do Espírito Santo nas horas de maior fraqueza e necessidade. 6o – razão: O imutável amor de Crista garante a segurança. “Em todas estas cousas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem cousas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 8:37-39.) O que nos dá segurança é o fato de o amor ser o de Cristo Jesus. Seu amor é sublime e leal, “é forte como a morte” (Ct 8:6) e a sua fidelidade está para além da fidelidade do crente, porque “se somos infi6is, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”. (2 Tm 2:13.) “Bem-aventurado o homem que confia no amor de Cristo por sua vida. A promessa para ele é: “O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol, nem de noite a lua, O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre.” (Si 121:5-7.) O crente jamais será esquecido pelo amado Senhor Jesus, pois o seu nome está nas palmas de Sua mão. “Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim.”(Is 49:15, 16.) O crente pode reivindicar todas as promessas da Palavra de Deus, “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus, por nosso intermédio” (2 Co 1:20.) Um filho de Deus jamais ficará possesso por espíritos malignos. Esta é a confiança. (Este estudo foi extraído dos seguintes livros: “Evangélicos em Crise; Pr. Paulo Romeiro; Principados e Potestades. Recomendamos a leitura de ambos).

Maldição Hereditária

Não são poucos os grupos evangélicos que creem na chamada “maldição hereditária”. A ideia é a seguinte: os pais têm o poder de amaldiçoar os filhos, sejam através de suas palavras ou de suas atitudes pecaminosas, e os pecados dos pais são inevitavelmente herdados pelos filhos. Associada a esta ideia, está a crença na quebra de maldições: é preciso repreender o “espírito da prostituição”, o “espírito do adultério”, o “espírito homicida”, o “espírito da pobreza material”, etc. Para que as maldições de nossos ancestrais sejam quebradas, é preciso repreendê-las com palavras de fé. O objetivo do presente estudo é analisar o conceito de maldição hereditária, tecendo algumas observações a respeito das passagens bíblicas normalmente utilizadas para fundamentar essa doutrina. Também observaremos algumas passagens bíblicas que nitidamente contradizem tal conceito. Não almejamos, com isso, despeitar as igrejas evangélicas que creem na maldição hereditária. Reconhecemos que nossas diferenças teológicas não podem impedir o respeito mútuo e o amor fraternal. O conceito de “maldição hereditária” no cenário evangélico No cenário teológico brasileiro, o conceito de maldição hereditária foi amplamente popularizado pelo livro Bênção e Maldição, de Jorge Linhares[1]. Há outros livros e materiais, mas nos centraremos em Benção e Maldição, por ter sido escrito por um dos principais expoentes dessa doutrina. Segundo Jorge Linhares, a maldição “é a autorização dada ao diabo por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado… A maldição é a prova mais contundente do poder que têm as palavras.”[2] As palavras tem o poder de determinar o comportamento de outras pessoas. Linhares relata que um rapaz se tornou homossexual porque seu pai o amaldiçoou; a maldição foi chamar o filho de “mulherzinha”.[3] Supostamente existe uma “cadeia de maldição” transmitida hereditariamente, e que precisa ser quebrada num ritual de libertação. Todo o argumento de Linhares é construído a partir de experiências, seguindo o método indutivo, mas elaborado pela perigosa lógica do “depois disso, logo, por causa disso”. Esse tipo de argumentação é muito comum, no meio popular e religioso.