Divórcio Cristão

Vivenciar o divórcio pode ser uma das experiências mais estressantes e dilacerantes da vida das pessoas. Vivenciá-lo dentro da igreja, no entanto, pode ser ainda pior.
Isso porque muitos cristãos sinceros, infelizmente ainda não obtiveram o conhecimento bíblico correto sobre o assunto e, por causa disso, são reticentes na sua relação com irmãos divorciados.
Esse post tem como objetivo lançar alguma luz sobre a questão. Primeiramente, é preciso que nos lembremos de que "... a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo. 1.17).
A primeira pergunta que devemos nos fazer, portanto, é se os que vivem tragédias matrimoniais como o divórcio, por exemplo, também são dignos dessa "graça" e dessa "verdade" trazidas por Jesus. Creio que uma consciência cristã experiente tem a resposta certa para ela.
Um outro ponto importante é dizer que a Bíblia fala apenas de um divórcio, no texto de Jeremias 3:8, que diz o seguinte: "E vi que, por causa de tudo isto, por ter cometido adultério a rebelde Israel, a despedi, e lhe dei a sua carta de divórcio, que a aleivosa Judá, sua irmã, não temeu; mas se foi e também ela mesma se prostituiu".
Nesse texto, Deus está advertindo a Judá de que está procurando problemas. Ele, então, instruiu a Jeremias para que alertasse a Judá de que ela havia sido testemunha da infidelidade de sua irmã Israel, e que Ele a havia mandado embora e lhe dado carta de divórcio. Assim mesmo, Judá não se arrependeu (Jr. 3.6-8).

POR QUE A FALTA DE COMPREENSÃO SOBRE O DIVÓRCIO?

Quando Jesus foi questionado pelos fariseus, no evangelho segundo Marcos, "se é lícito ao marido repudiar sua mulher" ele respondeu, fazendo outra pergunta: "Que vos ordenou Moisés?"
A resposta deles foi: "Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar" (Mc. 10.2-4).
Essa resposta dada pelos fariseus se refere à lei à qual o historiador Josefo, que viveu um pouco depois da época de Jesus, chama de "a lei dos judeus", e se encontra em Deuteronômio 24.1-4.
Esta é a lei de que trata Deuteronômio: "Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável a seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem..." (Dt. 24.1-2).
Isso estava vigente na época de Jesus, mas a situação em que os homens judeus viviam era bem diferente, pois eles, na realidade, não a praticavam, e tomavam outras esposas, sem se incomodar em pensar em divórcio.
Ora se não se divorciava, o que fazia, então, um homem daquela época com a primeira esposa, quando tomava outra? Simplesmente, punha-a de lado, não lhe dando documento algum. Assim, caso se arrependesse, tinha a esposa anterior sempre à sua disposição! Isso era uma crueldade para com as mulheres, contra a qual Jesus se insurgiu.
A palavra hebraica, usada no Antigo Testamento, para descrever esse "pôr de lado" ao qual nos referimos é shalach, diferente da palavra que significa divórcio (como utilizada em Jeremias 3.8) que é keriythuwth que, literalmente significa excisão ou corte do vínculo matrimonial.
Ora, shalach normalmente é traduzido por "repudiar". Então, as mulheres que eram "colocadas de lado" por seus maridos, sem carta de divórcio como mandava a lei, eram "repudiadas" e era contra essa espécie de repúdio que Jesus se opôs.
Quando, em Lucas 16.18 ele diz: "Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério", ele está se revoltando contra uma prática cruel e injusta, porém não está se referindo ao divórcio.
Na verdade, no Novo Testamento, a palavra grega utilizada para "repúdio" vem do verbo apoluo, e é equivalente à palavra hebraica shalach ("deixar" ou "repudiar"). Já a palavra hebraica utilizada para "divórcio" é keriythuwth, cujo equivalente no grego (língua na qual foi escrito o Novo Testamento) é apostasion.
Resumindo, para ficar mais claro: shalach, no hebraico, corresponde a apoluo, no grego e significa "repúdio", em português. Keriythuwth, no hebraico, corresponde à palavra grega apostasion e significa "divórcio", de fato, em português. A não compreensão dessa diferença é que provoca tanta confusão e tanta incompreensão em nossos dias!

QUE PALAVRAS JESUS SE UTILIZOU PARA TRATAR DO ASSUNTO?

As passagens bíblicas nas quais Jesus tratou deste assunto incluem Lucas 16.17-18; Mateus 19.9, Marcos 10.10-12 e Mateus 5.32. Nessas passagens, Jesus utilizou onze vezes a palavra apoluo, em uma de suas formas e, em todas essas ocasiões, o que ele proibiu foi o apoluo, ou seja, o repúdio. Ele jamais proibiu apostasion, a carta de divórcio exigida pela lei judaica!
Isto posto, devemos traduzir a palavra grega apoluo por divórcio? A tradução Revista e Corrigida de Almeida, que é a mais antiga em língua portuguesa sempre usou "deixar" e "repudiar". Do mesmo modo, emprega essas mesmas palavras a Revista e Atualizada.
E Por Que As Pessoas Passaram a Ler Diferente?
Essa é uma pergunta sobre a qual vale a pena discorrer um pouco, pois, no meio evangélico, principalmente, começou-se a ler: "aquele que divorciar sua mulher" nas passagens em que Jesus, com muita clareza, disse: "aquele que repudiar ou abandonar sua mulher"!
Ao que tudo indica, esse equívoco começou em 1611, quando a rei Tiago encomendou a versão mais antiga e, hoje em dia, mais popular da língua inglesa (a chamada King James Version). Nessa edição ocorreu um problema: em uma das onze vezes que Jesus usou o termo, os tradutores escreveram "divorciada", ao invés de "abandonada" ou "repudiada".
Isso aconteceu em Mateus 5.32, onde eles colocaram: "E aquele que se casar com a divorciada comete adultério", embora a palavra grega não seja apostasion, mas uma forma de apoluo - situação que não inclui carta de divórcio para a mulher, pois ela, tecnicamente permaneceria casada.
A versão Standard Americana corrigiu o erro em 1901, mas nunca chegou a ser tão popular como a King James Version. Na verdade, tudo o que foi impresso depois (incluindo os léxicos gregos e americanos) foi influenciado por essa ocorrência. De onde resulta o fato incontestável de que a tradição nos ensinou a ter em mente "divórcio", mesmo quando lemos "repúdio".

CONCLUSÃO

Tudo o que tivemos a oportunidade de examinar, através deste post, não pode e nem teve a pretensão de defender a prática do divórcio. Biblicamente falando, todos sabemos que o matrimônio foi planejado para durar a vida toda.
Portanto o divórcio é um privilégio, no sentido de servir como um corretivo apenas para situações intoleráveis. Mesmo assim, não deixa de ser uma tragédia: sentimento de culpa, perda da auto-estima, um agudo senso de ter falhado, solidão, rejeição, críticas dos familiares e dos irmãos em Cristo, problemas na educação dos filhos e uma série de outras graves conseqüências são os resultados concretos que afligem os divorciados.
No entanto, a graça de Cristo é abundante para eles também. Jesus sempre se identificou com os que sofrem e com os que, reconhecendo o seu pecado, confessam-no e o deixam. A igreja foi planejada para ser uma comunidade terapêutica, que cura as feridas; não que as fazem doer mais.
Portanto, nosso desejo sincero é que deixemos de ser juízes, pois não foi para isso que Cristo nos chamou. E que tenhamos mais amor, mais compreensão e mais empatia por esses nossos queridos irmãos divorciados. Por eles também Jesus derramou seu precioso sangue purificador!

Tony Ayres

PRAGMATISMO RELIGIOSO

Michael Horton*

Sabe, porém isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles (II Tim. 3:1-9).

A Inglaterra, que uma vez já foi conhecida pela sua vitalidade espiritual, agora está mergulhada numa letargia espiritual e a visão missionária dos Estados Unidos está substituindo aquilo que a Inglaterra deixou de lado. Além disso, muita coisa do que Deus está fazendo hoje está acontecendo fora desses dois países. Eu espero que a Igreja no Brasil esteja em constante oração para que, a partir do Brasil, uma outra reforma e um grande despertamento venha e tome conta do mundo.

Não sabemos o que Deus vai fazer no mundo, mas seria muito emocionante se pudéssemos fazer parte daquilo que Ele deseja fazer no Brasil. É maravilhoso ser um cristão e saber que Deus tem todas as coisas debaixo do Seu controle. Todos nós sabemos da necessidade de um grande avivamento, mas ao mesmo tempo existe uma grande polêmica nesses dias sobre a questão. Sem sombra de dúvidas, se convidássemos as pessoas para uma reunião de avivamento, muitas delas viriam com conceitos diferentes do que é avivamento. Assim sendo, faz-se necessário ter uma definição clara em nossa mente do significado desse termo. Qual a diferença entre avivamento e avivalismo, se assim podemos chamar?

Avivalismo e Pragmatismo - Avivalismo, especialmente na tradição deixada por Carlos Finney, é, na realidade, um fenômeno americano e queremos tratar de parte desse fenômeno. Não somente porque é um produto feito na América, mas porque muitos dos movimentos que estão vindo dos Estados Unidos para outras partes do mundo têm essa visão característica de entender avivamento segundo o modelo de Carlos Finney.

Esse modelo tem como base o que nós chamamos de pragmatismo. Se você for abrir um negócio você tem que ser pragmático e se você vai criar uma família, existe uma série de considerações práticas que você precisa sempre ter em mente; e, certamente, o mesmo se aplica quando nós estamos fundando uma Igreja e queremos desenvolvê-la.

Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”

Quais os perigos do pragmatismo? Voltando para o texto de II Tim. 3: 1-9, consideraremos primeiramente os aspectos relativos à nossa chamada para o ministério. Vejamos, então, o contexto do nosso ministério. Paulo se refere a esse contexto como sendo o dos “últimos dias”. Sabemos que os “últimos dias” começaram com o tempo dos apóstolos, e terminarão com a segunda vinda do nosso Senhor. Portanto, estamos vivendo nos “últimos dias”, como, também, Timóteo estava vivendo nos “últimos dias”. Qual é o contexto, então, do ministério nesse período entre as duas vindas de Cristo? Paulo diz, em primeiro lugar, que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos.

