Predestinação V

A Igreja Católica, seguindo Santo Agostinho (A Graça e O Livre Arbítrio, 1,1; Sermão 169, 11,13), Santo Tomás e tantos outros teólogos aceita a predestinação dos eleitos ao paraíso, mas também afirma a liberdade da vontade humana, distinguindo-se dessa forma do Calvinismo. Predestinação ao inferno, no catolicismo, sempre envolverá o livre arbítrio do homem e os pecados previstos, sendo ele mesmo responsável pela sua própria condenação, e não Deus (rejeição da dupla predestinação).Deus é soberano, em nossa visão, tanto quanto para o protestantismo (em particular o calvinismo), e como será amplamente demonstrado a seguir. Tudo o que se discute é a complexidade da contradição entre a graça e o livre arbítrio, que é uma das mais difíceis e misteriosas questões tanto para a teologia cristã quanto para a filosofia teísta. É claro, a concessão do livre arbítrio também está presente nas igrejas luteranas, anglicanas, metodistas, a maioria dos carismáticos, teologia batista não-denominacional, etc.A Igreja Católica afirma a predestinação como dogma de fide (o maior nível de certeza teológica), e ao mesmo tempo afirma o livre arbítrio e a possibilidade da queda pelo abandono da fé. O material a seguir foi retirado do livro do teólogo alemão Ludwing Ott Fundamentos do Dogma Católico (Rockford, IL: TAN Books, 1974 {orig. 1952}, pp.242-45) e serve para que os protestantes busquem conhecer o que os católicos crêem sobre esta sempre misteriosa, controversa, complexa, grandiosa e abstrata questão teológica:1. DEUS, PELA SUA ETERNA DETERMINAÇÃO, TEM PREDETERMINADO CERTOS HOMENS À BEM-AVENTURANÇA ETERNA (De fide)[De fide = "de fé" – dogma absolutamente aceito por todos os católicos]Esta doutrina está proposta pelo ordinário e geral ensinamento da Igreja como verdade revelada. As definições doutrinárias do Concílio de Trento pressupõem... A realidade da predestinação está claramente atestada em Rm 8,29 e seguintes: ... cf. Mt 25,34; Jo 10,27 e seguintes; At 13,48; Ef 1,4 e seguintes... A predestinação faz parte do plano divino da Eterna Providência.2. BASES DA PREDESTINAÇÃOa) O ProblemaA dificuldade principal reside na questão se a decisão eterna da Deus da predestinação tem sido tomada com ou sem os méritos do homem (antes ou depois do praevisa merita)Somente a predestinação incompleta é independente de qualquer mérito (ante praevida merita), porque a primeira graça não pode ser merecida, e a graça conseqüente, bem como os méritos adquiridos com esta graça e suas recompensas, dependem como os elos de uma corrente, da primeira graça...b) Tentativa de SoluçãoOs tomistas, os agostinianos, a maioria dos escotistas e também molinistas (Suarez, São Belarmino) ensinam uma predestinação absoluta (ad gloriam tantaum), portanto uma ante praevisa merita. De acordo com eles, Deus livremente determina por toda a eternidade, independente dos méritos da graça do homem, a chamar certos homens à bem-aventurança e conseqüentemente concede a eles graça que os guiará infalivelmente à correta execução do Decreto Divino (ordo intentionis). Deus primeiramente concede aos predestinados graças efetivas e felicidade eterna como uma retribuição pelos méritos que fluem de suas livres cooperações com a graça (ordo executionis). O ordo intentionis e o ordo executionis estão em relação inversão um com o outro (glória – graça; graça – glória).A maioria dos molinistas, e também São Francisco de Sales (+1622) ensinam uma predestinação condicionada (ad gloriam tantum), que é, postand popter praevisa merita. De acordo com eles, Deus, por sua scientia media, vê antecipadamente qual homem irá reagir livremente às várias disposições da graça. À luz desse conhecimento Ele escolhe, como Lhe agrada, uma fixa e definida disposição da graça. Agora, por Sua scientia visionis, Ele conhece por antecipação e infalivelmente qual o uso que cada homem fará com a graça concedida a ele. Então Ele elege à bem-aventurança eterna aqueles que por virtude de seus méritos previstos cooperam perseverantemente com a graça, enquanto Ele determina à punição eterna do inferno aqueles que, por causa de seus méritos previstos, negam essa cooperação. A ordo intentionis e a ordo executionis coincidem (graça – glória; glória – graça).As duas tentativas de explicação são permitidas eclesiasticamente. As provas das Escrituras não decidem por qual das duas. Os tomistas citam acima de todas as passagens a carta aos Romanos, na qual o fator divino da salvação é fortemente demonstrado em primeiro plano (Rm 8,29; 9,11-13; 9,20ss)... Os molinistas invocam as passagens que atestam a universalidade da vontade Divina da salvação, especialmente 1 Tm 2,4, assim como as sentenças pronunciadas pelo julgamento do mundo (Mt 25,34-36), em que as obras de misericórdia são dadas como base para a aceitação no Reino de Deus. Mas que estas também são bases para a "preparação" ao Reino, isto é, para uma decisão eterna da predestinação, não pode ser definitivamente provada por eles.Enquanto a tradição pré-agostiniana fica a favor da explicação molinista, Santo Agostinho, pelo menos em suas últimas cartas, é mais a favor da explicação tomista. Esta enfatiza a causalidade universal de Deus enquanto a outra visão enfatiza a universalidade da salvação divina, a liberdade do homem e sua cooperação na salvação. As dificuldades que permanecem dos dois lados provam que a Predestinação, mesmo com uma razão iluminada pela fé, ainda é um mistério insondável (Rm 11,33ss).3. PROPRIEDADES DA PREDESTINAÇÃOa) ImutabilidadeA decisão da Predestinação, como um ato de vontade de conhecimento divino, é uma essência divina imutável em sua essência. O número daqueles que estão registrados no livro da vida (Fl 4,3; Ap 17,8; cf. Lc 10,20) está formalmente e materialmente fixado, isto é, Deus sabe e determina com certeza infalível antecipadamente como e quais os homens que serão salvos.b) IncertezaO Concílio de Trento declarou-se contra o calvinismo, que a certeza do conhecimento da predestinação de alguém somente pode ser obtida por revelação especial... a Sagrada Escritura ordena o homem a trabalhar por sua salvação com temor e tremor (Fl 2,12). O que acha que está no alto cuide que não caia (1 Cor 10,12). Apesar da incerteza, existem alguns sinais da predestinação que indicam uma grande possibilidade da predestinação de alguém, que podem ser a prática perseverante das virtudes recomendadas nas oito beatitudes, recepção freqüente da Sagrada Comunhão, amor ao próximo, amor a Cristo e à Igreja...(Para provas contra a certeza absoluta da salvação coloco algumas passagens: 1 Cor 9:27, 10:12, Gal 5:1,4, Fl 3:11-14, 1 Tm 4:1, 5:15, Hb 3:12-14, 6:4-6, 2 Pd 2:15,20-21. Estas são as mais contundentes, mas existem outras: 1 Sm 11:6, 18:11-12, Ez 18:24, 33:12-13,18, Gal 4:9, Col 1:23, Hb 6:11-12, 10:23,26,29,36,39, 12:15, Ap 2:4-5.).(Muitos protestantes declaram ter uma absoluta "certeza", mas quando tudo é dito e feito, tanto bíblica quanto epistemologicamente, eles simplesmente não conseguem mais chegar a esta certeza, e não estarão mais "certos" do que um católico ou um ortodoxo. Tais declarações são simplesmente improváveis. Em outras palavras, a "segurança" protestante envolve o seguinte argumento em um círculo vicioso: para possuir uma segurança da salvação você deve acreditar que está salvo. Isto tem sido chamado de "fé de confiança" e é totalmente subjetiva, da mesma forma que a "chama no seio" dos mórmons. Martinho Lutero mesmo ilustra a incoerência desta inovação:Devemos dia após dia nos empenhar para uma maior certeza... Todos devem, portanto se acostumarem firmemente com a idéia de que está em estado de graça... Se encontrar dúvida, então deixe exercitar a fé; deve derrubar suas dúvidas e adquirir certeza... O problema da justificação é difícil e delicada, não deveras por ela mesma, pois por ela mesma há grande certeza, mas em relação a nós; isto eu tenho freqüentemente experimentado (In Hartmann Grisar, Luther, London: 1917, v.4, pp.437-443)4. CONCEITO E REALIDADE DA REPROVAÇÃOPor Reprovação se entende a resolução eterna de Deus em excluir certas criaturas racionais do gozo eterno. Enquanto Deus, por Sua graça, positivamente coopera nos méritos sobrenaturais, que levam à beatificação, Ele meramente permite os pecados, que levam à condenação eterna.Em relação ao assunto da decisão da reprovação, deve-se fazer uma distinção entre a reprovação positiva e a negativa, de acordo com a decisão divina de reprovação como uma condenação objetiva ao inferno ou punição, ou exclusão da visão beatífica. Em relação à razão da reprovação a distinção é entre condicional ou incondicional, à medida que a decisão divina de reprovação é dependente ou independente da previsão dos futuros deméritos.DEUS, POR DECISÃO DE SUA VONTADE, PREDESTINA CERTOS HOMENS, EM CONTA DE SEUS PECADOS PREVISTOS, À REJEIÇÃO ETERNA (De Fide).A realidade da reprovação não está formalmente definida, mas é um ensinamento geral da Igreja.5. A REPROVAÇÃO POSITIVAA doutrina herética do predestinacionismo em suas várias formas (Lucidus no século 5, Gottschalk no século 9, Wycliff, Huss e especialmente João Calvino) ensina uma predeterminação positiva para o pecado, e uma incondicional predestinação à punição eterna, isto é, sem a consideração dos futuros deméritos. Isto foi rejeitado como falsa doutrina nos Sínodos particulares de Orange, Quiercy e Valência e pelo Concílio de Trento. Reprovação Positiva Incondicional leva a uma negação da universalidade do divino desejo de salvação, e da redenção, e contradiz a justiça e santidade de Deus assim como a liberdade do homem.De acordo com o ensinamento da Igreja, existe uma Reprovação Positiva Condicional, isto é, ocorre levando em consideração os futuros deméritos (post et propter praevisa demerita). A natureza condicional da reprovação positiva foi demandada pela generalidade da decisão divina de Salvação. Isto exclui o desejo antecipado de Deus em condenar o homem (cf. 1 Tm 2,4; Ez 33,11; 1 Pd 3,9).6. A REPROVAÇÃO NEGATIVASobre a questão da reprovação, a visão tomista favorece não uma absoluta, mas somente uma reprovação negativa. Isto é concebido pela maioria dos tomistas como uma não-eleição à felicidade eterna (non-electio), juntamente com a decisão divina em permitir que algumas criaturas racionais caiam no pecado, e por isso pelas suas próprias culpas percam a salvação eterna. Em contraste com a Reprovação Positiva absoluta da predestinação, os tomistas insistem na universalidade da vontade divina da salvação e redenção, na alocação das graças suficientes para o reprovado e na liberdade do livre-arbítrio do homem. Na prática, a reprovação negativa incondicional de alguns tomistas envolve o mesmo resultado da reprovação incondicional positiva dos predestinacionistas hereges, pois fora o céu e o inferno não há outro estado final.Da mesma forma que a decisão da predestinação, a decisão da reprovação é imutável, mas, sem uma revelação especial, sua incidência é desconhecida do homem.Autor: Ludwing OttFonte: Livro (original alemão) Fundamentals of Catholic Dogma