[4] Exemplo: se tomei café, e logo depois sofro uma dor de cabeça, a causa da dor é o café; se passo diante de um gato preto, e logo depois tropeço, a causa do tropeço foi a má sorte produzida pelo felino; se passo debaixo de uma escada, e sofro um acidente, a causa do acidente foi o passar debaixo da escada; se fico doente, e não estou indo à igreja, a causa da doença é minha ausência aos cultos. Mas, muitos e muitos passam diante de um gato preto e debaixo de uma escada, e nada lhes acontece; muitos são completamente displicentes em relação às atividades da igreja, e não ficam doentes. Lembro-me aqui da fábula relatada por Rubens Alves: um agricultor achava que o sol nasce porque o galo canta, afinal, todos os dias depois do canto do galo, o sol nasce; mas um dia o galo morreu, e o sol continuou a nascer. É possível que um rapaz se torne homossexual porque seu pai o chamava de “mulherzinha”. É possível que um adulto seja preguiçoso porque, quando criança, seus pais o chamavam de vagabundo. Mas isso não tem nada a ver com maldição. É o efeito natural que as palavras podem produzir. Além disto, é preciso considerar que muitas crianças sofrem de violência verbal quando crianças (e até mesmo violência física), mas quando adultas, tornam-se pessoas de bom comportamento, trabalhadoras e honestas. Jorge Linhares crê que a hereditariedade espiritual é o que determina comportamentos. Por exemplo, o alcoolismo: “a história do filho repete a do pai; o avô era alcoólatra e o bisavô também.”[5] No entanto, há muitas pessoas que não são alcoólatras, ainda que seus pais sejam; e há tantos alcoólatras cujos pais nunca se embriagaram. Outro problema é atribuir às palavras certo poder mágico. Concordo com o autor, quando diz que “As palavras têm o poder de encorajar ou abater as pessoas”[6]. O problema é afirmar que “nossas palavras podem alimentar ou anular a ação de Satanás”[7]. Linhares diz o seguinte: “Prognósticos negativos são responsáveis por desvios sensíveis no curso da vida de muitas pessoas, levando-as a viver completamente fora dos propósitos de Deus.”[8] Por outro lado: “Palavras positivas, amorosas, de fé, de confiança em Deus, liberam o poder divino para desfazer a opressão, pois Jesus veio para ‘destruir as obras do diabo (1Jo 3.8).”[9] Encontramos aqui a crença na “confissão positiva”. Mas o próprio autor cita 1Jo 3.8, onde se diz que Jesus destruiu as “obras do diabo”. Portanto, não são as palavras positivas que destroem as “obras do diabo”, mas sim o Filho de Deus. O conceito de “confissão positiva” também pode ser observado nessa experiência narrada por Linhares: “Na frente de minha casa havia nascido um pé de abóbora entre pedras de construção. Então declarei com certo desdém: ‘Eu te abençôo, ó pé de abóbora, e vamos ver o que acontece’. Meses depois havia abóboras em profusão, e de bom tamanho. Conclusão: ‘funciona até com abóboras’.”[10]. Isaltino Gomes responde: “Ora, se assim é, estas pessoas com palavras mágicas podem eliminar a fome do país.”[11] Bastariam algumas palavras, e todas as crises do nosso país seriam resolvidas. Jorge Linhares também crê que as maldições precisam ser quebradas. Ele relata que comprou um carro e atropelou três animais em cada uma das viagens que realizou. Na primeira viagem, atropelou um cachorro, noutra um coelho e na terceira um pássaro. Então o Espírito Santo lhe disse o seguinte: “Você já repreendeu as maldições que porventura possam estar sobre esse carro? Não sabe que pessoas amaldiçoadas e infiéis participaram de seu projeto e fabricação? Não percebeu que em tantos anos, desde que você aprendeu sobre essa questão de bênção e maldição, você não costumava atropelar animais; e nem com outro carro? Esse é o primeiro”.[12] No meu caso, já tive vários carros, não quebrei nenhuma maldição sobre eles, e somente uma vez acidentalmente atropelei um cachorro. Para evitar acidentes, é bem mais recomendável dirigir com prudência e periodicamente fazer a manutenção do carro do que quebrar maldições. Se não procedermos com prudência, os acidentes ocorrerão, com ou sem a quebra de maldições. Até aqui, analisamos o conceito de maldição hereditária, e já apontamos algumas de suas deficiências. Não usamos as Escrituras, ainda. A partir de um pouco de raciocínio lógico, pudemos notar as falhas desse conceito. Mas, afinal, a doutrina da maldição hereditária pode ser solidamente respaldada nas Escrituras? Vejamos. A maldição no Antigo Testamento Gênesis 9.25-26: disse: “Maldito seja Canaã! Escravo de escravos será para os seus irmãos”. Disse ainda: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem! Seja Canaã seu escravo. Gênesis 9.25-27 narra a maldição de Noé sobre seu filho Cam. Então, surge uma questão: os pais tem poder para amaldiçoar os filhos? Três observações importantes a respeito dessa passagem bíblica: Encontramos aqui o conceito fortemente presente no Antigo Testamento: a solidariedade corporativa.