Narcisimo e Auto-Estima - Christen Lash, um sociólogo americano bastante conhecido, escreveu um livro sobre a cultura americana cujo título é: “O culto do Narcisismo”. Essa é uma acusação difícil de se fazer, porque o que ela implica é que a cultura americana é uma cultura onde as pessoas se endeusam. E como vocês se lembram “Narciso” é o nome daquele jovem da lenda grega que costumava admirar o seu próprio reflexo no espelho das águas. Mas isso não somente é parte da nossa cultura, como também se tornou parte das nossas igrejas. Muitos dos movimentos que se entitulam “avivados”, em nossos dias, simplesmente estão reavivando o narcisismo, ou seja: a adoração do “eu”. Isso pode ser visto na declaração de um desses pastores que afirmou: “A Reforma errou porque foi centralizada em Deus e não no homem, como devia ser”. Esse pastor escreveu um livro cujo título é: “Crendo no Deus Que Crê em Você”. Uma certa ocasião, trouxemos esse cidadão para falar no nosso programa de rádio. Então eu li essa passagem, onde Paulo diz que as pessoas serão amantes de si mesmas, e perguntei-lhe: “Como você pode dizer às pessoas que a salvação começa com o amor próprio, quando Paulo diz que nos últimos dias as pessoas serão amantes de si mesmas? Não estaria ele dizendo que isso é uma coisa errada, e que nós não devíamos ser amantes de nós mesmos? E como Deus vai nos fazer felizes com esse falso evangelho narcisista?”

O que está acontecendo é que a piedade e a santidade deixaram de ser os referenciais pelos quais julgamos se um movimento é ou não é do Espírito. Assim, o critério que tem sido adotado é: “Funciona? Vai me fazer feliz? Vai me ajudar a criar minha família? Vai consertar o meu casamento?”. Todas essas questões são importantes, à luz das Escrituras, mas não são as mais importantes.

Em segundo lugar, Paulo diz que eles serão amantes do dinheiro. Porque as pessoas amam excessivamente a si mesmas, elas criam o evangelho da auto-estima; e porque as pessoas amam excessivamente o dinheiro, elas criam o evangelho da prosperidade.

Rebeldia, desprezo pelo passado e busca do prazer - Paulo diz ainda que haverá muito orgulho e revolta contra as autoridades. Haverá pessoas desobedientes aos pais. Uma geração não se preocupará com a geração anterior. O cantor Bob Marley escreveu uma música sobre a cultura americana dizendo: “Povo do futuro, onde está o teu passado? Povo do futuro, quanto tempo vocês vão durar?” O povo que não tem passado também não tem futuro. Não sei se Bob Marley era crente, mas com certeza esses versos refletem um ponto de vista bíblico ao tentar se segurar naquilo que pede o seu passado.

Eu quero lhes garantir que se levarem a doutrina bíblica a sério, muitos irmãos e irmãs vão lhes dizer que vocês não estão andando nos passos do Espírito; vão lhes dizer que o Espírito Santo hoje quer fazer uma coisa inteiramente nova, tal como nunca fez no passado. E o que vocês vão falar? Vão falar sobre os grandes avivamentos do passado, sobre a Reforma? Qual o valor disso para os amantes de si mesmos e materialistas? Eles responderão que Deus está fazendo algo completamente diferente nos dias de hoje. Mais uma vez eu quero lembrar que isso faz parte do narcisismo que diz o seguinte: - “eu é que sou importante e aqueles da minha geração é que são importantes e não os que vieram antes de nós”.

E ele diz também que as pessoas serão hedonistas, amantes do prazer, nos últimos dias; como ele diz no verso 4, serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Mais uma vez queremos enfatizar: Se você perguntar em uma Igreja: “Vocês concordam com o hedonismo?” Creio que ninguém vai responder sim a essa pergunta. Mas se você entrar numa livraria evangélica, se ouvir uma emissora de rádio evangélica, se prestar atenção a muitos sermões evangélicos, você ouvirá mensagens afirmando que o Cristianismo é a melhor maneira para você se auto-realizar. Quantos testemunhos temos visto que funcionam como comerciais de televisão? Nos Estados Unidos, temos aquelas propagandas de dieta que mostram uma pessoa antes e depois da dieta. Muitas vezes, os testemunhos dos crentes são assim: “Antes eu era triste, agora sou feliz; antes eu era deprimido, mas agora eu estou extremamente motivado para viver”. Esses são benefícios maravilhosos, mas, por vezes, a verdade é que nós, como cristãos, nos tornamos tristes. Algumas vezes, o caminho da cruz é o caminho do sofrimento, e nem sempre estamos tão entusiasmados a respeito disso. Apesar de tudo isso, a perspectiva que predomina nos nossos dias é que temos que viver para satisfazer a nós mesmos.

Moralidade sem piedade - No verso 5 do texto destacado, Paulo diz: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Veja bem! O que Paulo está dizendo é que pode haver uma moralidade sem Deus. Existem pagãos que tem uma vida moral excelente, e há ímpios que acreditam ser errado você trair sua esposa. Há pessoas não cristãs que têm famílias muito boas. Mas será que este é o propósito do cristianismo? Consertar tudo aquilo que está moralmente errado no mundo, ou será que o foco está em Deus, nos Seus mandamentos justos, e no Evangelho pelo qual nós devemos viver?

É esse o contexto do nosso ministério. Então respondamos à pergunta: Qual o nosso chamado para o ministério? O exemplo de Paulo é alguma coisa que temos de imitar nesse sentido. Mas agora perguntamos: Como, historicamente, essa filosofia do pragmatismo dominou o pensamento moderno? A figura mais destacada no cenário evangélico, neste sentido, é a de Carlos Finney. Quantos de vocês já ouviram falar de Carlos Finney? Quase todo mundo. Isso é significante porque Finney é uma pessoa muito importante para aqueles que são proponentes do movimento de crescimento da Igreja e do movimento de sinais e prodígios.

Evangelho ou Pragmatismo? - Carlos Finney era presbiteriano, mas atacou a Confissão de Fé de Westminster que ele próprio subscrevera. Ele a chamou de: “um papa de papel”. Ele dizia, no século XIX em que viveu: “Nós já somos pessoas muito ilustradas e racionais para acreditar em todas essas coisas aí que a Confissão de Fé está dizendo”. Vejam algumas das coisas que Carlos Finney escreveu:

Quando o homem se torna religioso - disse Finney - ele não recebe um poder que não tinha antes, ele simplesmente muda a sua vontade, e resolve seguir, agora, numa direção moral. Religião é obra do homem, não é um milagre e nem depende de um milagre em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico do uso correto de técnicas. O homem já possui, por natureza, toda a habilidade necessária para prestar perfeita obediência a Deus, portanto o objetivo do ministro é emocionar as pessoas até que se disponham a tomar essas decisões.

Foi dessa filosofia que nasceu o que ficou chamado naquela época de “novas medidas introduzidas por Finney”. Por exemplo: O sistema de apelo para que as pessoas se manifestem fisicamente e caminhem até à frente em resposta à pregação nasceu com Carlos Finney, nesse período. Em sua Teologia Sistemática, Finney nega explicitamente a doutrina do pecado original. Ele diz ainda que a doutrina da substituição vicária de Cristo é uma ficção, e que a justificação pela graça, por meio da fé somente, é “outro evangelho”. Com certeza, é um evangelho diferente daquele que Finney estava pregando.

É isso que Paulo diz a Timóteo, quando fala de pessoas que têm forma de piedade mas negam, entretanto, o seu poder. Afinal de contas, onde reside o poder da piedade? É o poder de Deus para a salvação! E que poder é esse? É o evangelho de Jesus Cristo! Somente o Evangelho pode nos capacitar a viver a vida cristã. Portanto, é possível ter moralidade sem piedade; e esse é o resultado do pragmatismo.

Mais tarde, tornou-se conhecida a idéia de D.L. Moody. Ele disse no século XIX que não faz nenhuma diferença como você leva alguém a Deus; se você conseguir fazer isso, não importa o meio. O importante é levar, de qualquer maneira, a Deus.

Uma vez perguntaram a Moody: Qual é a sua teologia? Ele disse: “Minha teologia? nem sei se eu tenho uma!”. Vejam bem! Moody era um vendedor de sapatos, e um dia ele disse que ao se tornar evangelista não mudou de profissão, o que ele havia feito era trocado de produto.

Como abordamos o pragmatismo corporativo da nossa cultura? Alguns dizem que a contribuição distinta da América para a história da filosofia foi a criação do pragmatismo. Um dos grandes pais do pragmatismo e quem o transferiu da esfera religiosa para a esfera secular foi William James. Ele era filho de pastor; pastor, ele próprio, e também professor da Universidade de Harward. Ele disse: “Faça a seguinte pergunta: Como é que você define que determinada verdade é o que você deve crer?” E acrescentou: “A resposta é que você tem que determinar o seu valor em termos de experiência e resultado”. Então, com princípios pragmáticos, analisou a doutrina de Deus dizendo o seguinte: “Se a doutrina de Deus funciona, então é verdade. O pragmatismo tem que adiar questões dogmáticas porque no começo nós não sabemos qual reivindicação doutrinária vai produzir resultado”.

Acredito que quase ninguém iria marcar essas coisas num exame tipo teste dizendo que acredita nelas, mas, na prática, o que acontece é que esse é o credo do evangelicalismo mundial hoje. Um evangelista americano famoso disse: “Não tente entender, simplesmente comece a desfrutar, porque funciona; eu já tentei”. Ele estava falando a respeito da meditação transcendental da Nova Era. Na década de 50 do nosso século, esse pragmatismo se desenvolveu em termos de pensamento positivo. Foi então publicado um livro chamado “A Mágica do Crer”. Esse livro propõe que há uma certa qualidade mágica no simples ato de crer. Porém, a verdade é outra. No cristianismo, o que salva não é o ato da fé, mas sim o objeto da fé. Nós não somos salvos pela fé, não somos justificados pela fé; nós somos justificados pela justiça de Cristo que nos é imputada. Mas hoje em dia, desenvolveram essa equação de que fé é igual a pensamento positivo. Na realidade, essa última frase que mencionei foi uma citação de Peter Wagner.