Soberania Divina

A SOBERANIA DE DEUS EM RELAÇÃO AO LIVRE-ARBÍTRIO

Uma pergunta pode surgir neste momento. Parece que se Deus é Deus, Ele deve ser supremo, absolutamente soberano em Seu universo. Tudo está se realizando sob Seu controle, e de acordo com Seu plano. Se este for o caso, como o homem poderia ter qualquer medida de ação independente?

Homem: Controlado ou Livre?

Em muitas das fontes que foram citadas, houve declarações sobre o homem tendo livre-arbítrio. Mas onde, em um universo rigidamente controlado, há qualquer espaço para uma ação livre ou independente da parte de uma criatura finita? Se tudo, em sua totalidade e em seus mínimos detalhes, está no firme controle de um Ser Supremo, e Ele conduz os negócios dos homens, o homem não estaria, em todos os seus atos, meramente cumprindo um curso prefixado? Seu suposto livre-arbítrio seria apenas uma ilusão, algo que ele pensa que possui, mas que na realidade não tem nenhuma base no acontecimento final?

Alguns pensadores perspicazes têm concluído sobre este assunto que ambos os conceitos são verdadeiros: que é uma concepção majestosa de Deus vê-lo em Sua supremacia voluntariamente conferindo ao homem uma certa esfera limitada de liberdade. Obviamente ela somente estaria dentro do círculo da própria existência restrita do homem que esta é concedida, além da qual Deus continua no controle absoluto. Pela natureza do caso, as ações do homem seriam limitadas de várias maneiras e somente exercitadas dentro da esfera concedida a ele por seu Criador. Permitir ao homem tal medida de auto-determinação é algo que somente um grande e onipotente Deus faria. Quanto maior e mais supremo Ele é (unido à grandeza de Sua graça), mais Ele desejosamente concederia ao homem tal liberdade restrita de ação. Qualquer coisa menor que isso resultaria num universo meramente mecânico, um mundo de rígido determinismo. Além disso, tal existência mecânica não deixaria nenhum espaço para a responsabilidade humana real, ou base para um julgamento final, nem para uma resposta espontânea a seu Criador. Um pouco de reflexão levantaria a pergunta, por que sob tais condições de prefixação Deus debateria com os homens ou pleitearia com eles, por que rogar aos homens para que se arrependam e abandonem o pecado, por que expressar tristeza pela recusa do homem de atender seu Criador?

Deve ser mantido em mente que, se permitir ao homem uma medida de liberdade fosse imposto sobre Deus de fora, ou se fosse forçado sobre Ele por alguma necessidade desconhecida, alguma objeção poderia ser feita. Mas como é Ele próprio que inicia – voluntariamente – por puro amor e para elevados e sublimes fins que Sua onipotência absoluta assegura, é somente para o louvor de Sua glória que é dessa forma.

Auto-Limitações Voluntárias de Deus

A alguns pode parecer surpreendente sugerir que até mesmo dentro de alguma pequena área Deus Se limitaria ou privaria de um completo controle de alguns detalhes mínimos, mas notem como isto tem sido pensado.

