Lei e Graça

É realmente necessário estabelecer a distinção entre Lei e Evangelho. E esta distinção precisa ser mantida sob o risco de que se comprometa a ambos. A salvação não se encontra na Lei, mas no Evangelho. Lei e Evangelho cumprem papéis diferentes. Mas não são opostos! Não estão em contradição; os trabalhos que realizam manifestam coordenação. Conquanto cumpram finalidades diferentes, ambos vêm do mesmo Deus, e estão a serviço dEle. Convém-nos apresentar ambos a todos os homens. Eles não se contrapõem. E, nessa ordem colocada por Deus, anunciamos a Lei e, então, o Evangelho. Primeiro ferir; depois curar. Primeiro o vinagre; depois o azeite. Anunciamos o dever, e então a graça – aliás, é bom apressar-me e dizer que a própria Lei já se constitui numa expressão de graça. Primeiro anuncia-se ao homem a vontade moral de Deus. E, então, a Lei cumpre um de seus papéis mais importantes, conforme nos ensina Paulo aos Romanos e aos Gálatas: a boa Lei de Deus revela o nosso pecado, nossa insuficiência, nossa incapacidade, nossa natureza pecaminosa, nossa condenação, nossa maldição, nossa morte. E, ao fazer isto, ela deixa de ser boa? Posso culpar o espelho pelo que ele me revela? Como alguém sentir-se-á pecador se não houver o anúncio do padrão que Deus espera? O pecado pressupõe que exista uma Lei em vigor, porque onde não há Lei também não há transgressão (Rm 4.15).

"porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado" (Romanos 3.20).

"Porque a lei opera a ira; mas onde não há lei também não há transgressão" (Romanos 4.15).

"Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta" (Romanos 5.13).

"Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás" (Romanos 7.7).

"Pois todos quantos são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gálatas 3.10).

"De modo que a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados" (Gálatas 3.24).

A Lei serve ao Evangelho, embora seja distinta dele. A Lei, com o Evangelho, enaltece a graça! A Lei, porém, não salva; condena. A salvação encontra-se por meio do Evangelho.

"sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada" (Gálatas 2.16).

Talvez alguém diga que o padrão moral é Cristo. Há acerto nisto. Porém, qual foi o padrão de Cristo para satisfazer a justiça de Deus? Tentar reger-nos pela Lei, sem Cristo, é uma das expressões do "legalismo", ou outro nome que se prefira dar. O Senhor Jesus Cristo nos salvou da condenação da Lei; não nos salvou, entretanto, para uma não observância da Lei moral. Alguns estabelecem equivocadamente uma contraposição entre a Lei e a Palavra; Deus, porém, não a faz. Outros fazem uma distinção entre uma vida espiritual e a Lei. "Porque bem sabemos que a Lei é espiritual" (Romanos 7.14). A "Lei do Espírito" é a mesma "Lei do Senhor". E os que andam no Espírito, andam na Lei do Senhor. Os que são do Senhor, amam a sua Lei, e a têm inscrita no seu coração.

"Ora, este é o pacto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (Hebreus 8.10)

A posição que diz que o crente não tem qualquer compromisso com a Lei Moral de Deus chama-se antinomismo – palavra composta e de origem grega: anti (contra) + nomos (lei). Normalmente, é a posição apelidada popularmente de "graça barata", não tão rara no meio evangélico. Nos dias apostólicos, já recebiam severa condenação aqueles que convertiam em "libertinagem a graça de nosso Deus" (Judas 4).

No século XX, muita confusão estabeleceu-no no cenário evangélico com relação a este assunto. E o resultado para a evangelização e a Igreja tem sido muito nefasto, ao ponto de alguns colocarem que é possível ter a Cristo como Salvador sem tê-lo como Senhor. "Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum!" Fomos salvos para sermos zelosos de boas obras. Outros, assentaram uma doutrina, bastante popular no Brasil, em que a justificação e a santificação foram desconectadas. Colhemos hoje os frutos amargos dessa semeadura. O crente, porém, é encorajado pelas verdades e promessas do Evangelho; é estimulado pelas motivações do Evangelho e inclinado pelo Espírito Santo a desejar prosseguir na santificação.