Deus como objeto de consumo - Muito bem! Esses conceitos funcionam numa sociedade materialista, que está satisfeita e centralizada no ego; pode funcionar muito bem na América do final do século XX, pode ser até que funcione em São Paulo também, e pode funcionar em Londres. Mas imagine o seguinte quadro: Você vai a um cristão do século I e diz a ele que a razão principal pela qual ele está indo para a boca dos leões é porque o Cristianismo funcionou melhor do que as outras religiões!

Os testemunhos que temos no Novo Testamento são muito diferentes dos testemunhos que nós vemos hoje em dia. No Novo Testamento temos a palavra de testemunhas oculares, que é muito mais importante que o nosso próprio testemunho. O que é que Paulo disse em I Cor. 15? Ele disse: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé... Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Ele não diz “pelo menos vocês têm uma vida feliz e saudável!”. E ele também não está dizendo “Bem! o que é que você pode perder?” Por que Paulo não fez isso? porque ele não era um pragmático. Paulo fundamentava todas as reivindicações da fé cristã no Evangelho verdadeiro.

Temos que nos perguntar: “Será que não estamos usando a Deus? Será que, finalmente, não embarcamos nesse consumismo da nossa sociedade? Será que não estamos tratando a Deus como tratamos um produto?” São perguntas muito importantes que devem ser feitas a nós mesmos. “Será que Deus está nos usando ou nós estamos usando a Deus?”

Reavivamento e Reforma não virão à Igreja até que a mentalidade dos crentes seja desviada desse egoísmo humano, da centralização no homem que Paulo descreve, para o verdadeiro Evangelho e para Deus.

Nos Estados Unidos, temos um adesivo que diz: “Jesus é a resposta”. Os incrédulos fizeram um outro adesivo para retrucar a esse: “Qual é a pergunta?” Considere, agora, o que diz o pragmatismo: “Eu não sei qual é o seu problema, mas qualquer que seja, Deus pode resolver. O seu carro está enguiçado? A sua vida familiar não está progredindo como devia? Deus pode consertar em um piscar de olhos!”. Assim, passamos a consumir a Deus. Nós usamos a Deus, ao invés de amá-Lo, servi-Lo e honrá-Lo.

Muito bem! Então qual é o propósito do nosso ministério? Vejamos o que diz Paulo:

Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, - que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção para a educação na justiça. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, que não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério (II Tim. 3:10-4:5)

O modelo apostólico - Em primeiro lugar, o propósito do nosso ministério é seguir o modelo apostólico. Paulo menciona aqui o seu ensino, a sua maneira de viver, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, e a sua perseverança diante das tribulações. Perseguições? Sim! É o que ele diz no verso 12. Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Será que é isso o que estamos ouvindo hoje? Ou será que estamos ouvindo outra mensagem? Algumas vezes você vai pensar que não está dando certo, que as coisas não estão funcionando como deveriam, como lemos em Romanos, capítulo 7. Nós sofreremos como cristãos, e ainda vamos sofrer com os nossos pecados.

A proclamação da Lei e do Evangelho - Além de seguir o seu exemplo, Paulo quer que Timóteo também se firme naquelas verdades que aprendeu quando era jovem. Veja que Paulo, ao invés de nos levar à questão do pragmatismo: “Será que funciona?”, ele nos conduz para as Escrituras. Ele diz: “prega a Palavra”, com muita paciência instruindo as pessoas. Porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Ao contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como quem sente coceira nos ouvidos (4:3).

Vejam! sempre temos coceira nos ouvidos. Pragmatismo não é uma coisa nova. Na realidade já foi praticado desde o jardim do Éden. Quando Eva viu que a árvore era agradável para se ver, para descobrir o conhecimento e desejável para trazer entendimento; então ela tomou do fruto e comeu. O que significa para nós “pregar a Palavra”? O que Paulo quer dizer no verso 5 “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista”?. O que ele quer dizer com isso, “pregar a Palavra”? Vez após vez, Paulo e os demais escritores bíblicos nos dizem que isso é a proclamação da lei. Na verdade, é pela proclamação da lei santa de Deus que nós somos tocados e feridos. A lei de Deus vem até nós e ela não vem dizendo assim: “Eu vou transformar a tua vida numa vida feliz!”, ela não vem dizendo: “Vou te dar prosperidade!”. Na realidade, a lei vem para nos dizer exatamente aquilo que Deus tem dito que requer de nós. A lei nos confronta com a glória de Deus e a nossa pecaminosidade torna isso aterrorizante!

Finalmente, o Evangelho vem e causa também impressão em nós. Há uma Igreja no Estado do Arizona, cujo pastor, numa entrevista que foi publicada na revista Newsweek, disse: “As pessoas hoje em dia não estão preocupadas com doutrinas como justificação, salvação ou expiação. Nos dias de hoje, ninguém entende esses termos. O que nós precisamos fazer é atender as necessidades das pessoas!”

Imaginem um professor! Vocês não acham que seria muito estranho se o professor chegasse dizendo assim: “Não posso ensinar o alfabeto para esta criança porque ela ainda não sabe português”. Esse é o tipo de argumento que esse pastor estava apresentando. Tanto que o que hoje se passa com o nome de pregação, na realidade, não é pregação da Palavra. Porque não apresenta nem a Lei nem o Evangelho. Esses pastores começam decidindo o que é que as pessoas de sua igreja desejam ouvir. Quais são os pontos que estão em moda hoje? Quais são as necessidades das pessoas dos dias de hoje? E aí, então, eles vão às Escrituras e procuram e acham passagens que podem ser usadas para apoiar essa necessidade, ao invés de, indo ao texto, perguntarem primeiro como a santidade de Deus nos convence do nosso pecado e como o Evangelho de Cristo pode ser tão claro que até pecadores como nós podem se arrepender e crer.

Mas vocês, irmãos e irmãs, ouçam o que Paulo diz, sejam sóbrios em todas essas coisas, preguem a palavra, suportem as aflições, façam o trabalho de evangelista, e cumpram cabalmente o ministério.

* Palestra apresentada no V Simpósio “Os Puritanos”, realizado em Águas de Lindóia, SP, de 10 a 14 de junho de 1996. O autor é professor no Seminário Reformado em Orlando, Flórida (USA), fundador e presidente do movimento “Cristãos Unidos pela Reforma”, na Califórnia, e autor de diversos livros.

(Publicado em O Presbiteriano Conservador na edição de Maio/Junho de 1997)

Para Onde Vai a Alma Após a Morte do Corpo?

Seol, Hades, Geena, Seio de Abraão...!
Enfim, para onde vai a alma depois da morte?

O tratado sobre a alma e morte, inferno e céu é daqueles assuntos que causam inúmeras interrogações aos que se aventuram a estudar este mistério de Deus. Intrigantes explicações são apresentadas por Luteranos, Calvinistas, Arminianos, Católicos, Testemunhas de Jeová, entre outros grupos doutrinários. Todos tentam explicar através de conjecturas o que acontece com a alma depois que o fôlego da vida acaba, ou seja, após a morte.

Aliás, para alguns estudiosos da bíblia, o homem nem alma possui. Ou, admitindo sua existência, ela não poderia existir sem a presença do corpo físico. Neste caso, não haveria vida consciente depois da morte. Para estes, a idéia de um lugar de tormento para os "maus" imediatamente após a morte é impensável, isto porque, ao morrer, a alma entraria num total estado de repouso, no túmulo, até a ressurreição que ocorrerá com a segunda vinda de Cristo, quando, então, virá o julgamento para todos.

Esta idéia é sustentada, entre outras, com as seguintes passagens: "Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo" (João 5:28,29); E abrira-se os sepulcros e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados. (Mateus 27: 52). Veja também Daniel 12:2, e Eclesiastes 9:10.

No entanto, a crença de que a alma dissociada do corpo físico entra num sono profundo após a morte não é aceita nos círculos mais tradicionais de interpretação bíblica. De acordo com a maioria, boa parte das passagens usadas se refere apenas à ressurreição da vida prevista para ocorrer na segundo vinda de Cristo (leia Apoc. 20:4, 5, 11,15), e nada diz a respeito de um possível sono da alma. Em outros casos, como na passagem de Mateus citada a pouco, o fato se deu quando Cristo ressuscitou, após a crucificação.

Outra referência que reforça a idéia de uma alma "consciente" após a separação do corpo físico se encontra em Ec. 12.6-7: "Antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu". Ou ainda Salmos 73.23-24.

Segundo o apóstolo Paulo, é a alma do justificado, sem o corpo físico, que vai morar com o Senhor logo após a morte: "Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor" (II Cor. 5:8).

No Novo Testamento, escrito quase em sua totalidade em grego, salvo algumas passagens em aramaico, a alma é chamada de psyqche. Esta aparece em três passagens para designar a existência da alma após a morte, em contradição à doutrina do sono da alma no pó da terra. Veja: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo (Mateus 10:28). As outras referências são apocalipse 6:9 e 20:4.

Além de psyqche, a terminologia grega pneuma descreve a alma (espírito) consciente do homem após a morte: "Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lucas 23:46). Leia ainda Atos 7:59, e Hebreus 12:23.

Apesar de termos visto que a discussão tem início com a polêmica em torno da existência da alma consciente após a morte, nos próximos tópicos partiremos do princípio de que ela realmente existe de maneira lúcida, mesmo dissociada da matéria.

O objetivo deste estudo não é fechar questão sobre determinado ponto de vista (apesar de apresentamos uma visão direcionada em alguns momentos), mas apresentá-los a fim de esclarecer as diferentes interpretações cristãs sobre o assunto.

Sheol, Hades, Geena e Tártaro

Quase todo cristão já ouviu algumas dessas expressões relacionadas à palavra inferno. Pois bem, um estudo despretensioso nos levará à conclusões um pouco diferentes das que ouvimos em nossas igrejas, sejam elas de orientação reformada (calvinista) ou arminiana.

O engodo acontece porque essas quatro palavras são normalmente, em muitos casos, traduzidas por inferno. E, por inferno, entende-se aquele lugar onde Cristo falou que haverá choro e ranger de dentes por toda a eternidade. Contudo, veremos que o uso generalizado da palavra inferno como tradução para todas essas expressões gregas e hebraicas é, sem dúvida, incorreto.

Comecemos com SHEOL (she'óhl). Palavra usada no Velho Testamento mais de sessenta vezes para indicar, em grande parte, o estado de morte, ou a sepultura, a cova, ou ainda, um lugar onde todos os mortos estão (reino dos mortos), sejam eles bons, ou maus, salvos, ou não. Em outras, em menor número, dá a idéia de um lugar de punição.