O Dr. William E. Biederwolf se graduou pela Princeton University e pelo Princeton Theological Seminary, onde, já pra se formar, ganhou o Greek prize. Ele foi um grande pregador e escritor, e por vários anos foi diretor do Winona Lake School of Theology. Ele disse: “Suponham que aceitemos a explicação que afirma que o pré-conhecimento e a preordenação de Deus não são necessariamente todo-abrangentes. Vocês se recuam diante de uma atitude de pensamento como essa em relação ao Ser Supremo. Isto parece - não é verdade? - refletir desonra sobre Sua perfeição? Todavia, não vamos ser precipitados demais em nosso julgamento. Muitos zelosos e célebres estudiosos defendem a posição e vigorosamente mantêm que, não somente não desonra Deus, mas é a única forma de pensamento que não priva-o dos atributos essenciais de Sua divindade.”

Então o Dr. Biederwolf aplica o princípio às relações ativas entre o homem e Deus, dizendo, se Deus “pode, em resposta à petição de Seu filho fiel, alterar o que, sem tal petição, teria sido de outra forma, nos encontramos querendo saber se tal concepção não está, em comparação com a da absoluta predestinação, igualmente honrando a Deus e não é um tanto estimulante ao homem. A muitos ela parece bem mais.”[1] (How Can God Answer Prayer? terceira edição, pp. 113-114, 120-121)

Citando Nathan E. Wood novamente: “Deus é condicionado pelo fato que há almas humanas. Não é detrativo à Sua infinita soberania dizer que Ele é condicionado em Suas relações com os homens, pela vontade do homem. É uma condição que Ele escolheu colocar sobre Si mesmo quando criou os homens como seres morais livres. Ele certamente é um juiz indicado quanto a se ou não tal condição avilta Sua soberania.... Deus age onipotentemente mas sempre dentro de limites que preservam a liberdade moral e a responsabilidade do homem.” (The Person and Work of Jesus Christ, pp. 130-131, 157)

E. Y. Mullins, que escreveu tanto sobre apologética quanto teologia, disse: “Deus controla a natureza de acordo com leis. Mas o homem está em um nível superior. Deus Se limitou em Seus métodos com seres livres.... Deus é limitado pela liberdade humana. Novamente, Deus é limitado em Seus métodos pelo pecado humano.... Deus deve reduzir Sua própria ação ao mínimo a fim de que não imponha Sua vontade. Concluímos, então, que Deus é limitado pela liberdade e pelo pecado humano para o método da eleição, e que ao executar Seu propósito, Ele deve, por causa destas limitações, trabalhar gradualmente e por meio de agentes humanos.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 268, 348, 349)

O Dr. Henry C. Thiessen declarou: “Deus... pode prever como os homens agirão sem eficientemente decretar como eles agirão. Deus não é limitado na execução de Seus planos, exceto quando se limitou pelas escolhas do homem.... Deus estabeleceu certos limites gerais dentro dos quais Seu universo deve operar. Dentro desses limites Ele deu ao homem liberdade para agir.” (Lectures in Systematic Theology, pp. 346, 396)

H. E. Guillebaud escreveu como segue: “Quando Deus criou o homem com livre-arbítrio, a pergunta se levanta, até que ponto Ele submeteu à limitação de Seu próprio imenso poder, de modo que o livre-arbítrio que Ele conferiu devesse ser permitido um real exercício.... Há passagens que parecem modificar a incondicionalidade da soberania divina, implicando que o abuso humano do livre-arbítrio pode anular Seus graciosos propósitos. Como exemplo, tome a declaração de nosso Senhor sobre o Templo (Mc 11.17). O propósito gracioso para o Templo, declarado em Sua própria Palavra inspirada, é contrastado com a atual condição que o Templo tinha sido levado pela ganância humana. Ou tome um exemplo do Velho Testamento. Um homem de Deus disse a Eli, ‘diz o Senhor Deus de Israel: Na verdade eu tinha dito que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente. Mas agora o Senhor diz: Longe de mim tal coisa, porque honrarei aos que me honram, mas os que me desprezam serão desprezados’ (1Sm 2.30).... Não pode ser que, junto com o plano final de Deus que deve sempre prevalecer (porque Ele é soberano e também traça Seus planos no conhecimento do futuro), há também um propósito provisional, que Deus alegremente teria cumprido para Suas criaturas, que na linguagem humana podemos dizer que Ele anseia cumprir, mas que eles são permitidos obstruir? Isto explicaria todas aquelas passagens onde Deus expressa Seus anseio que Suas criaturas agiriam de tal modo que tornaria possível a Ele abençoá-los como Ele deseja.... A Bíblia descreve Deus como atrás de toda história humana, mas de modo que a soberania divina não exclui o livre-arbítrio ou a soberania humana, mas, antes, que Ele permite a incondicionalidade de sua vontade soberana ser modificada pela liberdade da escolha humana.” (Some Moral Difficulties of the Bible, Inter-Varsity Fellowship, 1941, pp. 60, 65-66, 75)

Da caneta do Dr. Kenneth J. Foreman, professor de teologia doutrinária no Louisville Presbyterian Theological Seminary, vem uma ilustração impressionante e então uma declaração de posição: “Vamos imaginar dois cavaleiros. Um monta sobre um cavalo, todo movimento do qual ele controla absolutamente. O cavalo não se move um milímetro em qualquer parte, a menos que o cavaleiro decida que ele assim moverá, e cuida para que o movimento seja feito. Aqui vemos controle absoluto. Um outro homem monta sobre um outro cavalo. Este cavalo faz vários movimentos que o cavaleiro não comanda, não inicia, não pode nem mesmo prever em detalhes. Mas o cavaleiro está no controle. O primeiro cavalo é um cavalinho de pau; o segundo é um cavalo de espetáculo de andar vigoroso. Mas qual é o melhor cavaleiro? Little Willie, operando seu cavalo mecânico na farmácia da esquina, ou o cavaleiro campeão no espetáculo? Na verdade, qual daria mais honra a Deus: Ele montar este universo como um cavalinho de pau, ou como uma criatura real, viva, de inteligência e espírito?... Nós cristãos não deixaremos de crer na soberania de Deus. Nós presbiterianos não precisaremos nos desculpar por manter essa grande verdade central em nossa doutrina de Deus. Mas não temos que supor que Deus não pode ser soberano sem despojar de Suas criaturas toda sua liberdade.” (K. J. Foreman, God’s Will And Ours, p. 30)

Em What Baptists Believe, o Dr. H. H. Hobbs escreveu: “Deus... pode fazer conforme deseja, estando esta vontade de acordo com Sua natureza, que envolve atributos como Sua verdade, santidade, retidão, e amor. Neste sentido Deus colocou certos limites em Si mesmo. Ele desejou não violar o livre-arbítrio do homem (Gn 3). Ele não age de forma contrária à Sua natureza (Gn 18.25).... Deus é soberano visto que pode fazer aquilo que deseja e que está de acordo com Sua natureza. Ele não é somente onipotente; Ele é amor. Além disso, o homem, criado à imagem de Deus, possui livre-arbítrio.” (pp. 16, 106)

O erudito Dr. C. Wordsworth tocou neste assunto desta forma: “A manifestação da soberania de Deus ao mundo é o fim que Ele tem em vista. O fim é sempre certo; pois é um fim fixado por Deus. Os meios são deixados livres ao homem. Os homens podem escolher o bem e o mal; eles podem obedecer a Deus e se rebelarem contra Ele. Isto é assim pela própria permissão de Deus; pois Ele deu a eles o livre-arbítrio. Se eles O obedecem, conforme Deus deseja e comanda e convida-os a fazer por muitas graciosas promessas de recompensa, então Sua glória é promovida diretamente por suas ações.... Se eles O obedecem ou rebelam-se contra Ele, o fim, que é Sua glória, sempre é atingido. Seu plano não pode ser frustrado pelo pecado deles.” (The New Testament in the Original Greek, With Notes and Introductions, “Romanos,” pp. 195-196)