Na Confissão de Fé Batista de 1689, o capítulo sobre a Lei de Deus (19) é seguido imediatamente pelo capítulo sobre o Evangelho e a Extensão de Sua Graça (20). A Confissão Batista diz o seguinte:

A LEI DE DEUS

1. Deus outorgou a Adão uma lei de obediência, que lhe inscreveu no coração; e também um preceito particular, o de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Dessa maneira, Adão e toda sua posteridade ficaram compelidos a uma obediência pessoal, total, exata e perpétua, à lei. Deus prometeu vida como recompensa do cumprimento, e morte como castigo da quebra da lei, tendo dado ao homem o poder e a habilidade para guardá-la.

2. A mesma lei que uma vez foi inscrita no coração humano continuou a ser uma regra perfeita de justiça após a queda. E essa lei foi dada por Deus sobre o monte Sinai e inscrita em duas tábuas de pedra, na forma de dez mandamentos. Os quatro primeiros mandamentos contêm nossos deveres para com Deus, e, os outros seis mandamentos, nossos deveres para com os homens.

3. Além desta lei, comumente chamada de lei moral, Deus houve por bem dar leis cerimoniais ao povo de Israel, contendo diversas ordenanças simbólicas: em parte, de adoração, prefigurando Cristo, as suas graças, suas ações, seus sofrimentos, e os benefícios que conferiu; e, em parte, estabelecendo várias instruções de deveres morais.

As leis cerimoniais foram instituídas com vigência temporária, pois mais tarde seriam ab-rogadas por Jesus, o Messias e único Legislador, que, vindo no poder do Pai, cumpriu e revogou essas leis.

4. Deus também deu diversas leis judiciais ao povo de Israel, que expiraram juntamente com o antigo Estado de Israel e agora não possuem caráter obrigatório; são válidas, no entanto, como um padrão moral de equidade coletiva.

5. Para sempre a lei moral requer obediência de todos, tanto de pessoas justificadas quanto das demais. E isto não apenas por causa do assunto de que trata essa lei, mas, também, por causa da autoridade de Deus, o Criador, que a impôs. No evangelho, Cristo de modo nenhum dissolve a lei, antes confirma a sua obrigatoriedade.

6. Embora os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei (como num pacto de obras), para serem justificados ou condenados por ela, mesmo assim a lei é de grande utilidade para eles, bem como para outras pessoas. Isso porque a lei, como uma regra de vida, lhes informa da vontade de Deus e do dever que lhes cabe, dirigindo e constrangendo-os a caminhar segundo esse dever. A lei também descobre as contaminações pecaminosas da natureza humana, dos corações e das vidas, para que eles, examinando-se na lei, possam vir a ter uma maior convicção, humilhação e ódio pelo pecado, além de uma visão mais clara de sua necessidade de Cristo e da perfeição da obediência de Cristo.

Da mesma forma, a lei é útil para restringir as corrupções dos regenerados, pois proíbe o pecado. As ameaças da lei servem para mostrar o que os pecados deles merecem, e com que aflições eles podem contar nesta vida, se pecam, mesmo depois de libertados da maldição e do rigor intransigente da lei.

Igualmente, as promessas da lei demonstram a aprovação de Deus à obediência e quais bênçãos os homens podem esperar receber se cumprirem a lei, embora essas bênçãos não lhes sejam devidas por encargo da lei, como seria num pacto de obras. Por conseguinte, se um homem faz o bem e se refreia do mal (porque a lei encoraja a uma coisa e o dissuade da outra), isso não é evidência de ele estar debaixo da lei e não debaixo da graça.

7. Os usos da lei, acima mencionados, não são contrários à graça do evangelho; antes, concordam docemente com ela, à medida em que o Espírito de Cristo conquista a vontade do homem e o capacita a fazer, espontânea e alegremente, aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que seja feito.

O EVANGELHO E A EXTENSÃO DE SUA GRAÇA

1. O pacto das obras foi quebrado pelo pecado e se tornou inútil para conduzir à vida. Mas Deus foi servido prometer Cristo, o descendente de mulher, como o meio de chamar os eleitos e gerar neles fé e o arrependimento. Nesta promessa, a essência do evangelho foi revelada, o que tornou-a eficaz para a conversão e salvação de pecadores.