[13] Todos aqueles que se originaram de um ancestral comum recebiam os méritos (bênção) e os deméritos (maldição) desse ancestral comum. Cam não honrou seu pai (veja Êx 20.12), por isso seus descendentes (canaanitas) foram amaldiçoados. Para a interpretação desse texto e de todos os demais textos do Antigo Testamento que falam sobre maldição, é preciso considerá-los como parte de um estágio específico da revelação de Deus no contexto da história da salvação. A história da salvação e o processo da revelação divina atingiram o seu ápice com Cristo (Hb 1.1). Portanto, não é o Antigo Testamento que interpreta o Novo Testamento, mas é o Novo Testamento que interpreta o Antigo Testamento. Além disto, não temos nenhuma passagem do Novo Testamento (nem do Antigo Testamento!) que autoriza os pais a amaldiçoarem os filhos. Ao que parece, a maldição de Noé sobre Cam é um caso único na Bíblia. De acordo com uma das regras fundamentais da hermenêutica (interpretação bíblica), não podemos elaborar uma doutrina sob um único texto bíblico. Mesmo na antiga aliança, os canaanitas amaldiçoados por Noé poderiam ser livres da maldição. Lembremos que Raabe era canaanita! Através dela, Deus trouxe o Salvador ao mundo (Mt 1.5). Raabe não precisou passar por um ritual de libertação para ser salva. Ela simplesmente creu no Deus de Israel, e sua fé foi suficiente para que ela fosse completamente livre da maldição de Noé. Êxodo 20.5-6: Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos. Esse é um texto corriqueiramente usado para fundamentar a maldição hereditária. No entanto, é preciso compreendê-lo adequadamente. O v.5 precisa ser compreendido à luz do v.6. No v.5, o texto bíblico afirma que Deus castiga “os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração”. Mas é preciso considerar também o v.6: “trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos”. Os proponentes da maldição hereditária creem que Deus pode abençoar os filhos dos pais crentes por mil gerações? Certamente não. É claro que não estou dizendo que Deus não abençoa os filhos daqueles que temem ao Senhor. Mas ninguém ousaria dizer que, pelo fato de eu ser crente fiel, as próximas mil gerações de minha família serão abençoadas. É preciso observar que o texto apresenta uma linguagem figurada. No v.6, lemos uma hipérbole, uma figura que expressa exagero. O sentido do v.6 é esse: Deus tem grande alegria em abençoar. O v.5 afirma que Deus castiga os pecados dos pais até a “terceira geração”. Comentando a expressão do v.5 (“até a terceira geração”), Isaltino Gomes afirma: “É um idiomatismo hebraico para designar algo intenso e longo e não algo que se perpetua, de pai para filho”.[14] Em linguagem figurada, os v.5-6 dizem o seguinte: Deus pune até a “terceira geração”, mas manifesta seu amor até “mil gerações”. O sentido é esse: o prazer de Deus não é punir, mas sim manifestar sua bondade. Portanto, o texto nada fala de maldição hereditária. Deuteronômio 11.26-28: Prestem atenção! Hoje estou pondo diante de vocês a bênção e a maldição. Vocês terão bênção, se obedecerem aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, que hoje lhes estou dando; mas terão maldição, se desobedecerem aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, e se afastarem do caminho que hoje lhes ordeno, para seguir deuses desconhecidos. (NVI) O Senhor colocou diante de Israel a bênção e a maldição. Bênção, se Israel obedece à lei; maldição, caso desobedece. Um ponto importante é que as bênçãos e maldições no livro de Deuteronômio estão no contexto da aliança mosaica, que pronunciava diretrizes