Vejamos a passagem registrada em Jonas 2:1-2: E orou Jonas ao Senhor, seu Deus, das entranhas do peixe. E disse: na minha angústia, clamei ao Senhor, e Ele me respondeu do ventre do inferno (do ventre do Sheol). Certamente Jonas não esta dizendo que o interior do peixe seria o inferno ardente, mas o lugar onde ele acreditava que morreria, ou seja, a sua sepultura.

No livro de Gênesis 37:35, o texto diz o seguinte: "Levantaram-se todos os seu filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: chorando descerei a meu filho até á sepultura" (ao Seol, no original). Note que Seol nem foi traduzido por Inferno, como na passagem anterior. Está muito claro que Jacó não queria ir ao inferno velar seu filho José, que ele achava estar morto.

Confira as duas passagens a seguir e substitua a expressão referente ao Sheol por inferno e veja como não há sentido a tradução. As passagens são: Jó 14:13 e Gênesis 42:38 e 37:35. Nesses casos, como em dezenas de outros do Velho Testamento, Sheol não é usado como sinônimo de inferno, mas talvez de sepultura, morte, ou o estado do morto.

Seguindo esse raciocínio, fica difícil aceitar que Sheol seja sinônimo castigo, ou de um inferno de chamas. Dessa forma, muitos concluem que o inferno não existe. O problema dessa interpretação é crer que o lugar de tormento eterno, bastante explorado no Novo Testamento, até pelo próprio Cristo, simplesmente é uma farsa.
Bem, mas para uma outra corrente teológica, algumas passagens veterotestamentárias onde se usa a expressão Sheol, já indicam a existência de um lugar de punição para os ímpios, e um outro de bênção para os salvos.

Para estes, o Inferno é uma realidade bíblica apresentada a partir do Velho Testamento, sendo que a alma do morto vai direto para o inferno, ou ao gozo do paraíso - em um estado de bênção incompleta em função da espera pela segunda vinda de Cristo, quando tudo será consumado.

Esta doutrina é reforçada, sobretudo, no Novo Testamento, quando a revelação de Deus sobre o tema é mais explícita. No entanto, vejamos o que Velho Testamento apresenta: "Os perversos serão lançados no inferno (Sheol - no original). E todas as nações que se esquecem de Deus (Salmos 9:17). Neste trecho lemos claramente que Sheol é empregado para designar um lugar de castigo.

Se considerarmos que Sheol é apenas a sepultura para onde todos vão, estaremos aceitando uma contradição bíblica. Isto porque os justos não serão castigados no Inferno, nem os ímpios receberão sua punição apenas na sepultura. O correto seria afirmar que o termo Sheol foi (é) usado para designar situações diferentes.

Outras passagens veterotestamentárias ajudam a compreender que o lugar de punição para os não salvos era uma idéia já difundida antes de Cristo: Dt. 32:22, Sl 9:17, Nm 16:30, Ez 31:17, Am 9:2, Is 38:10, 2Sm 22:6, Ec 9:10.

Pelo exposto, podemos concluir que o termo hebraico Sheol requer mais de um significado, como querem os defensores do Sheol= inferno, ou Sheol= Sepultura (ou estado de morte).

HADES
O termo Hades, por sua vez, é a transliteração para o português da palavra grega haídes, usada em várias traduções da Bíblia. Esta surge dez vezes nos mais antigos manuscritos das escrituras gregas cristãs, nas seguintes passagens do Novo Testamento: Mateus 11:23; 16:18; Lucas 10:15; 16:23; Atos 2:27, 31; Apocalipse 1:18; 6:8; 20:13, 14.

Parece certo que Hades é o equivalente da palavra hebraica Sheol. Uma das evidências está ao se comparar a primeira tradução do texto das escrituras hebraicas para o grego na Septuaginta, produzida no século III A.C. (versão que Jesus Cristo lia no templo em Jerusalém). Ela emprega a palavra grega haídes diversas vezes para traduzir a hebraica she'óhl.

Nas modernas traduções de hoje, também podemos observar isso. Vejamos Atos 2:31 que diz:"prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte (no Hades), nem o seu corpo experimentou corrupção". No texto, Pedro cita o Salmo 16:10: Pois não deixarás a minha alma na morte (no Sheol), nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção" Neste caso, observamos que o salmista usa a palavra Sheol com o sentido de túmulo. Pedro sabia disso ao empregar Hades em sua escrita.

A versão Almeida edição revista e corrigida, uma das mais tradicionais, traduz haídes por "inferno" nos primeiros três e nos últimos quatro versículos. Nos outros três traduz por "Hades". Essa mesma tradução transcreve she'óhl de quatro formas distintas: "inferno", "sepultura", "sepulcro", ou "cova". A versão Bíblia de Jerusalém, nova edição revista e ampliada, de 2002, traduz a haídes uma vez por "mansão dos mortos", duas vezes por "inferno", e sete últimas por "Hades".

Ao avaliar este fato, os teólogos que sustentam que Sheol indica apenas a morada dos mortos, ou a sepultura, concluem que Hades também indica o mesmo fim. Portanto, o lugar de condenação eterna, o inferno, não existiria, sendo algo inventado pela igreja católica, e comumente aceito pelos evangélicos.
Já para os que defendem a existência do inferno literal, o uso do grego haídes no Novo Testamento substituindo o hebraico she'óhl, do Velho Testamento, só reforça a revelação de Deus na existência do inferno como lugar de punição.

Jesus foi ao Hades?!
Entre os que crêem na existência do Inferno como um lugar de tormento eterno (arminianos e reformados) há uma observação muito interessante a ser feita. Baseados nas passagens de I Pedro 3.18-20; 4:5-6 e Efésios 4.8-9, além de um antigo credo apostólico que diz: "Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu ao Hades. Ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos", os de linha arminiana (igrejas Batistas, por exemplo) crêem que Jesus Cristo foi a uma partição do inferno (Hades) pregar aos anjos caídos, bem como aos que morreram antes da sua vinda, notadamente aos do período diluviano.

Este pensamento, bastante difundido entre os evangélicos, afirma que isto aconteceu no período de três dias entre a morte na cruz e a ressurreição. Um menor número de arminianos afirma, ainda, que os apóstolos e muitos crentes escolhidos por Deus, mortos, obviamente, estão nessa partição do inferno pregado o arrependimento às almas, dando-lhes uma segunda oportunidade.

O fato de crer que Jesus foi ao Hades leva alguns teólogos a considerar a existência de uma habitação intermediária no "mundo dos mortos" como lugar de espera para o juízo final. Esta seria a confirmação de que o Hades está dividido, assim como ensina a mitologia grega? (veja mais no tópico O inferno é a morada de Satanás?)
Já para os Reformados (presbiterianos, entre outros), o inferno não tem nenhuma divisão e o Hades que Jesus Cristo conheceu em sua morte foi espiritual e não literal/ espacial, ou seja, Ele não foi ao lugar de castigo. Para sustentar a posição, eles usam a passagem de Lucas 23:46: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

Para os justificados que morreram antes de Cristo (e também para os dias de hoje), a fé Reformada defende: aqueles que morrem têm os seus corpos sepultados e seus espíritos voltam para Deus, que os deu (Salmos 73.23-24). Veja também Ec 12.6-7. Os Calvinistas reforçam essa idéia lembrando que Elias e Enoque estão no Céu e não no Hades, nem na sepultura. (Gn 5.24; 2 Rs 2.11; Lc 9.29-32).

GEENA
Trata-se da transliteração para o português do termo grego "géenna", que, por sua vez, origina-se do hebraico Geh Hinnóm cujo significado literal é "Vale de Hinom". Ela aparece doze vezes no Novo Testamento (Mateus 5:22, 29, 30; 10:28; 18:9; 23:15, 33; Marcos 9:43, 45, 47; Lucas 12:5, Tiago 3:6), sendo sempre traduzida por inferno, e/ou a um lugar de tormento.

Vale de Hinom, originalmente, era o lugar onde Acaz, rei de Judá, é mencionado praticando rituais de adoração ao deus Moloque. A cerimônia, de acordo com 2 Crônicas 28:1-3, incluía o sacrifício de crianças. O neto de Acaz, o Rei Manassés, também era adepto do mesmo horror. Somente com a subida do Rei Josias, neto de Manassés, a prática teve fim.

Ao passar dos anos, o vale de Hinom tornou-se o depósito e incinerador do lixo de Jerusalém. Lançavam-se ali cadáveres de animais para serem consumidos pelo fogo, ao qual se acrescentava enxofre para ajudar na queima, e mantê-lo sempre acesso a fim de evitar a proliferação de doenças. Também eram recolhidos ao local cadáveres de criminosos executados, não considerados dignos de um sepultamento decente. Quando esses caíam em lugar onde não havia fogo, sua carne em putrefação ficava infestada de vermes.

Mas de onde surgiu a idéia de Geena como um lugar de castigo para as almas, ou de um inferno em chamas? No texto de Mateus 10:28 há a possível explicação. Nele Jesus diz: "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno (na Geena) tanto a alma como o corpo".

Note que Jesus não usou o termo Hades para falar do inferno, isto porque ele não queria passar a idéia de sepultura, ou ao estado de morte das pessoas. Ele, ao que tudo indica, desejava reforçar a doutrina da punição eterna para os ímpios, já em evidência no Velho Testamento através de personagens como Noé, os profetas pré e pós-exílio, entre outros mensageiros de Deus.

Sabe-se que Jesus sempre se utilizou de parábolas e figuras de linguagem para dar sentido aos seus ensinamentos. Sendo assim, Ele evoca a imagem centenária que todos tinham sobre o Vale de Hinom, ou Vale de Geena, para afirmar que o castigado para os que negassem a Sua salvação seria tão severo quanto o presente em Hinom. Jesus dá a entender que Geena é sinônimo de tormentos e miséria, onde, separado da presença de Deus, há trevas e fogo.

No livro de Marcos, assim como nas demais passagens em que são usadas Geena, vê-se, sem dúvida, que a expressão refere-se a um lugar onde há fogo destruidor: E, se tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas aos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível (Marcos 9: 43).

Este termo só aparece nos três primeiros evangelhos e no livro de Tiago, mas sempre de forma transparente em seu significado. Portanto, Geena, a nosso ver, é a expressão mais correta quando nos referimos ao lugar de punição eterna: o Inferno bíblico.