2.Esta promessa, referente a Cristo e à salvação através dEle, somente é revelada pela Palavra de Deus. As obras da criação ou da providência, bem como a luz da natureza, não fazem mais do que uma apresentação genérica e obscura de Cristo e da graça através dEle; muito menos do que o necessário para que os homens destituídos da revelação de Cristo pudessem alcançar fé salvadora ou arrependimento.

3. A revelação do evangelho a pecadores - para nações e indivíduos a quem tem sido feita, muitas vezes e de muitas maneiras, com adição de promessas e preceitos de obediência - é devida unicamente à vontade soberana e ao beneplácito de Deus.

A revelação do evangelho não está ligada (em virtude de alguma promessa) ao devido bom uso das habilidades humanas à luz da revelação comum, recebida sem o evangelho, porque ninguém jamais conseguiu, nem poderá conseguir tal coisa. Conseqüentemente, em todas as eras, a pregação do evangelho tem sido feita em grande variedade de extensão ou limitação, a indivíduos e a nações, de acordo com o conselho da vontade de Deus.

4. O evangelho é o único meio externo de revelação de Cristo e da graça salvadora, e, como tal, é abundantemente suficiente para isso. No entanto, para que homens que estão mortos em transgressões possam nascer de novo, ser vivificados ou regenerados, faz-se necessária, também, uma obra efetiva e insuperável do Espírito Santo, em cada parte da alma, para produzir neles uma nova vida espiritual. Sem esta obra do Espírito Santo não há outros meios de produzir a conversão a Deus.

Cultura

A origem da nossa palavra “cultura” encontra-se na língua latina. O radical da palavra é o riquíssimo verbo latino colo, que tem o sentido original de “cultivar”. O vocábulo latino cultus (particípio de colo) tem, portanto, inicialmente o sentido de cultura da terra. O verbo assumiu o sentido de “cuidar de”, “tratar de”, “querer bem”, “ocupar-se de”, “adornar”, “enfeitar”. Depois o sentido de “civilização”, “educação”; e também o sentido de “adorno”, “moda”, “decoração”. Mais recentemente, os alemães tomaram a palavra “cultura” num sentido mais amplo, para referir-se ao cultivo de hábitos, interesses, língua e vida artística de uma nação. Atualmente, na língua portuguesa, talvez não exista nenhuma outra palavra com sentido mais abrangente do que a palavra “cultura”. Por cultura se entende muita coisa.

“Cultura” é o campo de estudo da antropologia. Diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos. Não pode existir uma sociedade sem cultura. Utilizamos aqui, portanto, uma concepção ampla de cultura, que diz respeito a tudo o que caracteriza uma realidade social, a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade. As conclusões do Congresso de Lausanne sugerem o seguinte conceito: “cultura é um conjunto integrado de crenças, de valores, de costumes, e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes, que unem a sociedade e lhe proporcionam um sentido de identidade, de dignidade, de segurança e de continuidade.”

O conceito moderno e secular de cultura sustenta-se sobre três pilares:

1) A IDÉIA DE TOTALIDADE - No conceito de cultura, a idéia de totalidade está presente, pois cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. A cultura implica uma certa medida de homogeneidade. Michael Horton, em seu livro “O Cristão e a Cultura; nem separatismo nem mundanismo”, salienta esta característica globalizadora no conceito, quando diz: “Embora em cada cultura existam muitas subculturas, existem tendências que marcam um povo”.

O antropólogo brasileiro, Roberto da Matta, diz que não “há cultura se não houver uma tradição viva, conscientemente elaborada que passe de geração para geração, que permita individualizar ou tornar singular e única uma dada comunidade relativamente às outras (constituídas de pessoas da mesma espécie). É a tradição que dá à coletividade a consciência do seu estilo de vida." A cultura une várias gerações durante uma época. O processo mediante o qual as pessoas aprendem o modo de vida da sua sociedade é denominado de enculturação. A cultura é dinâmica e sofre mudanças. A cultura nunca é estática. Quando a mudança é mais rápida do que a capacidade da comunidade adaptar-se a ela, podemos falar corretamente de um “choque cultural.

A cultura implica, assim, uma certa medida de homogeneidade. Não obstante, dentro de uma cultura também podem haver subculturas, em que a unidade maior pode ser uma comunidade, um clã, ou uma tribo pequena, etc. Se as variações ultrapassam determinado limite, surge uma contracultura, e este processo pode se tornar muito destrutivo. O termo “contracultura” foi cunhado pela imprensa norte-americana, nos anos 60. A palavra dizia respeito ao espírito libertário e questionador da racionalidade ocidental. Uma das características básicas do conceito é o fato de se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das sociedades do Ocidente. Uma postura, ou até uma posição, de crítica radical em face da cultura convencional.