O Dr. A. T. Robertson, muito simplesmente, comentou sobre 1Tm 2.4: “O qual deseja que todos os homens sejam salvos”: “Deseja, o desejo e vontade de Deus à medida que puder influenciar os homens.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 567)

Um outro escritor batista e erudito reconhecido, o Dr. E. C. Dargan, disse: “Deus é grande demais para ser colocado em oposição ao homem, como se fossem iguais; Ele inclui a escolha do homem em Sua escolha, a obra do homem em Sua obra. O homem pode estar muito confortavelmente livre dentro do dominador propósito e operação de Deus.” (The Doctrines of our Faith, edição revisada, p. 129)

Anteriormente, na mesma obra, ele disse: “A liberdade humana é negada por fatalistas e materialistas; mas certamente, enquanto reconhecemos as limitações da liberdade humana, estamos, todavia, conscientes do poder de escolher como quisermos dentro de limites, e conscientes, também, da responsabilidade da escolha.” (p. 78)

George W. Truett, no qual é provavelmente seu mais notável volume de sermões, disse: “Essa é uma surpreendente expressão usada em um dos salmos, onde o salmista disse, sobre o Israel de Deus: ‘Limitaram o Santo de Israel.’ Eles ‘limitaram Deus.’ A humanidade pode limitar Deus e realmente limita. Sem refletir, isso parece impossível. O Deus infinito, preenchendo toda imensidade, sem início de dias ou fim de anos, onipotente, onisciente, onipresente, eterno – sem refletir, parece impossível que Ele pudesse ser limitado, e todavia Ele pode ser, e é, limitado. O homem limita Deus, do contrário o homem seria uma mera máquina, sem mais volição do que uma árvore ou uma pedra. O homem pode dizer ‘Não’ a Deus, ou o homem pode dizer ‘Sim’ a Deus. O homem pode buscar a face de Deus... ou o homem pode ser rebelde.... Somos informados aqui nos Evangelhos que em uma certa comunidade Jesus não podia fazer muitos milagres por causa da incredulidade das pessoas. A incredulidade foi um obstáculo para Ele. A incredulidade O impediu, até mesmo Cristo Jesus, o Senhor.” (A Quest For Souls, pp. 33, 35)

O homem, por essa razão, é visto possuir uma vontade que é real, e seu uso pode ser de conseqüência significativa, pois a soberania de Deus permite ao homem resolver certas questões para seu próprio bem ou mal. Mas enquanto reconhecendo esta posição do livre-arbítrio e responsabilidade no homem, sabemos, obviamente, que Deus mantém as rédeas do universo em Seu firme controle. Também repousamos certos de que, com Deus no controle, o mal nunca irá triunfar; que o próprio Satanás pode ir até certo ponto; que as forças da iniqüidade serão finalmente e completamente eliminadas e julgadas. Da mesma forma, cremos que Deus tem um plano para cada vida que se sujeita; que, conforme permitimos que Ele assim faça, Deus irá executar Sua vontade perfeita para cada um de nós, e não precisamos caminhar na luz de nossos próprios olhos.

Ilustrações Sugeridas

Às vezes uma ilustração serve para esclarecer as coisas, e neste ponto algumas que têm sido sugeridas podem ser úteis.

O Dr. W. H. Griffith Thomas apresentou a seguinte, que mostra tanto o lugar da livre escolha quando seus limites: “Como tem sido bem apontado, o homem tem plena liberdade para escolher entre tomar ou não tomar veneno, mas se ele tomar, o resultado não pode ser fixado por sua própria vontade; o poder de Deus nas leis da natureza estabelece a questão.” (Epistle to the Romans, Vol. II, p. 155)

O Dr. A. H. Strong em sua Systematic Theology apresentou uma ilustração que é sugestiva: “O homem que carrega um vaso de peixe-vermelho não impede que o peixe se movimente livremente dentro do vaso.” (p. 363) O homem, o ser superior neste caso, mantém por ora o vaso de peixe-vermelho em um estado que pode ser movido. Ele pode determinar, desimpedidamente, se ele irá colocar o vaso sobre a mesa, sobre o parapeito da janela, ou sobre o piano; perto da luz ou à sombra; etc. Se ele for benevolente, podemos supor que ele agirá assim para garantir as melhores condições para o peixe-vermelho. E sua vontade é dominante. Os próprios peixes, todavia, dentro dos limites bem definidos de seu vaso, têm uma medida de livre escolha. Eles podem nadar para um ou outro lado, ou podem ficar parados e descansar no fundo do vaso ou flutuar perto do topo da água. Enquanto houver comida, eles podem comer um pouco ou muito ou nada. A criatura superior, o homem, não força a comida para dentro de suas gargantas, nem determina a quantidade exata que cada peixe irá comer. Se a ilustração for mudada para animais de estimação de uma espécie maior, o homem pode urgentemente apelar pela cooperação deles para seu próprio bem e pode desejar um grau de companheirismo com eles, mas ainda, enquanto superior, ele não controla todos os seus movimentos. Todavia, sua aparentemente liberdade é restringida pela própria esfera de sua existência. Sobre tudo isto podem pensar como o homem pode ter uma medida de livre escolha mas não, por meio dela, anular a soberania de Deus.

Uma outra ilustração, dos escritos de A. W. Tozer, foi apresentada pelo Professor Robert Lightner. “A. W. Tozer dá uma ilustração da relação entre a soberania divina e a liberdade humana: ‘Um enorme navio deixa Nova York em direção a Liverpool. Seu destino foi determinado pelas próprias autoridades. Nada pode mudá-lo.... A bordo do navio está um grande número de passageiros. Eles não estão acorrentados; nem suas atividades foram determinadas para eles por decreto. Eles são completamente livres para mover por todos os lados conforme desejarem. Eles comem, dormem, jogam, passeiam pelo convés, lêem, conversam, juntos como bem entendem; mas todo o momento o grande navio está levando-os fixamente em frente, para um porto predeterminado. Tanto a liberdade quanto a soberania são apresentadas aqui, e elas não se contradizem. Assim é, creio, com a liberdade do homem e a soberania de Deus. O poderoso navio do plano soberano de Deus mantém seu curso fixo sobre o mar da história. Deus movimenta calma e desimpedidamente rumo ao cumprimento daqueles propósitos eternos que Ele propôs em Cristo Jesus antes que o mundo foi fundado.’” (Regular Baptist Press Quarterly, Doctrine of God, Adult Student, pp. 29-30)

Más Representações

Antes de compilar o texto acima, nossa atenção foi atraida por um livrinho sobre a soberania de Deus publicado em Kentucky. Ele propõe dar declarações sobre este tema por alguns dos grandes batistas do passado. Na capa estão retratados a maioria dos líderes batistas de quem as citações são extraídas. A esse respeito ocorrem, entretanto, grosseiras más representações de alguns destes homens. Por exemplo, John A. Broadus é retratado, e então, dentro do livro, três linhas e meia são citadas de seu comentário sobre Mateus. É surpreendente descobrir que estas linhas são exatamente da mesma passagem que citamos anteriormente, mas somente a parte que parece apoiar a rígida eleição é dada. Broadus tem declarações qualificantes, tanto antes como depois das palavras citadas. A declaração completa, que mostra que ele defendia ambos os lados da questão, como sustentamos, é como segue: “Esta seleção dos verdadeiramente salvos pode ser olhada de dois lados. Do lado divino, vemos que as Escrituras ensinam uma eleição eterna de homens para a vida eterna, simplesmente segundo o beneplácito de sua vontade. Do lado humano, vemos que essas pessoas que obtêm as bençãos da salvação por Cristo aceitam o convite do evangelho e obedecem os mandamentos do evangelho. É duvidoso se nossas mentes podem combinar ambos os lados em uma única percepção, mas não devemos, por essa razão, negar que qualquer um deles não seja verdadeiro.” (Commentary on Matthew, p. 450) Que diferença as duas últimas sentenças fazem!