Bom, mas como eu disse no início deste estudo, a doutrina sobre o inferno/morte, é recheada de interrogações e dificuldades. Acabamos de ver que Geena seria a expressão mais apropriada para designar o lugar para onde vão os ímpios em castigo, e que termo hebraico Sheol tem o mesmo significado do grego Hades, referindo-se, ambos, ao lugar para onde vai a alma depois da morte, ou simplesmente apontaria para o estado de morte das pessoas. Somente em poucas passagens essas duas palavras dariam o sentido de um lugar de castigo.

No entanto, na conhecida e sempre estudada parábola do Rico e Lázaro (Lc 16:19-31), Jesus usa o termo Hades para falar do inferno como um lugar de tormento. No relato, Cristo apresenta dois ambientes, um de punição, o Hades, e outro de recompensa, o Seio de Abraão, ou Paraíso: No inferno - haídes -, estando em tormento, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. (Veja mais sobre o Seio de Abraão, ou paraíso, no tópico sobre a "Onde fica o céu").

Observando o contexto de toda a escritura, e não apenas este trecho isoladamente, penso que Jesus esta apenas reforçando a idéia de que Hades também poderia ser sinônimo de lugar de punição, e não apenas de sepultura, ou estado de morte.

De todas as maneiras, o Mestre descreve uma dimensão onde há tristeza, memória do passado, remorso, sede insaciável e condenação definitiva, ou seja, tormentos: o Inferno.

Note que aqui não há margem para a doutrina do purgatório. Uma vez que não era possível se passar de um lugar para o outro, como defende a idéia católica do lugar intermediário. No purgatório não há condenados, mas apenas almas que ainda não foram purificadas e necessitam de reza e sacrifícios dos vivos para serem limpas.

Somente assim estariam aptas a gozar do paraíso, onde só entram os "perfeitos".
Ainda encontramos no Novo Testamento o verbo grego TARTARÓO como sinônimo de "lançar no inferno". Em 2Pe 2:4 a expressão "precipitando-os no inferno", segundo alguns teólogos, pode referir-se a esfera intermediária (abismos de trevas) onde anjos caídos aguardam o julgamento final, conforme Lc. 16:23-26, Ap 20:11-15. Lá não haveria alma de homens.

O inferno é a morada de Satanás?
A Bíblia, em momento algum, diz que Satanás mora no inferno. Ao contrário, ela o apresenta como "Príncipe das Potestades do Ar", e diz que juntamente com seus demônios (anjos caídos) dominam nas regiões celestes: Nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência (Efésios 2:2). Veja também 6:12 do mesmo livro.

De acordo com a doutrina cristã, o inferno é um local de castigo eterno preparado especialmente para Satanás e seus anjos, sendo também a habitação dos ímpios por toda a eternidade. Entretanto, Satanás ainda não está lá.

A idéia de que ele mora no inferno sempre fez parte do imaginário popular desde tempos antigos. No Oriente Médio, através das artes, e na Grécia, com a mitologia. Na idade medieval, Satanás ganhou cor vermelha em referência ao fogo, calda, xifres e um torturante tridente. Era a semelhança do deus tupã, meio homem, meio bode, da mitologia grega.

Outro erro bastante comum é achar que o inferno fica nas regiões quentes do centro da terra, como pensavam alguns judeus baseados em interpretações equivocadas do Velho Testamento. Impressão muito difundida também na idade média.

O mais provável é que todas estas crenças tenham suas origens na mitologia grega. Para eles, Hades, irmão de Zeus, era a divindade responsável pelo inferno, que, por sua vez é dividido em duas áreas: os Campos Elísios, para onde vão as almas boas; e o Tártaro, local de castigo e sofrimento eterno, preparado para os desobedientes aos deuses. (note a semelhança com a idéia cristã da divisão do Hades em um lugar onde há bons e maus).

Pensamentos como estes tiveram larga aceitação em diversas culturas ao longo anos, chegando até nossos dias. Infelizmente, ainda hoje, aberrações como a do inferno no centro da terra são anunciadas em igrejas cristãs por pregadores mal informados.

Onde fica o Céu?
A existência do Céu como morada de Deus é uma realidade já apresentada no Velho Testamento (Gn. 28:17; Sl 80:14), assim como a idéia do Inferno. Quando Jesus Cristo esteve entre os homens, sua mensagem central era firmada na existência do Reino de Deus nos céus. Na Parábola do Rico e Lázaro, Ele faz menção de um lugar chamado Seio de Abraão, onde haveria bênçãos preliminares para os salvos.

Para uma determinada corrente de interpretação bíblica, Seio de Abraão era a divisão do Hades em que se encontravam os justos. A outra seção, a do rico, era o lugar de punição. No entanto, por ocasião da ressurreição de Cristo, o Seio de Abraão teria sido esvaziado, e todos os seus ocupantes transferidos para a destra de Deus, conforme a interpretação de Efésios 4:8-10.

Desde então, este lugar, agora denominado de Paraíso, passou a ser morada de todos os salvos. Sua localização, segundo II Coríntios 12:2-4, é o terceiro céu: "Conheço um homem em Cristo que, há catorze aos, foi arrebatado ao terceiro céu, (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe), e sei que o tal homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus sabe) foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inefáveis, aos quais não é lícito ao homem referir", relata o apóstolo Paulo.

Bom, mas para os que defendem que no Hades não há divisão, e que os justos vão direto para o encontro com Cristo, Seio de Abraão e Paraíso são duas terminologias usadas para povos (ou períodos) diferentes. A primeira teria sido empregada pelos antigos hebreus como uma espécie de valorização de Abraão, seu grande patriarca. Para eles, os salvos, ao morrerem desfrutariam da presença de Deus e dos patriarcas.

Na atual dispensação, em que Cristo morreu por todos, não apenas para os judeus, o termo ficou inadequado, sendo o correto a expressão Paraíso. Jesus Cristo disse ao ladrão da cruz: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23:43)

Foi baseado na esperança do Reino do Céu que Jesus Cristo montou todo o seu ministério. O passaporte para lá seria gratuito, mas o homem teria que crer em sua morte na cruz e ressurreição. Além disso, precisava arrepender-se de seus pecados, e seguir seus passos, andar como Ele andou.

O profeta Isaías apresenta o Céu como o lugar onde Deus está assentado em seu trono: Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés... (Is 66:1). Outro profeta, Micaías, assim declara: Vi o Senhor assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a Ele, à sua direita e à sua esquerda (I RS. 22:19)

No Novo Testamento, o Céu ganha relatos que o descrevem como um lugar de maravilhas inigualáveis. O apóstolo João diz: Levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu de junto de Deus, revestida da sua glória, assemelhava-se seu esplendor a uma pedra muito preciosa, tal como o jaspe cristalino...Alta muralha como doze portas, guardadas por doze anjos...A muralha da cidade tinha doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro...Cidade de ouro puro... (Ap.21)

Paulo, alegre, exclama: Coisas que os olhos não viram, nem o coração imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam (ICor. 2:9). É o lugar onde habitam os anjos: E, ausentando-se deles os anjos para o céu... (Lucas 2:15a). Este mesmo lugar também será a morada dos seres humanos remidos pelo sangue de Cristo: Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (Filipenses 3:20)

O próprio Filho de Deus testifica sobre o Céu dizendo: Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus; crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vos teria dito. Pois vou preparar-vos lugar (João 14:1-2).

Mas nem todos terão o privilégio de entrar nessas mansões celestiais. Este é um lugar reservado para os adoradores de Deus e seguidores de Jesus Cristo; os que estão escrito no Livro da Vida: Nela, nunca jamais penetrará coisa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira, mas somente os inscrito no Livro da Vida (João 21:27).

Graça e Paz!

Gevan Oliveira

Lei e Graça

É realmente necessário estabelecer a distinção entre Lei e Evangelho. E esta distinção precisa ser mantida sob o risco de que se comprometa a ambos. A salvação não se encontra na Lei, mas no Evangelho. Lei e Evangelho cumprem papéis diferentes. Mas não são opostos! Não estão em contradição; os trabalhos que realizam manifestam coordenação. Conquanto cumpram finalidades diferentes, ambos vêm do mesmo Deus, e estão a serviço dEle. Convém-nos apresentar ambos a todos os homens. Eles não se contrapõem. E, nessa ordem colocada por Deus, anunciamos a Lei e, então, o Evangelho. Primeiro ferir; depois curar. Primeiro o vinagre; depois o azeite. Anunciamos o dever, e então a graça – aliás, é bom apressar-me e dizer que a própria Lei já se constitui numa expressão de graça. Primeiro anuncia-se ao homem a vontade moral de Deus. E, então, a Lei cumpre um de seus papéis mais importantes, conforme nos ensina Paulo aos Romanos e aos Gálatas: a boa Lei de Deus revela o nosso pecado, nossa insuficiência, nossa incapacidade, nossa natureza pecaminosa, nossa condenação, nossa maldição, nossa morte. E, ao fazer isto, ela deixa de ser boa? Posso culpar o espelho pelo que ele me revela? Como alguém sentir-se-á pecador se não houver o anúncio do padrão que Deus espera? O pecado pressupõe que exista uma Lei em vigor, porque onde não há Lei também não há transgressão (Rm 4.15).

"porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado" (Romanos 3.20).

"Porque a lei opera a ira; mas onde não há lei também não há transgressão" (Romanos 4.15).

"Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta" (Romanos 5.13).

"Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás" (Romanos 7.7).

"Pois todos quantos são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gálatas 3.10).

"De modo que a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados" (Gálatas 3.24).

A Lei serve ao Evangelho, embora seja distinta dele. A Lei, com o Evangelho, enaltece a graça! A Lei, porém, não salva; condena. A salvação encontra-se por meio do Evangelho.

"sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada" (Gálatas 2.16).

Talvez alguém diga que o padrão moral é Cristo. Há acerto nisto. Porém, qual foi o padrão de Cristo para satisfazer a justiça de Deus? Tentar reger-nos pela Lei, sem Cristo, é uma das expressões do "legalismo", ou outro nome que se prefira dar. O Senhor Jesus Cristo nos salvou da condenação da Lei; não nos salvou, entretanto, para uma não observância da Lei moral. Alguns estabelecem equivocadamente uma contraposição entre a Lei e a Palavra; Deus, porém, não a faz. Outros fazem uma distinção entre uma vida espiritual e a Lei. "Porque bem sabemos que a Lei é espiritual" (Romanos 7.14). A "Lei do Espírito" é a mesma "Lei do Senhor". E os que andam no Espírito, andam na Lei do Senhor. Os que são do Senhor, amam a sua Lei, e a têm inscrita no seu coração.