Homens e mulheres precisam de uma existência unificada. Sua participação em uma cultura é um dos fatores que lhes proporciona o sentido de pertencer a algo. A cultura dá um sentido de segurança, de identidade, de dignidade, de ser parte de um todo maior e de partilhar a vida de gerações anteriores e também das expectativas da sociedade com respeito a seu próprio futuro.

2) A IDÉIA DE NATURALIDADE – A antropologia secular corretamente afirma que cultura é uma realidade humana. Cultura é algo humano, no sentido em que se relaciona com o homem, em sua individualidade e em seus relacionamentos sociais, e com o meio em que vive. Entretanto, a antropologia secular afirma o caráter estritamente natural da cultura. Isto é: o homem é a origem e o objeto exclusivos da cultura. O antropólogo e o sociólogo seculares abordam o estudo da cultura supondo que o mundo é um sistema fechado, e que todos os fatores da formação cultural, inclusive o religioso, estão contidos dentro do sistema e determinados por ele, de modo que as próprias alegações do conhecimento de âmbitos sobrenaturais ou supraculturais são, elas mesmas, o produto do sistema.

Em contraponto, alguns antropólogos cristãos fazem uma consideração acertada da importância do âmbito “supracultural” da realidade na sua interação com os fatores culturais humanos. Por “supracultura” eles se referem aos “fenômenos da crença e do comportamento cultural que têm sua origem fora da cultura humana”. O Pacto de Lausanne asseverou: “Uma vez que o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e bondade. Pelo fato do homem ter caído, toda a sua cultura (usos e costumes) está manchada pelo pecado e parte dela é de inspiração demoníaca”.

Concluímos que a realidade do âmbito de Deus e de Seu reino, e de Satanás e do império dele, é algo que precisamos considerar em nosso estudo da cultura. A primeira origem supracultural dos fenômenos na cultura é a divina, e a segunda origem supracultural é a demoníaca. A Escritura clama por arrependimento e reforma, e a história registra numerosos casos de mudança cultural para melhor. Como seres humanos caídos, nenhuma das nossas culturas é perfeita em verdade, beleza e bondade. No âmago de toda cultura (quer seja esse cerne uma visão “religiosa” ou “secular”) há um elemento de egocentrismo, de auto-adoração do homem.

Portanto, a realidade da interação entre o conteúdo supracultural e a forma cultural é da máxima importância em qualquer abordagem adequada nas relações entre a Igreja e a Cultura. A cultura nunca é neutra. Cada cultura reflete este conflito. A religião nunca é meramente uma questão humana, mas, sim, um encontro dentro do âmbito supracultural do reino de Deus e do império de Satanás. No centro da cultura há uma cosmovisão, ou seja, uma compreensão geral do caráter do universo e do lugar que se ocupa neste universo. Esta compreensão pode ser “religiosa”, ou pode expressar um conceito “secular” da realidade, como a proposta de sociedade do marxismo materialista.

3) A IDÉIA DE NEUTRALIDADE – A antropologia secular resiste ao conceito de que os valores culturais possuem mérito e qualidade. Aqui está outro grande problema para o cristão diante da antropologia contemporânea. Um dos problemas que confrontamos é que a visão da sociedade secular tende a considerar a cultura, em suas variadas formas de expressão, como moralmente neutra. Não existe o “certo” ou o “errado”, quando se trata de cultura. É tudo apenas uma questão de usos e costumes. Assim, isto se conecta com a idéia de relatividade. Qualquer tentativa de correção de aspectos culturais é considerada como um impróprio juízo de valor, e rotulada de etnocentrismo cultural, ou violência cultural. “Todas as religiões têm que abandonar a sua arrogância teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma cultura superior à outra. Todas são igualmente boas. Todas as tradições religiosas culturais têm os seus valores salvíficos”. Um jornalista escreveu recentemente que o povo brasileiro tem sido “ensinado nas escolas a considerar que o canibalismo, os sacrifícios humanos ou rituais para tornar os inimigos sexualmente impotentes são expressões religiosas tão respeitáveis quanto a fidelidade judaica e a piedade cristã”. Portanto, não há mais necessidade de conversões! Essa pressuposição também esvazia o conceito de missões religiosas em terras estrangeiras ou transculturais.