Novamente, J. M. Pendleton é citado de seu livro Christian Doctrine. É verdade que ele acreditava na eleição, mas notem no que ele também acreditava, que é convenientemente omitido na publicação de Kentucky: “Nos propósitos de Deus ‘a violência não é oferecida à vontade da criatura.’ Não há nenhuma verdade mais claramente revelada na Bíblia do que a que Deus é soberano e o homem é livre....” Então, após propor o rei da Babilônia como ilustração, ele disse: “Mas o exercício da soberania divina não conflita com a agência humana. Estava, sem dúvida, entre os propósitos de Deus fazer do homem um agente livre. O que é um agente livre? Respondo nas palavras de Andrew Fuller: ‘Um agente livre é um ser inteligente, que tem liberdade para agir de acordo com sua escolha, sem compulsão ou impedimento.’ A questão não é quanto ao que induz à ação; o ponto é que a ação é livre. Os homens têm agido livremente em todas as épocas do mundo. Os propósitos de Deus, se eficientes ou permissivos, não têm impedido tais ações. Homens bons têm agido livremente e homens maus têm agido com a mesma liberdade.” (Christian Doctrines, pp. 103-104)

Pendleton citou de Andrew Fuller, um outro que esta publicação do sul retrata e cita como se fosse um proeminente homem, rígido defensor da soberania. Todavia, a história batista registra que ele foi, na verdade, um dos mais fortes líderes contra o rígido Calvinismo de seu dia. Uma outra publicação do sul, escrita por um erudito batista do sul, disse de Fuller: “Ele foi o inimigo resoluto do hiper-Calvinismo. Ele disse de uma maneira vigorosa, ‘tivesse continuado como estava, em poucos anos os batistas teriam se tornado um perfeito monte de estrume.’ Sua obra intitulada The Gospel Worthy of All Acceptation, foi um livro de fazer época.” (John T. Christian, A History of the Baptists, Vol. I, p. 351)

Um que tomou a posição na direção oposta de Andrew Fuller foi John Gill. O historiador que acabei de citar disse de Gill: “Ele não convidava pecadores para o Salvador, enquanto pregava a condenação, e afirmava que ele não devia interferir na graça eletiva de Deus.” Este escritor então referiu ao “efeito destruidor de tal sistema de teologia.” (pp. 347-348) O pequeno livro do sul cita corretamente de Gill.

Um outro historiador batista relata que o grande pregador batista, Robert Hall, disse do comentário de Gill, “um continente de lama, senhor.” (H. C. Vedder, A Short History of the Baptists, p. 240) Até C. H. Spurgeon, enquanto reconhecendo seu valor, disse de Gill: “O retrato dele... empinando seu nariz para cima da maneira mais expressiva, como se ele não pudesse suportar até mesmo o cheiro de livre-arbítrio. Com tal estado de espírito ele escreveu seu comentário. Ele caça o Arminianismo durante todo o tempo... ele se lança sobre um texto que não é adequado ao seu credo, e golpeia e bate terrivelmente para colocar a Palavra de Deus de uma forma mais sistemática.” (Commenting and Commentaries, edição Kregel, p. 9)

Novamente, enquanto tentando ser grato com Gill (Spurgeon se tornou o pastor da velha igreja de Gill), Spurgeon disse, “O sistema de teologia com que muitos identificam seu nome tem esfriado muitas igrejas até suas próprias almas, pois as tem levado a omitir os livres convites do evangelho, e negar que seja dever dos pecadores crer em Jesus.” (Spurgeon’s Autobiography, Vol. I, p. 310)

Um outro testemunho nesta tendência está no livro do Dr. J. B. Jeter intitulado Baptist Principles Reset (terceira edição). Em seu capítulo introdutório, após demonstrar alguns pontos doutrinários vastamente reconhecidos como mantido pelos batistas, ele disse: “Pode ser apropriado acrescentar que os batistas geralmente defendem o que pode ser denominado, para o bem da distinção, ‘Calvinismo moderado.’ Eles estão longe de reconhecer Calvino como autoridade nas questões de religião; mas o sistema de doutrina que carrega seu nome, como tem sido modificado pelo estudo das Escrituras, é agora geralmente aceito pelos batistas. Cinqüenta anos atrás [escrito em 1902], a maioria deles aderiram ao rígido Calvinismo, como mantido pelo Dr. John Gill, de Londres. Desde essa época, suas concepções têm sido consideravelmente mudadas, através dos escritos de Andrew Fuller e outros.” (pp. 12-13)

Limites do Livre-Arbítrio

O LADO HUMANO: SEU LUGAR E LIMITES

Até agora vimos que vasto reconhecimento é dado à vontade do homem. Entretanto, em referência a ela e o seu livre exercício, imagina-se que várias coisas foram entendidas, e que elas devem ser mantidas sempre em mente.

A Vontade: Real, Mas Restrita

Em primeiro lugar, é aceito que a vontade do homem é restrita em seu exercício, que ela opera dentro de limites muito definidos, que é restringida pelo plano e propósito controlador geral de Deus, que a soberania divina é suprema na mais larga extensão de todas as coisas. (Ilustrações serão dadas mais tarde.)

Em segundo lugar, não significa que o homem, pelo exercício da vontade, pode de si mesmo fazer aquilo que satisfaça as justas exigências de um Deus santo, ou que por qualquer coisa que ele faça ele possa chegar-se diante de Deus. O homem em seu estado caído não pode de maneira alguma agradar a Deus nem fazer qualquer coisa para salvar sua própria alma. À parte da graça de Deus, o homem estaria completamente e eternamente perdido.

Em terceiro lugar, o emprego desse livre-arbítrio que o homem faz uso não é nada meritório, não é nada que possa gloriar-se ou gabar-se, não é nada para seu crédito pessoal.

Em quarto lugar, Deus, não há dúvida, tem tomado o primeiro passo na salvação do homem provendo o Salvador, como planejado na eternidade passada. Em Sua graça Ele, além disso, provê a disponibilidade dessa salvação aos homens por meios como a pregação do evangelho e pelo convencimento do Espírito Santo.

Com estas considerações em mente pode ser notado que também parece claro que, para ser salvo, o homem deve fazer algo no sentido de exercer fé, crer no evangelho, ativamente receber o Salvador, e ele será considerado responsável se não fizer isso; todavia, como dito, seu exercício dessa fé não é nada meritório.

A razão por que é enfatizado que a fé não tem nenhum mérito, é para que, logo que for argumentado que o homem deve buscar exercer fé, nenhuma objeção possa com justiça ser levantada. Isto é, não pode ser alegado que a salvação através disso deixa de ser completamente da graça ou que seja por conquista humana, pois a fé que o homem exerce é inteiramente não meritória, nada que dá a ele a mais leve base para qualquer alegação sobre Deus. Fé, como será visto, é o mero canal, não o fundamento da salvação do homem. O fundamento ou base da salvação do pecado, obviamente, é a provisão divina na obra acabada de Cristo; os meios ou instrumento de tornar efetiva esta benção celestial é uma pessoa que nada merece se lançando sobre a misericórdia de Deus e a aceitando toda para si. Isto ela deve fazer, e ela unicamente pode fazer.