"Ora, este é o pacto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (Hebreus 8.10)

A posição que diz que o crente não tem qualquer compromisso com a Lei Moral de Deus chama-se antinomismo – palavra composta e de origem grega: anti (contra) + nomos (lei). Normalmente, é a posição apelidada popularmente de "graça barata", não tão rara no meio evangélico. Nos dias apostólicos, já recebiam severa condenação aqueles que convertiam em "libertinagem a graça de nosso Deus" (Judas 4).

No século XX, muita confusão estabeleceu-no no cenário evangélico com relação a este assunto. E o resultado para a evangelização e a Igreja tem sido muito nefasto, ao ponto de alguns colocarem que é possível ter a Cristo como Salvador sem tê-lo como Senhor. "Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum!" Fomos salvos para sermos zelosos de boas obras. Outros, assentaram uma doutrina, bastante popular no Brasil, em que a justificação e a santificação foram desconectadas. Colhemos hoje os frutos amargos dessa semeadura. O crente, porém, é encorajado pelas verdades e promessas do Evangelho; é estimulado pelas motivações do Evangelho e inclinado pelo Espírito Santo a desejar prosseguir na santificação.


Na Confissão de Fé Batista de 1689, o capítulo sobre a Lei de Deus (19) é seguido imediatamente pelo capítulo sobre o Evangelho e a Extensão de Sua Graça (20). A Confissão Batista diz o seguinte:

A LEI DE DEUS

1. Deus outorgou a Adão uma lei de obediência, que lhe inscreveu no coração; e também um preceito particular, o de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Dessa maneira, Adão e toda sua posteridade ficaram compelidos a uma obediência pessoal, total, exata e perpétua, à lei. Deus prometeu vida como recompensa do cumprimento, e morte como castigo da quebra da lei, tendo dado ao homem o poder e a habilidade para guardá-la.

2. A mesma lei que uma vez foi inscrita no coração humano continuou a ser uma regra perfeita de justiça após a queda. E essa lei foi dada por Deus sobre o monte Sinai e inscrita em duas tábuas de pedra, na forma de dez mandamentos. Os quatro primeiros mandamentos contêm nossos deveres para com Deus, e, os outros seis mandamentos, nossos deveres para com os homens.

3. Além desta lei, comumente chamada de lei moral, Deus houve por bem dar leis cerimoniais ao povo de Israel, contendo diversas ordenanças simbólicas: em parte, de adoração, prefigurando Cristo, as suas graças, suas ações, seus sofrimentos, e os benefícios que conferiu; e, em parte, estabelecendo várias instruções de deveres morais.

As leis cerimoniais foram instituídas com vigência temporária, pois mais tarde seriam ab-rogadas por Jesus, o Messias e único Legislador, que, vindo no poder do Pai, cumpriu e revogou essas leis.

4. Deus também deu diversas leis judiciais ao povo de Israel, que expiraram juntamente com o antigo Estado de Israel e agora não possuem caráter obrigatório; são válidas, no entanto, como um padrão moral de equidade coletiva.

5. Para sempre a lei moral requer obediência de todos, tanto de pessoas justificadas quanto das demais. E isto não apenas por causa do assunto de que trata essa lei, mas, também, por causa da autoridade de Deus, o Criador, que a impôs. No evangelho, Cristo de modo nenhum dissolve a lei, antes confirma a sua obrigatoriedade.

6. Embora os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei (como num pacto de obras), para serem justificados ou condenados por ela, mesmo assim a lei é de grande utilidade para eles, bem como para outras pessoas. Isso porque a lei, como uma regra de vida, lhes informa da vontade de Deus e do dever que lhes cabe, dirigindo e constrangendo-os a caminhar segundo esse dever. A lei também descobre as contaminações pecaminosas da natureza humana, dos corações e das vidas, para que eles, examinando-se na lei, possam vir a ter uma maior convicção, humilhação e ódio pelo pecado, além de uma visão mais clara de sua necessidade de Cristo e da perfeição da obediência de Cristo.

Da mesma forma, a lei é útil para restringir as corrupções dos regenerados, pois proíbe o pecado. As ameaças da lei servem para mostrar o que os pecados deles merecem, e com que aflições eles podem contar nesta vida, se pecam, mesmo depois de libertados da maldição e do rigor intransigente da lei.

Igualmente, as promessas da lei demonstram a aprovação de Deus à obediência e quais bênçãos os homens podem esperar receber se cumprirem a lei, embora essas bênçãos não lhes sejam devidas por encargo da lei, como seria num pacto de obras. Por conseguinte, se um homem faz o bem e se refreia do mal (porque a lei encoraja a uma coisa e o dissuade da outra), isso não é evidência de ele estar debaixo da lei e não debaixo da graça.

7. Os usos da lei, acima mencionados, não são contrários à graça do evangelho; antes, concordam docemente com ela, à medida em que o Espírito de Cristo conquista a vontade do homem e o capacita a fazer, espontânea e alegremente, aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que seja feito.

O EVANGELHO E A EXTENSÃO DE SUA GRAÇA

1. O pacto das obras foi quebrado pelo pecado e se tornou inútil para conduzir à vida. Mas Deus foi servido prometer Cristo, o descendente de mulher, como o meio de chamar os eleitos e gerar neles fé e o arrependimento. Nesta promessa, a essência do evangelho foi revelada, o que tornou-a eficaz para a conversão e salvação de pecadores.

2.Esta promessa, referente a Cristo e à salvação através dEle, somente é revelada pela Palavra de Deus. As obras da criação ou da providência, bem como a luz da natureza, não fazem mais do que uma apresentação genérica e obscura de Cristo e da graça através dEle; muito menos do que o necessário para que os homens destituídos da revelação de Cristo pudessem alcançar fé salvadora ou arrependimento.

3. A revelação do evangelho a pecadores - para nações e indivíduos a quem tem sido feita, muitas vezes e de muitas maneiras, com adição de promessas e preceitos de obediência - é devida unicamente à vontade soberana e ao beneplácito de Deus.

A revelação do evangelho não está ligada (em virtude de alguma promessa) ao devido bom uso das habilidades humanas à luz da revelação comum, recebida sem o evangelho, porque ninguém jamais conseguiu, nem poderá conseguir tal coisa. Conseqüentemente, em todas as eras, a pregação do evangelho tem sido feita em grande variedade de extensão ou limitação, a indivíduos e a nações, de acordo com o conselho da vontade de Deus.

4. O evangelho é o único meio externo de revelação de Cristo e da graça salvadora, e, como tal, é abundantemente suficiente para isso. No entanto, para que homens que estão mortos em transgressões possam nascer de novo, ser vivificados ou regenerados, faz-se necessária, também, uma obra efetiva e insuperável do Espírito Santo, em cada parte da alma, para produzir neles uma nova vida espiritual. Sem esta obra do Espírito Santo não há outros meios de produzir a conversão a Deus.

Cultura

A origem da nossa palavra “cultura” encontra-se na língua latina. O radical da palavra é o riquíssimo verbo latino colo, que tem o sentido original de “cultivar”. O vocábulo latino cultus (particípio de colo) tem, portanto, inicialmente o sentido de cultura da terra. O verbo assumiu o sentido de “cuidar de”, “tratar de”, “querer bem”, “ocupar-se de”, “adornar”, “enfeitar”. Depois o sentido de “civilização”, “educação”; e também o sentido de “adorno”, “moda”, “decoração”. Mais recentemente, os alemães tomaram a palavra “cultura” num sentido mais amplo, para referir-se ao cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação. Atualmente, na língua portuguesa, talvez não exista nenhuma outra palavra com sentido mais abrangente do que a palavra “cultura”. Por cultura se entende muita coisa.

“Cultura” é o campo de estudo da antropologia. Diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos. Não pode existir uma sociedade sem cultura. Utilizamos aqui, portanto, uma concepção ampla de cultura, que diz respeito a tudo o que caracteriza uma realidade social, a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade. As conclusões do Congresso de Lausanne sugerem o seguinte conceito: “cultura é um conjunto integrado de crenças, de valores, de costumes, e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes, que unem a sociedade e lhe proporcionam um sentido de identidade, de dignidade, de segurança e de continuidade.”

O conceito moderno e secular de cultura sustenta-se sobre três pilares:

1) A IDÉIA DE TOTALIDADE - No conceito de cultura, a idéia de totalidade está presente, pois cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. A cultura implica uma certa medida de homogeneidade. Michael Horton, em seu livro “O Cristão e a Cultura; nem separatismo nem mundanismo”, salienta esta característica globalizadora no conceito, quando diz: “Embora em cada cultura existam muitas subculturas, existem tendências que marcam um povo”.

O antropólogo brasileiro, Roberto da Matta, diz que não “há cultura se não houver uma tradição viva, conscientemente elaborada que passe de geração para geração, que permita individualizar ou tornar singular e única uma dada comunidade relativamente às outras (constituídas de pessoas da mesma espécie). É a tradição que dá à coletividade a consciência do seu estilo de vida." A cultura une várias gerações durante uma época. O processo mediante o qual as pessoas aprendem o modo de vida da sua sociedade é denominado de enculturação. A cultura é dinâmica e sofre mudanças. A cultura nunca é estática. Quando a mudança é mais rápida do que a capacidade da comunidade adaptar-se a ela, podemos falar corretamente de um “choque cultural.

A cultura implica, assim, uma certa medida de homogeneidade. Não obstante, dentro de uma cultura também podem haver subculturas, em que a unidade maior pode ser uma comunidade, um clã, ou uma tribo pequena, etc. Se as variações ultrapassam determinado limite, surge uma contracultura, e este processo pode se tornar muito destrutivo. O termo “contracultura” foi cunhado pela imprensa norte-americana, nos anos 60. A palavra dizia respeito ao espírito libertário e questionador da racionalidade ocidental. Uma das características básicas do conceito é o fato de se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das sociedades do Ocidente. Uma postura, ou até uma posição, de crítica radical em face da cultura convencional.