Há, portanto, uma tendência de conceituar cultura de uma forma tal que todas as formas comportamentais são aceitas como válidas e até mesmo valiosas. Essa mesma tendência se estende a outras áreas de realizações humanas, como por exemplo, às artes plásticas e à música. Boa parte do que é chamado de “música”, em vez de produzir prazer estético, produz apenas repugnância e perplexidade ante a decadência. Boa parte do que é chamado “arte”, em vez de cultivar o belo, exalta o horrendo. Somos ensinados, por algumas pessoas, que tudo que provêm espontaneamente de um povo deve ser aceito e até trazido para a igreja. É tudo uma questão de estilo, nos dizem.

Daí colocar-se um desafio para os cristãos, visto que estes reconhecem a Palavra de Deus como o padrão aferidor da cultura. E não seria isto que deveríamos concluir da oração de Jesus Cristo, quando diz que a Palavra do Pai é a Verdade?

Alguém que leu este texto comentou que ele também "levanta a questão da contextualização, que não pode ser evitada pela igreja evangélica à cada geração". E acrescentou: "Pessoalmente, acho que cada cultura mantém traços da Queda, que se revelam em práticas e costumes e ritos e jeitos de ser. O Evangelho pode se aproveitar da cultura desde que a expurgue destes traços remanescentes da vida de Adão. Esse é o desafio". Um comentário muito acertado, parece-me.

Teologia Reformada: aspectos pactual e revelacional

Uma característica da teologia reformada é que ela é firmemente tanto pactual quanto revelacional. Todo crente reformado percebe que um dos seus desafios é confrontar-se com estes dois aspectos de sua fé bíblica, de uma maneira tal que a ênfase em um não acabe devorando o outro.[1]

Na Confissão de Fé de Westminster, presbiteriana, a palavra “dispensação” é utilizada duas vezes num sentido amplo, derivando-se do verbo dispensar (8.8 e 34.2), e também é duas vezes utilizada num sentido específico: “várias dispensações” (7.6) e “dispensação do Novo Testamento” (23.2). Quanto a este último sentido mais específico, a palavra é usada tanto na Confissão de Fé de Westminster quanto no Dispensacionalismo. Ambos os sistemas utilizam esta palavra no sentido de “uma administração” de algum propósito ou plano de Deus, mas é preciso que se diga que eles diferem na compreensão sobre o que é administrado.

Para os nossos queridos irmãos presbiterianos em sua distinta Confissão de Fé de Westminster, o que é administrado torna-se claro ao se tratar do “Pacto da Graça” (7.5-6): “Este pacto no tempo da Lei não foi administrado como no tempo do Evangelho. Sob a Lei foi administrado por promessas, profecias, sacrifício, pela circuncisão... Sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da palavra e a administração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor... Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância mas um e o mesmo sob várias dispensações”.

Na Confissão de Fé Batista (1689) não encontramos a palavra “dispensação” em seu sentido específico.[2] Quando trata do Evangelho e a Extensão de sua Graça (20.1), a Confissão Batista diz que “Deus foi servido prometer Cristo, o descendente da mulher, como o meio de chamar os eleitos e gerar neles a fé e o arrependimento. Nesta promessa, a essência do evangelho foi revelada, o que tornou-a eficaz para a conversão e salvação de pecadores”. Em seu comentário, Samuel Waldron escreve: “Esta orgânica e temática unidade dos pactos contradiz a popular estruturação dispensacional das Escrituras. No lugar de distintas dispensações com diferentes povos e diferentes testes, há um propósito de redenção progressivamente revelado e um povo da redenção progressivamente revelado”.[3]