Fé: Necessária, Mas Não Meritória

Que o homem deve receber a salvação pela fé e que, se ele assim fizer, não seria uma questão de realização humana ou de mérito de sua parte, é evidente nestas citações sobre a necessidade de exercer fé, a liberdade dela, e a natureza não meritória dessa fé.

O Dr. Griffith Thomas disse: “Não há crédito ou mérito no ato de crer, pois confiança em outra pessoa é absolutamente incompatível com auto-retidão e dependência de suas próprias forças.... A fé é um princípio essencial da vida humana, sem a qual não pode haver salvação.... Não há absolutamente nenhuma virtude ou mérito na fé. A confiança é a resposta do homem à verdade de Deus. A fé é a condição, não a base da salvação.” (Epistle to the Romans, Vol. 1, pp. 154, 165)

Similarmente, o Dr. E. Y. Mullins escreveu: “Não somos salvos pelas obras, mas pela graça por meio da fé como a condição. A fé, então, de acordo com o Novo Testamento, nunca é considerada como uma obra meritória.... Fé salvadora é tanto um princípio ativo quanto passivo. Sob um ponto de vista, a fé é simplesmente abrir a mão para receber. É simplesmente a rendição da vontade.... A fé da parte do homem não é uma obra de mérito que possui o poder de compra, mas a condição da salvação. Somente pela fé, à parte de ações meritórias, o homem poderia ser salvo.” (The Christian Religion in its Doctrinal Expression, pp. 373, 375-376)

O Dr. Leander S. Keyser, quem H. A. Ironside caracterizou como “um grande teólogo,”[1] disse sobre isso: “A fé é o canal, na Escritura, através da qual a justificação chega ao homem pela própria razão que ela excluirá todo mérito humano, e faz a salvação do homem uma pura obra da graça de Deus.... Da própria natureza da fé, ela não pode ter nenhum mérito. Fé é simplesmente o ato da alma pela qual ela aceita o dom da salvação de Deus. Não pode certamente haver nenhum mérito em um pobre pecador, indigno, culpado, aceitando a graça que Deus gratuitamente oferece a ele. O fato é que, a necessidade de simplesmente aceitar a dádiva, sem a capacidade de fazer qualquer coisa para fazê-la merecer, acentua e aumenta o seu desmerecimento.” (Election and Conversion, pp. 26-27)

Bishop H. C. G. Moule se expressou sobre isto com as seguintes palavras: “Notemos que a Fé, visto ser a confiança, é obviamente algo tão diferente quanto possível do mérito. Ninguém na vida comum pensa em uma confiança bem firme como meritória. É certo, mas não justo.... O homem que, se descobrindo, na maneira antiga.... ser um culpado pecador, cuja ‘boca está calada’ diante de Deus, confia em Cristo para perdão e paz, certamente não fez nada por merecer qualquer coisa por consentir em sua própria salvação. Ele não merece nada pelo ato de aceitar tudo.” (The Fundamentals, Vol. II, p. 116)

Vários escritores batistas dão declarações breves porém explícitas seguindo esta linha de raciocínio. O Dr. O. C. S. Wallace escreveu: “A salvação vem para a alma que vem para salvação. O Salvador complacente e o pecador penitente se encontram.... O homem não pode salvar a si próprio.... mas ele pode segurar pela fé no braço que é estendido para salvá-lo.... Pois esta salvação é de graça e o homem salvo não pode se gloriar.... Ele não pagou nenhuma parte do preço de sua redenção; por essa razão ele não pode se gloriar de suas capacidades.” (What Baptists Believe, pp. 98-99)

Em um outro livro, W. R. White disse: “Cada um deve se arrepender e crer; cada um deve agir com seu próprio poder soberano de escolha. O indivíduo não somente deve agir por si mesmo; ele é o único que pode. Deus o fez capaz. Não é uma capacidade inerente de mérito, mas é um direito divinamente concedido baseado na misericórdia de Deus.” (Baptist Distinctives, pp. 24-25)

Esta mesma verdade foi reconhecida por C. H. Spurgeon, que disse, “Um conhecimento da verdade nos ensina que a fé é o simples ato de confiar, que não é uma ação da qual o homem pode se gabar; não é uma ação da natureza de uma obra, de forma a ser um fruto da lei.” (Treasury of the New Testament, Vol. III, p. 784)

O Dr. A. T. Pierson colocou desta forma: “Quando o pecado voluntário é cometido por um filho de Adão, a fé voluntária deve entrar na salvação. Enquanto qualquer ser humano peca por si próprio, ele deve crer por si próprio.... A vanglória é excluída. Tenho somente que crer; esta é minha única obra, a obra da fé, que é meu elo de ligação com o Justificador – aceitar Jesus como Salvador, vestir-se de Cristo, aceitar o manto branco de Sua perfeita justiça, que é ‘a todo e sobre todo aquele.... que crê.’” (The Believer’s Life, pp. 20, 33)

O Dr. H. Clay Trumbull, fundador e por muitos anos editor do Sunday School Times, explicitamente disse: “Dificilmente qualquer simples ordem é mais freqüentemente expressada pelo Salvador dos homens, àqueles que desejam Sua ajuda, do que o comando de ‘tenham fé em Deus.’ É em sua fé que Jesus insiste. É de sua fé que Sua ajuda depende. É por meio da fé que eles são salvos. Então clara e positivamente esta verdade é expressa na Bíblia que aqueles que são guiados pelos preceitos desse Livro sempre estão prontos a dar proeminência ao dever da fé como sua base da esperança.” (How to Deal with Doubts and Doubters, p. 51)

O Dr. Albertus Pieters foi um estudioso e escritor da Igreja Reformada na América, um grupo decididamente calvinista, todavia até ele deu um declaração muito forte nesta área: “Não devemos pensar que, visto que somos salvos pela fé, por isso a fé é algo meritório. A fé é como o ato de um mendigo ao esticar sua mão para receber uma dádiva. Ele não merece qualquer coisa por isso, nem um centavo; é meramente a aceitação de uma esmola imerecida e de graça.... Então não há nenhum poder na fé para salvar; o poder está em Cristo e em Sua obra expiatória, mas não podemos recebê-la sem o toque da fé.... Sabemos também que somos seres livres e responsáveis, rejeitando Cristo, se O rejeitarmos, pois não temos nenhum amor pela santidade; e aceitando-O, se O aceitarmos, de nosso próprio livre-arbítrio, sem ser de qualquer forma forçado a aceitar.” (Facts and Mysteries of the Christian Faith, terceira edição, pp. 167, 185)

Mais um da Igreja Reformada na América foi o Dr. David James Burrell, cujas obras publicadas foram largamente aceitas. Ele disse: “Não cabe a mim reconciliar a soberania divina com a liberdade da vontade humana.... Eu estou convencido de que há um Deus onisciente; e eu estou igualmente certo de que tenho uma vontade soberana. O fato importante é este: se for salvo, será pelo exercício da fé pessoal; todavia eu me juntarei ao grupo inumerável dos redimidos atribuindo toda a glória a Deus.” (Old Time Religion, pp. 336-337)

Em conexão com o assunto, o Dr. H. C. Thiessen citou o Dr. Hodge, de posição teológica similar aos dois que acabamos de citar: “Uma resposta positiva à graça preveniente [antecedente] não é ‘mérito.’ Até Hodge disse: ‘Não há nenhum mérito no pedido ou na aceitação, que é a base do presente. Permanece um favor gratuito; mas é, no entanto, suspendido no caso do pedido.’” (Lectures in Systematic Theology, p. 157)

“Depravação Total” e “Incapacidade”

Um problema, entretanto, pode se apresentar aqui. Não é a total depravação do homem reconhecida como um preceito estabelecido de sã doutrina bíblica? E se for, como poderia o homem que é totalmente depravado – absolutamente afundado em pecado e moralmente falido – cumprir qualquer responsabilidade na questão de sua própria salvação?

O homem, sem dúvida, é totalmente depravado. Perante Deus ele é completamente corrupto, absolutamente vil e desprezível, cheio de pecado e arruinado.

Mas como muitas vezes foi apontado, a depravação total no homem não significa sua total incapacidade.

O Dr. James Orr, o famoso presbiteriano escocês, disse sobre isto: “A doutrina em questão é, de fato, mal compreendida quando o adjetivo ‘total’ é acreditado implicar que todo ser humano é tão mau quanto poderia ser, ou que não há virtudes naturais, e até características belas e amáveis em pessoas que ainda não são regeneradas.... ‘Total’ aqui não significa que toda parte do homem é tão corrupta quanto poderia ser, mas que nenhuma parte escapou da depravação ou corrupção (totus, no sentido de ‘em toda parte’). O pecado está na natureza, e sua influência que corrompe, deprava, e polui, penetra nela toda.” (Side-Lights on Christian Doctrine, p. 97)

O Dr. Griffith Thomas similarmente escreveu: “‘Depravação total’ não significa a absoluta perda de todo vestígio do bem, mas que o mal afetou toda parte da natureza e que nada permaneceu intocado.... O livre-arbítrio significa a liberdade da alma para escolher, capacitando-o a determinar a ação consciente.... O homem caído tem a faculdade da vontade, como também tem outras faculdades....” (The Principles of Theology, pp. 165, 180)

Chegando nos teólogos batistas, temos vários comentários detalhados. O Dr. E. Y. Mullins disse: “A frase ‘depravação total’ tem sido empregada em teologia para descrever o estado pecaminoso dos homens. Mas é preciso uma definição cuidadosa para que não sejamos enganados. Em poucas palavras, ela significa que todas as partes de nossa natureza foram afetadas pelo pecado. Não significa que os homens são tão maus quanto poderiam ser, nem que todos os homens são igualmente maus. Não significa que a natureza humana é destituída de todo impulso bom no sentido moral. Significa, antes, que a natureza humana, como tal, e em todas as suas partes em seu estado irregenerado, está sob o domínio do pecado.... Às vezes se declara que o homem possui capacidade ‘natural’, mas não ‘moral’ nas coisas religiosas. Por capacidade natural quero dizer que ele possui todas as faculdades e poderes humanos, incluindo a vontade e o poder de escolha contrária. Ele é auto-determinado e não compelido em suas ações. Ele é responsável e livre. Ele é culpado quando ele age de forma errada.... Por outro lado, é afirmado que ao homem falta ‘capacidade moral’ pois ele não pode mudar sua própria natureza.... Como temos definido estas frases, ambas são verdadeiras.... Se se diz que um homem tem ‘capacidade natural’ nas coisas religiosas, ele provavelmente irá negligenciar a dependência da graça de Deus. Se se diz que a ele falta ‘capacidade moral,’ ele está em perigo de perder seu senso de responsabilidade.” (The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, pp. 294-295)

A. H. Strong mostrou o que a depravação não é, então o que ela é, e depois disse: “Todavia há um certo restante de liberdade deixado ao homem. O pecador pode (a) evitar o pecado contra o Espírito Santo; (b) escolher o menor antes que o maior; (c) recusar totalmente render-se a certas tentações; (d) fazer bons atos exteriormente, embora com motivos imperfeitos; (e) buscar a Deus por interesse próprio.... O pecador pode fazer uma coisa muito importante, a saber, dar atenção à verdade divina.” (Systematic Theology, p. 640)

Em concordância com os últimos pensamentos, o Dr. H. C. Thiessen declarou: “Cremos que a graça comum de Deus também restaura ao pecador a capacidade para fazer uma resposta favorável a Deus. Em outras palavras, mantemos que Deus, em Sua graça, torna possível a salvação de todos os homens... Paulo diz: ‘Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens’ (Tt 2.11). Isto resulta na liberdade da vontade na questão da salvação. Que a vontade foi liberta é implicado de vários exortações para virar-se para Deus (Pv 1.23; Is 31.6; Ez 14.6; 18.32; Jl 2.13-14; Mt 18.3; At 3.19), para se arrepender (1Re 8.47; Mt 3.2; Mc 1.15; Lc 13.3, 5; At 2.38/ 17.30), e crer (2Cr 20.20; Is 43.10; Jo 6.29; 14.1; At 16.31; Fp 1.29; 1Jo 3.23).” (Lectures in Systematic Theology, pp. 155-156)

A Fé é o Dom de Deus?

Um outro ponto relacionado pode naturalmente surgir aqui. Enquanto a necessidade da fé é reconhecida, ainda não é a própria fé o dom de Deus?

É verdadeiro em um sentido que a fé é o dom de Deus, mas é o dom de Deus a todos que a querem, a todos que estão desejosos de usá-la. Visto que, como é de comum acordo, a oferta sincera de salvação é feita a todos, e visto que “quem quiser” pode receber o evangelho, é evidente que a fé salvadora está dentro do alcance de todos. Tal fé é dada por Deus àqueles que desejam ser salvos. Não é dada a todos, pois todos não se beneficiarão dela, não se renderão ao mover do Espírito Santo, e não deixarão o poder regenerador de Deus trabalhar dentro deles.

Sobre a gratuidade do dom da fé, o Dr. R. A. Torrey disse: “A fé é dom de Deus. Como todos os dons de Deus ela está à disposição de todos que a querem, pois não há acepção de pessoas com Ele. Veremos diretamente que é dada através de um certo instrumento que está dentro do alcance de todos, e sob certas condições que qualquer um de nós pode cumprir.” (What the Bible Teaches, p. 379)

O Dr. William Evans disse: “Deus deseja causar fé em todas as Suas criaturas, e assim fará caso elas não resistam ao Seu Espírito Santo. Somos responsáveis, por essa razão, não tanto pela falta de fé, mas por resistir ao Espírito que criará fé em nossos corações se O permitirmos a assim fazer.” (The Great Doctrines of the Bible, p. 149)

De modo similar, o Dr. Harry Ironside disse: “A fé é o dom de Deus.... Todos os homens podem ter fé se desejarem; mas ah, muitos recusam ouvir a Palavra de Deus, de modo que eles são deixados em sua incredulidade. O Espírito Santo apresenta a Palavra, mas alguém pode resistir à Sua graciosa influência. Por outro lado, alguém pode ouvir a Palavra e crer nela. Isto é a fé. É dom de Deus, é verdade, pois é dada através de Sua Palavra.” (Full Assurance, pp. 98-99)

O Dr. C. I. Scofield fez uma colocação um tanto diferente: “Há três coisas, graça, fé, salvação, e estas são todas dons de Deus. Mas aqui está o fato significante, caros amigos, aqui começa sua responsabilidade: deste maravilhoso trio – graça, fé, salvação – você já recebeu o dom da fé. Agora você está dizendo: ‘Se eu tenho fé, se Deus já me deu fé, por que eu não sou salvo?’ Porque você não a usou corretamente – isto é tudo.... Caros amigos, não criem dificuldades com as coisas onde não há dificuldades. A fé é um dom e você a tem.” (In Many Pulpits With C. I. Scofield, pp. 90-91)