Homens e mulheres precisam de uma existência unificada. Sua participação em uma cultura é um dos fatores que lhes proporciona o sentido de pertencer a algo. A cultura dá um sentido de segurança, de identidade, de dignidade, de ser parte de um todo maior e de partilhar a vida de gerações anteriores e também das expectativas da sociedade com respeito a seu próprio futuro.

2) A IDÉIA DE NATURALIDADE – A antropologia secular corretamente afirma que cultura é uma realidade humana. Cultura é algo humano, no sentido em que se relaciona com o homem, em sua individualidade e em seus relacionamentos sociais, e com o meio em que vive. Entretanto, a antropologia secular afirma o caráter estritamente natural da cultura. Isto é: o homem é a origem e o objeto exclusivos da cultura. O antropólogo e o sociólogo seculares abordam o estudo da cultura supondo que o mundo é um sistema fechado, e que todos os fatores da formação cultural, inclusive o religioso, estão contidos dentro do sistema e determinados por ele, de modo que as próprias alegações do conhecimento de âmbitos sobrenaturais ou supraculturais são, elas mesmas, o produto do sistema.

Em contraponto, alguns antropólogos cristãos fazem uma consideração acertada da importância do âmbito “supracultural” da realidade na sua interação com os fatores culturais humanos. Por “supracultura” eles se referem aos “fenômenos da crença e do comportamento cultural que têm sua origem fora da cultura humana”. O Pacto de Lausanne asseverou: “Uma vez que o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e bondade. Pelo fato do homem ter caído, toda a sua cultura (usos e costumes) está manchada pelo pecado e parte dela é de inspiração demoníaca”.

Concluímos que a realidade do âmbito de Deus e de Seu reino, e de Satanás e do império dele, é algo que precisamos considerar em nosso estudo da cultura. A primeira origem supracultural dos fenômenos na cultura é a divina, e a segunda origem supracultural é a demoníaca. A Escritura clama por arrependimento e reforma, e a história registra numerosos casos de mudança cultural para melhor. Como seres humanos caídos, nenhuma das nossas culturas é perfeita em verdade, beleza e bondade. No âmago de toda cultura (quer seja esse cerne uma visão “religiosa” ou “secular”) há um elemento de egocentrismo, de auto-adoração do homem.

Portanto, a realidade da interação entre o conteúdo supracultural e a forma cultural é da máxima importância em qualquer abordagem adequada nas relações entre a Igreja e a Cultura. A cultura nunca é neutra. Cada cultura reflete este conflito. A religião nunca é meramente uma questão humana, mas, sim, um encontro dentro do âmbito supracultural do reino de Deus e do império de Satanás. No centro da cultura há uma cosmovisão, ou seja, uma compreensão geral do caráter do universo e do lugar que se ocupa neste universo. Esta compreensão pode ser “religiosa”, ou pode expressar um conceito “secular” da realidade, como a proposta de sociedade do marxismo materialista.

3) A IDÉIA DE NEUTRALIDADE – A antropologia secular resiste ao conceito de que os valores culturais possuem mérito e qualidade. Aqui está outro grande problema para o cristão diante da antropologia contemporânea. Um dos problemas que confrontamos é que a visão da sociedade secular tende a considerar a cultura, em suas variadas formas de expressão, como moralmente neutra. Não existe o “certo” ou o “errado”, quando se trata de cultura. É tudo apenas uma questão de usos e costumes. Assim, isto se conecta com a idéia de relatividade. Qualquer tentativa de correção de aspectos culturais é considerada como um impróprio juízo de valor, e rotulada de etnocentrismo cultural, ou violência cultural. “Todas as religiões têm que abandonar a sua arrogância teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma cultura superior à outra. Todas são igualmente boas. Todas as tradições religiosas culturais têm os seus valores salvíficos”. Um jornalista escreveu recentemente que o povo brasileiro tem sido “ensinado nas escolas a considerar que o canibalismo, os sacrifícios humanos ou rituais para tornar os inimigos sexualmente impotentes são expressões religiosas tão respeitáveis quanto a fidelidade judaica e a piedade cristã”. Portanto, não há mais necessidade de conversões! Essa pressuposição também esvazia o conceito de missões religiosas em terras estrangeiras ou transculturais.

Há, portanto, uma tendência de conceituar cultura de uma forma tal que todas as formas comportamentais são aceitas como válidas e até mesmo valiosas. Essa mesma tendência se estende a outras áreas de realizações humanas, como por exemplo, às artes plásticas e à música. Boa parte do que é chamado de “música”, em vez de produzir prazer estético, produz apenas repugnância e perplexidade ante a decadência. Boa parte do que é chamado “arte”, em vez de cultivar o belo, exalta o horrendo. Somos ensinados, por algumas pessoas, que tudo que provêm espontaneamente de um povo deve ser aceito e até trazido para a igreja. É tudo uma questão de estilo, nos dizem.

Daí colocar-se um desafio para os cristãos, visto que estes reconhecem a Palavra de Deus como o padrão aferidor da cultura. E não seria isto que deveríamos concluir da oração de Jesus Cristo, quando diz que a Palavra do Pai é a Verdade?

Alguém que leu este texto comentou que ele também "levanta a questão da contextualização, que não pode ser evitada pela igreja evangélica à cada geração". E acrescentou: "Pessoalmente, acho que cada cultura mantém traços da Queda, que se revelam em práticas e costumes e ritos e jeitos de ser. O Evangelho pode se aproveitar da cultura desde que a expurgue destes traços remanescentes da vida de Adão. Esse é o desafio". Um comentário muito acertado, parece-me.

Teologia Reformada: aspectos pactual e revelacional

Uma característica da teologia reformada é que ela é firmemente tanto pactual quanto revelacional. Todo crente reformado percebe que um dos seus desafios é confrontar-se com estes dois aspectos de sua fé bíblica, de uma maneira tal que a ênfase em um não acabe devorando o outro.[1]

Na Confissão de Fé de Westminster, presbiteriana, a palavra “dispensação” é utilizada duas vezes num sentido amplo, derivando-se do verbo dispensar (8.8 e 34.2), e também é duas vezes utilizada num sentido específico: “várias dispensações” (7.6) e “dispensação do Novo Testamento” (23.2). Quanto a este último sentido mais específico, a palavra é usada tanto na Confissão de Fé de Westminster quanto no Dispensacionalismo. Ambos os sistemas utilizam esta palavra no sentido de “uma administração” de algum propósito ou plano de Deus, mas é preciso que se diga que eles diferem na compreensão sobre o que é administrado.

Para os nossos queridos irmãos presbiterianos em sua distinta Confissão de Fé de Westminster, o que é administrado torna-se claro ao se tratar do “Pacto da Graça” (7.5-6): “Este pacto no tempo da Lei não foi administrado como no tempo do Evangelho. Sob a Lei foi administrado por promessas, profecias, sacrifício, pela circuncisão... Sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da palavra e a administração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor... Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância mas um e o mesmo sob várias dispensações”.

Na Confissão de Fé Batista (1689) não encontramos a palavra “dispensação” em seu sentido específico.[2] Quando trata do Evangelho e a Extensão de sua Graça (20.1), a Confissão Batista diz que “Deus foi servido prometer Cristo, o descendente da mulher, como o meio de chamar os eleitos e gerar neles a fé e o arrependimento. Nesta promessa, a essência do evangelho foi revelada, o que tornou-a eficaz para a conversão e salvação de pecadores”. Em seu comentário, Samuel Waldron escreve: “Esta orgânica e temática unidade dos pactos contradiz a popular estruturação dispensacional das Escrituras. No lugar de distintas dispensações com diferentes povos e diferentes testes, há um propósito de redenção progressivamente revelado e um povo da redenção progressivamente revelado”.[3]

Os reformados podem diferir quanto ao número das “dispensações” nas quais devem ser propriamente divididos os procedimentos de Deus com o homem desde a queda. Mas, conforme pode ser visto em suas confissões de fé[4], em geral eles concordam que estas dispensações são todas administrações de um e o mesmo Pacto da Graça. Central na compreensão reformada é a visão de que o ensino da Bíblia é de um único plano de salvação. Os reformados rejeitam a idéia de que Deus teve vários (ou mesmo apenas dois) planos de salvação para diferentes grupos ou tipos de pessoas. Alguns há que divergem deles neste aspecto, ainda que não concordem entre si com todas as inferências que podem ser obtidas deste ponto de partida fundamental. Alguns têm ensinado que Deus tem propósitos distintivamente diferentes para grupos específicos, e que cada um desses grupos está unido a Ele por vários e diversos pactos realmente diferentes em caráter. As Confissões de Fé reformadas, entretanto, ensinam que há apenas um plano de salvação – que os homens são salvos apenas em Cristo, pela graça mediante a fé. Em sua escatologia, a Confissão de Fé Batista ensina que todos os justos irão para a “vida eterna” (32.2), que também é mencionada como uma “herança eterna no reino dos céus” (8.5). Os ímpios serão “lançados aos tormentos eternos e punidos com eterna destruição” (32.2). Este é o destino final dos salvos e dos perdidos.