voltadas especificamente para o Israel que habitaria na Terra Prometida. É o que lemos em Dt 11.31-32: Vocês estão a ponto de atravessar o Jordão e de tomar posse da terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando. Quando vocês a tiverem conquistado e estiverem vivendo ali, tenham o cuidado de obedecer a todos os decretos e ordenanças que hoje estou dando a vocês. (NVI) Outro trecho de Deuteronômio, o capítulo 28, declara que a maldição viria sobre Israel na forma de exílios (v.36, 49-57, 64-65), escravidão (v.32), pestes e enfermidades (v.21-22), secas (v.23-24), carestia (v.38). A razão da maldição é muito bem explicada no v.45: “Todas essas maldições cairão sobre vocês. Elas o perseguirão e o alcançarão até que sejam destruídos, porque não obedeceram ao Senhor, ao seu Deus, nem guardaram os mandamentos e decretos que ele lhes deu.” (NVI). Tais maldições precisam ser compreendidas no contexto da antiga aliança mosaica. Israel era a nação com quem Deus havia feito uma aliança, e, através dessa nação eleita, Javé iria trazer ao mundo o Messias salvador. No contexto da história da salvação, Deus deu a terra de Canaã como herança para Israel, pois seria ali naquela terra que o Messias haveria de nascer. E, enquanto usufruísse da terra prometida, e como nação teocrática (dirigida pelas leis de Deus), Israel deveria obedecer todas as cláusulas apresentadas na aliança mosaica (incluindo as leis cerimoniais, como os sacrifícios e as festas religiosas). Entretanto, Cristo estabeleceu a nova aliança, e iniciou um novo estágio dentro da história da salvação. Agora, Deus não tem mais uma aliança com o Israel étnico, mas sim, com a igreja, o novo Israel de Deus. Assim sendo, as maldições de Deuteronômio 28 não são aplicadas à igreja, já que não moramos na terra de Israel, e a terra prometida do Antigo Testamento anunciava tipologicamente os novos céus e a nova terra, conforme lemos em Hebreus 3 – 4. Na nova aliança, Deus não traz secas ou fomes sobre nações, na forma de maldição. Imagine se, nos dias de hoje, Deus amaldiçoasse as nações rebeldes (incluindo as grandes potências europeias que hoje são pós-cristãs) com exílios, secas ou pestes! Portanto, as maldições de Deuteronômio 28 foram dirigidas especificamente para o Israel teocrático, e, na nova aliança, não se aplicam às nações ou a indivíduos. O ponto importante a ser notado é que, em caso de desobediência, as maldições viriam sobre Israel, fossem ou não pronunciadas. É verdade que elas seriam pronunciadas (Dt 11.29), mas viriam sobre Israel, mesmo se não fossem ditas. Quer dizer, em última instância, a maldição não era resultado de palavras mágicas proferidas, mas sim da desobediência à torah (“lei). A responsabilidade individual em Ezequiel 18 Ezequiel 18.1-4 apresenta uma afirmação, feita pelo próprio Deus, que frontalmente desafia o conceito de maldição hereditária: Esta palavra do Senhor veio a mim: “Que é que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: ” ‘Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’? “Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá. (NVI) O v.2 apresenta um provérbio: “’Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’?”. Deus está perguntando se esse provérbio é verdadeiro. A questão é: os filhos pagam pelos pecados dos pais? Nos v.3 e 4, Deus responde com um veemente não. O Senhor ordena para que esse provérbio não fosse mais citado, pois cada um precisa assumir a responsabilidade pelo pecado: “Aquele que pecar é que morrerá”. (v.4). Nos versos seguintes, o texto diz que a justiça do pai e a bênção que viria sobre ele não seriam transmitidas aos filhos (v.10-13), nem a injustiça do pai e o juízo que viriam sobre ele seriam transmitidos aos filhos (v.14-18). No v.20, o Senhor declara: “Aquele que pecar é que morrerá. O filho não levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada.” (NVI – ênfase acrescentada). Concordo com Isaltino Gomes: “Colocar a culpa de nossos atos errados e de nossas escolhas mal feitas em palavras ditas por alguém é cair na irresponsabilidade moral. Tomamos decisões, somos responsáveis pelo que fazemos. A culpa é nossa. Quando acertamos, o mérito é nosso.”