Os reformados podem diferir quanto ao número das “dispensações” nas quais devem ser propriamente divididos os procedimentos de Deus com o homem desde a queda. Mas, conforme pode ser visto em suas confissões de fé[4], em geral eles concordam que estas dispensações são todas administrações de um e o mesmo Pacto da Graça. Central na compreensão reformada é a visão de que o ensino da Bíblia é de um único plano de salvação. Os reformados rejeitam a idéia de que Deus teve vários (ou mesmo apenas dois) planos de salvação para diferentes grupos ou tipos de pessoas. Alguns há que divergem deles neste aspecto, ainda que não concordem entre si com todas as inferências que podem ser obtidas deste ponto de partida fundamental. Alguns têm ensinado que Deus tem propósitos distintivamente diferentes para grupos específicos, e que cada um desses grupos está unido a Ele por vários e diversos pactos realmente diferentes em caráter. As Confissões de Fé reformadas, entretanto, ensinam que há apenas um plano de salvação – que os homens são salvos apenas em Cristo, pela graça mediante a fé. Em sua escatologia, a Confissão de Fé Batista ensina que todos os justos irão para a “vida eterna” (32.2), que também é mencionada como uma “herança eterna no reino dos céus” (8.5). Os ímpios serão “lançados aos tormentos eternos e punidos com eterna destruição” (32.2). Este é o destino final dos salvos e dos perdidos.

Ao tratar do Pacto da Graça (7.3), a Confissão Batista de 1689 declara: “Este pacto está revelado no evangelho: primeiramente, na promessa feita a Adão, de salvação pelo descendente da mulher; depois, por etapas sucessivas, até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Com esta declaração, os batistas assumem a verdade de que o caminho ou esquema da salvação tem sido um e o mesmo em todas as eras do mundo. As grandes promessas de todos os pactos são cumpridas em Cristo e no “Novo Pacto” (Ef 2.12; Jo 1.14; Mt 1.22-23). Todos os precedentes pactos foram típicos e preparatórios, e a salvação é pela promessa. Isto significa dizer que ela é pela graça, através da fé num Redentor que está por vir. Sua eficácia para salvar dava-se apenas através do antecipado trabalho de Cristo (Hb 9.15). Dr. Samuel Waldron comenta:

A ênfase da Confissão de Westminster está na unidade do pacto da graça. Apenas suas ordenanças externas ou sacramentos são mudados sob o evangelho. A Confissão Batista não limita artificialmente o desenvolvimento do pacto da graça em meras mudanças em sua administração externa ou sacramentos. Ademais, ela não limita sua discussão da revelação do pacto da graça a uma (relativamente estreita) apresentação dual de Velha e Nova administrações deste pacto. Ao contrário, ela introduz a idéia de progressiva revelação, começando com ´Adão`, prosseguindo por ´etapas sucessivas` até a ´plena manifestação` do pacto da graça no Novo Testamento. A apresentação da Declaração de Westminster tende a minimizar a diversidade dos procedimentos pactuais de Deus e omite a progressão nas características da comunidade do pacto. A apresentação da Confissão Batista, com seu uso da idéia de progressiva revelação, provê um equilíbrio entre a unidade e a diversidade e uma abrangente perspectiva nos procedimentos pactuais de Deus”.[5]

Um aspecto a ser salientado é que, quando os batistas entendem que o Pacto da Graça é completa e plenamente revelado apenas no “Novo Pacto”, então é-lhes impossível pensar que infantes estão incluídos nele. Na opinião do celebrado Dr. Charles Hodge (1797-1878), nós não deveríamos chegar a tanto. Escreveu ele:

À vista de Deus, pais e filhos são um só. Os primeiros são os representantes autorizados destes últimos. Agem por eles, contraem obrigações em nome deles. Em todos os casos, portanto, onde os pais entram num pacto com Deus, eles levam consigo seus filhos... Se um homem se unisse à comunidade de Israel, ele assegurava para seus filhos os benefícios da teocracia, a não ser que estes filhos voluntariamente os renunciassem. E assim, quando um crente adota o pacto da graça, ele traz seus filhos para dentro dessa aliança, no sentido que Deus lhes promete dar, no tempo determinado por ele, todos os benefícios da redenção, se eles não renunciarem ao seu compromisso batismal.[6]

O igualmente reverenciado Dr. Johannes Geerhardus Vos (1862-1949) ensinava que os envolvidos na Aliança da Graça são os eleitos. Ainda assim, para ele, “os filhos dos crentes estão incluídos na Aliança da Graça”. E ele conclui: “Temos de admitir que o fato de os filhos dos crentes estarem incluídos na Aliança da Graça não implica em que todos os filhos dos crentes, sem exceção, são pessoas eleitas que receberão a vida eterna”.[7]