Ao tratar do Pacto da Graça (7.3), a Confissão Batista de 1689 declara: “Este pacto está revelado no evangelho: primeiramente, na promessa feita a Adão, de salvação pelo descendente da mulher; depois, por etapas sucessivas, até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Com esta declaração, os batistas assumem a verdade de que o caminho ou esquema da salvação tem sido um e o mesmo em todas as eras do mundo. As grandes promessas de todos os pactos são cumpridas em Cristo e no “Novo Pacto” (Ef 2.12; Jo 1.14; Mt 1.22-23). Todos os precedentes pactos foram típicos e preparatórios, e a salvação é pela promessa. Isto significa dizer que ela é pela graça, através da fé num Redentor que está por vir. Sua eficácia para salvar dava-se apenas através do antecipado trabalho de Cristo (Hb 9.15). Dr. Samuel Waldron comenta:

A ênfase da Confissão de Westminster está na unidade do pacto da graça. Apenas suas ordenanças externas ou sacramentos são mudados sob o evangelho. A Confissão Batista não limita artificialmente o desenvolvimento do pacto da graça em meras mudanças em sua administração externa ou sacramentos. Ademais, ela não limita sua discussão da revelação do pacto da graça a uma (relativamente estreita) apresentação dual de Velha e Nova administrações deste pacto. Ao contrário, ela introduz a idéia de progressiva revelação, começando com ´Adão`, prosseguindo por ´etapas sucessivas` até a ´plena manifestação` do pacto da graça no Novo Testamento. A apresentação da Declaração de Westminster tende a minimizar a diversidade dos procedimentos pactuais de Deus e omite a progressão nas características da comunidade do pacto. A apresentação da Confissão Batista, com seu uso da idéia de progressiva revelação, provê um equilíbrio entre a unidade e a diversidade e uma abrangente perspectiva nos procedimentos pactuais de Deus”.[5]

Um aspecto a ser salientado é que, quando os batistas entendem que o Pacto da Graça é completa e plenamente revelado apenas no “Novo Pacto”, então é-lhes impossível pensar que infantes estão incluídos nele. Na opinião do celebrado Dr. Charles Hodge (1797-1878), nós não deveríamos chegar a tanto. Escreveu ele:

À vista de Deus, pais e filhos são um só. Os primeiros são os representantes autorizados destes últimos. Agem por eles, contraem obrigações em nome deles. Em todos os casos, portanto, onde os pais entram num pacto com Deus, eles levam consigo seus filhos... Se um homem se unisse à comunidade de Israel, ele assegurava para seus filhos os benefícios da teocracia, a não ser que estes filhos voluntariamente os renunciassem. E assim, quando um crente adota o pacto da graça, ele traz seus filhos para dentro dessa aliança, no sentido que Deus lhes promete dar, no tempo determinado por ele, todos os benefícios da redenção, se eles não renunciarem ao seu compromisso batismal.[6]

O igualmente reverenciado Dr. Johannes Geerhardus Vos (1862-1949) ensinava que os envolvidos na Aliança da Graça são os eleitos. Ainda assim, para ele, “os filhos dos crentes estão incluídos na Aliança da Graça”. E ele conclui: “Temos de admitir que o fato de os filhos dos crentes estarem incluídos na Aliança da Graça não implica em que todos os filhos dos crentes, sem exceção, são pessoas eleitas que receberão a vida eterna”.[7]

E Dr. Hodge defronta-se com as implicações de seu argumento, quando escreve: “A fim de justificarmos o batismo infantil, temos de obter e autenticar uma idéia acerca da igreja como uma entidade que inclui os filhos dos pais crentes.”[8] E suas conclusões são bastante inquietantes. Entre as quais:

Pecam gravemente contra as almas de seus filhos os pais que deixam de consagrá-los a Deus, através da ordenança do batismo. Permitam que os pequeninos tenham seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro, mesmo que depois eles prefiram apagá-los. Sendo deste modo arrolados, torne-se o batismo o instrumento para a salvação deles.[9]

Reflita solenemente por alguns momentos nessas palavras do parágrafo acima. Concorda que são bastante inquietantes? Alguém até poderia dizer que são mesmo bastante desconcertantes – aliás, um adjetivo cuja etimologia remete para “fazer perder o concerto”.

Estado e Desobediência Civil

A conclusão de respeitados estudiosos é que a epístola aos Romanos foi escrita entre os anos 55 a 58 d.C, portanto, durante os primeiros anos do imperador Nero (54-68). Giordani nos lembra que “os maus instintos do novo César se revelaram através da perseguição de todos os que podiam fazer sombra à sua autoridade despótica”, e que coube a Nero “o triste papel de ser o iniciador das grandes perseguições aos cristãos em Roma”.[1] O apóstolo Paulo, não obstante, escreve aos cristãos em Roma acerca de seus deveres para com as autoridades civis: "Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus (...) A autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto se fizeres o mal, teme (...) pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal" (Rm 13.2,3,4). E também escreve a Tito, a fim de que este recomende aos cristãos em Creta: "Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes (...) não difamem a ninguém (...) sejam cordatos (...) para com todos os homens" (Tt 3.1,2).

A Igreja militante está atuando na sociedade humana, nesta esfera temporal e terrena. Ela não vive, atua ou desenvolve-se num vácuo. O Estado é uma realidade social; a Igreja também.

Para os reformadores, tais como Lutero e Calvino, o Estado é ordenado por Deus e um dom para esta vida. Por conseguinte, os cristãos não devem menosprezá-lo, mas sim aceitá-lo. Por outro lado, estes mesmos reformadores insistiram em que o estado não pode ser considerado um fim em si mesmo; é primordialmente um meio. E acrescentaram que a obediência a Deus é mais importante que o dever para com o estado. Deste modo, se qualquer superior viola nossas obrigações religiosas, podemos negar-nos à submissão a ele. O homem deve lealdade a um Deus soberano, acima de todos os outros soberanos. Em seu comentário sobre o quinto mandamento, Calvino escreve:


O fim deste mandamento é: Uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que há disposto, importa invioláveis nos sejam os graus de eminência por Ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os assistamos de honra, e de obediência, e de grato reconhecimento. De onde se segue o interdito: que lhes não derroguemos algo à dignidade, seja por desdém, seja por altaneria, seja por ingratidão.


(...) Com efeito, compartilha Seu nome com aqueles a quem distribui eminência, até onde se faz de mister que ela seja preservada. A Ele Só de tal modo convém na Escritura os títulos Pai, Deus e Senhor (...) Portanto, aqueles a quem faz partícipes destes títulos ilumina-os como que com uma centelha de Seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra de conformidade com sua posição de eminência. Destarte, aquele que nos é pai, nele é próprio reconhecer algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem alguma comunhão de honra com Deus.

(...) Em vista do que, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por ordenação Sua, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento e com quantas formas de servi-lo podemos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto o que quer que sejam, afinal, não hão alcançado esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis sejam honrados.

(...) Mas, isto se deve também de passagem assinalar: que se nos ordena obedecer-lhes somente no Senhor [Ef 6.1]. Nem é isto obscuro do fundamento previamente lançado, pois ocupam esta posição, à qual os elevou o Senhor, com eles compartilhada uma parcela de Sua honra. Portanto, a sujeição que é para com eles exibida deve ser um passo para que seja contemplado de honra esse Pai Supremo. Pelo que, se nos instigam à transgressão da Lei, então, com justiça, não devem se por nós havidos por pais, mas por estranhos, que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores nossos. Pois é afrontoso e irrazoável que a rebaixar a excelsitude de Deus prevaleça a eminência destes, eminência que, uma vez que depende daquela, portanto, para com ela nos deve conduzir.[2]

Os desenvolvimentos políticos na Inglaterra e na América do Norte estiveram particularmente vinculados com esta posição. Sobre esta base os reis ingleses foram freqüentemente resistidos (e não apenas passivamente) e o Império foi transformado.

Pedro e os demais apóstolos disseram "que mais importa obedecer a Deus do que os homens" (At 5.29). Com toda certeza isto impõe algumas tensões e levanta algumas questões. Calvino estabelece a condição para a desobediência civil: "se nos instigam à transgressão da Lei". Samuel Rutherford (1600-1661) debruçou-se sobre isto no seu Lex Rex: a Lei é Rei. Rutherford, presbiteriano, foi um dos comissários escoceses na Assembléia de Westminster, e mais tarde tornou-se Reitor na Universidade de St. Andrews na Escócia. Rutherford asseverava que a premissa básica do governo civil, e, portanto da Lei, tem que ser a Lei de Deus conforme a Bíblia traz. Certamente, a posição dele traz alguns pontos de inquietação e que requerem reflexão. E alguém que refletiu sobre Rutherford foi Dr. Francis A. Schaeffer (1912-1984). No seu interessante livro Manifesto Cristão, Schaeffer traz dois capítulos bastante inquietantes: "Os limites da obediência civil" e "O emprego da desobediência civil". Para uma consideração deste assunto, recomendo a leitura de todo o seu livro. Entre outras coisas, Schaeffer diz:

Segue-se, porém rapidamente, outra pergunta. Será que Deus determinou como autoridade sobre o Estado alguém autônomo, separado dEle mesmo? Devemos obedecer ao Estado não importando em que circunstância? Será que devemos obedecer? Nesta área o homem seria realmente a medida de todas as coisas? Eu tenho de responder que de maneira alguma é assim. Não é.


Quando Jesus diz em Mateus 22.21 "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" não quer dizer:

DEUS e CÉSAR

Foi, é e sempre será assim:

DEUS
e
CÉSAR

O governo civil, como toda a vida, se encontra debaixo da Lei de Deus. Deus nos deu certas autoridades para proteger-nos do caos que é resultado natural de nosso estado caído. Mas quando qualquer autoridade ordena aquilo que é contrário à Palavra de Deus, os que ocupam o cargo ab-rogam sua autoridade e não devem ser obedecidos. Isso inclui o Estado.

(...) Deus ordenou o Estado como autoridade delegada, não autônoma. O Estado deve ser agente da justiça, para restringir o mal castigando o malfeitor, e proteger o bem na sociedade [Rm 13.1-4]. Quando se faz o contrário, ele não possui autoridade correta. Torna-se, então, uma autoridade usurpada e como tal, sem lei e tirânica.

[1 Pe 2.13-17] Pedro está dizendo aqui que a autoridade civil deve ser honrada e que Deus deve ser temido. O estado, conforme ele o define, deve punir os que fazem o mal e recompensar aqueles que fazem o bem. Se não for assim, desmorona toda a estrutura. Claramente o Estado deve ser um ministério de justiça. Esta é a função do Estado, e dentro dessa estrutura os cristãos devem obedecer-lhe como questão de "consciência" (Rm 13.5).

Mas o que se deve fazer quando o Estado violenta sua função legítima? Os primeiros cristãos morreram porque não obedeceram ao Estado numa questão civil. As pessoas freqüentemente nos dizem que a igreja primitiva não demonstrava desobediência civil, porque não conhecem história da igreja. Por que os cristãos no império romano eram lançados aos leões? Do ponto de vista cristão era por razões religiosas. Mas do ponto de vista do Estado Romano eles estavam em desobediência civil, eram rebeldes civis.

(...) A linha limite é que há um certo ponto em que não existe apenas o direito, mas também o dever, de desobedecer ao estado.[3]

Questões delicadas e difíceis, certamente.
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1. GIORDANI, Mário Curtis. História de Roma. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 65.
2. CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, II, viii. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985, pp. 35, 36 e 38.
3. SCHAEFFER, Francis. Manifesto Cristão. Brasília: Refúgio, 1985, pp. 86-88.

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