[15] A maldição no Novo Testamento Antes de lermos os textos do Novo Testamento que se referem à maldição, precisamos entender que a obra de Cristo decretou o fim do poder de Satanás. É o que lemos em Mateus 12.29: “Ou como alguém pode entrar na casa do homem forte e levar dali seus bens, sem antes amarrá-lo? Só então poderá roubar a casa dele.” (NVI) Jesus estava sendo acusado pelos fariseus de expulsar os demônios pelo poder de Belzebu (chefe dos demônios). Respondendo a essa acusação, ele afirma que, na verdade, expulsava os demônios pelo poder do Espírito de Deus (v.28). Então o contexto de Mateus 12.29 nos permite afirmar que o diabo é o “homem forte” (“valente”) que foi amarrado por Cristo, e os “bens” saqueados por Cristo são as vidas resgatadas por Ele. Ou seja, não precisamos amarrar o diabo. Ele já está amarrado por Cristo. Mas o conceito de maldição hereditária crê que os crentes tem o poder de amarrar o diabo. Marilyn Hickey, ao dizer que as maldições precisam ser quebradas, afirma: “O diabo é o valente. O que temos de fazer a ele? Amarrá-lo. E depois? Nós lhe tomamos a casa – ou aquela geração! Nós dizemos: Ei, diabo, espere um minuto! A minha geração não pertence a você porque eu o amarrei em Nome de Jesus, e você não vai fazer isso! É isso que fazemos: Rompemos a maldição em Nome de Jesus.” Vamos amarrar o diabo, se Jesus já o amarrou? A obra de Cristo não foi suficiente? Na verdade, a obra de Cristo destruiu as obras do diabo (1Jo 3.8), e não é necessária nenhuma quebra de maldição. Vejamos alguns textos do Novo Testamento que fundamentam essa afirmação. Evangelho de João 8.32: e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (RA). No v.31, Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos”. Quer dizer, a “verdade” mencionada no v.32 é a “minha palavra” mencionada no v.31. A verdade é a Palavra de Deus. Além disto, no Evangelho de João, a “verdade” é o próprio Cristo (Jo 14.6). Cristo é a própria “Palavra” encarnada, o “Verbo” de Deus (João 1.1, 14). Ele é a expressão máxima da revelação de Deus. Então, o que Jesus está afirmando em João 8.32 é que aqueles que conhecem a Palavra de Deus (Cristo e Sua Palavra) serão libertos: “e conhecereis a verdade…”. O verbo “conhecer” é mais do que um conhecimento intelectual (embora inclua isto); trata-se de um conhecimento resultado de uma relação pessoal com Deus (Jo 17.3). Conhecer a Deus significa se relacionar pessoalmente com Ele. Então, o que liberta? Um ritual de libertação? Não! É preciso observar as duas frases. A primeira é: “e conhecereis a verdade”. A segunda é: “e a verdade vos libertará.” Quer dizer, para ser liberto, é preciso conhecer a Cristo e Sua Palavra (primeira frase), e é o próprio Cristo e Sua palavra que trarão libertação (segunda frase). Gálatas 3.13: Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”. (NVI). Paulo diz que aqueles que tentam se salvar pela prática da lei (mandamentos) “estão debaixo de maldição” (v.10). Na verdade, ninguém consegue observar todos os preceitos da lei, e, sendo assim, todos são amaldiçoados por ela. Pois a lei revela o pecado (Rm 7.7). A lei declara que todos nós somos pecadores e merecedores do juízo eterno. Não pode haver pior maldição do que a maldição da lei! No entanto, Cristo se fez maldição em nosso lugar. Ele assumiu o pecado julgado pela lei. E agora somos abençoados por Deus “em Jesus Cristo” (v.14; veja Ef 1.3). Portanto, a libertação da maldição é obra exclusiva de Cristo. Nota-se, portanto, que a maldição nada tem a ver com palavras que foram proferidas pelos pais aos filhos. Para o apóstolo Paulo, a maldição é a vida escravizada pelo jugo da lei. A pessoa maldita é aquela que tenta se salvar pela obediência à lei. Como ela jamais conseguirá obedecer todos os regulamentos da lei, inevitavelmente ela está condenada. 