E Dr. Hodge defronta-se com as implicações de seu argumento, quando escreve: “A fim de justificarmos o batismo infantil, temos de obter e autenticar uma idéia acerca da igreja como uma entidade que inclui os filhos dos pais crentes.”[8] E suas conclusões são bastante inquietantes. Entre as quais:

Pecam gravemente contra as almas de seus filhos os pais que deixam de consagrá-los a Deus, através da ordenança do batismo. Permitam que os pequeninos tenham seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro, mesmo que depois eles prefiram apagá-los. Sendo deste modo arrolados, torne-se o batismo o instrumento para a salvação deles.[9]

Reflita solenemente por alguns momentos nessas palavras do parágrafo acima. Concorda que são bastante inquietantes? Alguém até poderia dizer que são mesmo bastante desconcertantes – aliás, um adjetivo cuja etimologia remete para “fazer perder o concerto”.

Estado e Desobediência Civil

A conclusão de respeitados estudiosos é que a epístola aos Romanos foi escrita entre os anos 55 a 58 d.C, portanto, durante os primeiros anos do imperador Nero (54-68). Giordani nos lembra que “os maus instintos do novo César se revelaram através da perseguição de todos os que podiam fazer sombra à sua autoridade despótica”, e que coube a Nero “o triste papel de ser o iniciador das grandes perseguições aos cristãos em Roma”.[1] O apóstolo Paulo, não obstante, escreve aos cristãos em Roma acerca de seus deveres para com as autoridades civis: "Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus (...) A autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto se fizeres o mal, teme (...) pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal" (Rm 13.2,3,4). E também escreve a Tito, a fim de que este recomende aos cristãos em Creta: "Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes (...) não difamem a ninguém (...) sejam cordatos (...) para com todos os homens" (Tt 3.1,2).

A Igreja militante está atuando na sociedade humana, nesta esfera temporal e terrena. Ela não vive, atua ou desenvolve-se num vácuo. O Estado é uma realidade social; a Igreja também.

Para os reformadores, tais como Lutero e Calvino, o Estado é ordenado por Deus e um dom para esta vida. Por conseguinte, os cristãos não devem menosprezá-lo, mas sim aceitá-lo. Por outro lado, estes mesmos reformadores insistiram em que o estado não pode ser considerado um fim em si mesmo; é primordialmente um meio. E acrescentaram que a obediência a Deus é mais importante que o dever para com o estado. Deste modo, se qualquer superior viola nossas obrigações religiosas, podemos negar-nos à submissão a ele. O homem deve lealdade a um Deus soberano, acima de todos os outros soberanos. Em seu comentário sobre o quinto mandamento, Calvino escreve:


O fim deste mandamento é: Uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que há disposto, importa invioláveis nos sejam os graus de eminência por Ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os assistamos de honra, e de obediência, e de grato reconhecimento. De onde se segue o interdito: que lhes não derroguemos algo à dignidade, seja por desdém, seja por altaneria, seja por ingratidão.


(...) Com efeito, compartilha Seu nome com aqueles a quem distribui eminência, até onde se faz de mister que ela seja preservada. A Ele Só de tal modo convém na Escritura os títulos Pai, Deus e Senhor (...) Portanto, aqueles a quem faz partícipes destes títulos ilumina-os como que com uma centelha de Seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra de conformidade com sua posição de eminência. Destarte, aquele que nos é pai, nele é próprio reconhecer algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem alguma comunhão de honra com Deus.

(...) Em vista do que, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por ordenação Sua, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento e com quantas formas de servi-lo podemos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto o que quer que sejam, afinal, não hão alcançado esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis sejam honrados.

(...) Mas, isto se deve também de passagem assinalar: que se nos ordena obedecer-lhes somente no Senhor [Ef 6.1]. Nem é isto obscuro do fundamento previamente lançado, pois ocupam esta posição, à qual os elevou o Senhor, com eles compartilhada uma parcela de Sua honra. Portanto, a sujeição que é para com eles exibida deve ser um passo para que seja contemplado de honra esse Pai Supremo. Pelo que, se nos instigam à transgressão da Lei, então, com justiça, não devem se por nós havidos por pais, mas por estranhos, que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores nossos. Pois é afrontoso e irrazoável que a rebaixar a excelsitude de Deus prevaleça a eminência destes, eminência que, uma vez que depende daquela, portanto, para com ela nos deve conduzir.[2]

Os desenvolvimentos políticos na Inglaterra e na América do Norte estiveram particularmente vinculados com esta posição. Sobre esta base os reis ingleses foram freqüentemente resistidos (e não apenas passivamente) e o Império foi transformado.

Pedro e os demais apóstolos disseram "que mais importa obedecer a Deus do que os homens" (At 5.29). Com toda certeza isto impõe algumas tensões e levanta algumas questões. Calvino estabelece a condição para a desobediência civil: "se nos instigam à transgressão da Lei". Samuel Rutherford (1600-1661) debruçou-se sobre isto no seu Lex Rex: a Lei é Rei. Rutherford, presbiteriano, foi um dos comissários escoceses na Assembléia de Westminster, e mais tarde tornou-se Reitor na Universidade de St. Andrews na Escócia. Rutherford asseverava que a premissa básica do governo civil, e, portanto da Lei, tem que ser a Lei de Deus conforme a Bíblia traz. Certamente, a posição dele traz alguns pontos de inquietação e que requerem reflexão. E alguém que refletiu sobre Rutherford foi Dr. Francis A. Schaeffer (1912-1984). No seu interessante livro Manifesto Cristão, Schaeffer traz dois capítulos bastante inquietantes: "Os limites da obediência civil" e "O emprego da desobediência civil". Para uma consideração deste assunto, recomendo a leitura de todo o seu livro. Entre outras coisas, Schaeffer diz:

Segue-se, porém rapidamente, outra pergunta. Será que Deus determinou como autoridade sobre o Estado alguém autônomo, separado dEle mesmo? Devemos obedecer ao Estado não importando em que circunstância? Será que devemos obedecer? Nesta área o homem seria realmente a medida de todas as coisas? Eu tenho de responder que de maneira alguma é assim. Não é.


Quando Jesus diz em Mateus 22.21 "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" não quer dizer:

DEUS e CÉSAR

Foi, é e sempre será assim:

DEUS
e
CÉSAR

O governo civil, como toda a vida, se encontra debaixo da Lei de Deus. Deus nos deu certas autoridades para proteger-nos do caos que é resultado natural de nosso estado caído. Mas quando qualquer autoridade ordena aquilo que é contrário à Palavra de Deus, os que ocupam o cargo ab-rogam sua autoridade e não devem ser obedecidos. Isso inclui o Estado.

(...) Deus ordenou o Estado como autoridade delegada, não autônoma. O Estado deve ser agente da justiça, para restringir o mal castigando o malfeitor, e proteger o bem na sociedade [Rm 13.1-4]. Quando se faz o contrário, ele não possui autoridade correta. Torna-se, então, uma autoridade usurpada e como tal, sem lei e tirânica.

[1 Pe 2.13-17] Pedro está dizendo aqui que a autoridade civil deve ser honrada e que Deus deve ser temido. O estado, conforme ele o define, deve punir os que fazem o mal e recompensar aqueles que fazem o bem. Se não for assim, desmorona toda a estrutura. Claramente o Estado deve ser um ministério de justiça. Esta é a função do Estado, e dentro dessa estrutura os cristãos devem obedecer-lhe como questão de "consciência" (Rm 13.5).

Mas o que se deve fazer quando o Estado violenta sua função legítima? Os primeiros cristãos morreram porque não obedeceram ao Estado numa questão civil. As pessoas freqüentemente nos dizem que a igreja primitiva não demonstrava desobediência civil, porque não conhecem história da igreja. Por que os cristãos no império romano eram lançados aos leões? Do ponto de vista cristão era por razões religiosas. Mas do ponto de vista do Estado Romano eles estavam em desobediência civil, eram rebeldes civis.

(...) A linha limite é que há um certo ponto em que não existe apenas o direito, mas também o dever, de desobedecer ao estado.[3]

Questões delicadas e difíceis, certamente.
_________________

1. GIORDANI, Mário Curtis. História de Roma. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 65.
2. CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, II, viii. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985, pp. 35, 36 e 38.
3. SCHAEFFER, Francis. Manifesto Cristão. Brasília: Refúgio, 1985, pp. 86-88.

Blog Ex Corde. © 2006, Gilson Santos