Declarações de C. H. Spurgeon apontam na mesma direção: “Até onde possamos dizer, a fé foi escolhida como o canal da graça pois há uma adaptação natural na fé para ser usada como receptor. Suponha que eu estou prestes a dar a um pobre homem algumas esmolas: eu as coloco em suas mãos – por que?... A mão parece ter sido feita com o propósito de receber. Então, em nossa estrutura mental, a fé é criada com o propósito de ser um receptor: é a mão do homem, e há uma adaptação para receber a graça através dela... Tanto o perdão quanto o arrependimento fluem da mesma fonte, e são dados pelo mesmo Salvador.... Jesus tem prontos os dois, e Ele está preparado para concedê-los agora, e para concedê-los mais livremente sobre todos os que irão aceitá-los de Suas mãos.” (All of Grace, pp. 58, 99)

Muito propriamente, então, o Dr. H. C. Thiessen disse, “Pareceria estranho se Deus chamasse todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (At 17.30; 2Pe 3.9) e crerem (Mc 1.14-15) quando somente alguns podem receber o dom do arrependimento e da fé.” (Lectures in Systematic Theology, p. 349)

Devido a estas e outras declarações que parecem colocar uma medida de responsabilidade pela fé no homem, qual é o significado de Ef 2.8, que fala, “Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”?

Estudantes da Bíblia, os mais recentes e os mais velhos, atribuem o “isto não vem de vós” a todo o processo de ser salvo, não à fé.

Dessa forma, F. F. Bruce da Inglaterra, disse: “O fato que o pronome demonstrativo ‘isto’ é neutro no grego (tauto), enquanto ‘fé’ é um substantivo feminino (pistis), combina com outras considerações para sugerir que é o conceito todo de salvação pela graça por meio da fé que é descrito como o dom de Deus. Isto incidentalmente foi a interpretação de Calvino.” (The Epistle to the Ephesians, pp. 51-52)

Similarmente, A. T. Robertson disse: “A ‘graça’ é a parte de Deus, a ‘fé’ é a nossa. E isto (kai tauto), é neutro, não o feminino tautē. Portanto, não se refere a pistis (feminino) ou a charis (feminino), mas ao ato de ser salvo pela graça condicionado à fé de nossa parte. Paulo mostra que a salvação não tem sua fonte no homem, mas vem de Deus.” (Word Pictures in the New Testament, Vol. IV, p. 525)

M. R. Vincent sucintamente disse, “E isto. Não a fé, mas a salvação.” (Word Studies in the New Testament, Vol. III, p. 376)

W. E. Vine escreveu sobre o uso da palavra ‘dom’ aqui: “da salvação pela graça, como o dom de Deus, Ef 2.8.” (Expository Dictionary of New Testament Words, Vol. II, p. 146)

J. A. Smith, no American Baptist Commentary sobre “Efésios,” escreveu: “A palavra grega para ‘isto’ é neutro, de forma que a referência não pode ser à ‘fé,’ visto que nesse caso ela seria feminina. O que se quer dizer é o fato declarado na oração precedente.” (p. 38)

Outros estudantes da Palavra tomam uma posição semelhante. W. G. Blaikie, no Pulpit Commentary, sobre “Efésios,” disse: “Da parte de Deus, a salvação é pela graça; da parte do homem, é por meio da fé.... A estrutura gramatical e a analogia da passagem favorecem a primeira opinião, ‘Vossa salvação não vem de vós mesmos.’... O uso confirma a opinião que não é meramente a fé, mas toda a obra e pessoa de Cristo que a fé recebe, que se pretende dizer aqui como o ‘dom de Deus.’” (p. 63)

Assim também, Dean Alford disse: “‘Pela graça’ expressa a condição instrumental objetiva de vossa salvação – ‘por meio da fé’ a condição medial subjetiva: tem sido efetuada pela graça e apropriada pela fé; e isto (‘vossa salvação,’ o fato de que vós sois salvos, como Ellicott) não vem de vós mesmos... o dom, a saber, de sua salvação.” (Parênteses do autor. New Testament for English Readers, Vol. II, Part I, p. 376)

O mais popular expositor, Alexander Mclaren, fez essa colocação: “Marque as últimas palavras de meu texto – ‘isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Elas muitas vezes têm sido mal compreendidas, como se elas se referissem à fé que é mencionada logo antes. Mas esta é uma clara idéia equivocada do significado que o apóstolo quis dar, e entra em contradição com todo o contexto. Não é a fé que é o dom de Deus, mas a salvação pela graça. Isto é claro quando se lê o próximo verso.... O que é que ‘não vem das obras’? A fé? Certamente não.... As duas frases necessariamente se referem à mesma coisa, e se a última deve se referir à salvação pela graça, então deve também a primeira.” (Expositions of Holy Scripture, “Efésios,” pp. 104-105)

O Sr. Robert Anderson faz uma declaração ainda mais vigorosa: “‘O dom de Deus’ aqui é a salvação pela graça por meio da fé. Não a própria fé. ‘Isto não é possível,’ como Alford observa, ‘pelas frases manifestamente paralelas “não vem de vós mesmos,” e “não vem das obras,” a última da qual seria irrelevante se for relativo à fé.’ É ainda mais definitivamente improvável, ele poderia ter acrescentado, pela natureza da passagem. Nos é concedido crer em Cristo, no mesmo sentido em que é concedido a alguns ‘também padecer por ele’ (Fp 1.29). Mas a declaração de Efésios é doutrinária, e nesse sentido a afirmação de que a fé é um dom, ou de fato que ela é uma realidade distinta em todos, é um equívoco claro. A questão é algumas vezes representada como se Deus desse fé ao pecador primeiro, e então, sobre o pecador levar a Ele a fé, continuasse e desse a ele a salvação! Assim como se um dono de padaria, recusando a fornecer a alguns requerentes de mãos vazias, primeiro distribuísse a cada um o preço de um pão, e então, em troca do dinheiro de sua própria gaveta, servisse o pão! Para responder completamente tal excentricidade como esta seria reescrever o capítulo seguinte. Basta, por essa razão, apontar que ler o texto como se a fé fosse o dom, é destruir não somente o significado do verso 9, mas a força de toda a passagem.” (The Gospel and Its Ministry, décima terceira edição revisada, p. 54, nota de rodapé)

A questão toda pode finalmente ser acentuada nas palavras de ninguém menos do que Washington Gladden, que disse, “O que diz o texto? ‘Pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós: é dom de Deus.’ Mas um novato em grego sabe que o pronome traduzido ‘isto’ não pode se referir à fé, e deve se referir à salvação pela graça. Leia o próximo verso. ‘Não vem das obras, para que ninguém se glorie.’ O que não vem das obras, a fé, ou a salvação? Dizer que a fé não vem das obras é tolice; argumentar que a salvação não vem das obras é fazer exatamente o que Paulo está fazendo. A graça de Deus, o perdão e compaixão e ajuda de Deus, é o dom gratuito de Deus; não é nada que temos conquistado ou merecido; é uma dádiva.... O ato de aceitar a salvação é certamente um ato do homem, e este ato é a fé. O livre ato de Deus na doação da salvação é a graça; o livre ato do homem na aceitação é a fé.” (A Homiletic Encyclopedia, R. A. Bertram, editor, p. 342)