1João 4.4: Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. (NVI) O diabo é “aquele que está no mundo”, e Cristo é aquele “que está em vocês” (os salvos). Pelo poder de Cristo, os crentes já venceram o maligno. Somos “guardados em Cristo Jesus” (Jd 1). Portanto, Satanás não tem poder para causar dano nenhum aos salvos (veja Cl 2.15; Hb 2.14; 1Jo 5.18). Realmente não pode haver nenhuma maldição para aqueles que estão em Cristo Jesus. Avaliação do conceito de maldição hereditária Transcrevemos uma recomendação de Isaltino Gomes: “Utilizar as passagens do Antigo Testamento onde Deus amaldiçoa Israel por quebrar o pacto e transportá-las para nossos dias, é ignorar o ensino neotestamentário.”[16] Não encontramos uma única passagem do Novo Testamento que ensina a maldição hereditária. E mesmo as passagens do Antigo Testamento, quando interpretadas corretamente, não fundamentam essa doutrina. Em uma avalição final, o que podemos dizer a respeito da maldição hereditária? O conceito de maldição hereditária condiciona, erroneamente, a ação do diabo às palavras A ação de Satanás não precisa ser autorizada pelas palavras. O diabo age, independente de nossas palavras. O mundo jaz no maligno. (1Jo 5.19; Ef 4.27). O conceito de maldição hereditária diminui o poder da obra de Cristo De acordo com o Novo Testamento, toda a humanidade está debaixo da maldição do pecado. Não é necessário receber uma maldição dos ancestrais para estar amaldiçoado. Todos estão amaldiçoados, indistintamente. Uma pessoa não se torna maldita porque recebeu palavras de maldição dos pais. Toda pessoa já é maldita, por natureza. Teologicamente a maldição é resultado do pecado (Gn 3). Considerando que todos são pecadores (Sl 51.5; Rm 3.23), segue-se logicamente que todo ser humano nasce amaldiçoado. Então, existe sim maldição hereditária, mas só aquela que herdamos de Adão (veja Rm 5.12). Por outro lado, a maldição foi totalmente vencida pela obra consumada de Cristo. A maldição atingiu a raça humana a partir da Queda (Gn 3), e ainda é uma triste realidade no mundo atual. No entanto, chegará o dia em que a maldição será completamente vencida: “Já não haverá maldição nenhuma” (Ap 22.3). Conclusão Não existe nenhuma passagem bíblica que evidencia a maldição hereditária. A maldição que existe é aquela de Gênesis 3, resultante do pecado de Adão e Eva, que afetou drasticamente toda a humanidade. Mas a obra de Cristo é suficientemente poderosa para nos livrar de toda maldição. Não é necessária nenhuma quebra de maldição. Basta crer em Cristo. ______________________ [1] Jorge Linhares, Bênção e maldição: As palavras têm o poder muito maior do que você imagina! (2ª edição, Belo Horizonte: Editora Betânia, 1992). [2] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 16. [3] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 24. [4] Tal argumento também é utilizado por alguns acadêmicos, para sugerir explicações para fenômenos sociais, políticos e econômicos. [5] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 44. [6] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 10. [7] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 11. [8] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 16. [9] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 18. [10] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 40. [11] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção (texto sem fins comerciais). Disponível em http://www.isaltino.com.br/1999/01/maldicao-sobre-os-crentes-outra-invencao/. Acessado em 03.01.2016. [12] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 37. [13] Para aqueles que almejam entender o conceito de “solidariedade corporativa” no Antigo Testamento, recomendo a leitura do livro de Russel P. Shedd, A solidariedade da raça: o homem em Adão e em Cristo (São Paulo: Vida Nova, 1995). [14] Isaltino Gomes Coelho Filho, A atualidade dos dez mandamentos, Edição revista (São Paulo, Exudus, 1997), p. 51. [15] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção. [16] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção.